Mesencéfalo
O mesencéfalo é uma estrutura do sistema nervoso central, mais especificamente do tronco cerebral. Tem uma direcção oblíqua para cima e para a frente e localiza-se superiormente à protuberância e inferiormente ao diencéfalo. Assim, o seu limite inferior é o sulco ponto-peduncular e o seu limite superior é uma linha imaginária que passa pelos corpos mamilares e pela comissura branca posterior.
O mesencéfalo tem origem na vesícula encefálica primitiva média do tubo neural, denominada mesencéfalo. Para além desta vesícula existem mais duas: o prosencéfalo (vesícula encefálica anterior) e o romboencéfalo (vesícula encefálica posterior). Enquanto, a partir do 32º dia de desenvolvimento intra-uterino, o prosencéfalo e o romboencéfalo se subdividem em duas partes cada um, o mesencéfalo permanece apenas uma estrutura, continuando como tal até terminar o desenvolvimento encefálico. Durante o desenvolvimento das vesículas primitivas, desenvolvem-se simultaneamente cavidades no seu interior. Inicialmente existem a prosocele (no interior do prosencéfalo), a mesocele (no mesencéfalo) e a rombocele (no romboencéfalo). A cavidade do mesencéfalo, tal como este, não se subdivide e corresponde ao aqueduto de Sylvius no encéfalo já desenvolvido. Este é um canal estreito que faz comunicar o III e o IV ventrículos.
Observam-se quatro faces: uma anterior, uma posterior e duas laterais.
Face anterior
Observam-se dois feixes volumosos de cor branca, estriados longitudinalmente, que se dirigem para cima, para a frente e para fora, desde a protuberância até ao cérebro (acima dos tractos ópticos), continuando-se com a cápsula interna – Pedúnculos cerebrais. São constituídos por fibras descendentes cortico-fugais. Delimitam entre si o espaço interpeduncular, uma lâmina de substância cinzenta, de forma triangular e limitada anteriormente pelos corpos mamilares, pertencentes ao diencéfalo. É atravessada por pequenos orifícios onde passam vasos, podendo denominar-se substância perfurada posterior. Na união entre os pedúnculos e a substância perfurada posterior existe um sulco (sulco medial do pedúnculo ou do n. motor-ocular comum) de onde emerge, de cada lado da linha média, o nervo motor-ocular comum (III par craniano)
Face posterior
Nesta face encontra-se a lâmina quadrigémea, composta por quatro eminências arredondadas – os colículos ou tubérculos quadrigémeos. Estes encontram-se dispostos dois a dois, de cada lado da linha média, um acima do outro. Temos, assim, dois colículos superiores e dois colículos inferiores. Superiormente aos colículos superiores, no limite entre o mesencéfalo e o diencéfalo encontra-se ainda o núcleo pré-tectal, de limites mal definidos e responsável pelo controlo reflexo das pupilas. Os colículos superiores estão envolvidos nos reflexos visuais e no controlo dos movimentos oculares, mais concretamente nos movimentos sacádicos dos olhos. Têm uma forma ovóide, alongados de dentro para fora e de trás para a frente. Cada um relaciona-se com o corpo geniculado externo (do tálamo) correspondente através de um feixe branco, denominado braço conjuntival superior.
Faces Laterais
Na face lateral distingue-se o limite externo de cada pedúnculo cerebral, o sulco lateral (do mesencéfalo), oblíquo para cima e para fora. Este continua-se inferiormente com o sulco interpeduncular, o qual separa os pedúnculos cerebelosos superior e médio. Por cima de cada sulco lateral encontram-se os braços conjuntivais inferior e superior.
Imagem: Griselda Ramírez MD · BY-SA · Openverse
O mesencéfalo, analisado através de um corte transversal, pode ser dividido em três regiões: No limite entre o tecto e tegmento encontra-se o aqueduto de Sylvius. Este é rodeado por substância cinzenta, denominada substância cinzenta central. As estruturas presentes nestas regiões vão ser estudadas através de dois cortes transversais, um ao nível dos colículos inferiores e outro ao nível dos colículos superiores.
Nível dos colículos inferiores
O pedúnculo cerebral é a porção mais anterior do mesencéfalo. Está situado à frente da substância negra e contém importantes vias descendentes (cortico-espinhais, cortico-nucleares, têmporo-pônticas e fronto-pônticas), cuja função é ligar o córtex cerebral à medula espinhal, protuberância e cerebelo. Estas fibras também vão estar presentes ao nível dos colículos posteriores. Lesões nessas fibras provocam paralisia no lado oposto do corpo. Entre o pedúnculo cerebral e o tegmento encontra-se a substância negra. Está presente nos dois níveis do mesencéfalo. Apresenta uma zona compacta, posterior, cujos neurónios contêm o pigmento melanina e o seu neurotransmissor é a dopamina; e uma zona reticulata, anterior, cujos neurónios possuem compostos de ferro e o neurotransmissor é o GABA ou a acetilcolina (ACh). Tem uma função principalmente motora e interfere no tónus muscular. Tem conexões com córtex cerebral, medula espinhal, hipotálamo e núcleos da base, mais concretamente, o estriado (núcleo caudado e putamen). As conexões com este último são bastante importantes, pois, se houver uma lesão, há diminuição de dopamina no estriado, levando à síndrome de Parkinson.
Nível dos colículos superiores
Idêntica à do nível dos colículos inferiores, composta pela substância negra e pelos pedúculos cerebrais. Apresenta, tal como no nível dos colículos inferiores, o núcleo mesencefálico do nervo trigémio (V) e ainda o núcleo do nervo motor ocular comum (III). Este inclui o núcleo parassimpático (de Edinger-Westphal) e o núcleo motor somático e situa-se na substância cinzenta central, perto da linha mediana, logo atrás do fascículo longitudinal interno. As fibras com origem neste núcleo passam através do núcleo rubro e emergem na fossa interpeduncular. O núcleo rubro é uma massa de substância cinzenta, mas nas preparações a fresco apresenta-se com tons rosa (daí o seu nome) devido à sua elevada vascularização e presença de pigmentos de ferro no citoplasma dos seus neurónios. Encontra-se numa posição central, anteriormente ao aqueduto de Sylvius e posteriormente à substância negra. É atravessado pelo nervo motor ocular comum (III), pedúnculo cerebeloso superior e pelo tracto habenulopeduncular. Este núcleo integra fibras nervosas de sistemas neurais relacionados com o movimento. As suas fibras aferentes têm origem no córtex cerebral (áreas motora e pré-motora) e cerebelo (núcleos dentado, globoso e emboliforme). As suas fibras eferentes projectam-se para a medula espinhal, cerebelo, formação reticular, complexo olivar inferior e área pré-tectal.
Imagem: Jmarchn · BY-SA · Openverse
É um pequeno grupo de neurónios situado superiormente aos colículos superiores. A área pré-tectal é composta por vários núcleos, nomeadamente o núcleo do tracto óptico, ao longo da margem póstero-lateral da área pré-tectal, junto à união com o pulvinar, e o núcleo pré-tectal olivar, mais bem observado na porção inferior da comissura posterior. É um centro importante da via para o reflexo pupilar à luz e para o olhar vertical. Recebe vias da retina, as quais depois passam para o núcleo parassimpático do nervo motor ocular comum (núcleo de Edinger-Westphal). Este emite conexões até ao gânglio ciliar homolateral e contralateral, que depois irradiam para o esfíncter da pupila e ciliar. Este núcleo controla, assim, a contração pupilar de ambos os olhos, em resposta à luz.
Imagem: Jmarchn · BY-SA · Openverse
O mesencéfalo é irrigado pelos ramos paramedianos da artéria basilar e por ramos da artéria cerebelosa superior e da artéria cerebral posterior. Ao nível do colículo inferior, a irrigação é feita pelos ramos paramedianos da artéria basilar (zona mais interna, incluindo o fascículo longitudinal interno e pedúnculos cerebelosos superiores) e pela artéria cerebelosa superior (zona mais externa, incluindo os lemniscos espinhal e trigeminal, núcleo do colículo inferior, substância cinzenta central e parte externa do pedúnculo cerebeloso superior). Existe uma zona intermédia, entre as duas anteriores, cuja irrigação é variável. Ao nível do colículo superior, a zona mais interna é suprida pela artéria basilar. A zona do tecto é irrigada pela artéria cerebelosa superior e a restante área do mesencéfalo é irrigada pela artéria cerebral posterior. Ao nível pré-tectal, a zona interna é suprida pela artéria basilar (ramos paramedianos) e a restante área pela artéria cerebral posterior.
Imagem: Véronique Marchal, Jason Sellers, Mélanie Pélégrini-Issac, Cécile Galléa, Eric Bertasi, Romain Valabrègue, Brian Lau, Pierre Leboucher, Eric Bardinet, Marie-Laure Welter, Carine Karachi · BY · Openverse
Um tumor, hemorragia, enfarte ou traumatismo ao nível do mesencéfalo origina uma série de sinais e sintomas. A presença tanto dos núcleos dos nervos oculomotor e patético, tal como das vias descendentes corticoespinhais e corticonucleares, originam sintomas característicos que permitem a fácil localização da lesão no tronco cerebral.


