Expressionismo
O Expressionismo foi um movimento artístico e cultural de vanguarda surgido na Alemanha no início do século XX, transversal aos campos artísticos da arquitetura, artes plásticas, literatura, música, cinema, teatro, dança e fotografia. Manifestou-se inicialmente através da pintura, coincidindo com o aparecimento do fauvismo francês, o que tornaria ambos os movimentos artísticos os primeiros representantes das chamadas "vanguardas históricas". Mais do que meramente um estilo com características em comum, o Expressionismo é sinónimo de um amplo movimento heterogéneo, de uma atitude e de uma nova forma de entender a arte, que aglutinou diversos artistas de várias tendências, formações e níveis intelectuais. O movimento surge como uma reacção ao positivismo associado aos movimentos impressionista e naturalista, propondo uma arte pessoal e intuitiva, onde predominasse a visão interior do artista — a "expressão" — em oposição à mera observação da realidade — a "impressão".
A transição do século XIX para XX assistiu a inúmeras transformações políticas, sociais e culturais. A burguesia vive um período áureo de grande ostentação económica e influência política, a Belle Époque, que se manifestaria nas artes através do modernismo, movimento artístico que responde ao luxo e ostentação copiosos procurados pela nova classe dirigente. No entanto, o receio perante a ocorrência de um novo episódio revolucionário, face às constantes revoluções ocorridas ao longo de todo o século XIX desde a Revolução Francesa (o último em 1871, durante a Comuna de Paris), levou a classe política a decretar uma série de concessões sociais, como a reforma laboral, a segurança social e o ensino básico obrigatório. A queda da taxa de analfabetismo e o aumento da literacia traduziu-se no crescimento assinalável dos meios de comunicação social, e numa difusão dos fenómenos culturais a uma escala e velocidade sem precedentes que estaria na origem da cultura de massas.
Embora por expressionismo fosse conhecido nomeadamente o movimento artístico desenvolvido na Alemanha em princípios do século XX, muitos historiadores e críticos da arte também empregam este termo mais genericamente para descrever o estilo de grande variedade de artistas ao longo de toda a História. Entendida como a deformação da realidade para buscar uma expressão mais emocional e subjetiva da natureza e do ser humano, o expressionismo é pois extrapolável a qualquer época e espaço geográfico. Assim, com frequência qualificou-se de expressionista a obra de diversos autores como Hieronymus Bosch, Matthias Grünewald, Quentin Matsys, Pieter Brueghel, o Velho, El Greco, Francisco de Goya e Honoré Daumier. As raízes do expressionismo encontram-se em estilos como o simbolismo e o pós-impressionismo, bem como nos Nabis e em artistas como Paul Cézanne, Paul Gauguin e Vincent Van Gogh. Assim mesmo, têm pontos de contato com o neoimpressionismo e o fauvismo pela sua experimentação com a cor. Os expressionistas receberam numerosas influências: em primeiro lugar a da arte medieval, especialmente a gótica alemã. De signo religioso e caráter transcendente, a arte medieval punha ênfase na expressão, não nas formas: as figuras tinham pouca corporeidade, perdendo interesse pela realidade, as proporções, a perspectiva. Por outro lado, acentuava a expressão, sobretudo na olhada: as personagens eram simbolizas mais que representadas. Assim, os expressionistas inspiraram-se nos principais artistas do gótico alemão, desenvolvido através de duas escolas fundamentais: o estilo internacional (finais do século XIV-primeira metade do XV), representado por Conrad Soest e Stefan Lochner; e o estilo flamengo (segunda metade do século XV), desenvolvido por Konrad Witz, Martin Schongauer e Hans Holbein, o Velho. Também se inspiraram na escultura gótica alemã, que salientou pela sua grande expressividade, com nomes como Veit Stoss e Tilman Riemenschneider. Outro ponto de referência foi Matthias Grünewald, pintor tardo-medieval que, embora conhecesse as inovações do Renascimento, seguiu numa linha pessoal, caracterizada pela intensidade emocional, uma expressiva distorção formal e um intenso colorido incandescente, como na sua obra mestra, o Retábulo de Isenheim.
A arquitetura expressionista desenvolveu-se nomeadamente na Alemanha, Países Baixos, Áustria, Checoslováquia e Dinamarca. Caracterizou-se pelo uso de novos materiais, suscitado ocasionalmente pelo uso de formas biomórficas ou pela ampliação de possibilidades oferecida pela fabricação massiva de materiais de construção como o tijolo, o aço ou o vidro. Muitos arquitetos expressionistas combateram na Primeira Guerra Mundial, e a sua experiência, combinada com os câmbios políticos e sociais produto da Revolução Alemã de 1918-1919, terminaram em perspectivas utópicas e um programa socialista romântico. A arquitetura expressionista recebeu a influência do modernismo, sobretudo da obra de arquitetos como Henry van de Velde, Joseph Maria Olbrich e Antoni Gaudí. De caráter fortemente experimental e utópico, as realizações dos expressionistas destacam-se pela sua monumentalidade, o emprego do tijolo e da composição subjetiva, que outorga às suas obras certo ar de excentricidade.
Deutscher Werkbund
A Deutscher Werkbund (Federação alemã do trabalho) foi o primeiro movimento arquitetônico relacionado ao expressionismo na Alemanha. Fundada em Munique a 9 de outubro de 1907 por Hermann Muthesius, Friedrich Naumann e Karl Schmidt, incorporou posteriormente figuras como Walter Gropius, Bruno Taut, Hans Poelzig, Peter Behrens, Theodor Fischer, Josef Hoffmann, Wilhelm Kreis, Adelbert Niemeyer e Richard Riemerschmidt. Herdeira do Jugendstil e da Sezession vienesa, e inspirada no movimento Arts & Crafts, o seu objetivo era a integração de arquitetura, indústria e artesanato através do trabalho profissional, da educação e da publicidade, bem como introduzir o desenho arquitetônico na modernidade e conferir-lhe um caráter industrial. As principais características do movimento foram o uso de novos materiais como o vidro e o aço, a importância do desenho industrial e o funcionalismo decorativo.
Escola de Amsterdã
Paralelamente à Deutscher Werkbund alemã, entre 1915 e 1930 uma notável escola arquitetônica de caráter expressionista desenvolveu-se em Amsterdã (Países Baixos). Influenciados pelo modernismo (nomeadamente Henry van de Velde e Antoni Gaudí) e por Hendrik Petrus Berlage, inspiraram-se nas formas naturais, com edifícios de desenho imaginativo onde predomina o uso do tijolo e do concreto. Os seus principais membros foram Michel de Klerk, Piet Kramer e Johan van der Mey, que trabalharam conjuntamente múltiplas vezes, contribuindo em grande maneira ao desenvolvimento urbanístico de Amsterdã, com um estilo orgânico inspirado na arquitetura tradicional holandesa, destacando-se as superfícies onduladas. As suas principais obras foram Scheepvaarthuis (Van der Mey, 1911-1916) e Eigen Haard Estate (De Klerk, 1913-1920).
Arbeitsrat für Kunst
O Arbeitsrat für Kunst (Conselho de trabalhadores da arte) foi fundado em 1918 em Berlim pelo arquiteto Bruno Taut e o crítico Adolf Behne. Surgido após o fim da Primeira Guerra Mundial, o seu objetivo era a criação de um grupo de artistas que pudesse influir no novo governo alemão, com vistas à regeneração da arquitetura nacional, com um claro componente utópico. As suas obras destacam-se pelo uso do vidro e do aço, bem como pelas formas imaginativas e carregadas de um intenso misticismo. De seguida captaram membros provenientes da Deutscher Werkbund, como Walter Gropius, Erich Mendelsohn, Otto Bartning e Ludwig Hilberseimer, e contaram com a colaboração de outros artistas, como os pintores Lyonel Feininger, Erich Heckel, Karl Schmidt-Rottluff, Emil Nolde e Max Pechstein, e os escultores Georg Kolbe, Rudolf Belling e Gerhard Marcks. Esta variedade é explicada porque as aspirações do grupo eram mais políticas que artísticas, visando a influir nas decisões do novo governo em torno à arte e à arquitetura. Contudo, após os acontecimentos de janeiro de 1919 relacionados à Liga Espartaquista, o grupo renunciou aos seus fins políticos, dedicando-se a organizar exposições. Taut demitiu como presidente, sendo substituído por Gropius, embora finalmente se dissolvessem a 30 de maio de 1921.
Der Ring
O grupo Der Ring (O círculo) foi fundado em Berlim em 1923 por Bruno Taut, Ludwig Mies van der Rohe, Peter Behrens, Erich Mendelsohn, Otto Bartning, Hugo Häring e vários arquitetos mais, aos que se acrescentaram Walter Gropius, Ludwig Hilberseimer, Hans Scharoun, Ernst May, Hans e Wassili Luckhardt, Adolf Meyer, Martin Wagner, etc. O seu objetivo era, assim como nos movimentos precedentes, renovar a arquitetura da sua época, pondo especial ênfase nos aspectos sociais e urbanísticos, bem como no estudo de novos materiais e técnicas de construção. Entre 1926 e 1930 desenvolveram um notável trabalho de construção de moradias sociais em Berlim, com casas que se destacam pelo aproveitamento da luz natural e a sua situação em zonas verdes, destacando-se a Hufeisensiedlung (Colônia da Ferradura, 1925-1930), de Taut e Wagner. Der Ring desapareceu em 1933 após o advento do nazismo.
Neues Bauen
Neues Bauen (novo edifício) foi o nome que se deu em arquitetura à Nova Objetividade, reação directa aos excessos estilísticos da arquitetura expressionista e o câmbio no estado de ânimo nacional, no que predominava o componente social sobre o individual. Arquitetos como Bruno Taut, Erich Mendelsohn e Hans Poelzig voltaram-se para o enfoque simples, funcional e prático da Nova Objetividade. A Neues Bauen floresceu no breve período entre a adoção do plano Dawes e o auge do nazismo, abrangendo exposições públicas como o Weissenhof Estate, o amplo planejamento urbano e projetos de promoções públicas de Taut e Ernst May, e os influentes experimentos da Bauhaus.
A escultura expressionista não teve um selo estilístico comum, sendo o produto individual de vários artistas que refletiram na sua obra quer a temática quer a distorção formal próprias do expressionismo. Destacam-se especialmente três nomes: "O fugitivo" (1920-1925), "O vingador" (1922), "A morte na vida" (1926), "O flautista" (1928), "O bebedor" (1933) e "Velha friorenta" (1939). Os membros de Die Brücke (Kirchner, Heckel, Schmidt-Rottluff) também praticaram a escultura, a partir da sua experimentação com a xilografia, que levou à talha da madeira, material que resultava muito conveniente para a sua expressão intimista da realidade, pois a grosseria e o aspecto irregular desse material, o seu aspecto bruto e inacabado, até mesmo primitivo, traziam a perfeita expressão do seu conceito do ser humano e da natureza. Percebe-se nestas obras a influência da arte africana e oceânica, da qual gabavam a sua simplicidade e o seu aspecto totêmico, que transcende a arte para ser objeto de comunicação transcendental.
A pintura desenvolveu-se nomeadamente em torno de dois grupos artísticos: Die Brücke, fundado em Dresden em 1905, e Der Blaue Reiter, fundado em Munique em 1911. No pós-guerra, o movimento Nova Objetividade surgiu como contrapeso ao individualismo expressionista defendendo uma atitude mais comprometida socialmente, embora técnica e formalmente fosse um movimento herdeiro do expressionismo. Os elementos mais característicos das obras de arte expressionistas são a cor, o dinamismo e o sentimento. O fundamental para os pintores de princípios de século não era refletir o mundo de maneira realista e fiel — justo ao contrário dos impressionistas — mas, sobretudo, expressar o seu mundo interior. O objetivo primordial dos expressionistas era transmitir as suas emoções e sentimentos mais profundos. Na Alemanha, o primeiro expressionismo foi herdeiro do idealismo pós-romântico de Arnold Böcklin e Hans von Marées, incidindo nomeadamente no significado da obra, e dando maior relevância o desenha frente à pincelada, bem como à composição e à estrutura do quadro. Assim mesmo, foi primordial a influência de artistas estrangeiros como Munch, Gauguin, Cézanne e Van Gogh, plasmada em diversas exposições organizadas em Berlim (1903), Munique (1904) e Dresden (1905).
Die Brücke
Die Brücke ("A ponte") foi fundada a 7 de junho de 1905 em Dresden, formado por quatro estudantes de arquitetura da Escola Técnica Superior de Dresden: Ernst Ludwig Kirchner, Fritz Bleyl, Erich Heckel e Karl Schmidt-Rottluff. O nome foi ideado por Schmidt-Rottluff, simbolizando através de uma ponte a sua pretensão de estabelecer as bases de uma arte de futuro. Possivelmente a inspiração veio de uma frase de Assim falou Zaratustra de Nietzsche: "A grandeza do homem é que é uma ponte e não um fim". Em 1906 uniram-se ao grupo Emil Nolde e Max Pechstein, bem como o suíço Cuno Amiet e o holandês Lambertus Zijl; em 1907, o finlandês Akseli Gallen-Kallela; em 1908, Franz Nölken e o holandês Kees Van Dongen; e, em 1910, Otto Mueller e o tcheco Bohumil Kubišta. Bleyl separou-se do grupo em 1907, mudando-se para a Silésia, onde foi professor na Escola de Engenharia Civil, abandonando a pintura. Nos seus começos, os membros de Die Brücke trabalharam numa pequena oficina situada na Berliner Straße nº 65 de Dresden, adquirido por Heckel em 1906, que eles mesmos decoraram e mobiliaram seguindo as diretrizes do grupo.
Der Blaue Reiter
Der Blaue Reiter (O Ginete Azul) surgiu em Munique em 1911, agrupando Wassily Kandinsky, Franz Marc, August Macke, Paul Klee, Gabriele Münter, Alfred Kubin, Alexej von Jawlensky, Lyonel Feininger, Heinrich Campendonk e Marianne von Werefkin. O nome do grupo foi escolhido por Marc e Kandinsky tomando café num terraço, após uma conversação onde coincidiram no seu gosto pelos cavalos e pela cor azul, embora seja de sublinhar que Kandinsky já pintara um quadro com o título O Ginete Azul em 1903 (Coleção E.G. Bührlle, Zurique). De novo, mais que um selo estilístico comum compartilhavam uma visão da arte, na que imperava a liberdade criadora do artista e a expressão pessoal e subjetiva das suas obras. Der Blaue Reiter não foi uma escola nem um movimento, mas um agrupamento de artistas com inquietudes similares, centrados num conceito da arte não como imitação, mas como expressão do interior do artista.
Neue Sachlichkeit
O grupo Neue Sachlichkeit (Nova Objetividade) surgiu após a Primeira Guerra Mundial como um movimento de reação frente ao expressionismo, retornando à figuração realista e à plasmação objetiva da realidade circundante, com uma marcada componente social e reivindicativa. Desenvolvido entre 1918 e 1933, desapareceu com o advento do nazismo. O ambiente de pessimismo que trouxe o pós-guerra propiciou o abandono por parte de alguns artistas do expressionismo mais espiritual e subjetivo, de procura de novas linguagens artísticas, por uma arte mais comprometida, mais realista e objetiva, dura, direta, útil para o desenvolvimento da sociedade, uma arte revolucionária na sua temática, se bem que não na forma. Os artistas separaram-se da abstração, refletindo sobre a arte figurativa e recusando toda atividade que não atendesse os problemas da diligente realidade do pós-guerra. Encarnaram este grupo Otto Dix, George Grosz, Max Beckmann, Conrad Felixmüller, Christian Schad, Rudolf Schlichter, Ludwig Meidner, Karl Hofer e John Heartfield.
Outros artistas
Alguns artistas não se adscreveram a nenhum grupo, desenvolvendo de jeito pessoal um expressionismo fortemente intuitivo, de diversas tendências e estilos:
O grupo de Viena
Em Áustria, os expressionistas receberam a influência do modernismo alemão (Jugendstil) e austríaco (Sezession), bem como dos simbolistas Gustav Klimt e Ferdinand Hodler. O expressionismo austríaco destacou-se pela tensão da composição gráfica, deformando a realidade subjetivamente, com uma temática nomeadamente erótica —representada por Schiele— ou psicológica —representada por Kokoschka—. Em contraste com o impressionismo e a arte acadêmica do século XIX preponderante na Áustria do novo século, os novos artistas austríacos seguiram a estela de Klimt, à procura de uma maior expressividade, refletindo nas suas obras uma temática existencial de grande fundo filosófico e psicológico, focado na vida e a morte, a doença e o dor, o sexo e o amor.
Escola de Paris
Denomina-se Escola de Paris a um grupo heterodoxo de artistas que trabalharam em Paris no período entre-guerras (1905—1940), ligados a diversos estilos artísticos como o pós-impressionismo, o expressionismo, o cubismo e o surrealismo. O termo abrange uma grande variedade de artistas, tanto franceses quanto estrangeiros que residiam na capital francesa no intervalo entre as duas guerras mundiais. Naquela época, Paris era um fértil centro de criação e difusão artística, tanto pelo seu ambiente político, cultural e econômico, quanto por ser a origem de diversos movimentos da vanguarda, como o fauvismo e o cubismo, além de ser lugar de residência de grandes mestres como Picasso, Braque, Matisse e Léger. Também era um notável centro de colecionismo e de galerias de arte. A maioria de artistas residia nos bairros de Montmartre e Montparnasse, e caracterizava-se pela sua vida mísera e boêmia.
A literatura expressionista desenvolveu-se em três fases principais: de 1910 a 1914, de 1914 a 1918 —coincidindo com a guerra— e de 1918 a 1925. Aparecem como temas destacados —assim como na pintura— a guerra, a urbe, o medo, a loucura, o amor, o delírio, a natureza e a perda da identidade individual. Nenhum outro movimento até a data apostara de igual maneira pela deformidade, a doença e a loucura como o motivo das suas obras. Os escritores expressionistas criticaram a sociedade burguesa da sua época, o militarismo do governo do cáiser, a alienação do indivíduo na era industrial e a repressão familiar, moral e religiosa, pelo qual se sentiam vazios, sós, entediados, numa profunda crise existencial. O escritor apresenta a realidade do seu ponto de vista interior, expressando sentimentos e emoções mais do que impressões sensitivas. Já não se imita a realidade, não se analisam causas nem fatos, mas o autor busca a essência das coisas, mostrando a sua particular visão. Assim, deformam a realidade mostrando o seu aspecto mais terrível e descarnado, adentrando-se em temáticas até então proibidas, como a sexualidade, a doença e a morte, ou enfatizando aspectos como o sinistro, o macabro, o grotesco. Formalmente, recorrem a um tom épico, exaltado, patético, renunciando à gramática e às relações sintáticas lógicas, com uma linguagem precisa, crua, concentrada. Procuram a significação interna do mundo, abstraindo-o numa espécie de romantismo trágico que vai do misticismo socializante de Werfel ao absurdo existencial de Kafka. O mundo visível é uma prisão que impede atingir a essência das coisas; se tem de superar as barreiras do tempo e do espaço, à procura da realidade mais "expressiva".
Narrativa
A narrativa expressionista implicou uma profunda renovação a respeito da prosa tradicional, tanto temática como estilisticamente, supondo uma contribuição imprescindível ao desenvolvimento do romance moderna tanto alemã como europeia. Os autores expressionistas procuravam uma nova forma de captar a realidade, a evolução social e cultural da era industrial. Portanto, rejeitaram o encadeamento argumental, a sucessão espaço-tempo e a relação causa-efeito próprios da literatura realista de raiz positivista. Por outro lado, introduziram a simultaneidade, quebrando a sucessão cronológica e rejeitando a lógica discursiva, com um estilo que amostra mas não explica, no que o próprio autor é apenas um observador da ação, na qual as personagens evoluem autonomamente. Na prosa expressionista a realidade interior é destacada sobre a exterior, a visão do protagonista, a sua análise psicológica e existencial, na qual as personagens expõem a sua situação no mundo, a sua identidade, com um sentimento de alienação que provoca condutas desordenadas, psicóticas, violentas, irreflexivas, sem lógica nem coerência. Esta visão plasmou-se em uma linguagem dinâmica, concisa, elíptica, simultânea, concentrada, sintaticamente deformada.
Poesia
A lírica expressionista desenvolveu-se notavelmente nos anos anteriores à contenda mundial, com uma temática ampla e variada, centrada, sobretudo, na realidade urbana, mas renovadora a respeito da poesia tradicional, assumindo uma estética do feio, o perverso, o deforme, o grotesco, o apocalíptico, o desolado, como nova forma de expressão da linguagem expressionista. Os novos temas tratados pelos poetas alemães são a vida na grande cidade, a solidão e a incomunicação, a loucura, a alienação, a angústia, o vazio existencial, a doença e a morte, o sexo e a premonição da guerra. Vários destes autores, conscientes da decadência da sociedade e da sua necessidade de renovação, utilizaram uma linguagem profética, idealista, utópica, um certo messianismo que propugnava outorgar um novo senso à vida, uma regeneração do ser humano, uma maior fraternidade universal.
Teatro
O drama expressionista opôs-se à representação fidedigna da realidade própria do naturalismo, renunciando à imitação do mundo exterior e visando a refletir a essência das coisas, através de uma visão subjetiva e idealizada do ser humano. Os dramaturgos expressionistas visavam a fazer do teatro um mediador entre a filosofia e a vida, transmitirem novos ideais, renovar a sociedade moral e ideologicamente. Para isso realizaram uma profunda renovação dos recursos dramáticos e cênicos, seguindo o modelo estacional de Strindberg e perdendo o conceito de espaço e tempo, enfatizando por outro lado a evolução psicológica da personagem, que mais que indivíduo é um símbolo, a encarnação dos ideais de libertação e superação do novo homem que transformará a sociedade. São personagens tipificados, sem personalidade própria, que encarnam determinados roles sociais, nomeados pela sua função: pais, mães, operários, soldados, mendigos, jardineiros, comerciantes. O teatro expressionista pôs ênfase na liberdade individual, na expressão subjetiva, o irracionalismo e a temática proibida. A sua posta em cena buscava uma atmosfera de introspeção, de pesquisa psicológica da realidade. Utilizavam uma linguagem concisa, sóbria, exaltada, patética, dinâmica, com tendência ao monólogo, forma idônea de mostrar o interior do personagem. Também ganhou importância a gesticulação, a mímica, os silêncios, os balbucios, as exclamações, que cumpriam igualmente uma função simbólica. Igual simbolismo adquiriu a cenografia, outorgando especial relevância a luz e a cor, e recorrendo à música e até mesmo a projeções cinematográficas para potenciar a obra.
O expressionismo outorgou muita importância à música, ligada estreitamente à arte sobretudo no grupo Der Blaue Reiter: para estes artistas, a arte é comunicação entre indivíduos, por meio da alma, sem necessidade de um elemento externo. O artista tem de ser criador de signos, sem a mediação de uma linguagem. A música expressionista, seguindo o espírito das vanguardas, visava a desligar a música dos fenômenos objetivos externos, sendo instrumento unicamente da atividade criadora do compositor e refletindo nomeadamente o seu estado anímico, fora de toda regra e toda convenção, tendendo à esquematização e às construções lineais, em paralelo à geometrização das vanguardas pictóricas do momento. A música expressionista procurou a criação de uma nova linguagem musical, libertando a música, sem tonalidade, deixando que as notas fluíssem livremente, sem intervenção do compositor. Na música clássica, a harmonia era baseada na cadência tônica-subdominante-dominante-tônica, sem dentro de uma tonalidade suceder notas estranhas à escala. Contudo, desde Wagner, a sonoridade adquiriu maior relevância a respeito da harmonia, ganhando importância as doze notas da escala. Assim, Arnold Schönberg criou o dodecafonismo, sistema baseado nos doze tons da escala cromática —as sete notas da escala tradicional mais os cinco semítonos—,utilizados em qualquer ordem, mas em séries, sem repetir uma nota antes de as outras sonarem. Assim é evitada a polarização, a atração a centros tonais. A série dodecafônica é uma estrutura imaginária, sem tema nem ritmo. Cada série tem 48 combinações, por inversão, retrogradação ou inversão da retrogradação, e começando por cada nota, o que produz uma série quase infinita de combinações. A destruição da hierarquia na escala musical é equivalente, na pintura, à eliminação da perspectiva espacial renascentista efetuada igualmente pelas vanguardas pictóricas. O dodecafonismo foi seguido pelo ultracromatismo, que ampliou a escala musical a graus inferiores ao semitono —quartos ou sextos de tom—, como na obra de Alois Hába e Ferruccio Busoni.
A ópera expressionista desenvolveu-se em paralelo às novas vias de estudo pela música atonal ideada por Schönberg. O espírito renovador da mudança de século, que levou todas as artes a uma ruptura com o passado e a buscarem um novo impulso criador, conduziu este compositor austríaco a criar um sistema onde todas as notas tivessem o mesmo valor e a harmonia fosse substituída pela progressão de tons. Schönberg compôs duas óperas nesse contexto: Moses und Aron (composta desde 1926 e inacabada) e De hoje a manhã (Von Heute auf Morgen, 1930). Mas sem dúvida a grande ópera do atonalismo foi Wozzeck (1925), de Alban Berg, baseada na obra teatral de Georg Büchner, ópera romântica enquanto a temática mais de complexa estrutura musical, experimentando com todos os recursos musicais disponíveis desde o classicismo até a vanguarda, do tonal ao atonal, do recitativo a música, da música popular à música sofisticada de contraponto dissonante. Obra de forte expressão psicológica, ao tratar de um demente angustiado por imagens paranoicas a música torna-se também demencial, expressando simbolicamente o interior de uma pessoa desquiciada, os mais profundos resquícios do inconsciente. Na sua segunda ópera, Lulu, baseada em duas dramas de Wedekind, Berg abandonou o expressionismo atonal e mudou para o dodecafonismo.
A dança expressionista surgiu no contexto de inovação que o novo espírito vanguardista contribuiu para a arte, sendo reflexo de uma nova forma de entender a expressão artística. Como nas demais disciplinas artísticas, a dança expressionista implicou uma ruptura com o passado —neste caso o ballet clássico—, buscando novas formas de expressão baseadas na liberdade do gesto corporal, liberto das ataduras da métrica e do ritmo, onde adquire maior relevância a auto-expressão corporal e a relação com o espaço. Em paralelo à reivindicação naturista que ocorre na arte expressionista —sobretudo em Die Brücke—, a dança expressionista reivindicou a liberdade corporal, ao mesmo tempo que as novas teorias psicológicas de Freud influíram numa maior introspeção na mente do artista, o que se traduziu numa tentativa da dança de expressar o interior, de libertar o ser humano das suas repressões. A dança expressionista coincidiu com Der Blaue Reiter no seu conceito espiritualista do mundo, visando a captar a essência da realidade e transcendê-la. Rejeitavam o conceito clássico de beleza, o que se expressa num dinamismo mais abrupto e áspero que o da dança clássica. Ao mesmo tempo, aceitavam o aspecto mais negativo do ser humano, o que subjaz no seu inconsciente mas que é parte indissolúvel do mesmo. A dança expressionista não evitou mostrar o lado mais obscuro do indivíduo, a sua fragilidade, o seu sofrimento, o seu desamparo. Isto traduz-se numa corporalidade mais contraída, numa expressividade que inclui todo o corpo, ou até mesmo na preferência por dançar descalços, o que implica um maior contato com a realidade, com a natureza.
O expressionismo não chegou ao cinema até passada a Primeira Guerra Mundial, quando já praticamente desaparecera como corrente artística, sendo substituída pela Nova Objetividade. Contudo, a expressividade emocional e a distorção formal do expressionismo tiveram uma perfeita tradução à linguagem cinematográfica, sobretudo graças à contribuição do teatro expressionista, cujas inovações cênicas foram adaptadas com grande sucesso no cinema. O cinema expressionista passou por diversas etapas: do expressionismo puro —chamado por vezes "caligarismo"— evoluiu para um certo neorromantismo (Murnau), e deste para o realismo crítico (Pabst, Siodmak, Lupu Pick), para terminar no sincretismo de Lang e no naturalismo idealista do Kammerspielfilm. Entre os principais cineastas expressionistas caberia destacar-se Robert Wiene, Paul Wegener, Friedrich Wilhelm Murnau, Fritz Lang, Georg Wilhelm Pabst, Paul Leni, Josef von Sternberg, Ernst Lubitsch, Lupu Pick, Robert Siodmak, Arthur Robison e Ewald André Dupont.


