Papa Inocêncio III
Inocêncio III (em latim: Innocentius III), nascido Lottario dei Conti di Segni; foi o 176.º Papa da Igreja Católica de 8 de janeiro de 1198 até a data de sua morte. Lottario nasceu na família nobre dos Condes de Segni, feudo localizado nos Estados Papais, e estudou nas mais importantes universidades de sua época; Teologia na Universidade de Paris e Direito na Universidade de Bolonha. Aos 21 anos tornou-se um clérigo importante em Roma, e escreveu dois livros notáveis: De Miseria Condicionis Humane “(Sobre a miséria da condição humana)” e De missarum mysteriis “(Sobre o mistério da missa)”. Sendo considerado jovem, forte, erudito, inteligente e hábil foi eleito Papa em 1198, com apenas 37 ou 38 anos de idade. É notoriamente reconhecido como o Papa mais poderoso da história.
O nome de batismo do pontífice era Lotário, pertencendo à família nobre italiana cujo chefe gozava do título de conde da cidade de Segni (por isso chamada de "família Conti", isto é, "família dos Condes" em italiano, ou ainda, "família Segni", fazendo referência a sua origem geográfica). A família Conti foi fundada provavelmente pelo pai de Lotário, Trasimundo, que casou-se com uma importante nobre romana, Claricia Scotti. A filiação de sua mãe tornava Lotário sobrinho do Papa Clemente III (1187-1191). Porém, a carreira eclesiástica de Lotário foi construída por seus próprios esforços, e não por nepotismo. Lotário nasceu no Castelo nobre de Gavignano, perto de Anagni, em 1160 ou 1161. Lotário recebeu sua educação inicial em Roma, e posteriormente estudou nas duas mais importantes universidades do renascimento de sua época: teologia, na Universidade de Paris, curso então ministrado por teólogos famosos como Pedro de Corbeil e Stephen Langton. Quando se tornou papa, Inocêncio nomeou seus antigos professores para vários cargos eclesiásticos importantes. Posteriormente, Lotário estudou Direito Canônico na Universidade de Bolonha, curso presidido por Huguccio de Pisa, também notável professor e jurista na época, ao qual Lotário também manteve-se próximo como papa, submetendo alguns de seus decretos pontifícios para correções e sugestões de Huguccio. Apesar de sua formação teológica, Inocêncio se destacou, sobretudo, como um grande jurista. Quando tornou-se adulto, Inocêncio era fisicamente pequeno e possuía uma saúde delicada, frequentemente ficando doente, porém, sua limitação física era compensada por uma personalidade forte e um espírito sagaz.
Inocêncio também interferiu política e religiosamente em todos os outros países da Europa, de forma muito mais frequente e eficaz que seus antecessores ou sucessores. O papa era suserano e senhor feudal da Inglaterra, Portugal, Aragão, Dinamarca, Polônia, Boêmia, Hungria, Dalmácia e de vários outros pequenos territórios. Dessa forma, surgiu efetivamente uma importante "feudalidade papal" construída sobre a forte autoridade moral de Inocêncio. Inocêncio também interveio ativamente na hierarquia da Igreja da Noruega, Suécia, Dinamarca e Islândia, especialmente defendendo que os bispos deviam ser eleitos de forma livre, sem intervenção dos senhores. Na Polônia, reformou o clero, apoiando o arcebispo Henrique de Gniezno, e exigindo o tributo anual do Reino ao papado, ordenou que os nobres não atrapalhassem a coleta do dízimo, assim como repreendeu o Rei Ladislau III por ter perseguido o bispo Henrique, e tomou o ducado da Cracóvia como seu vassalo.
Relações com a Itália
O reinado de Inocêncio e suas ações estão profundamente enraizadas no contexto e nas características próprias da política e da Igreja Católica da Idade Média, sendo incompreensíveis para a mentalidade contemporânea, profundamente diferente daquele período. Foram essenciais para as ações do papa a situação da península Itálica, especialmente a relação dos Estados Papais com o Sacro Império Romano-Germânico. Na época de Inocêncio, a península estava dividida em três partes: o Norte/Leste, controlado pelo Sacro Império (e composto de um conjunto de cidades/comunas poderosas, todas subordinadas ao Sacro Imperador), o Centro, controlado pelo papado – os Estados Pontifícios, e o Sul, controlado pelos normandos – o Reino da Sicília.
Relações com o Sacro Império Romano-Germânico
Tendo estabelecido uma base de poder na península Itálica, Inocêncio pôde interferir também no conflito existente no Sacro Império. Entre os dois candidatos ao trono, Otão comunicou sua eleição ao papa como um partidário da Igreja e aliado do papa. Já Filipe, da dinastia Hohenstaufen, adotou claramente as políticas de sua família, e se considerou independente da Igreja. Inocêncio, inicialmente, manteve-se neutro no conflito, expondo sua opinião na bula Deliberatio Domini Papae Inocentii de 1200. Porém, em 1 de março de 1201, manifestou-se abertamente a favor de Otão IV, reconhecendo-o como rei e oferecendo a unção e coroação pontifícia que o tornaria sacro imperador. Filipe da Suábia protestou energicamente contra o papa em uma carta de 1201, e a resposta do pontífice se deu em março de 1202, por meio do famoso decreto Venerabilem.
Relações com a Inglaterra
Inocêncio teve um papel fundamental na política do Reino da Inglaterra, que se tornou um feudo do próprio papa. Depois da morte do rei Ricardo I em 1199, seu irmão, João tornou-se o monarca. João, seguindo o costume no trato com a hierarquia da Igreja estabelecida pelos seus antecessores, controlava a Igreja, usando e distribuindo livremente os cargos de bispos, abades e demais benefícios eclesiásticos. Assim, em 1205, na eleição do arcebispo da arquidiocese de Cantuária, ocorre uma dupla eleição. Os monges da Christ-Church consideravam que era seu direito eleger um monge de seu monastério como arcebispo, enquanto o rei João decidiu nomear o bispo de Norwich, João de Gray para essa dignidade. A causa foi levada até o Papa Inocêncio, que então anulou a dupla eleição, e designou como arcebispo de Cantuária um candidato próprio: Stephen Langton, conhecido na época por sua erudição e santidade. João não aceitou a decisão do papa e decidiu romper as relações com a Igreja Romana e o papado, dizendo que "a Inglaterra já possui muitos arcebispos, bispos e prelados instruídos para poder recusar os que Roma nos impõe".
Relações com a França
Na França, Inocêncio interveio principalmente em questões matrimoniais envolvendo seu Rei, Filipe II ou Filipe Augusto. Com a morte de sua primeira esposa, Isabel de Hainaut, Filipe casou-se por razões políticas com a princesa Ingeborg da Dinamarca em 1193, esperando que o irmão de Ingeborg, Canuto VI, ajudasse numa possível guerra contra a Inglaterra. Já em 1193 Filipe anunciou que desejava divorciar-se de Ingeborg, o que foi aprovado por alguns bispos franceses no mesmo ano, e Ingeborg foi trancada contra a sua vontade em um mosteiro para ficar longe do Rei e da Corte francesa. O papa da época, Celestino III, considerou o divórcio inválido, mas apenas pode protestar contra a sentença, sem tomar nenhuma atitude concreta. Assim, desconsiderando a decisão do papa Celestino, em 1196 Filipe casou-se com Inês de Merânia, filha de um rico e poderoso senhor alemão.
Relações com os Reinos ibéricos
A Península Ibérica cristã estava dividida nessa época entre cinco estados: Portugal, Leão, Castela, Aragão e Navarra, localizados no norte da Península. Na época de Inocêncio, os monarcas ibéricos se uniam por alianças matrimoniais, porém, essas alianças frequentemente eram condenáveis para a lei canônica vigente da Igreja, que proibia casamento entre parentes, e assim, os abusos matrimoniais existentes foram duramente punidos por Inocêncio, que interveio nos reinos de Aragão e Leão. Em Aragão, o rei Pedro II (1196-1213) tentou casar-se com sua parente, Branca de Navarra, porém desistiu do matrimônio devido justamente à oposição de Inocêncio. Assim, em 1204, casou-se com Maria de Montpellier, não por amor, mas para incorporar ao seu reino os domínios da esposa. O mesmo Pedro II, ainda em 1204, desejando ser coroado pelo papa, partiu para Roma, onde foi ungido no monastério de São Pancrácio por Pietro Gallozia, cardeal-bispo do Porto, e coroado em seguida pelo Papa. Nesse momento, Pedro jurou fidelidade a Igreja. Depois, dirigiu-se a Basílica de São Pedro, onde depositou no altar o cetro e a coroa, e foi armado cavaleiro, recebendo a espada, de Inocêncio. Ali, Pedro entregou o Reino de Aragão a Inocêncio e seus sucessores, declarando-se vassalo do papa e comprometendo-se a pagar uma renda de 250 masmodines (moeda espanhola). Inocêncio concedeu a Pedro e seus sucessores o privilégio de ser coroado em Saragoça pelo arcebispo de Tarragona, alterando o costume existente, pelo qual o rei de Aragão recebia a coroa sem uma cerimônia especial no momento que era armado cavaleiro aos vinte anos. Pedro II, posteriormente, trouxe a Inocêncio a tentativa de se divorciar de sua esposa, Maria de Montpellier, alegando que ela havia contraído antes outro matrimônio com o conde de Cominges, que ainda estava vivo. O papa, porém, considerou o primeiro matrimônio de Maria como nulo e sem validade, e confirmou a autenticidade do matrimônio de Pedro, impedindo a separação, apesar da proximidade do relacionamento dos dois.
Relações com os judeus
A relação de Inocêncio com os judeus também é considerada controversa e objeto de diferentes interpretações dos historiadores. Enquanto alguns sustentam que os documentos de Inocêncio que proibiam violência e conversões forçadas de judeus são um marco na tolerância religiosa da história da Europa, outros, apontam que as leis publicadas por Inocêncio no IV Concílio de Latrão, obrigando-os a usar roupas especiais para serem identificados, por exemplo, são a “raiz do antissemitismo cristão". Em 1199, Inocêncio publica a bula "Licet perfidia iudaeorum", pela qual proíbe que cristãos forcem judeus a se converterem, e condena a prática de violência contra judeus. Esse documento, é considerado a "Magna Carta da tolerância para com os judeus", e foi sucessivamente confirmado pelos próximos papas.
Quarta Cruzada
A cidade de Jerusalém pertencia desde 63 a.C. ao Império Romano, e, depois ao Império Romano do Oriente, ou Império Bizantino, um estado cristão. Para a Igreja, Jerusalém era uma cidade especial por ser onde Cristo foi crucificado e ressuscitou, por isso mesmo, juntamente com outras cidades como Belém e Nazaré, onde Jesus viveu, é chamada de "terra santa" ou "lugares santos". Porém, em 637 o Islã invadiu e dominou a cidade. Embora originalmente permitissem a peregrinação cristã a Terra Santa, desde 1076 os muçulmanos perseguiram e dificultaram as peregrinações, tornando-as quase impossíveis. Assim, o papado e a Europa reagiram convocando as nove cruzadas para recuperar o Oriente Médio. A Primeira Cruzada reconquistou Jerusalém em 1099, que passou a fazer parte do Reino de Jerusalém. Porém, Saladino (c. 1138-1193), sultão do Egito, tomou novamente Jerusalém em 1187, que, portanto, estava novamente sob poder do Islã no reinado de Inocêncio.
Cruzada Albigense
O catarismo foi considerado pela Igreja Católica a heresia mais perigosa, poderosa e sectária da Idade Média. Suas doutrinas possivelmente vieram do Oriente (como a Bulgária), e consistiam em um sincretismo de várias crenças, como o dualismo típico da gnose, que considerava o mundo dividido em dois princípios, o bem, exclusivamente espiritual, e o mal, que consistia na matéria, e a cada princípio correspondia um deus próprio. Assim havia um deus do bem, e outro deus do mal. Os cátaros se dividiam em duas castas, os "Puros" ou "Perfeitos", praticavam a totalidade da doutrina cátara, incluindo a proibição do casamento e a "endura", um suicídio ritual para libertar o fiel do corpo, e os leigos, que tinham uma vida comum e sustentavam os "Perfeitos". Os cátaros assim, condenavam a Encarnação de Jesus, os sacramentos, o casamento, a bondade da matéria, o monoteísmo e o juramento entre os homens, que compunha o elo essencial da sociedade medieval.
Outras cruzadas e expedições militares
Ao longo do seu reinado Inocêncio organizou sete cruzadas, as mais notáveis foram a Quarta e a Quinta Cruzada, consideradas como partes das nove grandes cruzadas contra o Islã. Além da cruzada albigense, a cruzada contra os árabes na Espanha e a cruzada contra o Rei João Sem-Terra da Inglaterra, que, porém, não foi concretizada. Inocêncio também convocou a mais importante campanha das Cruzadas do Norte contra as últimas nações pagãs no Mar Báltico: é a cruzada evangelizadora da Livônia (atualmente a Letônia e Estônia), que era a penúltima região pagã da Europa. Para esse fim, Inocêncio criou uma ordem militar específica, a “Ordem Livônia dos Irmãos da Espada”, fundada em 1202. Posteriormente, a Ordem atacou e apoderou-se da Lituânia, última nação pagã ainda existente. Assim, Inocêncio teve participação essencial no ciclo de conversão e cristianização definitivo do continente europeu.
Inocêncio convocou um novo Concílio em 19 de abril de 1213 pela bula Vineam domini Sabaoth, para ser celebrado, em novembro de 1215, na Basílica de São João de Latrão, em Roma. Ele enviou a bula de convocação não só aos bispos e prelados, de forma geral (que compõem os “padres” ou “pais” conciliares, com direito de voto e fala), mas, também, aos cabidos de todas as catedrais, que deviam enviar algum representante ao concílio, bem como aos superiores das ordens militares e monásticas, aos patriarcas orientais e aos monarcas cristãos. Compareceram, ao Concílio, 404 bispos (embora convidados, os patriarcas orientais não participaram), 71 primazes e metropolitas, e 800 abades e priores, e todos os outros reinos cristãos enviaram representantes. Com esses participantes, o Concílio teve três sessões, em 11, 20 e 30 de novembro. Inocêncio inaugurou o Concílio dia 11 com dois sermões de abertura, onde disse que o Concílio devia convocar uma nova cruzada e reformar a Igreja. No fim do sínodo, o papado e os próprios bispos emitiram 70 Cânones novos, bem como convocaram a Quinta cruzada, que partiria em 1217 da Sicília.
Já em 1215, Inocêncio teve um ataque de malária, mas conseguiu se recuperar da doença. No mesmo ano estava esgotado física e mentalmente, o que expressa escrevendo em uma carta pessoal: “não disponho de lazer para meditar as coisas supramundanas. Mal posso respirar. Devo viver tanto para os outros que quase chego a esquecer de mim mesmo”. Porém, após o IV Concílio de Latrão, na primavera de 1216, Inocêncio mudou-se para o norte da Itália, em uma tentativa de conciliar as cidades marinheiras de Pisa e Gênova, para motivá-los a unir-se para a Quinta Cruzada. Nesse momento Inocêncio adoeceu novamente de malária, e morreu em 16 de julho de 1216, com cinquenta e cinco ou cinquenta e seis anos. Na noite seguinte, invadiram a casa em que Inocêncio estava hospedado e roubaram seu corpo, e, somente no dia 18 de julho encontraram seu cadáver novamente, despido e em decomposição, quando então foi rapidamente sepultado na Igreja de São Lourenço, de Perugia (não se trata da catedral da cidade, mas de outra igreja dedicado ao mesmo santo, hoje inexistente). Em 1891, o Papa Leão XIII, admirador de Inocêncio, ordenou que seu corpo fosse transferido para a Basílica de São João de Latrão, em Roma, onde reside atualmente.
Inocêncio considerava o papado uma força moralizadora e reformadora da Igreja, e a si mesmo um exemplo a ser seguido pelos fiéis. Assim, desde que se tornou pontífice, adotou algumas das ideias propagadas pelas reformas religiosas de sua época. Em primeiro lugar, desde sua eleição, praticou pessoalmente, de forma moderada, a “vida apostólica”, como era chamada na época uma vida mais simples baseada na pobreza dos apóstolos de Jesus Cristo. De fato, a pesquisa histórica recente tem ressaltado como Inocêncio era um homem profundamente religioso, que praticava um verdadeiro asceticismo e uma devoção interiorizada. Assim, renunciou ao uso de vestuários luxuosos e passou a usar apenas uma túnica de lã branca sem adornos, bem como substituiu a louça e os talheres de metal por outros de vidro e madeira, mais simples. Ele também fazia homilias ao clero e ao povo, semanalmente, durante a missa, aumentou os serviços de caridade da Cúria, e aos sábados lavava os pés de doze mendigos, bem como distribuía moedas aos pobres presentes. Inocêncio tornou-se especialmente notável pelo financiamento ao Hospital junto à Igreja de Santa Maria de Sassia, o “Hospital do Espírito Santo”, em Roma. Também promovia audiências públicas diárias nas quais qualquer fiel, desde que agendasse previamente, podia ter acesso a ele.
Inocêncio era um teólogo que deu contribuições importantes para várias áreas da doutrina católica, porém, sua marca decisiva foi no campo da teologia política. Para Inocêncio, o papa goza da "plenitude de poderes" (plenitudo potestatis) para o governo da Igreja, pois ele é o Vigário de Cristo, expressão que, embora já existisse, foi Inocêncio que colocou em uso corriqueiro. Assim, para Inocêncio, o papa exerce poder espiritual direto sobre patriarcas, arcebispos, bispos, clérigos e sob todos os cristãos, até mesmo reis e imperadores, pois, como papa, está acima de todos os homens, e abaixo só de Deus. O exercício desse poder, para Inocêncio, tinha por finalidade última a salvação das almas da condenação ao inferno, portanto, era parte essencial da missão da Igreja. Para Inocêncio, o papa também possui poder político direto e indireto. Esse poder é direto nos Estados Papais e demais reinos que lhe renderam vassalagem, e também indireto, fundado em seu poder espiritual, se estendendo a todos os governos terrestres, permitindo-lhe interferir em matéria política. Esse poder indireto em assuntos sociais, porém, só é exercido in ratione peccati - “em razão do pecado”, quando o papa pode impor decretos políticos, especialmente, o mais grave de todos, que é depor um senhor (rei, príncipe, imperador etc.) de seu reino e conceder a liderança a um novo senhor. Dessa maneira, o pontificado de Inocêncio, serviu politicamente como a “última instância ética” da Europa, assim como a ONU na atualidade.
Inocêncio é frequentemente considerado o mais importante papa medieval, e o papa mais poderoso da Igreja de todos os tempos. Como tal, ele deixou um amplo legado para a Igreja Católica, para a Europa, para o direito, e, para a posteridade de forma geral. O teólogo suíço Hans Küng disse que "no tempo de Inocêncio III, Roma é o centro incontestado da política europeia, tanto ao nível do poder quanto dos negócios públicos. Inocêncio é realmente o senhor do mundo, não no sentido de dominação absoluta, mas como árbitro e suserano supremo". O historiador alemão especialista na história de Roma, Ferdinand Gregorivius, defendeu que Inocêncio foi um papa tão grande quanto o próprio imperador Otávio Augusto, fundador do Império Romano, e, por isso chamou Inocêncio de um "Augusto do Pontificado". Nesse sentido, Inocêncio foi eleito em 1999 pela revista Life, como um dos cem homens e mulheres que moldaram o segundo milênio, ficando em 78º no ranking.
Vestuário e arte
No dia a dia, Inocêncio renunciou ao uso de vestuários luxuosos e passou a usar apenas uma túnica de lã branca sem adornos, porém, em ocasiões especiais, tal como sua posse como papa ou a presidência do IV Concílio de Latrão, as vestes não litúrgicas de Inocêncio, tal como a dos papas nos séculos XI-XIII, consistiam em uma túnica branca, a "alva romana" (alba romana), um longo manto vermelho, chamado de immantatio (ou ainda capa rubea ou clamys), o pálio, o fano (desde o século XII) e uma forma primitiva de tiara papal, que consistia num capacete de tecido branco, com ínfulas negras e um círculo revestido de joias na parte inferior, ao qual poderia ser apenas um ornamento ou uma coroa, não estando claro para a pesquisa histórica.
Brasão
Inocêncio teve importância fundamental na construção e no desenvolvimento de uma simbologia própria para o papado. Desde o século XII, famílias de grande importância, especialmente da nobreza, passaram a adotar brasões como símbolos de seu poder e origem. Levando em consideração essa simbologia, ao se tornar pontífice, Inocêncio passou a usar o brasão da família Conti como símbolo pessoal de seu reinado, isto é, um escudo de goles com uma águia de asas abaixadas, xadrezada de sable e jalde. A partir daí, todos os papas adotaram um brasão próprio. Inocêncio, assim, fundou, na Igreja, o uso de um dos símbolos mais duradouros associados ao papado até a atualidade. Porém, originalmente, o brasão de Inocêncio consistia apenas no escudo, sem os elementos heráldicos exteriores, isto é, as chaves e a tiara papal, que foram incluídas nos brasões dos papas apenas no final do século XIII, e atribuídas ao próprio brasão de Inocêncio.
Uma vez que Inocêncio é considerado uma personalidade histórica extremamente relevante, sua vida e suas obras foram vastamente estudadas por diferentes historiadores de escolas historiográficas diferentes, cujas ideias sobre o papel do papa são muitas vezes contraditórias. A visão historiográfica dominante sobre Inocêncio é de que ele foi um “super-homem”, um herói ou vilão, essencialmente, um grande “homem político”. Essa descrição, por sua vez, possui opostos: ou a exaltação de suas virtudes, um “culto à personalidade” de Inocêncio, ou sua caracterização como um grande vilão. O primeiro caso, isto é, o culto a sua personalidade, foi disseminado principalmente pela historiografia eclesiástica, católica conservadora, e positivista, por exemplo, Friedrich Emanuel von Hurter (1787-1865) e Ferdinand Gregorovius (1821-1891). Para esses historiadores, Inocêncio foi um papa exclusivamente religioso, e seu reinado é um antecessor do Estado moderno, impondo ordem dentro de uma sociedade desorganizada.


