Moçárabes
Os moçárabes eram cristãos ibéricos que viviam sob o governo muçulmano no Alandalus. Os seus descendentes não se converteram ao islão, mas adotaram elementos da língua e cultura árabe. Eram, principalmente, cristãos de rito moçárabe.
O período de dominação muçulmana na Península Ibérica estendeu-se do século VIII ao século XV. Com a chegada dos muçulmanos à Espanha, o antigo Reino Visigótico dividiu-se em três regiões onde cada uma delas desenvolveu particularidades no decorrer dos séculos. A nordeste ganhou a marca da Espanha e influência da Europa setentrional. A norte estavam os cristãos que fundamentalmente combatiam os infiéis com o objetivo de expansão territorial, política e social com a Reconquista. A sul, as populações autóctones que se islamizaram progressivamente. Assim, pode concluir-se que na Península Ibérica medieval existiam a Espanha cristã e a Espanha muçulmana, esta chamada Alandalus pelos árabes. Entre os séculos VII e IX, os cristãos eram, efetivamente, a maioria na Espanha. Sob a dominação muçulmana eles puderam manter a sua religião, os seus magistrados, as suas igrejas e o seu clero, todavia existia o impedimento estabelecido aos dhimmis (cristãos e judeus) de erigir novos templos, tocar sinos, cultivar novas terras e fazer proselitismo. De todos os modos, os cristãos conseguiram inicialmente preservar boa parte das suas estruturas sociais, políticas e culturais.
Os reinos cristãos europeus reconheciam o Alandalus como um centro de cultura e sabedoria, de grandeza comparável a Damasco e Bagdade. Os moçárabes migrantes que habitavam os reinos do norte da Península Ibérica eram, em geral, mais cultos que os povos que os recebiam. Mesmo sendo vistos como “cristãos corrompidos”, os seus conhecimentos em economia e agricultura eram considerados úteis. Nos reinos de Leão e de Castela, participaram no poder político religioso, eclesiástico e económico. Em Toledo, tiveram influência na vida mercantil e costumes militares. Os vestígios religiosos dos moçárabes existem até hoje nos mosteiros fundados e habitados por eles. Tais mosteiros foram erguidos por toda Península Ibérica. Neles, bem como nas capelas e igrejas, é possível encontrar estruturas arquitetónicas, pinturas e gravuras moçárabes, documentos com escrita visigótica. Nos diferentes códices da Catedral de Leão é possível identificar cantos, vestimentas e escrita hispano-visigoda. Atualmente existem na Catedral de Leão 88 códices valiosos pela sua datação e iluminuras. O códice número 8 contém antífonas com músicas cantadas nas festas do ciclo litúrgico e dos santos, de acordo com o antigo ritual visigodo-moçárabe da igreja espanhola, mantido até a introdução do rito romano.
Existe dificuldade em estabelecer a quantidade e a localização das igrejas moçárabes no período islâmico, pois não são as mesmas que foram ocupadas no período cristão. O único espaço de culto moçárabe dentro dos muros das cidades era o a Igreja de Santa Maria de Alfizén, em Toledo, e na área externa os templos de Santa Leocádia, San Feliz, San Sernano, San Pedro e San Esteban. Essa disposição espacial induz pensar que a comunidade moçárabe vivenciava um tipo de segregação factual, pois era costume dos muçulmanos permitir aos dhimmis a manutenção das suas estruturas políticas e administrativas, religiosas e jurídicas na condição de pagarem o imposto obrigatório chamado jizia. Logo, a transferência do local de culto para fora dos muros da cidade indicaria a pouca importância dessa comunidade. De todos os modos, é precipitado afirmar que as comunidades cristãs somente se localizavam em torno das igrejas citadas, o que consequentemente seria dizer que elas viviam maioritariamente nas áreas rurais.
Com o avanço inicial da Reconquista, a partir do século XI, a cidade de Toledo é anexada e acontece uma profunda transformação na estrutura espacial da cidade. O espaço urbano foi dividido em paróquias. Tal divisão coincide quase sempre com a divisão em bairros, nos quais os habitantes eram atrelados religiosa, jurídica e fisicamente a uma comunidade estabelecida em bases religiosas. As paróquias sobrepuseram-se tanto à lógica urbana muçulmana como à moçárabe, lembrando que eles não possuíam algo semelhante, pois não existia um bairro próprio da população moçárabe. A comunidade moçárabe, apesar de cristã, foi muitas vezes vista como minoria. A arabização dessas comunidades fez com que, mesmo comungando da mesma fé cristã, elas fossem vistas como um “corpo estranho” pela igreja reformada. Os seus hábitos litúrgicos, muito contagiados pela influência árabe, eram considerados estranhos e uma afronta aos observadores estrangeiros. A extinção do rito hispano-moçárabe provocou o desaparecimento destas comunidades, mas algumas, muito pequenas, conseguiram manter-se sob a autorização e legislação do papa.
Segundo a Dra. Maria Jesús Rubiera, a utilização do termo neomoçárabe enriquece o conceito de cristãos andalusinos, pois trata de modificar a imagem estática e imutável da relação entre o estado islâmico e os cristãos que viviam sob o seu domínio.


