Língua mongol
A língua mongol, também conhecida como língua mongolesa, é o idioma mais falado da família das línguas mongólicas.
A língua recebeu seu nome do povo mongol, que, majoritariamente, tem o idioma como língua materna histórica e culturalmente. Já a origem do nome "mongol" (ᠮᠣᠩᠭᠣᠯ , монгол) é incerta. As hipóteses mais populares são:
O mongol é a língua materna tradicional da maioria dos mongóis, contudo, é incorreto afirmar que ela é a única língua falada pelos mongóis, ou que o mongol é universalmente conhecido entre eles. De acordo com a Agência Nacional de Estatística da Mongólia (Үндэсний Статистикийн Хороо), a totalidade da população mongol (aproximadamente 99%) é falante da língua mongol, com 98,7% dos adultos sendo alfabetizados no idioma (censo de 2020). Apesar de ter o mongol como língua oficial em algumas regiões autônomas e classificar o idioma como a língua reconhecida da nacionalidade mongol (presente na Mongólia Interior, Xinjiang, Chingai, Gansu, Hebei, Heilongjiang, Jilin, Lianoningue e Ninxiá), a China não publica dados sobre o número de falantes da língua mongol desde 1982, quando o número era cerca de 3,8 milhões. Ademais, na República da Buriácia, dentro da Federação Russa, estima-se que há cerca de 4500 falantes do mongol.
Dialetos
O mongol qalqe (comumente grafado como mongol khalkha) é o dialeto mais falado da língua mongol, além de ser a variação oficializada e padronizada pelo governo da República da Mongólia. Entretanto, o qalqe é, lingusticamente, apenas um dialeto, ou seja, é incorreto resumir a língua mongol, que possui múltiplas variedades, ao dialeto qalqe. No pensamento linguístico contemporâneo[nota 2], todos os dialetos considerados parte do idioma mongol têm inteligibilidade mútua, além de possuirem uma conexão histórica e étnica, fatores que permitem classificá-los como variações de uma mesma língua. A divisão política das terras mongóis na Mongólia Ar, ou exterior[nota 3], (atual República da Mongólia) e na Mongólia Övör, ou interior[nota 3], (atual Região Autônoma da Mongólia Interior) afetou significativamente a situação dialetológica dos falantes nativos da língua mongol. Essa separação do povo mongol em entidades políticas distintas possibilitou a formação do contexto atual de uma Mongólia Ar dominada pelo dialeto qalqe, que se tornou hegemônico pelas políticas de alfabetização da era socialista, e uma Mongólia Övör com variações dialetológicas geograficamente fragmentadas e marcadas pela ausência de um dialeto comum, já que a língua franca da região é, por razões políticas, o mandarim.[nota 4]
Línguas mongólicas
A despeito do mongol ser a língua mais falada da família mongólica, outras línguas mongólicas também possuem um elevado número de falantes ativos. Contudo, a classificação de dialeto ou língua dentro da família mongólica é controversa. A confusão taxonômica decorre, parcialmente, da ausência de dados com termos linguísticos explícitos e, em alguns casos, da inexistência completa de censos linguísticos. A arbitrariedade dos termos usados pelos governos da Mongólia e da China causam, portanto, uma imprecisão científica. Assim, várias das isoglossas que dividem os dialetos do mongol são, por alguns linguistas, estendidas para incluir as línguas mongólicas adjacentes. A língua buriata e a língua oirata são exemplos desse fenômeno. Ademais, a língua ordos [en] é amplamente classificada como um dialeto austral da língua mongol, pois ambos os idiomas (ou dialetos) frequentemente interagem entre si, dividindo o mesmo sistema de escrita (escrita mongol tradicional) e a mesma entidade política (Região Autônoma da Mongólia Interior). Já em relação à Rússia, os dialetos Tsongol e Sartul são, por vezes, integrados como dialetos do buriata.
A história da língua mongol está intimamente relacionada à história do povo mongol. Desse modo, características contemporâneas da língua, como sua distribuição geográfica, sua dialetologia, seu vocabulário e seus sistemas de escrita, podem ser explicadas mediante a análise do desenvolvimento histórico dos mongóis e das relações estabelecidas entre eles e os demais povos do mundo.
Antecedentes
Com base nas similaridades culturais, os mongóis tratam os xiongnu, um povo nomádico antigo que formou a primeira confederação tribal das estepes, como seu primeiro ancestral. Contudo, linguistica e etnicamente, os mongóis são descendentes mais próximos do povo turco-mongol dos xianbei, os responsáveis pelo declínio dos xiongnu. Os xianbei e seus sucessores, entretanto, não desenvolveram um sistema de escrita próprio, irregularmente adotando escritas como a brami e a chinesa para foneticamente transcrever textos proto-mongóis.
Proto-mongol
O proto-mongol é um termo técnico para o último ancestral comum a todos os idiomas da família mongólica. Assim, por definição, a língua proto-mongólica era o idioma falado antes do processo de diferenciação linguística que originou as línguas mongólicas contemporâneas. Como as demais protolínguas, o proto-mongol é uma abstração construída a partir da análise comparativa e diacrônica das línguas mongólicas conhecidas. Por isso, o conhecimento humano do proto-mongol sempre será imperfeito e limitado. A datação absoluta do período no qual o proto-mongol foi falado depende, então, de quando ocorreu o fim da unidade linguística de seus falantes. Por razões históricas, criou-se um consenso para o fim do proto-mongol em torno do surgimento do Império Mongol no século XIII e da dispersão dos mongóis e seus descendentes pela Eurásia.
Mongol médio
Como consequência das conquistas lideradas por Gengis Khan (Tchingis Khaan, nascido Temüjin) e da centralização dos povos mongóis, a variedade do proto-mongol falado no Nordeste da Mongólia foi difundida por todo o povo mongol e, para a linguística, é classificado[nota 5] como o mongol médio. Diferente do proto-mongol, que é uma abstração, o mongol médio denomina uma língua históricamente falada e com documentos escritos. Em uma comparação com o mongol moderno, o mongol médio não possuía vogais longas e tinha sistemas verbais, inventário consonantal e harmonia vocálica diferentes. As condições do Império Mongol, consequentemente, favoreceram uma ampla interação cultural, social, econômica e científica entre os povos do império, período que é conhecido pelos historiadores como a Pax Mongolica. Nesse contexto, Kublai Khan (Khubilai) da Dinastia Yuan comissionou a um monge tibetano a criação de um novo sistema de escrita, o 'phags-pa (usado para escrever o mongol, o chinês, o uigur, o tibetano, o sânscrito e, possivelmente, o persa), que se tornou a escrita comum do império, inclusive, aparecendo brevemente na arte europeia dos séculos XIII e XIV.
Mongol clássico
Com a regressão dos povos mongóis à região do planalto mongol, o mongol médio do tempo do império, caracterizado pelos seus aspectos multiculturais e pela intensa interação com outras línguas, perdeu sua influência e, assim, o mongol voltou a ser um idioma realisticamente restrito aos mongóis. Nesse contexto, a conservadora variante literária do mongol médio, a qual surgiu a partir do proto-mongol, passou a ser integrada ao mongol médio falado, e, dessa amálgama, se desenvolve o mongol clássico. O período do mongol clássico, historicamente, se inicia com a tradução do cânone budista tibetano para o que viria a ser a base padronizada do mongol clássico. Entretanto, a hegemonia do mongol clássico só é explícita a partir da conquista das terras mongóis pela Dinastia Qing, que padronizou o idioma como uma das línguas oficiais do estado, correspondendo à "nação dos mongóis" dentro do domínio Qing.
Essa secção trata exclusivamente da fonologia do dialeto qalqe de Ulaanbaatar. Os fonemas e os fenômenos linguísticos apresentados podem divergir de acordo com cada dialeto.
Vogais
O idioma mongol, diferentemente da língua portuguesa, distingue as vogais curtas das longas. Assim, o mongol conta com seis vogais curtas (/i/, /a/, /u/, /ʊ/, /o/, e /ɔ/)[nota 6] e sete vogais longas (/iː/, /eː/, /aː/, /uː/, /ʊː/, /oː/, e /ɔː/). Entretanto, nem sempre a diferença de quantidade vocálica determina uma mudança de significado nas palavras. Além das sete vogais naturais, o mongol possui quatro possíveis ditongos (/ai/, /ui/, /ʊi/, e /ɔi/). Ortograficamente, o ditongo fonético /ei/ deveria existir através da grafia válida "эй", mas ele é pronunciado como um /eː/. Os sete fones vocálicos do mongol estão dispostos na seguinte tabela:
Consoantes
O inventário consonantal mongol se diferencia muito do português. Notadamente, a ausência de múltiplas consoantes vozeadas (ou sonoras) no mongol exclui fones comuns no português como o [b].[nota 7][nota 8] Ademais, o mongol não possui os fones [l] e [k] (fenômeno considerado raro entre as línguas do mundo), ao invés disso, usa-se o fone /ɮ/. Os fones "nativos" do mongol Qalqa estão dispostos na seguinte tabela: O mongol possui, também, consoantes importadas usadas apenas em palavras de empréstimo, são elas: Para além disso, as regras de harmonia vocálica podem afetar as consoantes mongóis, como é o caso das consoantes palatalizadas, que ocorrem apenas em palavras com vogais faringealizadas, ou -ATR, (grupo [ʊ, a, ɔ]).
Uma multiplicidade de sistemas de escrita já foram usados para representar a língua mongol ao longo da sua história. Contudo, a escrita nativa e mais antiga, o alfabeto tradicional, foi historicamente o sistema de escrita mais usado para escrever a língua mongol e ainda é utilizado pelos falantes do mongol na China e por alguns na Mongólia, onde o cirílico é mais popular. Os alfabetos tradicional e cirílico, com suas transliterações (ISO 9) e fones do Alfabeto Fonético Internacional (no dialeto qalqe), estão dispostos na seguinte tabela:
Regras ortográficas
Para a escrita no alfabeto cirílico mongol, as seguintes regras gerais devem ser aplicadas:
Tal qual línguas como o alemão, o turco e o quechua, o idioma mongol expressa suas ideias de função sintática a partir da declinação das palavras em casos gramaticais. Assim, o mongol conta com sete casos distintos: nominativo, acusativo, genitivo, dativo, ablativo, instrumental e comitativo. Além disso o mongol é, diferentemente do português, uma língua aglutinante que não possui artigos definidos ou substantivos com gênero gramatical.
Pronomes
No mongol, os pronomes são classificados como pessoais, possessivos, reflexivos, demonstrativos, interrogativos e indefinidos. Notoriamente, os pronomes relativos, presentes no português, não existem no idioma mongol. De maneira análoga ao que acontece com os pronomes "tu, você, vós e vocês" no português, há, no mongol, uma diferenciação de formalidade no uso dos pronomes pessoais de segunda pessoa. Enquanto "чи" (tchi) é geralmente usado para se referir a pessoas íntimas ou mais jovens que o falante, "тa" (ta) é mais apropriado para demonstrar respeito e, portanto, tem uma aplicação similar ao "o senhor/ a senhora" do português brasileiro ou ao "vós" (singular) do português europeu.
Substantivos e adjetivos
O idioma mongol, assim como o português, pode ser classificado como uma língua flexional e sintética. Desse modo, os substantivos e adjetivos mongóis podem declinar de duas maneiras principais: a flexão de número e a declinação por caso gramatical. Contrastando com as línguas românicas, a flexão de número no mongol não desempenha um papel significativo na construção de uma mensagem. No mongol clássico, as regras de quantificação eram rígidas e exigiam essa flexão do substantivo, contudo as transformações históricas da língua mongol resultaram no abandono dessas normas ortodoxas. Portanto, as declinações de plural são raramente usadas pelos falantes nativos. Alguns contextos nos quais a flexão pode ser descartada são:
Verbos
Em uma comparação com o português, os verbos na língua mongol[nota 15] não têm conjugação irregular e não variam de acordo com pessoa ou número gramaticais, mas o mongol possui mais modos, vozes e aspectos verbais. Além disso, uma vez que o mongol é uma língua aglutinante, todas as conjugações verbais são marcadas pela adição de sufixos a um radical fixo, como no cazaque. Devido à natureza aglutinante do mongol e às diferenças entre os sistemas verbais românicos e mongólicos, o conceito ocidentalizado de tempo e modo verbais não engloba com precisão as características dos verbos mongóis. Assim, essa secção se vale de uma combinação entre termos linguísticos técnicos e analogias para descrever os complexos componentes verbais da língua mongol.[nota 15]
Sentença
Com a exceção das frases nominais e das construções com elipse, isto é, com a omissão de termos como o sujeito e o verbo, as frases no mongol explicitamente seguem a ordem sintática de sujeito-objeto-verbo (SOV). A seguinte frase ilustra essa classificação: Além disso, o alinhamento morfossintático (a relação gramática entre os argumentos linguísticos) da língua mongol é do tipo nominativo-acusativo. Desse modo, assim como o português, o idioma mongol distingue o comportamento gramático de sujeitos e objetos, mas sem diferenciar o sujeito de uma oração transitiva do sujeito de uma oração intransitiva.
Expressões do dia-a-dia
A seguir, está uma tabela com expressões cotidianas úteis no mongol, com transliteração latina e tradução para o português:
Declaração Universal dos Direitos Humanos
A seguir, está o primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos no dialeto qalqe, escrito nos alfabetos tradicional e cirílico, com transliteração para o alfabeto latino e tradução para o português: Хүн бүр төрж мэндлэхэд эрх чөлөөтэй, адилхан нэр төртэй, ижил эрхтэй байдаг. Оюун ухаан, нандин чанар заяасан хүн гэгч өөр хоорондоо ахан дүүгийн үзэл санаагаар харьцах учиртай. Hün bür törtch mendlehed erh chölöötei, adilhan ner törtei, izhil erhtei baidag. Oyuun uhaan nandin tchanar tsayaasan hün gegtch öör hoorondoo ahan düügiin ütsel sanaagaar haritsah utchirtai. Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.
Chinggis khaanii Magtaal
O popular "Chinggis khaanii Magtaal" (Tributo a Gengis Khan) é um exemplo do tradicional canto gutural difônico mongol, uma arte classificada pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. A seguir, está a letra da música no cirílico mongol, com transliteração para o alfabeto latino e tradução para o português:


