Pesquisa · Mapa mental

Guerra da Orelha de Jenkins

A Guerra da Orelha de Jenkins ou Guerra do Asiento foi um conflito bélico ocorrido no Caribe, entre 1739 e 1748, durante o qual se enfrentaram as frotas e tropas coloniais da Grã-Bretanha e da Espanha.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 21/07/2026
01

Nomenclatura

O incidente que deu nome à guerra ocorreu em 1731, na costa da Flórida, quando o navio britânico Rebecca foi interceptado, e sua tripulação embarcada no barco-patrulha espanhol La Isabela, comandado por Juan de León Fandiño. Após o embarque, Fandiño acusou Robert Jenkins de contrabando e cortou sua orelha esquerda, dizendo: "Vá e diga ao seu rei que eu farei o mesmo com ele, se ele ousar fazer o mesmo que você". Em março de 1738, Jenkins recebeu ordem de testemunhar perante o Parlamento, presumivelmente para repetir sua história diante de um comitê da Câmara dos Comuns. Segundo alguns relatos, ele produziu a orelha decepada como parte de sua apresentação, embora não exista registro detalhado da audiência. O incidente foi considerado, juntamente com vários outros casos de "depredações espanholas contra súditos britânicos", como um insulto à honra da Grã-Bretanha e um claro casus belli. O conflito foi nomeado pelo ensaísta e historiador Thomas Carlyle, em 1858, cento e dez anos após o fim das hostilidades. Carlyle mencionou a orelha em várias passagens de sua History of Friedrich II (1858), mais notavelmente no livro XI, capítulo VI, onde se refere especificamente à "Guerra da orelha de Jenkins".

02

Causas

A conclusão da Guerra de Sucessão Espanhola, com o tratado de Utrecht não havia suposto unicamente o desmembramento do patrimônio da monarquia hispânica na Europa. Inglaterra, já Grã-Bretanha, à parte de ter evitado a criação de uma potência hegemônica no continente europeu (com a combinação das monarquias bourbônicas de França e Espanha, junto com as possessões da última no continente), conseguiu amplas concessões comerciais no império espanhol na América. Assim, à parte da possessão de Gibraltar e Minorca (territórios reclamados pela Espanha durante todo o século XVIII), a Grã-Bretanha obteve o denominado «direito de assento» (possibilidade de vender escravos negros na América hispana) durante trinta anos e a concessão do «navio permitido» (que permitia o comércio direto da Grã-Bretanha com a América espanhola pelo volume de mercadorias que pudesse transportar um barco), rompendo assim o monopólio para o comércio com a América espanhola, restringido pela Coroa a comerciantes provenientes da Espanha metropolitana. Ambos os acordos comerciais estavam aos auspícios da Companhia dos Mares do Sul.

03

A guerra

Desde agosto de 1746, começaram as negociações na cidade de Lisboa, em Portugal neutro, para tentar arranjar um acordo de paz. A morte de Filipe V da Espanha levou seu filho Fernando VI ao trono, e ele estava mais disposto a ser conciliador em relação às questões comerciais. No entanto, por causa de seus compromissos com seus aliados austríacos, os britânicos não conseguiram concordar com as exigências territoriais espanholas na Itália e as negociações fracassaram.

Puerto Bello

A primeira ação foi protagonizada pelo almirante Edward Vernon, que no comando de seis naves capturou e destruiu Puerto Bello (atual Portobelo, no Panamá), um centro de exportação de prata no Vice-reino de Nova Granada em novembro de 1739. O êxito foi enormemente magnificado pela nascente imprensa inglesa, a qual publicou toda classe de sátiras sobre as forças espanholas ao mesmo tempo que lançava louros a Vernon. Durante uma cena em honra a este a que assistiu o rei Jorge II da Inglaterra, em 1740, foi apresentado um novo hino criado para comemorar a vitória, que não é outro que o atual hino nacional britânico God Save the King. Um vestígio dessas celebrações pode ainda ser encontrado no mapa da cidade de Londres: a conhecida via Portobello Road, ainda que urbanizada na segunda metade do século XIX, deriva seu nome de uma granja situada anteriormente no lugar, e denominada Portobello Farm em comemoração dessa batalha.

Nueva Granada (a batalha de Cartagena)

A inesperada vitória em Puerto Bello (que não recuperaria sua importância portuária até a construção do Canal do Panamá) conduziu a uma troca nos planos britânicos. Ao invés de concentrar seu ataque seguinte sobre Havana com a intenção de conquistar Cuba, como era previsto, Vernon partiria outra vez para Nueva Granada para atacar Cartagena das Índias, porto principal do Vice-reino e ponto de partida principal da Frota das Índias até a Península Ibérica. Os britânicos reuniram, então, na Jamaica, a maior frota vista até então, composta por 186 naves (60 a mais que a famosa Grande Armada de Felipe II) a bordo das quais iam 2 620 peças de artilharia e mais de 27 mil homens, entre os que se incluíam 10 mil soldados britânicos encarregados de iniciar o assalto, 12,6 mil marinheiros, mil cataneiros escravos da Jamaica e 4 mil recrutas da Virgínia dirigidos por Lawrence Washington, meio-irmão do que seria o pai da independência dos Estados Unidos.

Cuba

Como já foi dito antes, os britânicos tinham eleito Cuba (a maior e mais importante das Antilhas com diferença) como uma de suas metas iniciais, mas o plano de conquistá-la estancou depois do êxito em Portobelo. Quando a frota de Vernon fracassou ao tentar tomar Cartagena das Índias e os britânicos se deram conta de que Nova Granada não estava tão mal defendida como inicialmente acreditavam, decidiram retomar o aprisionamento de Cuba. O plano inicial incluía a tomada de Santiago, onde seria estabelecida uma base para poder bloquear o Paso de los Vientos, situado entre Cuba e Hispaniola. Em 1 de julho de 1741 a frota de Vernon deixou a Jamaica e se dirigiu contra Santiago de Cuba, mas a presença de uma grande guarnição na cidade impediu tomá-la mediante um ataque direto. Em seu lugar, as naves se dirigiram até o leste e em 18 de julho desembarcaram na Baía de Guantánamo 3,4 mil soldados dirigidos pelo general George Wentworth. Entre eles, encontravam-se os sobreviventes do regimento virginiano de Washington.

América do Norte

Os combates na frente norte-americana tiveram como centro Georgia, uma jovem colônia fundada por ex-presidiários em 1733 que já tinha conhecido a guerra contra os espanhóis em 1735, e que se veria no olho do furacão por sua proximidade com as possessões espanholas na Flórida e as francesas na Luisiana. Com a ideia de que um ataque preventivo seria a melhor defesa frente a uma previsível invasão espanhola, o governador James Edward Oglethorpe acordou a paz com os índios seminoles com o fim de mantê-los neutros no conflito e ordenou a invasão da Flórida em janeiro de 1740. Em 31 de maio os britânicos assediaram a fortaleza de San Agustín, mas ela resistiu bem e os assaltantes viram-se obrigados a levantar o sítio em julho devido à chegada de reforços espanhóis procedentes de Havana e retroceder até o outro lado da fronteira. Outras tentativas britânicas de penetrar na Flórida foram igualmente infrutíferas.

A expedição de Anson ao Pacífico

Em 16 de setembro de 1740, outra esquadra britânica dirigida pelo comodoro George Anson dirigiu-se até a América do Sul com a intenção de cruzar o cabo Horn e atacar aos espanhóis no Oceano Pacífico. A expedição se encontrou com uma violenta tormenta no extremo sul da América que destruiu um dos barcos e impediu a outros dois cruzar o cabo, obrigando-os a regressar à Inglaterra. Em junho de 1741 as três naves restantes alcançaram o arquipélago Juan Fernández; então a tripulação foi reduzida a um terço da original, devido principalmente à ação das moléstias. Entre 13 e 14 de novembro os britânicos saquearam o pequeno porto de Paita, na costa do Peru. Depois de abandonar dois de seus buques e introduzir a todos os marinheiros sobreviventes na nave insígnia, o Centurion, Anson rumou à ilha de Tinian e logo a Macau com a intenção de interceptar o Galeão de Manila, encarregado de levar os ingressos procedentes do comércio com a China ao México. Entretanto, ao chegar ao Mar da China Meridional Anson encontrou-se com ataques inesperados por parte dos chineses. Para eles, todo barco que não fosse para a região com interesses comerciais era considerado pirata e como tal deveria ser apresado e afundado.

Participação francesa

Devido ao acordado no Primeiro Pacto de Família (1733), a França se viu imersa na guerra em apoio da Espanha, pelo que o próprio cardeal Fleury, valido de Luis XV, enviou ao Caribe uma frota composta por 22 navios de guerra sob o comando do almirante Antoine-François d' Antin. Entretanto, a participação francesa não foi destacável por conta de uma epidemia ter se abatido sobre a frota enquanto permanecia ancorada na colônia de Saint Domingue (Haiti), à espera de unir-se às naves espanholas. A isso se uniram dificuldades para abastecer às tropas francesas desde a metrópole, já que ao contrário das colônias espanholas, as possessões francesas na América não poderiam garantir um bom abastecimento de alimentos. Depois de umas poucas ações menores, França e Grã-Bretanha acordaram uma trégua entre 1741 e 1744, mantendo assim a França fora da Guerra da orelha de Jenkins.

04

Consequências

Pode-se dizer que a guerra entrou em “ponto morto” a partir de 1742 (exceto pelas ações menores de Anson e Knowles) mas o início da Guerra da Sucessão Austríaca na Europa, na que Espanha e Grã-Bretanha tinham interesses conflitantes, provocou que não se assinara paz alguma até o Tratado de Aquisgrão de 1748. Este pôs fim a todas as hostilidades, retornando praticamente todas as terras conquistadas a quem as governavam antes da guerra com o fim de garantir o retorno ao statu quo anterior. No caso da América espanhola, a ação do tratado foi praticamente inexistente, já que ao final da contenda nenhum território (com a exceção de Louisbourg, que retornou para mãos francesas) permanecia sob outra ocupação que não fosse a original. A Espanha renovou tanto o direito de assento como o navio permitido com os britânicos, cujo serviço foi interrompido durante a guerra. Entretanto, essa restituição duraria apenas dois anos, já que pelo Tratado de Madrid (1750), a Grã-Bretanha renunciou a ambos em troca de uma indenização de 100 mil libras. Essas concessões, que em 1713 pareciam tão vantajosas (e foram algumas das cláusulas do Tratado de Utrecht), havia se tornado prescindíveis em 1748. Além disso, então já parecia claro que a paz com a Espanha não duraria muito (foi quebrado de novo em 1761, ao somar-se os espanhóis à Guerra dos Sete Anos em apoio aos franceses), dessa forma suas perdas não resultava em nada catastrófica.

Vídeos recomendados

Fontes consultadas

Continue pesquisando