Republicanismo
O republicanismo é a ideologia segundo a qual uma nação é governada como uma república, na qual o chefe de Estado é escolhido através do voto ou do congresso para assumir a função por um determinado tempo, diferente da monarquia, na qual o indivíduo fica até o fim da vida ou sua abdicação.
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O termo "república" remonta à antiguidade greco-romana, e a moderna ideologia republicana tomou formas ligeiramente diferentes, dependendo se ela foi desenvolvida nos Estados Unidos, França ou Irlanda. Na versão ocidental, desenvolvida especialmente a partir dos escritos de Rousseau, defendeu o princípio da soberania popular e da participação popular. No entanto, no meio do século XX, inclui uma perspectiva individualista, isto é, assume-se que os indivíduos procuram a sua felicidade em si mesmo ao invés de uma participação política.
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Republicanismo, Humanismo Cívico e Maquiavel
O republicanismo moderno tem raízes profundas no humanismo cívico do Renascimento italiano. A partir do século XIV, eruditos como Francesco Petrarca promoveram a redescoberta de textos clássicos, especialmente de autores como Cícero, Quintiliano e Tito Lívio, nos quais encontraram modelos morais e políticos voltados para a vida pública. Essas ideias influenciaram diretamente o debate político nas cidades-Estado italianas, como Florença, Veneza e Gênova, onde o autogoverno e a participação cívica eram questões centrais. O principal eixo dos debates renascentistas opunha autocracia e republicanismo, definidos respectivamente como o governo de um (monarca, príncipe ou senhor) e o governo de muitos (cidadãos ou magistrados). A decisão política, portanto, deveria ser concentrada ou compartilhada? Essa questão tornou-se central na teoria política da época. No interior desse contexto, Nicolau Maquiavel emergiu como um dos principais teóricos do republicanismo moderno. Em Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, Maquiavel argumentou que as disputas e divergências políticas eram elementos positivos da vida republicana. Para ele, a liberdade não era fruto da harmonia artificial entre grupos, mas do conflito institucionalizado entre diferentes interesses, sobretudo entre “os grandes” e “o povo”. Uma república livre seria aquela capaz de construir instituições sólidas que canalizassem essas tensões, promovendo leis equilibradas e evitando abusos. Essa visão contrasta com o republicanismo clássico, que frequentemente tratava o conflito como sinal de degeneração política.
Experiência Inglesa
A experiência inglesa dos séculos XVII e XVIII representou outro marco decisivo na formação do republicanismo moderno. O contexto das guerras civis (1642–1651), do regicídio de Carlos I (1649) e República de Cromwell alimentou intensos debates sobre o significado de liberdade, tirania e representação política. Influenciados pelas interpretações renascentistas de Maquiavel e pelos valores do humanismo cívico, pensadores como James Harrington, John Milton e, mais tarde, John Locke exploraram a ideia de que os indivíduos eram verdadeiramente livres apenas quando podiam agir segundo decisões tomadas por si mesmos – e não quando estavam submetidos à vontade arbitrária de um governante. Assim, a liberdade era concebida como não-dominação, conceito próximo ao defendido pelo republicanismo romano.
Caso Norte-Americano
O desenvolvimento do republicanismo nos Estados Unidos ocorreu no contexto intelectual marcado pelos ideais burgueses e racionalistas que acompanharam a formação da primeira república moderna. Durante muito tempo, diversos intérpretes norte-americanos associaram a própria noção de modernidade ao liberalismo, entendendo que pensadores como Montesquieu e Kant só poderiam ser considerados modernos por serem liberais. A partir dessa leitura, tornou-se comum localizar as raízes da Revolução Americana quase exclusivamente no pensamento de John Locke, cujas formulações sobre governo limitado, propriedade e consentimento passaram a ser vistas como o núcleo filosófico da independência.
Republicanismo e a Revolução Francesa
A consolidação do republicanismo francês no final do século XVIII é frequentemente vista pelos estudiosos como um momento decisivo na história do pensamento político ocidental. Trata-se de uma etapa em que diversas correntes intelectuais, debates sociais e transformações institucionais convergiram para redefinir os fundamentos da vida pública. Como observa a historiografia recente, esse período não apenas aprofundou o vocabulário republicano europeu, mas também inaugurou novos modos de compreender a cidadania, a liberdade e o papel do Estado. Segundo análises como a de Newton Bignotto, a experiência republicana na França levaria ainda décadas para adquirir estabilidade institucional, alcançando uma forma duradoura somente com a instalação da Terceira República na década de 1870. Contudo, os alicerces conceituais dessa tradição foram estabelecidos ao longo das décadas finais do Setecentos, quando novas concepções de indivíduo, história e política começaram a se consolidar. Nilo Odalia destaca que o século XVIII foi crucial para o surgimento da ideia do homem comum como sujeito de direitos civis, ao mesmo tempo em que emergia uma percepção inédita da própria posição humana na história. É nesse contexto que a noção de felicidade coletiva ganha forma, entendida não como satisfação individual, mas como objetivo a ser alcançado pela comunidade política.
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Desde fins dos anos 1980 e começos dos 1990 tem ressurgido uma corrente teórica republicana, ou neorrepublicana, especialmente nos países anglo-saxões. Os principais autores desse ressurgimento são, do ponto de vista da Teoria Política (ou da Filosofia Política), o irlandês Phillip Pettit, autor de Republicanism e, do ponto de vista da História, o inglês Quentin Skinner, autor de Liberty before Liberalism. A teoria neorrepublicana de Pettit baseia-se na ideia de liberdade como "não-dominação" ou, de maneira mais direta, como "não-arbitrariedade". Para definir essa categoria, Pettit recupera as "duas liberdades" definidas por Isaiah Berlin (retomando uma ideia do francês Benjamin Constant), a liberdade negativa e a positiva. A liberdade positiva consiste na participação direta dos cidadãos na vida política, com eles decidindo pessoal e constantemente os assuntos públicos; é o modelo característica e propriamente democrático, da Atenas idealizada por J.-J. Rousseau, em que todos participam do público e não há exatamente vida privada. Todos os cidadãos são livres porque submetem-se às leis que eles mesmos fizeram.


