Pesquisa · Mapa mental

Quilombo do Ambrósio

O Quilombo do Ambrósio foi a capital da confederação Quilombo do Campo Grande, composta por 27 quilombos localizados em pontos do território das atuais regiões Centro, Centro-Sul, Centro-Oeste, Alto Paranaíba e Triângulo Mineiro. Liderada pelo Rei Ambrósio, um negro brasileiro nascido de ventre livre, essa confederação resistiu, entre 1726 e 1760, a diversas investidas de tropas mercenárias enviadas pelo então governador da Capitania, Gomes Freire de Andrade.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 16/07/2026
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O mapa do Campo Grande, feito pelo Capitão França

Imagem: EPorto (WMB) · BY-SA · Openverse

O pesquisador Tarcísio José Martins, por indicação de Hélio Gravatá, do Arquivo Público Mineiro, localizou e fotografou os originais do Mapa de Todo Campo Grande, Tanto da Parte da Conquista, que Parte com a Campanha do Rio Verde, e São Paulo, como de Piumhi, Cabeceiras do Rio São Francisco e Goiases, pertencente à Coleção da Família Almeida Prado, do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. Desde então, Martins dedica-se ao estudo sistemático desse documento, processo iniciado há mais de trinta anos. Segundo o pesquisador, historiadores anteriores teriam analisado o mapa invertido, com o norte voltado para baixo, circunstância que não teria sido percebida até então. A partir dessa constatação, Martins concluiu que o mapa foi elaborado a partir da sobreposição de diversos outros, representando os roteiros das expedições militares contra os quilombos do Campo Grande entre 1743 e 1760. Essas expedições teriam sido coordenadas pelo português Antônio Francisco França, responsável pelos comboios de mulas que abasteciam as tropas nas batalhas de 1758 e 1759, incluindo o ataque final ao Quilombo do Cascalho, em 1760.

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Histórico

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Primeira povoação do Ambrósio – Atacada em 1746

De acordo com o pesquisador Tarcísio José Martins, a Primeira Povoação do Ambrósio foi atacada, mas não destruída, em 1746, por ordem do então governador Gomes Freire de Andrade, em expedição comandada pelo capitão Antônio João de Oliveira. Segundo essa interpretação, o núcleo localizava-se ao norte do atual território do município de Cristais. Martins afirma ter chegado a essa conclusão a partir da comparação entre o Mapa do Campo Grande, sucessivas cartas topográficas da região e diversos documentos administrativos e militares do período colonial. Entre os indícios apresentados, destaca-se a identificação, por meio de cartografia histórica e imagens de satélite, do local denominado Sítio dos Curtumes, onde teriam se acantonado as tropas de Oliveira. Segundo o autor, esse ponto é mencionado em carta de Gomes Freire ao rei, datada de 8 de agosto de 1746, na qual se afirma ser necessário que a tropa marchasse “mais de cinquenta léguas até fim de setembro”. Para Martins, a distância entre esse sítio e a área onde posteriormente se localizou o quilombo de Ibiá ultrapassaria setenta e cinco léguas apenas no percurso de ida, o que tornaria essa hipótese improvável.

Segundo Quilombo do Ambrósio – Atacado em 1759

Ao contrário do que ocorre com a Primeira Povoação do Ambrósio, atacada em 1746 na região do atual município de Cristais, não há, segundo Tarcísio José Martins, documentação primária[nota 5] que comprove que o Quilombo Grande, localizado na atual Ibiá e atacado apenas em 1759, fosse efetivamente denominado Quilombo do Ambrósio. De acordo com o autor, essa identificação baseia-se sobretudo em fontes cartográficas e em documentação secundária. Entre essas fontes, Martins destaca: (1) um mapa-roteiro[nota 6] e um croqui anexados por Inácio Correia Pamplona ao relatório enviado ao então governador Conde de Valadares, referente à sua suposta entrada em 1769; (2) o Mapa do Campo Grande, elaborado pelo capitão Antônio Francisco França, responsável pelo trem bélico na campanha de 1759 e participante da guerra de 1760 contra o Quilombo do Cascalho; e (3) o Livro de Registro de Terras de Araxá, Notação TP-1-011 (1855–1857), pertencente ao Arquivo Público Mineiro, o qual, segundo o pesquisador, constitui fonte probatória inédita nesse debate.

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A violência no caminho de Goiás e o Quilombo do Ambrósio

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Segundo Tarcísio José Martins, teriam circulado ao longo do tempo diversas narrativas imprecisas ou falsas sobre os quilombos do Campo Grande e, em particular, sobre o Quilombo do Ambrósio, muitas das quais teriam sido propagadas por agentes vinculados à administração colonial e, posteriormente, reproduzidas por parte da historiografia. De acordo com o autor, um dos principais eixos dessas narrativas diz respeito à chamada “Picada de Goiás”, rota reaberta oficialmente em 1736–1737, que atravessava a região do Campo Grande. Nesse contexto, os quilombos passaram a ser descritos como os principais responsáveis pela violência atribuída à circulação de pessoas e mercadorias nessa estrada. Essa representação aparece, por exemplo, na obra História de Oliveira, de Luiz Gonzaga da Fonseca, publicada em edição comemorativa em 1961. Nela, o autor descreve o que considera o caos provocado pelos quilombolas na região do Caminho de Goiás, atribuindo-lhes assaltos, mortes e ataques a comboios. Segundo Martins, entretanto, essa narrativa não apresenta referências a fontes primárias e teria sido fortemente influenciada pela chamada “Carta da Câmara de Tamanduá à Rainha”, datada de 1793, documento que ele classifica como ideologicamente falso.

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Os dois Quilombos do Ambrósio

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Segundo Tarcísio José Martins, haveria atualmente muito mais documentação referente à localização da chamada Primeira Povoação do Ambrósio e de suas “relíquias”, situadas nas regiões dos atuais municípios de Cristais, Formiga e Aguanil, do que sobre o denominado Segundo Quilombo do Ambrósio, localizado entre Ibiá e Campos Altos. O autor sustenta que, ao longo do tempo, agentes do poder colonial e, posteriormente, parte da historiografia teriam contribuído para deslocar a memória da Primeira Povoação para o interior do atual Triângulo Mineiro, difundindo a narrativa, que ele considera equivocada, de que o líder Ambrósio teria sido morto durante o ataque de 1746. Para Martins, esse deslocamento simbólico teria como efeito o apagamento da localização original do quilombo e de sua importância histórica. Martins observa que o então governador das Minas, conde de Bobadela, não incluiu o ataque de 1746 à Primeira Povoação do Ambrósio entre os feitos que costumava registrar em suas correspondências oficiais. Da mesma forma, autores ligados ao seu círculo, como Cláudio Manuel da Costa e Basílio da Gama, não teriam atribuído a ele esse episódio. Em contraste, as Cartas Chilenas, escritas no final do século XVIII, referem-se ao “afamado Quilombo em que viveu o Pai Ambrósio”, sugerindo uma reputação que não corresponderia à imagem construída posteriormente por fontes administrativas.

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Patrimonialização, memória e disputas contemporâneas

A partir do final do século XX, o Quilombo do Ambrósio passou a ocupar lugar de destaque em iniciativas de valorização da memória afro-brasileira em Minas Gerais. Esse processo está inserido em um movimento mais amplo de reconhecimento dos quilombos como patrimônio histórico e cultural, impulsionado por políticas públicas, pesquisas acadêmicas e reivindicações de movimentos sociais. No entanto, a patrimonialização do sítio do Ambrósio tem sido marcada por controvérsias. Parte dessas disputas decorre das divergências historiográficas sobre sua localização, extensão territorial e organização social. Em alguns casos, interpretações específicas foram adotadas por órgãos de preservação e por projetos museográficos, sem que houvesse consenso entre os pesquisadores. A historiografia recente tem enfatizado que processos de tombamento, criação de memoriais e roteiros turísticos não são neutros, mas envolvem escolhas narrativas, seleções de fontes e enquadramentos simbólicos. Esses mecanismos tendem a privilegiar determinadas versões do passado, em detrimento de outras, o que pode gerar tensões entre historiadores, comunidades locais e instituições culturais.

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