Guerra Russo-Ucraniana
Guerra Russo-Ucraniana é um conflito contínuo e prolongado que começou em fevereiro de 2014, envolvendo principalmente a Rússia, forças pró-russas e a Ucrânia; concentrada na península da Crimeia e partes do território de Donbas, que são internacionalmente reconhecidas como parte do território ucraniano. As tensões entre a Rússia e a Ucrânia explodiram especialmente de 2021 a 2022, quando ficou claro que a Rússia estava considerando lançar uma invasão militar da Ucrânia. Em fevereiro de 2022, a crise se aprofundou e as negociações diplomáticas para subjugar a Rússia falharam; isso aumentou quando a Rússia moveu forças para as regiões controladas pelos separatistas em 22 de fevereiro de 2022.
Ucrânia Independente e a Revolução Laranja
Após a dissolução da União Soviética (URSS) em 1991, a Ucrânia e a Rússia mantiveram laços estreitos. Em 1994, a Ucrânia assinou o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares e concordou em renunciar às armas nucleares na Ucrânia herdadas da União Soviética. Em contrapartida, a Rússia, o Reino Unido e os Estados Unidos concordaram em respeitar a integridade territorial e a independência política da Ucrânia por meio do Memorando de Budapeste sobre Garantias de Segurança. Em 1999, a Rússia foi uma das signatárias da Carta para a Segurança Europeia, que garante o direito de cada Estado “de escolher ou alterar seus arranjos de segurança” e de ingressar em alianças, se assim desejarem. Nos anos seguintes à dissolução da URSS, vários países do antigo Bloco do Leste aderiram à OTAN, em parte em resposta a ameaças à segurança regional envolvendo a Rússia, tais como a Crise Constitucional Russa de 1993, a Guerra na Abecásia (1992–1993) e a Primeira Guerra Chechena (1994–1996). Putin afirmou que as potências ocidentais quebraram promessas de não permitir a adesão de nenhum país da Europa Oriental.
Euromaidan e Revolução da Dignidade
No início de 2013, o parlamento ucraniano aprovou por ampla maioria a finalização de um acordo de livre comércio e associação com a União Europeia (UE). O Kremlin pressionou a Ucrânia a rejeitar esse acordo; a Rússia impôs embargo aos produtos ucranianos e ameaçou com sanções adicionais. O assessor do Kremlin, Serguei Glaziev, alertou que a Rússia poderia deixar de reconhecer as fronteiras da Ucrânia se o acordo fosse assinado. Isso desencadeou uma onda de protestos maciços, conhecidos como o "Euromaidan". Os manifestantes se opuseram à interferência russa, à corrupção governamental, ao abuso de poder e às violações dos direitos humanos, incluindo as novas leis anti-protesto.
Protestos Pró-Russos
Desde o final de fevereiro de 2014, manifestações de grupos pró-russos, separatistas e contrarrevolucionários ocorreram em várias cidades do leste e do sul da Ucrânia. Os primeiros protestos foram, em grande parte, expressões nativas de descontentamento com o novo governo ucraniano. Em 23 de fevereiro, o parlamento da Ucrânia aprovou um projeto de lei para revogar o status do russo como língua oficial do Estado. O projeto não foi promulgado, mas a proposta causou indignação nas regiões de língua russa da Ucrânia. Essas regiões consumiam majoritariamente mídia baseada na Rússia, que promovia a narrativa de que o novo governo ucraniano era uma “junta fascista” ilegítima e que os russos étnicos estavam em perigo iminente.
Euromaidan e revolução ucraniana
A Ucrânia foi tomada por distúrbios quando o presidente Viktor Ianukovytch se recusou a assinar um acordo de associação com a União Europeia, em 21 de novembro de 2013. Um movimento político organizado conhecido como 'Euromaidan' exigia laços mais estreitos com a União Europeia, bem como a destituição de Ianukovytch. Este movimento acabou por ser bem-sucedido, culminando na Revolução de Fevereiro de 2014, que removeu Ianukovytch e seu governo.
Instabilidade pós-revolução
Na sequência da destituição do presidente Ianukovytch em 23 de fevereiro, protestos de ativistas pró-russos e anti-revolução começaram na região majoritariamente russófona da Crimeia. Estes foram seguidos por manifestações em várias cidades do leste e do sul da Ucrânia, incluindo Donetsk, Luhansk, Carcóvia e Odessa. A partir do dia 26 de fevereiro, à medida que os protestos apertavam na Crimeia, homens armados pró-russos gradualmente começaram a tomar o poder sobre a península. A Rússia afirmou inicialmente que esses militantes uniformizados, chamados de "Homenzinhos verdes" na Ucrânia, eram "forças de autodefesa locais". No entanto, eles mais tarde admitiriam que estes eram, de fato, soldados russos sem insígnias, confirmando os relatos de uma incursão russa na Ucrânia. Em 27 de fevereiro, o edifício do parlamento da Crimeia foi tomado pelas forças russas. Bandeiras russas foram hasteadas sobre estes edifícios, e um governo pró-russo autodeclarado afirmou que iria realizar um referendo sobre a independência da Ucrânia. Na sequência deste referendo não reconhecido internacionalmente, que foi realizado em 16 de março, a Rússia anexou Crimeia em 18 de março.
Crise em Donbass em 2021-2022
Em finais de 2021, a Rússia começou a fazer movimentações ao longo da fronteira ucraniana. O governo ucraniano então pediu que seu país fosse incluído na OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) para evitar a invasão. Em 19 de dezembro, o governo dos Estados Unidos se disse pronto para iniciar conversações com o governo russo para discutir as "ações da Rússia". Washington então não acreditava que Putin fosse invadir o território ucraniano, mas o presidente Joe Biden advertiu que se isto acontecesse, haveria duras sanções econômicas. No dia 14 de janeiro, no entanto, o secretário de imprensa do Pentágono, John F. Kirby, disse que a Rússia havia enviado “um grupo de agentes” para a Ucrânia para fomentar um pretexto para outra invasão daquele país. Ele também disse que o Governo Biden ainda acreditava que havia espaço para resolver a situação com diplomacia. Naquela altura, a Rússia exigia que a Ucrânia não se tornasse membro da OTAN.
Guerra cibernética
No mês de fevereiro de 2022 o coletivo Anonymous declarou guerra contra a Rússia pela invasão da Ucrânia, o grupo fez uma série de ataques contra sites governamentais do país. A Rússia foi acusada por especialistas pela desestabilização de sites governamentais da Ucrânia. A empresa de segurança Kaspersky Lab entrou na mira dos governos dos Estados Unidos e Alemanha, os países acusam a empresa de ter relações com o governo Russo e de possíveis envolvimentos com ataques virtuais contra os países da Europa e Norte Americano, o governo Americano colocou a Kaspersky Lab na lista de banimentos e a Alemanha recomendou que empresas do seu país não utilizem o software da empresa.
Transbordamento
Em 19 de setembro de 2023, a CNN informou que era “provável” que as ucranianas Forças de Operações Especiais estivessem por trás de uma série de ataques com drones e de uma operação terrestre direcionada contra as Forças de Apoio Rápido (RSF) apoiadas por Wagner, perto de Cartum, em 8 de setembro. Kyrylo Budanov, chefe da Diretoria Principal de Inteligência do Ministério da Defesa da Ucrânia, afirmou em uma entrevista em 22 de setembro que não poderia negar nem confirmar a participação da Ucrânia no conflito no Sudão, mas disse que a Ucrânia puniria os criminosos de guerra russos em qualquer lugar do mundo. Em setembro e outubro de 2023, foi reportada a descoberta de uma série de fragmentos na Romênia, um Estado-membro da OTAN, os quais eram suspeitos de serem os restos de um ataque de drone russo próximo à fronteira romena com a Ucrânia.
Em agosto de 2012, o governo ucraniano de Mykola Azarov, que, assim como o então presidente ucraniano Viktor Ianukovytch, mantinha boas relações com a liderança russa, comissionou um consórcio incluindo a Exxon Mobil, a Royal Dutch Shell, a OMV Romênia e a estatal ucraniana NAK Nadra Ukrainy para extrair petróleo e gás natural na parte ucraniana do Mar Negro. Em 2013, a maior produtora de petróleo e gás da Itália, Eni, recebeu uma licença para extrair petróleo e gás na costa leste da Crimeia. Em 2014, foi reportado que, se a Crimeia fosse anexada, as licenças de produção poderiam ser reassinaladas e os detentores anteriores das licenças se encontrariam em uma zona cinzenta jurídica. Interesses econômicos também foram um motivo para o ataque da Rússia à Ucrânia e sua anexação dos oblasts de Donetsk, Kherson, Luhansk e Zaporíjia. Depósitos de Lítio no Donbas e a riqueza de grãos da Ucrânia significariam um “monopólio no mercado mundial” para a Rússia se ela tomasse o controle da Ucrânia.
Até 2014, a Ucrânia era a principal rota de trânsito para o gás natural russo vendido para a Europa, o que rendia à Ucrânia cerca de 3 bilhões de dólares por ano em taxas de trânsito, tornando-a o serviço de exportação mais lucrativo do país. Após o lançamento do gasoduto Nord Stream pela Rússia, que contorna a Ucrânia, os volumes de trânsito de gás diminuíram. Após o início da Guerra Russo-Ucraniana em fevereiro de 2014, tensões severas se estenderam ao setor de gás. O subsequente eclodir da guerra na região de Donbas forçou a suspensão de um projeto para desenvolver as próprias reservas de gás de xisto da Ucrânia no campo de gás de Iuzivska, que havia sido planejado como uma forma de reduzir a dependência ucraniana das importações de gás russo. Eventualmente, a Gazprom e a Ucrânia concordaram com um acordo de cinco anos sobre o trânsito do gás russo para a Europa no final de 2019. Em 2020, o gasoduto de gás natural TurkStream que liga a Rússia à Turquia alterou os fluxos regionais de gás no Sudeste da Europa, desviando o trânsito pela Ucrânia e o sistema do Gasoduto Trans-Balcânico.
O conflito entre Rússia e Ucrânia também incluiu elementos de guerra híbrida utilizando meios não tradicionais. A ciberguerra foi empregada pela Ciberataques russos em operações que incluem ataques bem-sucedidos à rede elétrica ucraniana em dezembro de 2015 e em dezembro de 2016, que foi o primeiro ciberataque bem-sucedido a uma rede elétrica, e o ataque em cadeia de hackers em junho de 2017, que os EUA afirmaram ter sido o maior ciberataque conhecido. Em retaliação, as operações ucranianas incluíram os Vazamentos de Surkov em outubro de 2016, que divulgaram 2.337 e-mails relacionados aos planos russos de tomar a Crimeia da Ucrânia e fomentar agitação separatista no Donbas. A guerra de informação russa contra a Ucrânia tem sido outra frente da guerra híbrida travada pela Rússia.
Propaganda e campanhas de desinformação russas
O Estado russo alega falsamente que o governo e a sociedade ucraniana são dominados pelo neonazismo, invocando a história da colaboração na Ucrânia ocupada pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Essas alegações nazistas são amplamente rejeitadas como falsas e fazem parte de uma campanha de desinformação para justificar a invasão. Alguns dos historiadores mais renomados do mundo sobre o nazismo e o Holocausto emitiram uma declaração rejeitando essas alegações, que foi assinada por centenas de outros historiadores e estudiosos do assunto. Nela consta: A Ucrânia possui uma ala extrema-direita marginal, como ocorre na maioria dos países, incluindo o Movimento Azov e o Right Sector, contudo, analistas afirmam que o governo russo e a mídia tradicional exageram significativamente o tamanho e a influência desses grupos.
Papel da Igreja Ortodoxa Russa na Ucrânia
A Igreja Ortodoxa Russa (Patriarcado de Moscou) e seu hierarca Patriarca Cirilo de Moscou têm demonstrado total apoio à guerra contra a Ucrânia. Oficialmente, a Igreja Ortodoxa Russa considera a invasão da Ucrânia como uma “[guerra santa]”. Durante o Conselho Mundial do Povo Russo em março de 2024, a Igreja Ortodoxa Russa aprovou um documento declarando que essa “guerra santa” seria para defender a “[Rússia Santa]” e proteger o mundo do globalismo e do Ocidente, que, segundo o documento, havia “caído no satã”. O documento ainda afirmava que toda a Ucrânia deveria passar a fazer parte da esfera de influência da Rússia, e que os ucranianos e os bielorrussos “devem ser reconhecidos apenas como subgrupo étnico dos russos”. Nenhum dos aproximadamente 400 bispos da Igreja Ortodoxa Russa na Rússia se manifestou contra a guerra. O Patriarca Cirilo também emitiu uma oração pela vitória na guerra.
Relações Rússia–OTAN
O conflito prejudicou as relações entre a Rússia e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), uma aliança defensiva de Estados europeus e norte-americanos. A Rússia e a OTAN cooperavam até que, em 2014, a Rússia anexou a Crimeia. Em seus discursos de fevereiro de 2022 para justificar a invasão da Ucrânia, Putin alegou falsamente que a OTAN estava aumentando sua infraestrutura militar na Ucrânia e ameaçando a Rússia, o que o teria forçado a ordenar a invasão. Putin alertou que a OTAN usaria a Ucrânia para lançar um ataque surpresa contra a Rússia. O Ministro das Relações Exteriores russo, Sergey Lavrov, caracterizou o conflito como uma guerra por procuração iniciada pela OTAN. Lavrov afirmou: “Não acreditamos que estejamos em guerra com a OTAN … Infelizmente, a OTAN acredita que está em guerra com a Rússia”.
Bases militares russas na Crimeia
Quando teve início a ocupação russa da Crimeia, a Rússia contava com cerca de 12.000 militares da Frota do Mar Negro em diversas localidades da península da Crimeia, como Sevastopol, Katcha, Hvardiiske, Raion de Simferopol, Sarytch e outros. Em 2005, eclodiu uma disputa entre Rússia e Ucrânia pelo controle do farol do cabo Sarych, próximo a Ialta, além de outros sinais de navegação. A presença russa foi autorizada pelo Tratado de Partilha do Status e Condições da Frota do Mar Negro (acordo de base e trânsito) firmado com a Ucrânia. Sob este acordo, o contingente militar russo na Crimeia estava limitado a um máximo de 25.000 tropas. A Rússia deveria respeitar a soberania da Ucrânia, acatar sua legislação, não interferir nos assuntos internos do país e apresentar seus “cartões de identificação militar” ao cruzar a fronteira internacional.
Legalidade e declaração de guerra
Nenhuma declaração de guerra formal foi emitida no atual conflito russo-ucraniano. Quando Putin anunciou a invasão russa da Ucrânia, ele afirmou iniciar uma “[operação militar especial]”, evitando assim uma declaração formal de guerra. Todavia, o governo ucraniano considerou essa afirmação como uma declaração de guerra e muitos veículos internacionais noticiaram dessa forma. Embora o parlamento ucraniano se refira à Rússia como um “Estado terrorista” em relação às suas ações militares na Ucrânia, a Ucrânia não emitiu, formalmente, uma declaração de guerra em seu nome. A invasão russa da Ucrânia violou o direito internacional (incluindo a Carta das Nações Unidas). A invasão também foi classificada como um crime de agressão segundo o direito penal internacional e segundo os códigos penais de alguns países – incluindo os da Ucrânia e da Rússia – embora existam obstáculos processuais para que ocorram condenações sob essas leis.


