Josefa de Óbidos
Josefa de Ayala Figueira, mais conhecida como Josefa de Óbidos, foi uma pintora do Barroco Português reconhecida principalmente por suas obras de temática religiosa e suas naturezas-mortas.
Era filha de Baltazar Gomes Figueira — pintor proto-barroco português —, vai para Sevilha decorrente de sua carreira militar, onde veio a conhecer Catarina de Ayala Camacho Cabrera Romero, natural da Andaluzia. Pouco tempo depois, Baltazar vem a ser liberado da carreira para exercer o ofício da pintura. Retornam de Sevilha para Portugal em 1634 quando Josefa tinha, aproximadamente, 6 anos de idade e vão morar em Peniche, onde Baltazar produz algumas obras para as igrejas locais. Mais tarde se mudam para Óbidos, mais precisamente na Quinta da Capeleira, onde residem até a morte de ambos. Ali a menina se educou, manifestando desde cedo vocação para a pintura e para a gravura em metal, em lâminas de cobre e prata, num género denominado como pontinho. Foi apadrinhada pelo célebre pintor sevilhano Francisco Herrera, El Viejo, com quem nem Josefa de Ayala, nem seu pai compartilham características nos estilos do ofício.
Josefa de Óbidos foi estimável pintora de naturezas-mortas, cordeiros pascais, pinturas para culto doméstico, cobres e retábulos religiosos, além de gravurista. Sua carreira lhe concedeu grande notoriedade, tendo duração de 38 anos, de 1646 a 1684, período em que produziu mais de 100 obras, em sua maioria assinadas e datadas. De todas as temáticas retratadas pela artista destaca-se principalmente a religiosa, contabilizando sozinha sessenta e sete pinturas e três gravuras e vinte e sete pinturas e uma gravura com temáticas cotidianas. A educação em Portugal durante o século XVII se voltou principalmente para a formação do homem, justaposta aos princípios religiosos educativos: "Alicerçada pela Coroa e pela Inquisição, a educação se manifestou na cultura iconoclasta por meio da estética do Barroco, promovendo a arte catequética e, consequentemente, educativa. Constatamos, também, que o valor almejado, a salvação, repercute diretamente nas interpretações iconográficas do Barroco, proporcionando uma carga dramática às imagens, contrastes estratégicos e receitas pictóricas que amparam os interesses da Igreja"
Na obra de 1673, O menino Jesus Salvador do Mundo, é possível encontrar uma cercadura de flores recorrentes nas imagens de Josefa de Óbidos, onde Jesus aparece coberto por uma túnica de renda e sandálias estilizadas, remetendo a uma criança possivelmente nobre — divergente da realidade na história da figura. O esplendor, os preciosismos, o exagero dos detalhes, os atavios, fazem parte da estética barroca, que valorizam as personagens, ressignificando a consciência que o observador tem da figura representada, pois o Menino Jesus não podia parecer uma criança qualquer. A presença do açúcar em suas naturezas-mortas representa a riqueza, a especiaria estava diretamente atrelada ao poder econômico e consequentemente, à ascensão da classe mercantil que passou a comercializar esse recurso. Desse modo, ter em posse obras de natureza-morta com representação de doces, pode ser uma forma de comunicar a ascensão a um novo cenário financeiro e assim, a atenção a fartura e a exuberância, além de repletas de preciosismos, remetem exatamente ao estilo de Josefa de Óbidos.
Tendo em conta as diversas limitações aos movimentos das mulheres e à sua educação, era necessário que uma conjuntura muito favorável integrasse suas vidas para que os seus eventuais talentos fossem identificados. No caso de Josefa de Óbidos, a mesma era filha de um artista, que a incentivou no ofício. Além disto, visto que o analfabetismo feminino era generalizado, os conventos funcionavam como o único espaço onde as mulheres poderiam receber uma educação básica. Apesar de sua vivência no convento, as barreiras sobre as mulheres em obter uma formação completa dificultou-lhe a escolha de temas onde, por exemplo, o estudo do corpo humano era mais proeminente — como acontecia nas pinturas históricas e religiosas de grandes dimensões. De outro modo, corresponderam a uma maior concentração feminina em gêneros como o retrato, a pintura religiosa de pequeno formato e a natureza-morta. É somente em 1997 que Josefa de Óbidos vem a ser objeto de uma exposição individual fora de Portugal, mas agora em Washington no Museu Nacional de Mulheres Artistas, com um catálogo em língua inglesa. Esta exposição foi organizada por Vitor Serrão e contou com o apoio de várias entidades e instituições portuguesas.


