Lucrécia Bórgia
Lucrécia Bórgia foi a filha ilegítima de Rodrigo Bórgia, importante personagem italiano do Renascimento, que viria a se tornar o papa Alexandre VI. O irmão de Lucrécia foi o conhecido déspota César Bórgia.
Lucrécia Bórgia nasceu em 18 de abril de 1480, na Comuna de Subiaco, perto de Roma. Sua mãe era Vannozza dei Cattanei, uma das muitas amantes do pai de Lucrécia, Rodrigo Borgia, mais conhecido como o Papa Alexandre VI. Vannozza também deu a Rodrigo os seguintes filhos: Quando completou nove anos, Lucrécia foi separada de seus irmãos: Giovanni seguiu para a Espanha. César viu-se obrigado por Rodrigo a entrar para a vida religiosa, mesmo sem a menor vocação; e a própria Lucrécia foi despachada para a casa de Adriana de Mila, dama da nobreza e viúva, a fim de receber uma educação erudita ao lado da rigorosa senhora.
Casamento com Giovanni Sforza
Em 26 de fevereiro de 1491, um arranjo matrimonial foi elaborado entre Lucrécia e o Senhor de Val D'Ayora no Reino de Valência, Dom Cherubino Joan de Centelles, que foi anulado menos de dois meses depois, em favor de um novo contrato envolvendo Lucrécia e Dom Gaspare Aversa, conde de Procida. Quando Rodrigo se tornou Papa (Alexandre VI), procurou aliar-se com poderosas famílias principescas e dinastias fundadoras da Itália. Para tal, ele cancelou compromissos anteriores de Lucrécia e arranjou para ela se casar com Giovanni Sforza, um membro da Casa de Sforza, que era o Senhor de Pesaro e intitulado Conde de Catignola. Giovanni era um filho ilegítimo de Costanzo I Sforza, e um Sforza de segundo grau. Casou-se com Lucrécia em 12 de junho de 1493, em Roma.
Casamento com Afonso de Biscegli
Em 17 de junho de 1498, Lucrécia Bórgia desposa Afonso de Biscegli numa cerimônia pomposa no Vaticano. No ano seguinte, o Papa Alexandre VI deu à filha Lucrécia a fortaleza de Nepi e as regiões de Espoleto e Foligno para que ela governasse. O casamento foi breve, durando de 1498 até à morte de Alfonso em 1500. Há indícios que o irmão de Lucrécia, César foi responsável pela morte de Afonso, porque já tinha se aliado (por casamento) com a França contra Nápoles. Assim, César Bórgia teria posto em ação mais um de seus planos: o de matar o próprio Afonso de Biscegli. Lucrécia estava grávida agora, e César conseguiu convencer a irmã e o cunhado a irem ter a criança em Roma, que nasceu e foi chamado de Rodrigo de Aragão. Em julho de 1500, pouco depois da chegada do casal, Afonso foi surpreendido por um grupo de homens fortemente armados que o esperavam na Praça de São Pedro. Ele foi apunhalado, mas conseguiu fugir até os aposentos de Lucrécia, onde caiu gravemente ferido. Socorrido imediatamente por sua mulher, Afonso recuperava-se. Lucrécia e sua cunhada, Sancha de Aragão, cuidavam de Biscegli e, com medo de envenenamento, elas próprias faziam a comida do duque. Porém, numa noite de descuido de Lucrécia e Sancha, um criado — Michelotto Corella — primo dos Bórgia, homem de confiança do papa e de César — entrou sorrateiramente nos aposentos de Afonso enforcou-o.
Casamento com Afonso D'Este
Após sua controversa regência, Lucrécia recolheu-se na fortaleza de Nepi com seu filho Rodrigo e Giovanni. Entretanto, seu pai e seu irmão arranjavam mais um casamento para ela. Desta vez, o alvo da família Bórgia era o filho do poderoso duque de Ferrara, o jovem Afonso d´Este Lucrécia tinha 22 anos e Afonso d´Este 25. O casamento foi confirmado, e realizado em 30 de dezembro de 1501, sem a presença do noivo, em cerimônia simples no Vaticano. Em 2 de fevereiro do ano seguinte, Lucrécia entra triunfalmente em Ferrara. Como dote, foram pagos a Família Este duzentos mil ducados, apesar da proposta inicial do noivo ter sido de 300 000. Comparando aos 15 000 ducados pagos a Giovanni Sforza, o primeiro marido de Lucrécia, alguns anos antes, a diferença é formidável. Mas há uma explicação muito simples. Lucrécia Bórgia, na época uma menina de treze anos, não tinha nenhuma mácula em seu nome. Mas agora, aos olhos de toda a Europa, ela era envenenadora e incestuosa. Lucrécia nunca mais tornaria a ver Alexandre VI, mas não se livraria do irmão César.
Em 1501, o papa passou algumas semanas em Nápoles, recém conquistada pelos Franceses. O mais convencional, seria deixar um cardeal de confiança do papa em sua ausência para tomar as rédeas do Vaticano. Mas Alexandre VI escandalizou a Europa com uma escolha inédita: durante sua viagem, a responsável pelo governo dos estados pontifícios seria sua filha Lucrécia Bórgia. O ato totalmente inédito na história do papado, provocou uma fúria explicável no renomado Colégio dos Cardeais.
Lucrécia engravidou em 1503. Mas acabou por contrair malária, e seu médico teve de abortar a criança para não pôr a vida de Lucrécia em perigo. Com a morte do sogro em 1505, ela e marido foram nomeados duques de Ferrara. No mesmo ano, deu à luz o primeiro rebento do casal, Afonso. A criança morreu semanas depois, mas três anos depois o casal ducal foi presenteado com outro menino, Hércules. Depois deste, vieram outros filhos: Hipólito (1509), Francisco (1516), Alexandre (1514), Leonor (1515), e Isabel Maria (1519). Ela foi boa mãe para todos os seus filhos, inclusive para os que estavam longe dela, como Rodrigo e o misterioso João, "O Infante Romano". Sabe-se que Rodrigo morreu em 1512, aos treze anos de idade, fazendo Lucrécia Bórgia sofrer e se recolher em um convento por algum tempo; mas, quanto ao "Infante Romano", apenas se sabe que ele morreu em 1548, tornou-se duque de Espoleto, mas morreu relativamente esquecido e com pouco status de neto de papa, ou filho de Lucrécia Bórgia. Sua linhagem é totalmente desconhecida.
Aos 39 anos de idade, Lucrécia estava prestes a enfrentar outro parto. Prevendo sua morte, ela enviou uma carta ao papa Leão X pedindo a bênção especial. Em 24 de junho de 1519, morreu Lucrécia Bórgia em Ferrara, devido a complicações após dar à luz seu oitavo filho, depois de ter tido uma história ao longo da vida de gestações e de abortos complicados. A bênção papal não veio a tempo, mas Leão X escreveu ao viúvo que lamentava muito a morte da "boa duquesa", de quem o "inesquecível amigo César falava com tanto carinho". Foi sepultada no convento de Corpus Domini (do qual ela foi protetora em vida), em Ferrara, em um hábito de freira.
Seu primeiro filho com Afonso, Hércules d'Este, de aparência física idêntica à do pai, sucedeu-o como duque de Ferrara em 1534; foi pai de cinco filhos, e morreu em 1559. Hipólito tornou-se um alto religioso, e morreu em 1572, como um verdadeiro cardeal Bórgia: com uma boa fortuna, e muitos filhos chorando sua morte; Francisco, filho de Lucrécia, foi marquês de Massolambarda e pai de dois filhos, morreu em 1578, os três, sem dúvidas, eram muito mais Bórgia do que d´Este. Alexandre viveu apenas por dois anos. Eleonora herdou a beleza da mãe, assim como o fascínio que causava nos poetas. Apesar disso, tornou-se uma freira por ordens de seu pai, e morreu como uma abadessa virtuosa em 1575. E Isabel Maria, a menina cujo parto causou a morte da mãe, seguiu a Lucrécia e morreu semanas depois. João Bórgia, o Infante Romano, teve a paternidade reconhecida tanto por Alexandre VI como por César em duas bulas papais separadas, mas houve boatos de que foi filho de Lucrécia e Perotto. A criança (identificada na vida adulta como meio-irmão de Lucrécia) foi provavelmente o resultado de uma relação entre Rodrigo Bórgia (Papa Alexandre VI, pai de Lucrécia) e uma amante desconhecida e não foi filho de Lucrécia.


