Guilherme IV do Reino Unido
Guilherme IV foi Rei do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda e Rei de Hanôver de 1830 até sua morte em 1837, sendo filho do rei Jorge III, Guilherme sucedeu a seu irmão mais velho, o rei Jorge IV, tornando-se o último rei e penúltimo monarca da Casa de Hanôver da Grã-Bretanha.
Guilherme Henrique nasceu nas primeiras horas do dia 21 de agosto de 1765 na Casa de Buckingham, Londres, sendo o terceiro filho do rei Jorge III e da rainha Carlota. Ele tinha dois irmãos mais velhos, Jorge e Frederico, e por essa razão não esperava-se que herdasse a coroa. Ele foi batizado em 20 de setembro de 1765 na Grande Câmara do Conselho no Palácio de St. James. Seus padrinhos foram seus tios paternos, o Duque de Gloucester e o príncipe Henrique (posteriormente o Duque de Cumberland), e sua tia paterna, a princesa Augusta, depois Duquesa de Brunsvique-Volfembutel. Ele passou a maior parte de sua infância entre Richmond e o Palácio de Kew, onde foi educado por professores particulares. Aos treze anos de idade, Guilherme entrou na Marinha Real como aspirante, estando presente na Batalha do Cabo de São Vicente em 1780. Suas experiências na marinha não foram muito diferentes dos outros aspirantes (mesmo com um professor o acompanhando nos navios); ele cozinhou e foi preso junto com seus colegas de tripulação depois de uma briga de bar em Gibraltar (ele foi imediatamente solto assim que sua identidade foi descoberta). Ele serviu em Nova Iorque durante a Guerra da Independência dos Estados Unidos. Enquanto o príncipe estava na América, George Washington aprovou um plano para sequestrá-lo, escrevendo "O espírito de comprometimento, tão visível em nosso plano para surpreendê-los em seus aposentos e trazer o príncipe Guilherme Henrique e o almirante Digby, merece aplausos; e você tem minha autoridade para realizar a tentativa em qualquer maneira, e em qualquer momento, que seu julgamento possa ditar. Estou plenamente convencido de que é desnecessário avisá-lo contra oferecer insulto ou indignidade às pessoas do Príncipe e do Almirante...". O plano não aconteceu; os britânicos ouviram rumores e colocaram guardas com o príncipe, que até aquele momento costumava andar pela cidade desacompanhado.
O recém-nomeado duque deixou a Marinha Real em 1790. Quando o Reino Unido declarou guerra contra a França em 1793, ele estava ansioso para servir seu país e esperava um comando, porém não recebeu nenhum navio, talvez porque havia quebrado um braço ao cair de uma escada bêbado ou por discursar contra a guerra na Câmara dos Lordes. Ele defendeu a guerra no ano seguinte, esperando novamente um comando após mudar de opinião, porém o Almirantado não respondeu ao seu pedido. Guilherme não perdeu as esperanças de ser nomeado para um posto ativo; entretanto, a patente de Almirante que recebeu em 1798 era puramente titular. Apesar de vários pedidos, ele nunca recebeu um comando durante as Guerras Napoleônicas. Em 1811, ele foi nomeado Almirante honorário da frota. Guilherme chegou perto do verdadeiro combate dois anos depois ao visitar tropas britânicas lutando nos Países Baixos. Ele ficou sob fogo enquanto assistia do campanário de uma igreja um bombardeio na Antuérpia. Uma bala perfurou seu casaco.
Começando em 1791, o Duque de Clarence viveu por vinte anos com a atriz irlandesa Dorothea Bland, conhecida como sra. Jordan; o título de "Sra." acredita-se veio no início de sua carreira para explicar as gravidezes inconvenientes e "Jordan" em referência ao rio Jordão, pois ela "atravessou as águas" entre a Irlanda e a Grã-Bretanha. Guilherme era parte da primeira geração a entrar na maturidade sob a Lei de Casamentos Reais de 1772, que proibia os descendentes de Jorge II de se casarem sem o consentimento do monarca ou, se acima de 25 anos, avisando com mais de um ano de antecedência o Conselho Privado. Vários dos filhos de Jorge III escolheram viver com as mulheres que amavam em vez de casarem. Os filhos mais jovens, incluindo Guilherme, não esperavam entrar na sucessão, que foi considerada garantida quando o Príncipe de Gales casou-se e teve uma filha, Carlota. Ele parecia gostar da sua vida doméstica. O duque comentou com um amigo, "A Sra. Jordan é uma criatura muito boa, bem doméstica e cuidadosa com seus filhos. Claro que, por vezes, é absurda e tem seus humores. Mas essas coisas existem em todas as famílias". O casal gostava de entretenimento, apesar de viver calmamente; Jordan escreveu em 1809: "Teremos uma casa cheia e feliz neste natal, isso é o que o querido duque gosta". O rei, um pouco puritano, estava aceitando a relação de seu filho com a atriz (embora recomendando reduzir pela metade sua mesada) e em 1797 criou a Casa Bushy para a família cada vez maior de Guilherme. O duque usou Bushy como residência principal até tornar-se rei. Sua casa em Londres, a Casa Clarence, foi construída entre 1825 e 1827 a partir do projeto de John Nash.
O Príncipe de Gales, irmão mais velho de Guilherme, era o Príncipe Regente desde 1811 em razão dos distúrbios mentais (ligados à porfiria) de Jorge III. Em 1820, o rei morreu, e a coroa ficou com o príncipe, que assim se tornou Jorge IV. Agora, Guilherme tornara-se o segundo na linha de sucessão, atrás apenas de seu irmão, Frederico, Duque de Iorque. Reformado desde o seu casamento, ele se alimentava frugalmente e sua única bebida era água de cevada aromatizada com limão. Seus dois irmãos mais velhos não tinham boa saúde e era considerada apenas um questão de tempo até que ele se tornasse rei. Guilherme, então com mais de sessenta anos, tornou-se herdeiro presuntivo em 1827 depois do falecimento do Duque de Iorque. Mais tarde naquele mesmo ano, George Canning, o Primeiro-Ministro, nomeou Guilherme para o posto de Lorde Grande Almirante, que estava em comissão (ou seja, era formado por um conselho em vez de um único indivíduo) desde 1709. No cargo, o duque teve vários conflitos com seu conselho, que era composto por vários oficiais do Almirantado Britânico. As coisas chegaram ao limite em 1828 quando o Lorde Grande Almirante foi para o mar com uma esquadra de navios sem avisar para onde iria, permanecendo longe por dez dias. O rei, através do primeiro-ministro, que nesse momento era Arthur Wellesley, 1.º Duque de Wellington, pediu a sua resignação; o Duque de Clarence obedeceu.
Início
Jorge IV morreu em 26 de junho de 1830 e o Duque de Clarence o sucedeu como Guilherme IV. Aos 64 anos de idade, até a ascensão do rei Charles III, em 2022, ele foi a pessoa mais velha a ter assumido o trono britânico. Diferentemente do irmão extravagante, era despretensioso e desencorajava pompa e cerimônia. Enquanto Jorge IV passava a maior parte do tempo no Castelo de Windsor, o novo rei era conhecido, principalmente no início de seu reinado, por caminhar desacompanhado em Londres ou Brighton. Guilherme era bem popular entre o povo, que o via como mais acessível e realista que seu predecessor. O rei imediatamente mostrou-se um trabalhador consciencioso. O primeiro-ministro, o Duque de Wellington, afirmou que havia discutido mais negócios com Guilherme IV em dez minutos do que com Jorge IV em vários dias. Henry Brougham o descreveu como um excelente homem de negócios, que fazia várias perguntas para ajudá-lo a entender a questão – enquanto Jorge IV temia fazer perguntas para não mostrar sua ignorância e Jorge III perguntava demais e não esperava pelas respostas.
Crise reformista
Na época, a morte de um monarca exigia novas eleições. Nas eleições gerais de 1830, os tories de Wellington perderam espaço para os whigs sob a liderança de Charles Grey, apesar de manterem o maior número de cadeiras. Com os tories divididos, Wellington foi derrotado na Câmara dos Comuns em novembro e Grey formou um novo governo. Grey defendia uma reforma no sistema eleitoral, que pouco havia mudado desde o século XV. As desigualdades no sistema eram enormes; por exemplo, cidades grandes como Manchester e Birmingham não elegiam membros (apesar de fazerem parte do eleitorado do condado), enquanto que pequenos distritos – conhecidos como distritos podres – como Old Sarum com apenas sete votantes, elegiam dois membros. Frequentemente, os distritos podres eram controlados por poderosos aristocratas, cujos indicados eram invariavelmente eleitos pelos constituintes – que na maioria das vezes eram seus inquilinos – especialmente porque o voto secreto ainda não era usado em eleições para o parlamento. Donos de terras que controlavam suas cadeiras até podiam vendê-las.
Política internacional
Guilherme não confiava em estrangeiros, particularmente em franceses, algo que ele reconheceu como um "preconceito". Também achava que a Grã-Bretanha não deveria interferir nos assuntos internos de outras nações, uma opinião que gerou um conflito com Palmerston, seu secretário do exterior intervencionista. O rei apoiava a independência belga e, depois de candidatos holandeses e franceses inaceitáveis, favoreceu o príncipe Leopoldo de Saxe-Coburgo-Gota, viúvo de sua sobrinha Carlota, como um candidato ao recém-criado trono. Guilherme, mesmo tendo a reputação de falta de tato e bufão, conseguia ser um diplomata astuto. Ele previu que a potencial construção de um canal em Suez seria benéfica para as relações entre o Reino Unido e o Egito. Mais tarde em seu reinado, Guilherme agradou o embaixador norte-americano durante um jantar ao anunciar que se arrependia de não ter "nascido um americano livre e independente, tanto que ele respeitava a nação, que deu à luz George Washington, o maior homem que já viveu". Ao exercer seu charme pessoal, o rei ajudou a reparar as relações anglo-americanas, que estavam muito danificadas desde o reinado de Jorge III.
Rei de Hanôver
Guilherme nunca visitou Hanôver como seu rei. Seu irmão, o príncipe Adolfo, Duque de Cambridge, serviu como vice-rei durante seu reinado e o de Jorge IV. A percepção pública na Alemanha era que o Reino Unido ditava a política hanoveriana. Este não era o caso. Em 1832, Klemens von Metternich promulgou leis que limitaram os movimentos liberais incipientes na Alemanha. Palmerston foi contra, procurando a influência de Guilherme para que o governo hanoveriano assumisse a mesma posição. Entretanto, o governo concordou com von Metternich para o desalento do ministro, e assim Guilherme não quis intervir. O conflito entre o rei e seu ministro voltou no ano seguinte quando von Metternich convocou uma conferência dos estados germânicos em Viena; Palmerston queria que Hanôver recusasse o convite. Em vez disso, o vice-rei aceitou e foi apoiado por Guilherme.
Últimos anos
Pelo restante do seu reinado, Guilherme efetivamente interferiu na política apenas uma vez, quando tornou-se o último soberano britânico a escolher um primeiro-ministro contra a vontade do parlamento. Em 1834, o ministério estava ficando cada vez mais impopular e Grey decidiu se aposentar; o Secretário de Assuntos Internos, William Lamb, 2.º Visconde Melbourne, o substituiu. Melbourne manteve a maioria dos membros do gabinete e seu ministério permaneceu com a grande maioria na Câmara dos Comuns. Porém, alguns membros do governo eram anátemas ao rei e as políticas cada vez mais esquerdistas o preocupavam. Grey, no ano anterior, já tinha apoiado um projeto de lei reformando a Igreja Protestante da Irlanda. A igreja coletava o dízimo por todo o país, apoiava muitos bispados e era rica. Entretanto, apenas um oitavo da população irlandesa pertencia a Igreja da Irlanda. Em algumas paróquias não havia nenhum membro, porém existia um padre pago com os dízimos recolhidos dos católicos e presbiterianos locais. Isso levou a acusações de que padres ociosos estavam vivendo na luxúria aos custos dos irlandeses vivendo na subsistência. O projeto de lei de Grey reduziu pela metade o número de bispados, aboliu algumas sinecuras e reformulou o sistema de dízimo. Outras medidas para apropriar as receitas excedentes da Igreja da Irlanda foram debatidas pelos membros mais radicais do governo, incluindo John Russell. O rei não gostava de Russell, chamando-o de "um radicalzinho perigoso".
O reinado de Guilherme IV foi curto, mas cheio de acontecimentos. A ascensão da Câmara dos Comuns e o correspondente declínio da Câmara dos Lordes foram marcados pela Crise da Reforma, em que a ameaça de lotar a câmara superior com pariatos foi usada de forma efetiva pela primeira vez. O enfraquecimento da Câmara dos Lordes continuou durante o século XIX, culminando no século XX com a aprovação da Lei Parlamentar de 1911. A mesma ameaça usada durante a Crise da Reforma – encher a câmara com a criação de vários novos pariatos – foi usada para obter sua aprovação. A diminuição da influência da coroa foi claramente indicada durante o reinado de Guilherme, especialmente com a destituição do ministério de Melbourne. A crise relacionada a saída de Melbourne também indicou a redução da influência do rei perante o povo. Durante o reinado de Jorge III, o rei poderia destituir um ministério, nomear outro, dissolver o parlamento e esperar que as pessoas votassem a favor da nova administração. Esse foi o caso na dissolução de 1784, após a destituição da Coalizão Fox-North, e em 1807, depois da destituição de William Wyndham Grenville, 1.º Barão Grenville. Entretanto, quando Guilherme IV destituiu o ministério de Melbourne, os tories de Robert Peel não conseguiram vencer as eleições seguintes. O poder do rei de influenciar a opinião do povo, assim como a política da nação, tinha sido reduzido. Nenhum dos sucessores de Guilherme tentou remover um governo e nomear outro contra a vontade do parlamento. O rei compreendeu que como um monarca constitucional ele não tinha poderes para agir contra a opinião do parlamento, afirmando, "Tenho minhas opiniões das coisas, e eu as digo aos meus ministros. Se eles não as seguem, não posso ajudar. Fiz meu dever".
Títulos e estilos
Seu título era: "Guilherme Quarto, pela Graça de Deus, do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, Rei, Defensor da Fé".
Brasões
Como filho de um soberano, Guilherme recebeu em 1781 permissão do uso das brasões reais (sem o escudo interior eleitoral no quartel hanoveriano), diferenciado por um lambel argento de três pés, com o pé do centro tendo uma cruz goles e os outros pés tendo cada um uma âncora azure. Como rei seus brasões eram de seus dois reinos, o Reino Unido e Hanôver, sobrepostos. Esquatrelado: I e IV goles, três leões passant guardant or em pala (pela Inglaterra); II or, um leão rampant dentro de um tressure flory-contra-flory goles (pela Escócia); III Azure, uma harpa or com cordas argento (pela Irlanda); em cima um escudo terciado em pala e em asna (por Hanôver), I goles, dois leões passant guardant or (por Brunsvique), II or, uma semé de corações goles, um leão rampant azure (por Luneburgo), III goles, um cavalo courant argente (por Vestfália); em cima um escudo interior goles com a coroa de Charlemagne em or, todo o escudo encimado por uma coroa.


