Globalização
A Globalização é um conceito das ciências humanas que designa os processos de aprofundamento internacional da integração econômica, social, cultural e política, que teriam sido impulsionados pela redução de custos dos meios de transporte e comunicações no final do século XX e início do século XXI sendo considerada a maior mudança da história econômica nos últimos 40 anos. O marco histórico que daria início ao processo de globalização é alvo de disputa acadêmica, ao passo que alguns estudiosos defendem que ele se deu no início da Era Moderna, enquanto outros traçam a sua história muito antes da era das descobertas e viagens ao Novo Mundo pelos europeus. Alguns até mesmo traçam as origens ao terceiro milênio a.C.
Os seres humanos têm interagido por longas distâncias por milhares de anos. A Rota da Seda, que ligava a Ásia, África e Europa, é um bom exemplo do poder transformador de troca que existia no "Velho Mundo". Filosofia, religião, língua, as artes e outros aspectos da cultura se espalharam e misturaram-se nas nações. Nos séculos XV e XVI, os europeus fizeram descobertas importantes em sua exploração dos oceanos, incluindo o início das viagens transatlânticas, saindo da Europa para o "Novo Mundo" das Américas. O movimento global de pessoas, bens e ideias expandiu significativamente nos séculos seguintes. No início do século XIX, o desenvolvimento de novas formas de transporte, como o navio a vapor e ferrovias, e das telecomunicações permitiu um intercâmbio global mais rápido. Durante a Segunda Guerra Mundial, em 1941, surgiu, no Brasil, o noticiário intitulado O Repórter Esso, constituído por uma síntese noticiosa de cinco minutos rigidamente cronometrados em que se veiculava, ao longo de várias edições diárias, um conteúdo associado ao pacote cultural-ideológico dos Estado Unidos. A transmissão deste noticiário em 14 países do continente americano, por 59 estações de rádio, exprime a relação deste fenômeno com o contexto mais amplo da globalização, uma vez que os processos de crescente integração e inter-relação dos países do mundo designados por esse conceito, por meio das novas tecnologias de comunicação, como o rádio e a televisão, ofereceram as condições para o surgimento deste canal de notícias no Brasil.
Os processos nomeados pelo conceito de globalização afetam todos os setores da sociedade, principalmente comunicação, comércio internacional e liberdade de movimentação, com diferente intensidade dependendo do contexto econômico de cada nação e sua integração com o restante do planeta.
Comunicação
A globalização das comunicações tem sua face mais visível na internet, a rede mundial de computadores, possível graças a acordos e protocolos entre diferentes entidades privadas da área de telecomunicações e governos no mundo. Isto permitiu um grande fluxo de troca de ideias e informações sem paralelos na história da humanidade. Se, antes, uma pessoa estava limitada à imprensa local, agora ela mesma pode se tornar parte da imprensa e observar as tendências do mundo inteiro, teoricamente tendo apenas, como fator de limitação, a barreira linguística - se forem abstraídas inúmeras outras condições materiais, culturais, políticas etc. que influenciam sobre o acesso e o uso de tal tecnologia.
Qualidade de vida
O acesso ampliado a tecnologias, principalmente novos medicamentos, novos equipamentos cirúrgicos e técnicos, o aumento na produção de alimentos e o barateamento no custo têm causado, nas últimas décadas, um aumento generalizado da longevidade dos países emergentes e desenvolvidos. De 1981 a 2001, o número de pessoas vivendo com menos de um dólar estadunidense por dia caiu de 1,5 bilhão de pessoas para 1,1 bilhão, sendo a maior queda da pobreza registrada exatamente nos países mais liberais e abertos à globalização. Na República Popular da China, após a flexibilização de sua economia comunista centralmente planejada para uma nova economia socialista de mercado, e uma relativa abertura de alguns de seus mercados, a porcentagem de pessoas vivendo com menos de 2 dólares estadunidenses caiu 50,1%, contra um aumento de 2,2% na África sub-saariana. Na América Latina, houve redução de 22% das pessoas vivendo em pobreza extrema de 1981 até 2002.
Efeitos na indústria e serviços
Os efeitos da globalização no mercado de trabalho são evidentes, com a criação da modalidade de outsourcing de empregos para países com mão de obra mais barata para execução de serviços em que não é necessária alta qualificação. Outro efeito da globalização é a produção distribuída entre vários países, seja para criação de um único produto, onde cada empresa cria uma parte, seja para criação do mesmo produto em vários países para redução de custos e para ganhar vantagens competitivas no acesso a mercados regionais. O ponto mais evidente é o que o colunista David Brooks definiu como "Era Cognitiva", onde a capacidade de uma pessoa em processar informações ficou mais importante que sua capacidade de trabalhar como operário em uma empresa graças a automação, também conhecida como Era da Informação, uma transição da exausta era industrial para a era pós-industrial.
Críticas
Livro da ONU publicado no ano de 2007 diz que a "Globalização não resultou em queda de desigualdade e pobreza no mundo".
A globalização, por ser um fenômeno espontâneo decorrente da evolução do mercado capitalista não direcionado por uma única entidade ou pessoa, possui várias linhas teóricas que tentam explicar sua origem e seu impacto no mundo atual. A rigor, as sociedades do mundo estão em processo de globalização desde o início da História, acelerado pela época dos Descobrimentos. Mas o processo histórico a que se denomina "globalização" é bem mais recente, datando (dependendo da conceituação e da interpretação) do colapso do bloco socialista e o consequente fim da Guerra Fria (entre 1989 e 1991), do refluxo capitalista com a estagnação econômica da União Soviética (a partir de 1975) ou ainda do próprio fim da Segunda Guerra Mundial. No geral, a globalização é vista por alguns cientistas políticos como o movimento sob o qual se constrói o processo de ampliação da hegemonia econômica, política e cultural ocidental sobre as demais nações. Ou ainda que a globalização é a reinvenção do processo expansionista americano no período pós-guerra fria (esta reinvenção tardaria quase 10 anos para ganhar forma) com a imposição (forçosa ou não) dos modelos políticos (democracia), ideológico (liberalismo, hedonismo e individualismo) e econômico (abertura de mercados e livre competição).
Antonio Negri
O pensador italiano Antonio Negri defende, em seu livro "Império", que a nova realidade sócio-política do mundo é definida por uma forma de organização diferente da hierarquia vertical ou das estruturas de poder "arborizadas" (ou seja, partindo de um tronco único para diversas ramificações ou galhos cada vez menores). Para Negri, esta nova dominação (que ele batiza de "Império") é constituída por redes assimétricas, e as relações de poder se dão mais por via cultural e econômica do que pelo uso coercitivo de força. Negri entende que entidades organizadas como redes (tais como corporações, organizações não governamentais e até grupos terroristas) têm mais poder e mobilidade (portanto, mais chances de sobrevivência no novo ambiente) do que instituições paradigmáticas da modernidade (como o Estado, partidos políticos e empresas tradicionais).
Mário Murteira
O economista português Mário Murteira, autor de uma das abordagens científicas mais antigas e consistentes sobre o fenômeno da Globalização, defende que, no século XXI, se verifica uma 'desocidentalização' da Globalização, visto que se constata que os países do Oriente, como a China, são os principais atores atuais do processo de Globalização e a hegemonia do Ocidente, no sistema econômico mundial, está a aproximar-se do seu ocaso, pelo que outras dinâmicas regionais, sobretudo na Ásia do Pacífico, ganharam mais força a nível global. Para Mário Murteira, a Globalização está relacionada com um novo tipo de capitalismo em que o «mercado de conhecimento» é o elemento mais influente no processo de acumulação de capital e de crescimento econômico no capitalismo atual, ou seja, é o núcleo duro que determina a evolução de todo o sistema econômico mundial do presente século XXI.
Stuart Hall
Em "A Identidade Cultural na Pós-Modernidade" (2006), Stuart Hall busca avaliar o processo de deslocamento das estruturas tradicionais ocorrido nas sociedades modernas, assim como o descentramento dos quadros de referências que ligavam o indivíduo ao seu mundo social e cultural. Tais mudanças teriam sido ocasionadas, na contemporaneidade, principalmente, pelo processo de globalização. A globalização alteraria as noções de tempo e de espaço, desalojaria o sistema social e as estruturas por muito tempo consideradas como fixas e possibilitaria o surgimento de uma pluralização dos centros de exercício do poder. Quanto ao descentramento dos sistemas de referências, Hall considera seus efeitos nas identidades modernas, enfatizando as identidades nacionais, observando o que gerou, quais as formas e quais as consequências da crise dos paradigmas do final do século XX.
Benjamin Barber
Em seu artigo "Jihad vs. McWorld", Benjamin Barber expõe sua visão dualista para a organização geopolítica global num futuro próximo. Os dois caminhos que ele enxerga — não apenas como possíveis, mas também prováveis — são o do McMundo e o da Jihad. Mesmo que se utilizando de um termo específico da religião islâmica (cujo significado, segundo ele, é, genericamente, "luta", geralmente a "luta da alma contra o mal" e, por extensão, "guerra santa"), Barber não vê como exclusivamente muçulmana a tendência antiglobalização e pró-tribalista, ou pró-comunitária. Ele classifica, nesta corrente, inúmeros movimentos de luta contra a ação globalizante, inclusive ocidentais, como os zapatistas e outras guerrilhas latino-americanas.
Daniele Conversi
Para Conversi, os acadêmicos ainda não chegaram a um acordo sobre o real significado do termo globalização, para o qual ainda não há uma definição coerente e universal: alguns autores se concentram nos aspectos econômicos, outros nos efeitos políticos e legislativos, e assim por diante. Para Conversi, a 'globalização cultural' é, possivelmente, sua forma mais visível e efetiva enquanto "ela caminha na sua trajetória letal de destruição global, removendo todas as seguranças e barreiras tradicionais em seu caminho. É também a forma de globalização que pode ser mais facilmente identificada com uma dominação pelos Estados Unidos. Conversi vê uma correlação entre a globalização cultural e seu conceito gêmeo de 'segurança cultural', tal como desenvolvido por Jean Tardiff, e outros
Göran Therborn
Em “O mundo: um guia para principiantes” (2011), o sociólogo sueco Göran Therborn sintetiza uma hipótese histórica desenvolvida previamente para explicar os processos globais. Therborn define o que chama de ondas históricas de globalização como “a extensão, aceleração e/ou intensificação de importantes processos sociais de alcance ou impacto pelo menos transcontinental – mas não necessariamente mundial”. A reflexão de Therborn a respeito do caráter multidimensional e plural do processo de globalização encontra ecos em seu artigo de 2000 intitulado “Globalizations: Dimensions, Historical Waves, Regional Effects, Normative Governance”, no qual o sociólogo identifica e discute cinco correntes teóricas de interpretação do fenômeno, a que chama de “dimensões da globalização”. São elas: economia competitiva (mercados e mobilidade social), criticismo social (riscos do ponto de vista moral ou religioso), impotência estatal (soberania e capacidade dos estados), cultura (entre uniformização e diversidade) e ecologia planetária (preocupação com o ecossistema comum). O sociólogo critica aquilo que chama de falta de consciência dos discursos acima sobre si ou sobre os demais.
Apesar das contradições, há um certo consenso a respeito das características da globalização que envolve o aumento dos riscos globais de transações financeiras, perda de parte da soberania dos Estados, com a ênfase das organizações supragovernamentais, aumento do volume e velocidade como os recursos vêm sendo transacionados pelo mundo, através do desenvolvimento tecnológico etc. Além das discussões que envolvem a definição do conceito, há controvérsias em relação aos resultados da globalização. Tanto podemos encontrar pessoas que se posicionam a favor como contra a globalização. Um dos maiores eventos do movimento antiglobalização é o Fórum Social Mundial, que se reuniu pela primeira vez em Porto Alegre, no Brasil, em 2001. O Fórum Social Mundial serve como ponto de encontro para movimentos sociais de todo o mundo propondo a globalização alternativa, não baseada nas dinâmicas reguladas pelo capitalismo.
Sociedade Mundial
No ramo da Sociologia, os fenômenos designados pelo conceito de “globalização” são alvo de abordagens divergentes daquelas presentes em outras áreas do saber (como a geografia, a economia, o conhecimento leigo etc.). Essas diferentes abordagens são construídas sobre referenciais teóricos, metodologias e pressupostos específicos, o que, portanto, se refletem na tradução desses fenômenos em explicações de cunhos muito variados. Podem ser citadas algumas dessas abordagens presentes no cenário sociológico contemporâneo. Para Rudolf Stichweh, a sociedade moderna, ao invés de ser composta por diversas sociedades distintas e separadas, é, na verdade, um sistema societal que agrega todas as nações e comunicações do mundo. Isso é o que ele chama de “sociedade mundial”, a qual não é resultado do processo de globalização experienciado nos séculos XIX e XX, e ainda hoje, mas sim o conjunto das relações humanas, entre seus diversos agrupamentos espalhados territorialmente, desde o surgimento da espécie humana e, não obstante, acompanhando sua expansão pelo mundo desde então. Nesse sentido, o estado contemporâneo da “sociedade mundial”, segundo seu conceito, seria marcado pelo aprofundamento das relações, interações e interdependência política, cultural e econômica, que se iniciou séculos atrás, e se expandiu com o processo de colonização intensa empreendido pelos países europeus, assim como pode ser estudado como tendo surgido a partir das transformações nos componentes da comunicação e migração.


