História da língua portuguesa
A história da língua portuguesa é a história da evolução da língua portuguesa desde a sua origem no noroeste da Península Ibérica até ao presente, como língua oficial falada em Portugal e em vários países de expressão portuguesa.
Ao longo dos séculos, diversas têm sido as teorias sobre o substrato pré-latino da língua portuguesa. Na maior parte dos casos, os estudos apontam para raiz(es) céltica(s) ou de outro ramo da mesma família indo-europeia, porventura mais arcaico, dizendo respeito a migrações oriundas das estepes euroasiáticas que terão chegado à Península Ibérica ainda antes de quaisquer tribos célticas, o que parece fortalecido por estudos genéticos recentes a indicar que a população masculina desta parte da Europa foi substituída por migrantes dessa proveniência indo-europeia por volta de 2500 a.c.. Uma tese que ainda se coloca como pertinente é a da pertença dos Lusitano ao ramo indo-europeu itálico, denominado Italiota, dada a aparente semelhança do Lusitano com um dos idiomas indo-europeus de Itália, o Úmbrio, como diz Blanca María Prósper em estudo de 1999. Entretanto, um projecto do Conselho de Pesquisa em Ciências Sociais e Humanas do Canadá, dirigido pelo professor Leonard A. Curchin de Estudos Clássicos da Universidade de Waterloo, concluiu que os topónimos da província lusitana do Império Romano encontrados até à data são classificados da seguinte forma: Celta (30%), outros Indo-Europeus (33,5%), Pré-indo-europeu (2%), Ibero (2%), Latim (18%) e 15,5% de topónimos de origem indefinida. Ainda no contexto dos Indo-Europeus não celtas, é curioso verificar que a tese do arqueólogo Francisco Martins Sarmento (1880), a saber, de que os Lusitanos eram Lígures, indo-europeus que, no dizer de Sarmento, teriam chegado à Ibéria antes dos Celtas, pois esta possibilidade foi mais recentemente defendida por Francisco Villar e Pedrero (2001). Mais recente é o estudo de Luján (2019), segundo o qual o Lusitano seria um idioma indo-europeu mais arcaico que o Celta e que o Italiota.
O latim: base linguística (III a.C - V d.C)
Em 218 a.C, os romanos iniciaram a invasão da Península Ibérica, onde viriam a fundar a província romana da Lusitânia, atual centro e sul de Portugal. Quase 200 anos depois, terminadas as guerras Cantábricas, foi constituída a Galécia, atual norte de Portugal e Galiza. A romanização afetou muitas áreas da vida, incluindo a língua. O latim, língua oficial do Império Romano, passou a ser usado na administração. A sua versão coloquial, o latim vulgar falado em todo o império, foi difundido por soldados, colonos e mercadores vindos de várias províncias e colónias romanas. Estes estabeleceram-se em cidades perto de povoações nativas, mantendo frequentemente os mesmos nomes.
O românico de influência germânica sueva e visigótica
A partir de 409, com o Império Romano em colapso, a Península Ibérica foi ocupada por povos de origem germânica, a que os romanos chamavam bárbaros. O território foi então cedido a alguns destes povos como federados: em 410 os suevos estabeleceram na Galécia o reino Suevo, primeiro reino cristão (410-589). Na Lusitânia seriam os visigodos a dominar (411-711). Estes povos adotaram em grande parte a cultura romana, incluindo as leis, o cristianismo e a língua latina. Com as invasões desapareceram todos os quadros do estado, mas manteve-se de pé a organização eclesiástica, que os suevos adoptaram ainda no século V, seguidos pelos visigodos, e que foi um importante instrumento de estabilidade. Como a maioria da população hispano-romana era cristã, a governação sueva – que se estendeu até Emínio (Coimbra) – baseou-se nas paróquias, descritas no Parochiale suevorum de c. 569.
Influência árabe em Portugal
Em 711 tropas muçulmanas vindas do Norte de África ocuparam a Península Ibérica. Rapidamente atravessaram o Douro, terminando o reino visigodo. Às suas investidas escapou um grupo de visigodos acantonado no reino das Astúrias a partir de 718. Os muçulmanos assenhorearam-se do território que designavam em língua árabe Al-Andalus, o qual governaram por cerca de cinco séculos no caso português, e mais de oito séculos na Espanha. Com a invasão da Península, a língua árabe foi adotada como língua administrativa nas regiões conquistadas. Contudo, a população continuou a falar dialetos românicos, conhecidos coletivamente como moçárabes. A principal influência árabe foi no léxico: o português moderno regista 945 palavras de origem árabe, especialmente em relação à agricultura, comércio e administração, sem cognatos noutras línguas românicas, com exceção do castelhano língua da qual adotou aliás muitas dessas palavras.
O galego-português
Entre 740 e 868 a região a norte do Douro foi reconquistada pelos cristãos hispano-góticos, que aí estabeleceram os seus reinos. O documento medieval com traços românicos mais antigo da Península Ibérica data de 775, o Diploma do rei Silo das Astúrias, encontrado na Galiza e preservado no arquivo da catedral de Leão. Como este, muitos documentos escritos em latim medieval contêm palavras românicas. Em Portugal, os mais antigos textos com traços de galego-português são a Doação à Igreja de Sozello, de 870, e a Carta de Fundação e Dotação da Igreja de S. Miguel de Lardosa, de 882. Entre os séculos XII e XIV o galego-português teve um papel especial nos reinos cristãos medievais da Península Ibérica como língua literária, semelhante ao occitano contemporâneo. Foi, quase sem exceção, a única língua usada na composição da poesia lírica trovadoresca dos reinos de Leão, Castela, Galiza e Portugal. A sua importância foi tal que o chamado trovadorismo é considerado a segunda mais importante literatura medieval europeia. O rei de Leão e Castela Afonso X, o Sábio (1221-1284), mecenas do movimento trovadoresco e ele próprio trovador e poeta da língua galego-portuguesa, escreveu ou mandou escrever o cancioneiro sacro Cantigas de Santa Maria em galego-português, que reúne 430 composições musicadas para monofonia.
Divergência do português e do galego
Em 1143, o reino de Portugal foi formalmente reconhecido pelo Reino de Leão e Castela, no qual o Reino da Galiza estava então incorporado. Como resultado da divisão política, a língua que agora se denomina Galego-Português perdeu a unidade como língua nativa secular do noroeste peninsular. O vernáculo da Galiza e o de Portugal seguiram então caminhos evolutivos independentes, divergindo. O português incorporou elementos árabes durante a reconquista e, no período que se seguiu, dá-se a uniformização em -ão das terminações nasais. O galego foi influenciado pelas línguas leonesa e castelhana. Os textos escritos em português mais antigos conhecidos são a A Notícia de fiadores (1175), uma pequena lista de nomes que termina com uma única frase, "O Pacto dos irmãos Pais" de c. 1175. Mas o documento que atesta o nascimento oficial da língua que seria o português data de 27 de Junho de 1214, Testamento de D. Afonso II, terceiro Rei de Portugal, consensualmente considerado o texto em escrita portuguesa mais antigo conhecido. Em 1290, concluída a reconquista portuguesa, o rei Dinis I de Portugal decretou que a "língua vulgar" (o galego-português falado) fosse usada em vez do latim na corte. O rei trovador, neto e tradutor de Afonso X O Sábio, adotara uma língua própria para o reino, tal como o seu avô fizera com o castelhano. Em 1296 essa língua foi adaptado pela chancelaria régia e passou a ser usado não só na poesia, mas também na redação das leis e pelos notários.[carece de fontes?] Começaram então a aparecer referências à «linguagem português».
Normatização: as primeiras gramáticas no Renascimento
A publicação do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende em 1516 é frequentemente considerada o marco do fim do "português arcaico". A partir do século XVI, o renascimento aumentou o número de palavras eruditas importadas para o português e a complexidade da língua. Tal como em várias outras línguas europeias, o interesse pelos estudos humanísticos, em especial a filologia, e o desenvolvimento da imprensa levou à procura da normatização da língua portuguesa. Em 1536 Fernão de Oliveira publicou a primeira gramática da língua portuguesa, a Grammatica da lingoagem portuguesa, em Lisboa, dedicada a D. Fernando de Almada. A obra do heterodoxo frade dominicano, diplomata, escritor, filólogo e tratadista naval em breve seria seguida. Em 1540, João de Barros, distinto funcionário da coroa e tesoureiro da Casa da Índia, publicou a Grammatica da lingua portuguesa e diversos diálogos morais a acompanhá-la, para ajudar ao ensino da língua materna. Considerada a primeira obra didática ilustrada no mundo, dedicada a informar aos jovens aristocratas, a quem se dirigia, incluia também fundamentos básicos da Igreja Católica.
Expansão com os Descobrimentos
Entre os séculos XV e XVI, com a expansão da era dos descobrimentos, os portugueses levaram a língua portuguesa a muitas regiões da África, Ásia e América. Simultaneamente importaram para o léxico português e de várias línguas europeias novas palavras, vindas de terras distantes. Os primeiros contactos eram assegurados por intérpretes poliglotas, os chamados "lingoas", como Gaspar da Gama e Duarte Barbosa. O português tornou-se a lingua franca nas costas do Oceano Índico e em África, usado não só pela administração colonial e pelos mercadores, mas também entre os oficiais locais e europeus de todas as nacionalidades. Vários reis do Ceilão (actual Sri Lanka) falavam português fluentemente, e os nobres normalmente tinham nomes portugueses. A propagação da língua foi ajudada por casamentos mistos entre portugueses e as populações locais.
Base dos primeiros estudos linguísticos fora da Europa
Os esforços missionários do padroado português, sobretudo a atividade missionária jesuíta, levou a que "língua cristã" fosse sinónimo da "língua portuguesa" em muitos locais da Ásia. A expansão de colégios e o pioneirismo das missões fez com que muitos dos primeiros estudos linguísticos europeus, incluindo gramáticas e dicionários, fossem escritos em português. É o caso do primeiro dicionário europeu de chinês-português, c. 1580 por Michele Ruggieri e Matteo Ricci; do dicionário japonês-português "Nippo Jisho", de 1603 por João Rodrigues; do dicionário vietnamita-Português-latim publicado em Roma em 1651 por Alexandre de Rhodes. Destacaram-se nesta ação o Colégio de São Paulo (Macau) como sede dos primeiros sinólogos, e o Colégio de São Paulo (Goa), que introduziu a imprensa na Índia, e levou à primeira impressão e estudos europeus da língua tâmil. Também sob alçada portuguesa, foram os estudos da língua concani (canarim) e da língua marata pelo linguista jesuíta Thomas Stephens. Foram também pioneiros no estudo do sânscrito Roberto de Nobili e João de Brito. No Brasil, José de Anchieta e Luís Figueira desenvolveram os primeiros estudos da língua tupi, incluindo a gramática e dicionário; Luís Mamiani estudou a língua cariri (hoje extintas). Em África, Mateus Cardoso fez a primeira tradução de quicongo c.1625. Na Etiópia, foi estudada intensamente e feitas traduções de ge'ez, a língua litúrgica da Etiópia, até à expulsão dos Jesuitas em 1634.


