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Hesíodo

Hesíodo foi um poeta oral grego da Antiguidade, geralmente tido como tendo estado em atividade entre 750 e 650 a.C. Sua poesia é a primeira feita na Europa na qual o poeta vê a si mesmo como um tópico, um indivíduo com um papel distinto a desempenhar. Autores antigos creditavam a ele e a Homero a instituição dos costumes religiosos gregos, e os acadêmicos modernos referem-se a ele como uma das principais fontes para a religião grega, as técnicas agriculturais, o pensamento econômico, a astronomia grega arcaica e o estudo do tempo.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 26/07/2026
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Biografia

As datas precisas de sua vida são uma questão contestada nos círculos acadêmicos, e foram abordadas na seção Datas. A narrativa épica não permitia a poetas como Homero qualquer oportunidade para revelações pessoais, porém a obra existente de Hesíodo abrange também poemas didáticos, e nestes o autor desviou-se de sua trajetória para compartilhar com o público alguns detalhes de sua vida, incluindo três referências explícias, no Trabalhos e Dias, além de em algumas passagens da Teogonia, que permitem que algumas inferências sejam feitas. No primeiro, o leitor fica sabendo que o pai de Hesíodo era originário de Cime, na Eólia, litoral da Ásia Menor, ao sul da ilha de Lesbos, e atravessou o mar para fixar-se num vilarejo, nas proximidades de Téspias, na Beócia, chamada Ascra, "uma aldeia amaldiçoada, cruel no inverno, penosa no verão, jamais agradável" (Trabalhos, l. 640). O patrimônio de Hesíodo no local, um pequeno pedaço de terra no sopé do Monte Hélicon, foi responsável por processos judiciais com seu irmão, Perses, que parece ter inicialmente se apossado indevidamente da parte devida a Hesíodo graças a autoridades (ou "reis") corruptos, porém mais tarde acabou ficando pobre e sobrevivendo às custas do poeta, mais precavido (Trabalhos l. 35, 396). Ao contrário de seu pai, Hesíodo evitava viagens marítimas, embora tenha cruzado certa vez o estreito que separa a Grécia continental da ilha de Eubeia para participar nos ritos fúnebres de um certo Átamas de Cálcis, onde conquistou um tripé após participar de uma competição de canto. Também descreveu um encontro entre ele próprio e as Musas, no Monte Hélicon, onde ele havia levado suas ovelhas para pastar, quando as deusas lhe presentearam com um ramo de louros, símbolo de autoridade poética (Teogonia, ll. 22–35). Por mais fantasioso que isto pareça, o relato levou estudiosos antigos e modernos a deduzir a partir dele que Hesíodo não era capaz de tocar a lira, ou não havia sido treinado profissionalmente para tocá-la, do contrário ele teria recebido um instrumento de presente no lugar do cajado.[nota 1]

Datas

Os gregos do fim do século V e início do século IV a.C. consideravam como seus poetas mais antigos Orfeu, Museu, Hesíodo e Homero — nesta ordem. Posteriormente, os autores gregos passaram a considerar Homero mais antigo que Hesíodo. Admiradores de Orfeu e Museu provavelmente eram responsáveis pela precedência dada a estes dois heróis cultuados, e talvez os homéridas tenham sido responsáveis, posteriormente, por 'promover' Homero às custas de Hesíodo. Os primeiros autores conhecidos a situar Homero antes, cronologicamente, que Hesíodo foram Xenófanes e Heráclide Pôntico, embora Aristarco da Samotrácia tenha sido o primeiro a argumentar a favor da teoria. Éforo descreveu Homero como um primo mais novo de Hesíodo; Heródoto (Histórias, 2.53) evidentemente os considerava como quase contemporâneos, e o sofista Alcídamas, do século IV a.C., em sua obra Mouseion, representou-os atuando junto numa competição poética (agon) fictícia, que sobrevive atualmente como Competição entre Homero e Hesíodo. A maior parte dos estudiosos de hoje em dia concordam com a antecedência de Homero, porém existem bons argumentos de ambos os lados.

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Obra

Três obras atribuídas a Hesíodo por comentaristas antigos sobreviveram: Os Trabalhos e os Dias (ou As Obras e os Dias), a Teogonia e O Escudo de Héracles (embora exista alguma dúvida a respeito da autoria deste último, tido por alguns estudiosos como sendo do século VI AEC). Outras obras atribuídas a ele existem apenas na forma de fragmentos. As obras e fragmentos existentes foram todos escritos na língua e na métrica convencional da poesia épica. Alguns autores antigos chegaram a questionar a autenticadade da Teogonia (Pausânias, 9.31.3), embora o autor cite a si mesmo pelo nome no poema (verso 22). Embora sejam diferentes em diversos aspectos, a Teogonia e Os Trabalhos e os Dias partilham uma prosódia, uma métrica e uma linguagem característica, que o distinguem sutilmente da obra de Homero e do Escudo de Héracles. (ver O grego de Hesíodo). Além disso, ambos se referem à mesma versão do mito de Prometeu. Ambos os poemas, no entanto, podem conter interpolações; os primeiros dez versos do Trabalhos e Dias, por exemplo, podem ter sido apropriados de um hino órfico a Zeus.

Teogonia

A Teogonia costuma ser considerada a primeira obra de Hesíodo. Apesar da diferença no tema principal abordado neste poema e nos Trabalhos e Dias, a maior parte dos estudiosos - com algumas exceções notáveis, como Hugh G. Evelyn-White - acredita que as duas obras foram escritas pelo mesmo homem. Como escreveu o classicista e filólogo inglês Martin Litchfield West, "ambos trazem a marca de uma personalidade distinta: um homem do campo rústico, conservador, propenso à reflexão, que não amava as mulheres ou a vida, e que sentia o peso da presença dos deuses sobre si." A Teogonia fala das origens do mundo (cosmogonia) e dos deuses (teogonia), desde seus inícios com Caos, Gaia e Eros, e mostra um interesse especial na genealogia. Dentro da mitologia grega permaneceram fragmentos de contos extremamente variados, o que aponta à rica variedade mitológica que existia, variando de cidade para cidade; porém a versão de Hesíodo destas antigas histórias acabou por se tornar, de acordo com o historiador Heródoto, do século V a.C., a versão aceita que unia todos os helenos.

Os Trabalhos e os Dias

Os Trabalhos e os Dias (também traduzido para o português como As Obras e os Dias) é um poema de mais de 800 versos que aborda duas verdades gerais: o trabalho é a sina universal do Homem, porém aquele que estiver disposto a trabalhar sobreviverá. Estudiosos interpretaram esta obra, ao longo do tempo, diante de um cenário de uma crise agrária na Grécia continental, que teria inspirado uma onda documentada de colonizações, em busca de novas terras. Este poema é uma das primeiras meditações sobre o pensamento econômico. A obra apresenta as cinco Eras do homem, além de conter conselhos e recomendações, prescrevendo uma vida de trabalho honesto, atacando a ociosidade e juízes injustos (como aqueles que decidiram a favor de Perses), bem como a prática da usura. Descreve seres imortais que vagariam pela terra, cuidando da justiça e da injustiça. O poema fala do trabalho como fonte de todo o bem, na medida em que tanto os deuses quanto os homens desprezam os ociosos, que seriam como zangões numa colmeia.

Outras obras

Além da Teogonia e de Trabalhos e Dias, diversos outros poemas foram atribuídos a Hesíodo durante a Antiguidade. Acadêmicos modernos têm duvidado, no entanto, de sua autenticidade, e estas obras normalmente são referidas como parte do "Corpus Hesiódico", independentemente de sua verdadeira autoria. A situação foi resumida pelo classicista Glenn Most: "'Hesíodo' é o nome de uma pessoa; 'hesiódico' é uma designação para um tipo de poesia, que inclui mas não se limita aos poemas cuja autoria pode ser creditada com segurança ao próprio Hesíodo." Destas obras que compõe o corpus hesiódico estendido, apenas o Escudo de Héracles (em grego: Ἀσπὶς Ἡρακλέους, Aspis Hērakleous) foi transmitido de maneira intacta através dos tempos, por intermédio de uma transcrição manuscrita medieval.

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Recepção e influência

O poeta lírico Alceu, compatriota e contemporâneo de Safo, parafraseou uma seção dos Trabalhos e Dias (582-88), reformatando-o na métrica lírica e passando para o dialeto lésbio. Resta apenas um fragmento da paráfrase. O poeta lírico Baquílides citou ou parafraseou Hesíodo numa ode de vitória endereçada a Hierão de Siracusa, comemorando a vitória do tirano na corrida de carruagens dos Jogos Píticos de 470 a.C.; a dedicatória dizia: "Um homem da Beócia, Hesíodo, ministro das [doces] Musas, falou assim: 'Aquele que os imortais homenageiam também conta com boa reputação entre os homens.'" Estas palavras, no entanto, não foram encontradas nas obras existentes de Hesíodo.[nota 3] O Catálogo de Mulheres de Hesíodo criou uma moeda para catálogos em forma de poemas durante o período helenístico. Teócrito, por exemplo, apresenta catálogos de heroínas em dois de seus poemas bucólicos (3.40–51 e 20.34–41), no qual ambas as passagens são recitadas por personagens de rústicos apaixonados.

Busto

O busto romano de bronze conhecido como Pseudo-Sêneca, datado do final do primeiro século a.C. e encontrado em Herculano, já não é mais considerado como retratando Sêneca, o Velho; a arqueóloga e historiadora da arte britânica Gisela Richter identificou-o como sendo um retrato imaginativo de Hesíodo. Já existiam, no entanto, suspeitas desde pelo menos 1813, quando uma herma com um retrato de Sêneca e feições muito diferentes foi encontrada. A maior parte dos estudiosos atualmente adota a identificação de Richter.[nota 4]

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O grego de Hesíodo

Hesíodo utilizou o dialeto convencional da poesia épica, que era o jônio. As comparações com Homero, ele próprio um jônio de nascimento, costumavam ser pouco lisonjeiras. O manuseio do hexâmetro dactílico da parte de Hesíodo não era tão magistral ou fluente quando o de Homero, e um estudioso moderno menciona seus "hexâmetros caipiras". Seu uso da língua e da métrica em Os Trabalhos e Dias e Teogonia o distingue do autor do Escudo de Héracles. Os três poetas, por exemplo, utilizaram de maneira inconsistente o digama, por vezes deixando que ele afetasse a métrica e a duração da sílaba, e por outras vezes não. A frequência da observância ou esquecimento do uso da letra varia entre eles. A extensão destas variações depende de como a evidência foi coletada e interpretada, porém existe uma tendência clara, revelada, por exemplo, no seguinte conjunto de estatísticas. Hesíodo não utiliza o digama com tanta frequência quanto os outros. O resultado é um pouco contraintuitivo, já que o digama ainda era uma característica do dialeto beócio, que Hesíodo provavelmente falava, e já havia desaparecido do vernáculo jônio de Homero. Esta anomalia pode ser explicada pelo fato de que Hesíodo fez um esforço consciente para compor como um poeta épico jônio, num período em que o digama não costumava mais ser ouvido na fala jônia, enquanto Homero tentava escrever como a geração antiga de bardos jônios, quando ele ainda podia ser ouvido na fala jônia. Também há uma diferença significativa entre os resultados obtidos na Teogonia e nos Trabalhos e Dias, porém isto se deve apenas ao fato de que a primeira obra apresenta um catálogo de divindades, e faz assim uso do artigo definido geralmente associado com o digama, oἱ ("os").

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Fontes consultadas

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