Ludwig Wittgenstein
Ludwig Joseph Johann Wittgenstein foi um filósofo austríaco, naturalizado britânico. Foi um dos principais autores da virada linguística na filosofia do século XX. Suas principais contribuições foram feitas nos campos da lógica, filosofia da linguagem, filosofia da matemática, e filosofia da mente. Muitos o consideram o filósofo mais importante do século passado.
Ludwig Wittgenstein nasceu em Viena a 26 de abril de 1889. Filho de Karl e Leopoldine Wittgenstein, era o caçula dos 8 filhos do casal. Seus avós paternos, Hermann Christian e Fanny Wittgenstein, eram de família judaica, mas, quando se mudaram da Saxônia para Viena, em meados do século XIX, converteram-se ao protestantismo e integraram-se plenamente à comunidade protestante de Viena. O pai de Ludwig, Karl Wittgenstein, foi um empreendedor checo de sucesso. Seus negócios na indústria de ferro e aço alçaram-no à condição de um dos homens mais ricos do império Habsburgo. A mãe austríaca-eslovena Leopoldine também era de ascendência judia pelo lado paterno da família, mas foi educada segundo as práticas da Igreja Católica. Ludwig, assim como todos seus irmãos, foi batizado como católico.
Juventude
Ludwig cresceu num ambiente propício ao desenvolvimento intelectual e artístico. Sua vida parece ter sido dominada por uma obsessão com a perfeição moral e filosófica, resumida na biografia de Ray Monk, "Wittgenstein: O Dever do Gênio". Seu pai, Karl Wittgenstein, foi colecionador de obras de arte e patrocinador de músicos e pintores. Apoiou financeiramente vários artistas de vanguarda e a construção do Edifício Secessão em Viena. A mãe de Ludwig era excepcionalmente musical e fez questão de proporcionar aos filhos uma educação musical primorosa. Além do interesse pelas artes, os pais de Ludwig organizavam com frequência apresentações de peças musicais nos luxuosos salões de sua casa. Entre os frequentadores da casa dos Wittgenstein estavam artistas como Johannes Brahms, Gustav Mahler, e Richard Strauss. Em sintonia com esse ambiente, os filhos de Karl e Leopoldine respondiam com a revelação de talentos incomuns, em especial para a música. Hans, o mais velho entre os filhos homens, começou a compor aos quatro anos de idade. Paul Wittgenstein tornou-se um habilidoso pianista de renome internacional, mesmo após perder a mão direita na 1ª Guerra Mundial. O próprio Ludwig, embora não tenha escolhido a música como profissão, manifestou talentos musicais acima da média. Tocava clarinete e tinha ouvido apurado. Especialmente notável teria sido sua capacidade de reproduzir em assovios um movimento inteiro de uma sinfonia ou concerto. A música também esteve presente em seu trabalho filosófico: em seus escritos, usou-a frequentemente para construir exemplos e símiles.
Primeira Guerra Mundial
Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, Wittgenstein alista-se como voluntário no exército austro-húngaro. Serve primeiro em um navio e depois numa oficina de artilharia. Em 1916, é enviado, como membro de um regimento de artilharia, ao front russo. Recebe, por seu desempenho nas batalhas, várias condecorações por bravura. Durante a guerra, Wittgenstein manteve anotações de cunho filosófico e religioso, além de anotações pessoais. Esses cadernos de anotações mostram uma profunda mudança em sua vida espiritual. Parte dessa mudança deveu-se à leitura de O evangelho explicado, de Liev Tolstói. Wittgenstein carregava esse livro para onde quer que fosse, e recomendava-o a todos (a ponto de ser conhecido pelos outros soldados como "o homem com os evangelhos").
Os “anos perdidos” após o Tractatus
Por essa época, Wittgenstein já havia mudado bastante. Aparentemente, as experiências da Primeira Guerra deixaram marcas indeléveis. Assim como ocorreu a vários outros ex-combatentes, Wittgenstein enfrentou dificuldades em se readaptar à vida civil. Além disso, a elaboração do Tractatus havia sido extremamente desgastante, tanto intelectual como emocionalmente. Essa obra havia transfigurado todo o seu trabalho anterior em lógica numa estrutura completamente nova que, em parte, refletia uma profunda preocupação espiritual. O resultado prático foi a busca de um novo estilo de vida, mais simples e austero. Uma das expressões mais dramáticas dessa mudança foi a sua decisão de abdicar a herança deixada por seu pai. A parte que lhe cabia foi dividida entre os irmãos.
O retorno a Cambridge
Em 1929, Wittgenstein voltou a Cambridge na condição de estudante avançado. A princípio, realizaria estudos preparatórios para a obtenção do grau de doutor sob a supervisão de Ramsey. Como os seus estudos anteriores em Cambridge podiam ser aproveitados, Wittgenstein apresentou o Tractatus, publicado sete anos antes, como tese de doutorado, e a defesa foi realizada em junho de 1929. Russell e Moore foram os examinadores. A defesa, na verdade, cumpria uma mera formalidade, e esteve longe de ser uma arguição rigorosa da tese apresentada. Ao fim do ritual, Wittgenstein bateu nos ombros de Russell e de Moore e acrescentou: “Não se preocupem; eu sei que vocês nunca vão entender”. Moore comentou em seu relatório sobre o exame: “É minha opinião pessoal que a tese do sr. Wittgenstein é uma obra de gênio. Assim sendo, certamente está perfeitamente à altura dos padrões exigidos para receber o grau de doutor em filosofia”. No ano seguinte, Wittgenstein tornou-se Fellow do Trinity College.
Os últimos anos
Em seus últimos anos na Universidade de Cambridge, Wittgenstein dedicou-se à conclusão do tão aguardado livro em que condensaria as ideias desenvolvidas desde 1930. Embora tenha chegado a fazer um prefácio com a data de janeiro de 1945, Wittgenstein resolveu adiar a publicação e fazer novas revisões em seu texto. Em busca da tranquilidade necessária para concluir o livro, muda-se para a Irlanda e se estabelece, primeiro, numa fazenda em Red Cross; depois, na casa de veraneio do irmão de Drury, na costa oeste. A convite de Norman Malcolm, ex-aluno e professor de filosofia na Universidade Cornell, Wittgenstein vai para os Estados Unidos em julho de 1949 e fica hospedado na casa de Malcolm até outubro do mesmo ano. As discussões com o seu ex-aluno estimularam Wittgenstein a desenvolver uma série de reflexões sobre as afirmações do senso comum. Essa reflexões seriam mais tarde reunidas e publicadas postumamente no livro Über Gewissheit (Sobre a Certeza).
Em vida, os únicos trabalhos filosóficos publicados por Wittgenstein foram o Tractatus Logico-Philosophicus e o artigo "Some Remarks on Logical Form". O primeiro é a obra-prima do jovem Wittgenstein; o segundo, uma tentativa de reparar alguns dos problemas do Tractatus. A vasta produção que caracteriza a segunda fase de sua filosofia só veio a público após sua morte por meio de livros organizados, traduzidos e editados pelos herdeiros de seu espólio literário. O livro Investigações Filosóficas, publicado em 1953, é o mais importante dessa segunda fase.
O Tractatus Logico-Philosophicus
O objetivo imediato do Tractatus Logico-Philosophicus (TLP) é explicar como a linguagem consegue representar o mundo. Mais especificamente, Wittgenstein pretende mostrar como uma proposição é capaz de representar um estado de coisas real ou possível. A resposta de Wittgenstein a esse problema ficou conhecida como "teoria pictórica do significado", pois estabelece que uma proposição é uma representação figurativa dos fatos, assim como uma maquete é uma representação figurativa de um edifício (TLP 4.01). A princípio, pode parecer estranha essa sugestão, pois há similaridades nítidas entre a maquete e o prédio que essa representa, ao passo que não há similaridade evidente entre a frase "A neve é branca" e o estado de coisas que essa frase representa (TLP 4.011). É nesse ponto que intervém a análise lógica. A semelhança entre a maquete e o prédio é assegurada por uma isomorfia espacial - as relações espaciais entre os diversos elementos que constituem a maquete são as mesmas, se convertidas conforme as escalas empregadas, que as vigentes entre os elementos constitutivos do prédio. Do mesmo modo, segundo Wittgenstein, as relações entre os elementos básicos de uma proposição - os nomes próprios lógicos - guardariam entre si, segundo um método de projeção adequado, as mesmas relações lógicas vigentes entre os objetos simples que constituem o estado de coisas representado (TLP 4.01; 4.0311). Sendo assim, se reduzíssemos a frase "A neve é branca" aos termos de uma notação lógica perfeita (TLP 3.325), obteríamos um estrutura simbólica cuja forma lógica seria igual à forma lógica do estado de coisas que a frase representa (TLP 2.18).
As Investigações Filosóficas
Enquanto, no Tractatus, Wittgenstein esforçava-se por desvelar a essência da linguagem, nas Investigações Filosóficas (IF) ele afirma que essa tentativa está fadada ao fracasso, simplesmente porque não há qualquer essência a ser descoberta. O segundo Wittgenstein defende que a linguagem não seria um todo homogêneo, mas, sim, um aglomerado de "linguagens" (IF §65). Para esclarecer esse ponto, Wittgenstein traça uma analogia entre a noção de linguagem e a noção de jogo. Há diversos tipos de jogos: jogos de tabuleiro, jogos de cartas, competições esportivas, etc. Mas não há uma essência dos jogos. Um jogo de cartas apresenta semelhanças com os jogos de tabuleiros, mas também muitas diferenças; se compararmos esses últimos com os jogos de bola, surgirão outras semelhanças e outras se perderão (IF §66).


