Fernando de Noronha
Fernando de Noronha é um arquipélago brasileiro do estado de Pernambuco. Formado por 21 ilhas, ilhotas e rochedos de origem vulcânica, ocupa uma área total de 26 km² — dos quais 17 km² são da ilha principal — e se situa no Oceano Atlântico a nordeste do Brasil continental, distando 350 km do Rio Grande do Norte e 545 km da capital pernambucana, Recife. O centro comercial da ilha é o núcleo urbano de Vila dos Remédios. A administração do Parque Nacional está atualmente a cargo do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). É também a Região intermediária e imediata do Recife.
Descoberta
Muitas controvérsias marcam o descobrimento do arquipélago pelos europeus. Pelo menos três nomes — São Lourenço, São João e Quaresma — têm sido associados com a ilha na época de sua descoberta. O que se sabe como certo é que várias expedições alcançaram a costa brasileira entre 1500 e 1503 e que a existência do arquipélago era conhecida em Lisboa pelo menos desde antes de 16 de janeiro de 1504, quando o rei D. Manuel I de Portugal fez mercê da "ilha de São João" a Fernão de Loronha — cavaleiro da Sua Casa, cristão-novo, grande comerciante e armador — como uma capitania hereditária, citando o beneficiado [com ou sem razão] como descobridor da ilha. Ver nota:
Colonização europeia
O comerciante Fernão de Loronha não apenas recebeu a ilha como uma capitania hereditária, mas também de 1501 até 1512 deteve um monopólio sobre o comércio no Brasil. Entre 1503 e 1512, os agentes de Loronha configuraram uma série de armazéns (feitorias) ao longo da costa brasileira e envolveram-se no comércio de pau-brasil (uma madeira nativa que servia como corante vermelho e era altamente valorizada pelos costureiros europeus) com os povos indígenas locais. A ilha de Fernando de Noronha era o ponto de coleta central desta rede. O pau-brasil, continuamente colhido pelos índios costeiros e entregues aos vários armazéns litorâneos, era enviado para o armazém central no arquipélago, que era visitado por um navio de transporte maior que levava as cargas coletadas de volta para a Europa. Após o vencimento do alvará comercial de Loronha em 1512, a organização da empresa de pau-brasil foi assumida pela coroa portuguesa, mas Loronha e seus descendentes mantiveram a posse privada da ilha como uma capitania hereditária pelo menos até a década de 1560. Embora valiosa como entreposto comercial, o primeiro donatário não manifestou interesse em povoar a ilha que batizou. Mesmo extinta a "capitania do mar", sua posse permaneceu na descendência de Loronha — que tampouco se preocupou com ela — até 24 de setembro de 1700. Segundo o IBGE, "o donatário jamais tomou posse de suas terras que, abandonadas, atraíram as atenções de muitos povos, dentre os quais os alemães (que a abordaram em 1534), os franceses (também em abordagens em 1556, 1558 e 1612), os ingleses (em 1577), o holandeses (que nela se fixaram por 25 anos, entre 1629 e 1654) e os franceses (que aí viveram um ano, entre 1736 e 1737)".
Século XIX
Em 1817, foi nomeado o capitão José de Barros Falcão de Lacerda para desmantelar as fortificações e levar para Pernambuco o destacamento militar e os sentenciados, mas em 3 de outubro de 1833 a ilha se tornou destino de condenados às galés pelo crime de falsificação de moeda e notas. Em 1844 havia 187 prisioneiros, incluindo 4 mulheres, sendo 75 condenados a pena de galés, 28 a pena de prisão com trabalho forçado e 84 a de prisão simples. Um decreto de 5 de março de 1859 atualizou sua vocação prisional, tornando-a destino dos condenados a pena de prisão "quando no lugar em que se devesse executar a sentença, não houvesse prisão segura, precedendo neste caso, ordem do Governo". O decreto especificava que para lá seriam mandados condenados a galés por falsificação, militares condenados a seis anos ou mais de trabalhos públicos ou de fortificações, militares condenados a galés por mais de dois anos, e os degredados. As condições eram péssimas. Um relatório dos ministros da Guerra em meados do século XIX cita que “repugnava aos sentimentos de humanidade e aos preceitos mais triviais de decência que continue a prática bárbara de privar a estes infelizes segregados do resto do mundo até o indispensável para se alimentarem e cobrirem sua nudez".
Século XX
No início do século XX, os britânicos chegaram a prestar cooperação técnica em telegrafia (The South American Company). Mais tarde, os franceses vieram com o French Cable e os italianos com o Italcable. Em 1938 a ilha foi novamente requisitada pela União para tornar-se um Presídio Político Federal, destinado "à concentração de indivíduos reputados como perigos à ordem pública ou suspeitos de atividades extremistas”. Em diversos períodos haviam sido recolhidos para lá presos políticos, como os ciganos em 1739, os farroupilhas em 1844 e os capoeiristas em 1890. Reportagem da revista O Cruzeiro, de 2 de agosto de 1930, descreve o presídio como "fantasma infernal para esses proscritos da sociedade", que viviam completamente alheios ao que se passava no resto do mundo, apesar de o Governo alegar que proporcionava aos presos "uma vida saudável de trabalho e de conforto". O ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes, foi preso lá após ser deposto do cargo de Governador de Pernambuco pelo golpe militar de 1964. Em 1957, a prisão foi fechada e o arquipélago foi visitado pelo presidente Juscelino Kubitschek.
Século XXI
No século XXI, a economia de Fernando de Noronha depende do turismo. Segundo a pesquisadora Glória Maria Widmer, em 2007 em Fernando de Noronha havia em atividade 9 agências de turismo, 132 locais de hospedagem, 26 restaurantes, 3 empresas de mergulho e passeios de barco, cinco empresas de aluguel de veículos, e havia muitas outras pessoas prestando uma grande variedade de serviços. Em 2001 o arquipélago foi declarado Patrimônio da Humanidade, incluindo o Atol das Rocas, como Sítio das Ilhas Atlânticas Brasileiras, reconhecendo o valor de sua rica biodiversidade e enfatizando a necessidade de sua proteção. A UNESCO citou os seguintes motivos para isso: a) a importância da ilha como área de alimentação para várias espécies, incluindo atum, peixe agulha, cetáceos, tubarões e tartarugas marinhas; b) uma elevada população de golfinhos residentes e c) proteção para espécies ameaçadas de extinção, como a tartaruga-de-pente e diversas aves. Para que sua riqueza se conservasse foram impostos limites ao afluxo de público e normas de conduta para ele. Na área do parque algumas atividades são proibidas, conforme descreve o IPHAN: "caça e pesca submarina; introdução de animais e plantas; coleta de sementes, raízes, frutos, conchas, corais, pedras, e animais; alteração da vegetação local; visita as praias do Leão e do Sancho, no período de janeiro a junho, no horário das 18 às 6 horas; acampamentos e pernoites; mergulhos e parada de embarcações nas proximidades da Baía dos Golfinhos; visita a áreas públicas sem autorização; e escrita ou pichação em rochas, árvores ou placas".
De acordo com a divisão regional vigente desde 2017, instituída pelo IBGE, Fernando de Noronha pertence às Regiões Geográficas Intermediária e Imediata do Recife. Até então, com a vigência das divisões em microrregiões e mesorregiões, fazia parte da microrregião de Fernando de Noronha, que por sua vez estava incluída na mesorregião Metropolitana do Recife. Suas ilhas são as partes visíveis de uma cadeia de montanhas submersas. Composto por 21 ilhas, ilhotas e rochedos de origem vulcânica, o arquipélago possui uma área total de 26 km². A ilha principal compreende 91% da área total do arquipélago, com uma área de 17 km2, sendo 10 km de comprimento e 3,5 km de largura no seu ponto máximo. A base dessa enorme formação vulcânica está cerca de 4 000 metros abaixo do nível do mar. O planalto central da ilha principal é chamado de "Quixaba". As ilhas da Rata, Sela Gineta, Cabeluda e São José, juntamente com as ilhotas do Leão e Viúva compõem praticamente todo o restante do arquipélago.
Biodiversidade
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) lista 15 possíveis espécies de plantas endêmicas do arquipélago, incluindo espécies dos gêneros Capparis noronhae (duas espécies), Ceratosanthes noronhae (três espécies), Cayaponia noronhae (duas espécies), Moriordica noronhae, Cereus noronhae, Palicourea noronhae, Guettarda noronhae, Bumelia noronhae, Physalis noronhae e Ficus noronhae. As ilhas têm duas aves endêmicas — a cocoruta (Elaenia ridleyana) e o Noronha Vireo (Vireo gracilirostris). Ambas estão presentes na ilha principal; Noronha Vireo também está presente na Ilha Rata. Além disso, há uma corrida endêmica do avoante Zenaida auriculata noronha. Um roedor sigmodontine endêmico, Noronhomys vespuccii, citado por Américo Vespúcio, está extinto. As ilhas têm dois répteis endêmicos, Amphisbaena ridleyi e Trachylepis atlantica.
Conservação
O Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha é uma unidade de conservação de proteção integral administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Criado em 1988, ocupa a maior parte do arquipélago e possui uma variedade de fauna e flora únicas. Ótimo local para turismo, porém, devido à fiscalização do ICMBio, algumas das ilhas têm a visitação controlada. Boldró é onde está localizado o centro de convenções do Projeto TAMAR/ICMBio. Seu nome foi dado por militares americanos e é originário da expressão em inglês Bold Rock, que significa Pedra Saliente em português. A Área de Proteção Ambiental Fernando de Noronha é uma área protegida na ilha de Fernando de Noronha, que abrange 884 hectares (2 180 acres) de terra marinha costeira, foi estabelecida em 5 de junho de 1986. É administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. A área cobre a parte urbana da ilha de Fernando de Noronha, enquanto o Parque Nacional de Fernando de Noronha cobre o restante. A área inclui uma grande extensão marinha do Arquipélago de São Pedro e São Paulo, que também faz parte do Parque Nacional.
Problemas ambientais
Embora protegida pela designação de parque nacional, muito do seu ecossistema terrestre está destruído. Um levantamento realizado em 2007 pelo Ministério do Meio Ambiente mostrou que os recursos naturais da ilha já estavam em vias de esgotamento e que o turismo, que não para de crescer, tem sido muito prejudicial ao ambiente, produzindo danos vastos e alguns irreversíveis, entre eles acúmulo de lixo, favelização, falta de água, desigualdade social e perda de habitat de espécies endêmicas. A maior parte da floresta original foi cortada na época em que a ilha funcionava como presídio, para tornar mais difícil que prisioneiros se escondessem ou construíssem jangadas para fuga.
Clima
O clima da ilha é o tropical (do tipo As' na classificação climática de Köppen-Geiger, quente o ano todo, com temperatura média anual de 27 °C e chuvas concentradas entre fevereiro e julho, sendo abril o mês mais chuvoso. A amplitude térmica é muito pequena, característica da região da Linha do Equador.
O arquipélago de Fernando de Noronha possuía em 2020 um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 136 711,91 mil e um PIB per capita de R$ 44 086,40. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do distrito estadual foi calculado em 0,788 (PNUD/2010). Há uma agência do Santander, caixas eletrônicos da rede do Banco24Horas no aeroporto e um terminal da Caixa Econômica Federal num supermercado. A ilha também tem um banco postal do Bradesco em convênio com a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos.
Turismo
As praias de Fernando de Noronha são promovidas para o turismo e o mergulho recreativo. Devido à Corrente Sul Equatorial, que empurra a água quente da África para a ilha, o mergulho a profundidades de 30 a 40 metros não exige uma roupa de mergulho. A visibilidade debaixo d'água pode chegar a até 50 metros. Próximo à ilha existe a possibilidade de se fazer um mergulho avançado e visitar a Corveta Ipiranga, que repousa a 62 metros de profundidade, depois de ser afundada naquele ponto intencionalmente, após um acidente de navegação. Entre as suas praias mais famosas, estão a Baía de Santo Antônio, a Praia da Conceição, a Praia do Boldró, a Praia da Cacimba do Padre, a Baía dos Porcos, a Baía do Sancho, a Baía dos Golfinhos, a Ponta da Sapata, entre outras. A Baía do Sancho, em Fernando de Noronha, foi eleita a melhor praia do mundo pelos usuários do TripAdvisor.
Transportes
A ilha principal é servida pela BR-363, única rodovia federal localizada em todo o país dentro de uma ilha oceânica. A construção da BR-363 foi autorizada em 1974, ainda na época do Território Federal. A rodovia tem 7 km de extensão, e liga o Porto de Santo Antônio à Baía do Sueste, interligando lugares como o aeroporto, áreas urbanas, estradas vicinais e os acessos às praias. Além da locomoção por táxi ou buggy, o transporte também é realizado por uma única linha de ônibus (Porto/Sueste), com três veículos, que transitam em intervalos de 30 minutos com passagem no valor de cinco reais para turistas, sendo gratuito para moradores da ilha. A Azul Linhas Aéreas opera uma conexão aérea entre o Aeroporto Internacional de Recife e o Aeroporto de Fernando de Noronha dom 18 voos semanais em cada sentido, totalizando cerca de 4.900 assentos semanais, utilizando jatos Embraer E195-E2 com capacidade para até 136 passageiros. Além da Azul, a Latam também opera a rota Guarulhos-Fernando de Noronha com aeronaves Airbus A319.
Presença militar
O Destacamento de Aeronáutica de Fernando de Noronha (DESTAE-FN) é uma unidade da Força Aérea Brasileira (FAB) localizada na Vila Militar, próxima ao Aeroporto de Fernando de Noronha. Sua principal função é fornecer apoio logístico e administrativo às operações da FAB na região, incluindo suporte a aeronaves militares e civis, além de manter a infraestrutura necessária para o funcionamento das atividades aéreas na ilha. O DESTAE-FN também abriga a Casa de Representação da Aeronáutica, conhecida como "Casarão", que serve como ponto de apoio institucional e logístico para as operações na área. Além do DESTAE-FN, a FAB mantém na ilha o Destacamento de Controle do Espaço Aéreo de Fernando de Noronha (DTCEA-FN), responsável pela operação do espaço aéreo local. Os militares do DTCEA-FN prestam serviços como o Serviço de Informação de Voo de Aeródromo (AFIS), o Serviço de Alerta e a manutenção dos auxílios à navegação e dos sistemas de telecomunicações.
Comunicações
Fernando de Noronha conta com 2 veículos de comunicação locais: a TV Golfinho canal 11, afiliada à TV Cultura, e a FM Noronha 96,9 MHz. As emissoras são as únicas a levar conteúdo local diariamente para os ilhéus, e chegaram em 1982, tendo sido os primeiros meios de a população da ilha assistir televisão e ouvir rádio.
Energia
Até 2025, a produção de energia no arquipélago de Fernando de Noronha é realizada na usina de Tubarão, que utiliza biodiesel. Em novembro de 2025, é inaugurada a primeira usina solar flutuante do arquipélago, construída pela Neoenergia (subsidiária da Iberdrola no Brasil) e pela Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa). Essa usina está localizada na superfície do reservatório de Xaréu. Possui uma potência de 622 kWp e uma geração anual estimada de 1.083 MWh. A instalação evitará a emissão de 717 toneladas de CO₂. Também foi iniciado o projeto Noronha Verde, desenvolvido pela Neoenergia, cujo objetivo é fazer de Fernando de Noronha a primeira ilha oceânica habitada da América Latina a contar com um modelo energético 100% sustentável. Trata-se de uma usina fotovoltaica com mais de 30.000 painéis e uma capacidade de 22 MWp, que será integrada a um sistema de armazenamento em baterias de 49 MWh.
Esportes
Fernando de Noronha é, reconhecidamente, um dos melhores lugares do Brasil para a prática do surfe, e suas ondas tubulares e cristalinas atraem surfistas para praias como a Cacimba do Padre, Boldró, Cachorro, entre outras. Além disso, em Fernando de Noronha há a prática de esportes, entre eles o futebol, voleibol, futebol de salão e futebol de areia. A Seleção Noronhense de Futebol representa o arquipélago de Fernando de Noronha em competições internacionais de futebol e gerenciada pela ANOVE (Associação Noronhense de Veteranos), afiliada ao CSANF (Conselho Sul-Americano de Novas Federações) desde 19 de outubro de 2011. Manda seus jogos no Estádio Distrital Salviano José de Souza Neto.


