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Franz Kafka

František "Franz" Kafka foi um escritor boêmio de língua alemã, autor de romances e contos, considerado pelos críticos como um dos escritores mais influentes do século XX. A maior parte de sua obra, como A Metamorfose, O Processo e O Castelo, está repleta de temas e arquétipos de alienação e brutalidade física e psicológica, conflito entre pais e filhos, personagens com missões aterrorizantes, labirintos burocráticos e transformações místicas.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 14/07/2026
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Biografia

Kafka foi criado em Praga como um judeu falante de alemão. Teve grande fascinação pelos judeus do Leste Europeu, de quem pensava possuírem uma vida espiritual de uma intensidade que não era encontrada nos judeus do Ocidente. Seu diário está cheio de referências a escritores iídiches. Apesar disso, por vezes ele distanciava-se do judaísmo e da vida judaica: "O que eu tenho em comum com os judeus? Mal tenho algo em comum comigo mesmo, e deveria estar quieto em um corredor, contente por respirar". Na sua adolescência, Kafka se declarou um ateu. Hawes sugere que Kafka, apesar de bastante consciente de seu próprio judaísmo, não colocou-o na sua obra, a qual, de acordo com Hawes, carece de personagens, cenas ou temas judeus. Na opinião do crítico literário Harold Bloom, apesar da dureza de Kafka com sua herança judaica, ele foi o escritor judeu por excelência. Lothar Kahn mostra ainda menos dúvida quanto a isso: "A presença do judaísmo na obra de Kafka não é mais assunto para se discutir". Pavel Eisner, um dos primeiros tradutores de Kafka para o idioma inglês, interpretou o clássico O Processo como a encarnação da "terceira dimensão da existência judaica em Praga... seu protagonista Josef K. é (simbolicamente) preso por um alemão (Rabensteiner), um tcheco (Kullich) e um judeu (Kaminer). Ele representa a ‘culpa inculpável’ que vive no judeu no mundo moderno, mesmo que não haja provas de que ele seja judeu".

Família

Kafka nasceu perto de Old Town Square, em Praga, à época, parte do Império Austro-Húngaro. Pertencia a uma família de judeus asquenazes de classe média. Seu pai, Hermann Kafka (1852-1931), era o quarto filho de Jakob Kafka, um religioso de Osek, uma vila tcheca com grande população judaica, localizada perto de Strakonice, no sudeste da Boêmia. Hermann trouxe a família de Kafka para Praga. Depois de trabalhar como representante de vendas de viagem, ele acabou tornando-se um varejista de aviamentos e armarinhos, que contratou mais de 15 pessoas e usava a imagem de uma gralha ("kavka", em tcheco), como logotipo do seu negócio. A mãe de Kafka, Julie (1856–1934), era filha de Jakob Löwy, um próspero mercador de varejo em Poděbrady, recebendo uma melhor educação formal que seu marido. Os pais de Kafka provavelmente falavam uma variedade de alemão influenciado pelo iídiche, às vezes chamada pejorativamente de "mauscheldeutsch", mas como a língua alemã era considerada o condutor de mobilidade social, eles provavelmente encorajavam os seus filhos a falar o alemão padrão. Hermann e Julie tiveram seis filhos, onde quem Kafka era o mais velho. Seus dois irmãos, Georg e Heinrich, morreram na infância, antes de Franz completar sete anos; suas três irmãs eram Gabriele ("Ellie") (1889–1944), Valerie ("Valli") (1890–1942) e Ottilie ("Ottla") (1892-1943). Todas morreram durante o holocausto, na Segunda Guerra Mundial. Valli foi deportada para o Gueto de Łódź na Polônia em 1942 — sua última referência documentada.

Educação

De 1889 a 1893, Kafka frequentou a escola primária para garotos Deutsche Knabenschule German no Masný trh/Fleischmarkt (Mercado de Carne, em tradução literal), conhecido como Masná Street. Sua educação judaica terminou com a celebração de seu Bar Mitzvah, aos 13 anos. Kafka nunca gostou de frequentar a sinagoga e visitava-a somente nos quatro feriados do ano com seu pai. Após concluir a escola primária, em 1893, Kafka foi aceito no rigoroso ginásio clássico estadual, o Altstädter Deutsches Gymnasium, uma escola secundária acadêmica na Praça da Cidade Velha, no Kinský Palácio. O alemão era a língua de ensino, mas Kafka também falava e escrevia em tcheco; estudou a língua no ginásio, por oito anos, conquistando boas notas. Apesar de ter recebido elogios pelo seu tcheco, nunca se considerou fluente no idioma, mesmo que falasse em alemão com sotaque tcheco. Concluiu seus exames finais em 1901.

Emprego

Em 1 de novembro de 1907, Kafka foi contratado pela Assicurazioni Generali, uma companhia de seguros italiana, onde trabalhou por quase um ano. Sua correspondência durante esse período indica que essa sua primeira experiência com uma jornada de trabalho (das 08h00 às 18h00) o deixou bastante insatisfeito, o que dificultou sua concentração na escrita, que estava ganhando cada vez mais importância para ele. Em 15 de julho de 1908, demitiu-se. Duas semanas depois, encontrou um trabalho que lhe permitia melhores condições para a escrita no Instituto de Seguros por Acidentes de Trabalho do Reino da Boêmia. O emprego envolvia a investigação e a avaliação de compensação por danos pessoais para trabalhadores industriais; acidentes como a perda de dedos ou membros eram comuns na época. O professor de administração Peter Drucker credita Kafka pelo desenvolvimento do primeiro capacete de segurança civil enquanto trabalhava no Instituto de Seguros, apesar de essa afirmação não ser sustentada por nenhum documento da sua empregadora. Seus pais constantemente referiam-se ao trabalho de seu filho de oficial de seguros como "trabalho ganha pão", um trabalho feito apenas para pagar as contas; Kafka afirmava constantemente detestar seu serviço. Foi rapidamente promovido, e os seus deveres incluíam o processamento e a investigação das compensações exigidas, a escrita de relatórios e o comando de pedidos de negociantes que achavam que as suas empresas foram colocadas em uma categoria de risco muito alta, o que acabaria por custar-lhes mais nas compensações de seguro. Ele compilaria e comporia o relatório anual do instituto de seguros de todos os anos em que trabalhou ali. Os relatórios eram bem recebidos pelos seus superiores. Kafka geralmente saía do trabalho às 14h00, o que lhe dava tempo para gastar no seu trabalho literário, ao qual ele tornava-se cada vez mais ligado. O pai de Kafka também esperava que ele ajudasse a tomar conta da loja de fantasias da família. Nos seus últimos anos, a doença de Kafka muitas vezes o liberou do trabalho na investigação de seguros e na escrita dos seus relatórios. Anos mais tarde, Brod cunhou o termo Der enge Prager Kreis ("O Círculo Íntimo de Praga") para descrever o grupo de artistas em que estavam incluídos Kafka, Felix Weltsch e ele.

Vida privada

Kafka teve uma vida sexual ativa. De acordo com Brod, Kafka era "torturado" pelo desejo sexual e o biógrafo de Kafka, Riner Stach, coloca que sua vida era afetada por "uma atitude incessante de mulherengo" e que ele tinha medo de "um fracasso sexual". Visitou bordéis na maior parte de sua vida adulta e tinha interesse por pornografia. Além do mais, ele manteve relações íntimas com diversas mulheres durante sua vida. Em 13 de agosto de 1912, Kafka conheceu Felice Bauer, uma parente de Brod, que trabalhou em Berlim como uma representante de uma empresa de ditafone. Uma semana depois do encontro, na casa de Brod, Kafka escreveu no seu diário: Pouco depois disso, Kafka escreveu o conto O Julgamento em apenas uma noite, e trabalhou em um período produto em Der Verschollene (O Desaparecido) e Die Verwandlung (A Metamorfose). Kafka e Felice Bauer comunicaram-se basicamente por cartas durante os próximos cinco anos, encontraram-se ocasionalmente e noivaram duas vezes. As extensas cartas de Kafka para ela foram publicadas em Brife an Felice (Cartas para Felice); as cartas dela não foram conservadas. De acordo com os biógrafos Stach e James Hawes, por volta de 1920 Kafka estava noivo pela terceira vez, desta vez de Julie Wohryzek, uma camareira pobre e com pouca instrução. Apesar de os dois terem alugado um apartamento e marcado uma data para o casamento, a cerimônia nunca chegou a ocorrer. Durante esse período Kafka começou um esboço da sua Carta ao Pai, que era contra Julie por causa das suas crenças sionistas. Antes da data do casamento, ele ligou-se a outra mulher. Ao mesmo tempo em que precisava de mulheres e sexo na sua vida, tinha pouca autoestima, sentia-se sexualmente sujo e era tímido — principalmente sobre o seu corpo.

Personalidade

Kafka temia que as pessoas achassem-no repulsivo física e mentalmente. No entanto, aqueles que conheciam-no percebiam que ele possuía um comportamento quieto e agradável, uma inteligência óbvia e um senso de humor seco; também achavam-no juvenilmente bonito, apesar de sua aparência austera. Brod comparou Kafka a Heinrich von Kleist, observando que ambos os escritores tinham a habilidade de descrever realisticamente uma situação com detalhes precisos. Brod achava Kafka uma das pessoas mais divertidas que conheceu; Kafka gostava de se divertir com seus amigos, e também ajudava-os em situações difíceis com bons conselhos. De acordo com Brod, ele era um recitador apaixonado, capaz de falar seu discurso como se fosse música. Brod sentia que dois dos traços mais distintos de Kafka eram "veracidade absoluta" e "conscienciosidade exata". Ele explorava o detalhe, o imperceptível, o profundo com tanto amor e precisão que as coisas vinham à tona de uma forma inimaginável, parecendo estranhas mas não passando da pura verdade.

Visões políticas

Antes da Primeira Guerra Mundial, Kafka assistiu a diversos encontros do Klub Mladých, uma organização anarquista, antimilitarista e anticlerical. Hugo Bergmann, que frequentou as mesmas escolas elementares e primárias, desentendeu-se com Kafka durante seu último ano acadêmico (1900–1901) porque "o socialismo [de Kafka] e o meu sionismo eram muito acentuados". "Em 1898 Franz tornou-se um socialista, eu tornei-me um sionista. As sínteses do sionismo e do socialismo ainda não existiam". Bergmann sustenta que Kafka vestiu um cravo rosa na escola para mostrar o seu apoio ao socialismo. Em uma passagem em seu diário, Kafka fez uma referência ao influente anarquista e filósofo Piotr Kropotkin: "Não esqueça Kropotkin!" Mais tarde ele disse, referindo-se aos anarquistas tchecos: "Eles, irrepreensivelmente, buscam compreender a felicidade humana. Eu os entendo. Mas... era incapaz de continuar marchando ao seu lado por muito tempo".

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Obra

Toda a obra publicada de Kafka, com exceção de algumas cartas que escreveu em tcheco para Milena Jesenská, foi escrita em alemão. O pouco que foi publicado em sua vida atraiu pouca atenção pública. Kafka não terminou nenhum de seus romances maiores e queimou cerca de 90% da sua própria obra, grande parte durante o período em que viveu em Berlim com Diamant, que ajudou-lhe a queimar os rascunhos. Nos seus primeiros anos como escritor, ele foi influenciado por von Kleist, cuja obra ele descreveu em uma carta a Bauer como assustadora e a quem ele considerava mais próximo que sua própria família.

Contos

As primeiras obras publicadas de Kafka foram oito contos que apareceram em 1908 na primeira edição do jornal litário Hyperion, sob o título de Contemplação. Escreveu o conto Descrição de uma Luta em 1904; mostrou-o a Brod em 1905, que aconselhou-o a continuar a escrever e o convenceu a enviá-lo ao Hyperion. Kafka publicou um excerto em 1908 e duas seções na primavera de 1909, tudo em Munique. Em um repente criativo na noite de 22 de setembro de 1912, Kafka escreveu o conto O Veredicto e o dedicou a Felice Bauer. Brod notou a similaridade entre os nomes do protagonista principal e da sua noiva fictícia, Georg Bendemann e Frieda Brandenfeld, aos de Franz Kafka e Felice Baeur. O conto é frequentemente considerado a obra de avanço para a escrita de Kafka. Trata da relação conturbada de um filho e seu pai dominante, a qual enfrenta uma nova fase após o noivado de seu filho. Kafka mais tarde revelou estar escrevendo em "completa abertura de corpo e alma" um conto que "desenvolveu-se em um nascimento verdadeiro, coberto de sujeira e lodo". O conto foi publicado primeiramente em Leipzig em 1912 e dedicado "à senhorita Felice Bauer" e em edições subsequentes "a F.".

Romances

Kafka começou o projeto para seu primeiro romance em 1912; seu primeiro capítulo é o conto O Foguista. Kafka intitulou a obra, que permaneceu inacabada, de O Desaparecido, mas Brod o publicou, após a morte de Kafka, sob o título de Amérika. A inspiração para o romance veio da apresentação teatral iídiche que ele assistiu no último ano e que levou-o a uma nova percepção sobre sua origem — o que, por sua vez, fez com que ele passasse a acreditar que dentro de cada um vive uma apreciação inata de sua origem. Com um humor mais explícito e um estilo um pouco mais realista do que os encontrados na maior parte das obras de Kafka, o romance tem como base para sua trama um sistema opressivo e intocável que coloca repetidamente o protagonista em situações bizarras. Contém muitos detalhes de experiências vividas por parentes de Kafka que emigraram para a América e é a única obra para a qual Kafka destinou um final otimista.

História de publicação

Os contos de Kafka foram primeiro publicados em periódicos literários. Seus oito primeiros contos foram publicados na primeira edição, de 1908, da revista bimensal Hyperion. Franz Bei, amigo de Kafka, publicou dos diálogos em 1909 que viriam a se tornar parte da Descrição de uma Luta. Um trecho do conto Os Aviões em Brescia, escrito em uma viagem à Itália para Brod, apareceram no jornal Bohemia em 18 de setembro de 1909. Em 27 de março de 1910, vários contos que mais tarde integrariam a coleção Contemplação foram publicados na edição especial de Páscoa do Bohemia. Em 1913, em Leipzig, Brod e o editor Kurt Wolff colocaram O Veredicto. Um Conto por Franz Kafka no seu anuário de poesia Arkadia. O conto Diante da Lei foi publicado na edição comemorativa de ano-novo de 1915 do semanário judeu independente Selbstwehr; foi reimpresso em 1919 como parte da coleção de contos Um Médico Rural e tornou-se parte do romance O Processo. Outros contos foram editados em diversas publicações, incluindo a Der Jude, revista de Brok, o jornal Prager Tagblatt e os periódicos Die neue Rundschau, Genius e Prager Presse.

Traduções em Portugal

O interesse pela obra de Kafka em Portugal aumentou em sequência com o restante de Europa, sendo o escritor primeiro foco de ensaios e depois de traduções: o primeiro texto de Kafka traduzido para o português de que se tem notícia foi publicado em Portugal, o conto A porta da lei, na revista Mundo Literário, traduzido por Adolfo Casais Monteiro. Uma publicação em livro, no entanto, só foi acontecer mais de uma década depois: A muralha da China, em Antologia do conto moderno, traduzida por João Gaspar Simões e publicada pela editora Arcádia em 1958; seguida por O caçador Gracchus em 1959, em Os melhores contos fantásticos, por Eurico da Costa.

Traduções no Brasil

Apesar de traduções de Kafka para o português terem sido publicadas no Brasil somente a partir da década de 1950, sua obra já gerava interesse no público especializado, que recorria aos originais alemães ou a traduções em outros idiomas: em 1942 o primeiro ensaio sobre Kafka no Brasil foi lançado, Franz Kafka e o mundo invisível, de Otto Maria Carpeaux; e em 1952 o ensaio Kafkiano foi publicado no jornal Diário Carioca. As primeiras obras de Kafka traduzidas no Brasil foram publicadas a partir da segunda metade da década de 1950, começando em 1956 com Metamorfose em tradução de Brenno Silveira, pela editora Civilização Brasileira. A tradução foi feita a partir do inglês e não obteve grande popularidade de público, sendo referenciada somente por alguns meios da época. A segunda obra traduzida para o português foi o conto O artista do trapézio, publicado pela editora Cultrix e feita por um tradutor desconhecido, provavelmente do inglês.

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Estilo

O poeta W. H. Auden chamou Kafka de "o Dante do século XX"; o romancista Vladimir Nabokov colocou-o entre os maiores escritores do século XX. Gabriel García Márquez comentou que a leitura de A Metamorfose lhe mostrou que "era possível escrever de uma forma diferente". O tema central da obra de Kafka, demonstrado pela primeira vez no conto O Julgamento, é o conflito entre pai e filho: a culpa sentida pelo filho é aliviada através do sofrimento e da reparação. Outros temas e arquétipos importantes incluem alienação, brutalidades física e psicológica, personagens com missões aterrorizantes e transformações místicas. O estilo de Kafka foi comparado ao de Heinrich von Kleist ainda em 1916, em uma resenha de A Metamorfose e O Foguista, por Oscar Walzel no Berliner Beiträge. A natureza da prosa de Kafka também abre espaço para diversas interpretações e os críticos já a colocaram em inúmeras escolas literárias. Os marxistas, por exemplo, já tiveram grandes desentendimentos sobre como interpretar as obras de Kafka. Alguns acusaram-no de distorcer a realidade, enquanto outros afirmam que ele estava criticando o capitalismo. A desesperança e o absurdo comuns em suas obras são vistos como simbolismos existencialistas. Alguns dos livros de Kafka são influenciados pelo expressionismo, apesar de a maior parte de sua produção literária ser associada com o gênero experimental do modernismo. Kafka também explora a questão dos conflitos do homem com a burocracia. Wiliam Burrows afirma que o foco da obra de Kafka são os conceitos de luta, dor, solidão e a necessidade de relações. Outros, como Thomas Mann, veem a obra de Kafka como uma alegoria religiosa: uma missão, metafísica por natureza, para Deus.

Temas

De acordo com Gilles Deleuze e Félix Guattari, os temas de alienação e perseguição, apesar de presentes na obra de Kafka, têm sido superestimados pelos críticos. Eles argumentam que a obra de Kafka é mais cautelosa e subversiva — e mais divertida — do que pode parecer à primeira vista. Eles ressaltam que ler a sua obra focando na futilidade das lutas dos personagens revela a jogada humorística de Kafka; ele não está necessariamente comentando sobre os próprios problemas, e sim mostrando como as pessoas tendem a inventar problemas. Em sua obra, Kafka muitas vezes cria mundos absurdos e cruéis. Kafka lia para seus amigos esboços das suas obras, tendo tido o costume de focar nas partes prosaicamente humorísticas. O escritor Milan Kundera sugere que o humor surrealista de Kafka seja uma inversão do estilo de Dostoiévski, que apresentou personagens punidas por algum crime. Na obra de Kafka, uma personagem é punida mesmo que nenhum crime tenha sido cometido. Kundera acredita que as inspirações de Kafka para as suas situações características vieram tanto por crescer em uma família patriarcal quanto por viver em um Estado totalitário.

Problemas de tradução

Kafka muitas vezes utilizou-se de uma característica particular da língua alemã com a qual pode-se escrever livremente longas frases, as quais podem chegar até a uma página de extensão. Dessa forma as frases de Kafka impactam o leitor antes mesmo de serem concluídas — sendo o fim o foco e o significado. Isso ocorre graças à construção das orações subordinadas no alemão, que requere que o verbo seja colocado ao fim da frase. Essas características são de difícil tradução não só para o português como para diversas outras línguas, como o inglês, o que faz com que o tradutor precise buscar uma característica linguística com um efeito pelo menos parecido com o encontrado no texto original. A ordem sintática alemã oferece diversas formas de traduzir-se. Um exemplo é a primeira frase de A Metamorfose, crucial para o entendimento de toda a história:

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Legado

"Kafkiano"

A escrita de Kafka inspirou a criação do termo "kafkiano", usado tanto em português como em outras línguas para descrever conceitos e situações que remetem à sua obra, principalmente O Processo e A Metamorfose. Entre os exemplos de situações usadas estão momentos quando a burocracia subjuga as pessoas, geralmente de forma surreal, evocando distorção, falta de sentido e impossibilidade de ajuda. Personagens em uma cena kafkiana geralmente carecem de autossuficiência para escapar das situações labirínticas. Elementos kafkianos muitas vezes aparecem em obras existencialistas, mas o termo ultrapassou o meio literário e também é usado em ocorrências reais que são incompreensíveis, complexas, bizarras ou ilógicas.

Celebrações

Foi fundado em Praga o Museu de Franz Kafka, dedicado à vida e obra do escritor. Um dos destaques do museu é a exposição Město K. Franz Kafka a Praha (A Cidade de K. Franz Kafka e Praga, em tradução literal), que foi primeiro mostrada ao público em Barcelona, em 1999, depois mudada para o Museu Judeu em Nova Iorque e afinal colocada em 2005 em Praga, no distrito de Malá Strana, ao lado do Rio Moldava. Nela estão diversas fotos e documentos originais da vida de Kafka, com a intenção, segundo o museu, de imergir o visitante no que seria o mundo em que o escritor viveu e sobre o qual escreveu. O Prêmio Franz Kafka é um prêmio literário anual patrocinado pela Sociedade de Franz Kafka e pela Cidade Praga, fundado em 2001. Sua função, de acordo com a premiação, é promover a literatura como "uma contribuição humanística à tolerância cultural, nacional, linguística e religiosa, com seus personagens eternos, sua validade humana e sua capacidade de deixar um testemunho sobre nosso tempo". O comitê de seleção e os indicados são formados por pessoas de todo o mundo, mas são limitados a escritores vivos que tenham publicado pelo menos uma obra em tcheco. O vencedor leva $ 10 000, um diploma e uma estátua de bronze em uma cerimônia realizada na Cidade Velha no feriado tcheco do fim de outubro.

Influência de Kafka

Ao contrário de outros escritores famosos, Kafka raramente é citado. Ao invés disso ele recebe mais destaque por suas visões e perspectiva. Shimon Sandbank, um professor e escritor, afirma que Kafka influenciou Jorge Luis Borges, Albert Camus, Èugene Ionesco, J. M. Coetzee e Jean-Paul Sartre. Um crítico literário do jornal Financial Times credita Kafka como uma das influências de José Saramago, e Al Silverman, um escritor e editor, comentou que J. D. Salinger adorava ler as obras de Kafka. Em 1999, um comitê composto por 99 escritores, acadêmicos e críticos literários colocaram O Processo e O Castelo como o segundo e o nono, respectivamente, romances mais importantes em língua alemã do século XX. Sandbank afirma ainda que, apesar da difusão da obra de Kafka, seu estilo enigmático ainda precisa ser levado à frente. Neil Christian Pages, um professor de alemão e literatura na Universidade de Binghamton que especializou-se na obra de Kafka, diz que a influência de Kafka transcende os meios literários e impacta também as artes visuais, a música e a cultura popular. Harry Steinhauer, um professor de literatura alemã e judaica, diz que Kafka "teve maior impacto no meio literário que qualquer outro escritor do século XX". Brod disse que o século XX ainda será conhecido como o "século de Kafka".

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Lista de obras

Lista dos principais escritos literários de Franz Kafka:

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Fontes consultadas

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