Exército Brasileiro
O Exército Brasileiro (EB) é o ramo das Forças Armadas do Brasil responsável, no plano externo, pela defesa do país em operações eminentemente terrestres e, no interno, pela garantia da lei, da ordem e dos poderes constitucionais, subordinando-se, na estrutura do Governo Federal, ao Ministério da Defesa, ao lado da Marinha e da Força Aérea. As Polícias Militares (PMs) e Corpos de Bombeiros Militares (CBMs) são legalmente designadas como forças de reserva e auxiliares ao Exército. Seu braço operacional é denominado Força Terrestre. Ele é o maior exército da América do Sul e a maior das três Forças Armadas no Brasil.
O Exército Brasileiro é uma das três Forças Singulares que compõem as Forças Armadas do Brasil, ao lado da Marinha do Brasil e Força Aérea Brasileira, todas as quais, conforme o artigo 142 da Constituição de 1988, atuam na defesa da pátria e na garantia dos poderes constitucionais e da lei e da ordem, além de atribuições subsidiárias definidas por leis complementares. O Exército forma a força terrestre da nação, atuando precipuamente na sua defesa externa, mas tem toda uma série de missões internas. Seus objetivos declarados incluem dissuadir uma agressão externa, adquirir projeção no cenário internacional e contribuir ao "desenvolvimento sustentável e paz social". As constituições anteriores também definiam funções externas e internas para as Forças Armadas. Uma grande carga de trabalho é dedicada à doutrina, planejamento, preparação e execução das operações de garantia da lei e da ordem. O Exército tem um longo histórico na defesa interna e estruturação do Estado, defendendo regimes políticos e tratando de ameaças de questões sociais não resolvidas que resultaram em conflitos internos. No período republicano, ele é a mais politicamente poderosa das três forças por seus posicionamentos passados, sua presença em todo o território nacional e seu maior efetivo.
O Exército Brasileiro origina-se das forças de defesa do Império Português no Brasil Colônia. Um exército nacional brasileiro foi designado em lei pela primeira vez na constituição do Império do Brasil, em 1824, mas forças terrestres já combatiam sob a bandeira brasileira desde a proclamação da Independência do Brasil em 1822. A unificação do comando das forças terrestres, antes dispersas entre os vice-reis e capitães-generais das capitanias, foi efetivada ainda em 1822, com a criação da Secretaria de Estado dos Negócios da Guerra (posterior Ministério da Guerra). O Exército comemora oficialmente, desde 1994, a Primeira Batalha de Guararapes, em 19 de abril de 1648, como o momento em que foram plantadas as "sementes" da instituição. Ainda não havia uma "nação brasileira" ou Exército Brasileiro, e nenhuma organização militar atual tem continuidade institucional com as que lutaram em 1648. Várias unidades atuais, porém, traçam suas histórias até o período colonial, como o Terço Velho do Rio de Janeiro, de 1567, cujo herdeiro é o 1.º Batalhão de Infantaria Mecanizado.
Primeiro Reinado
A Guerra de Independência do Brasil dividiu as forças militares presentes no atual território brasileiro: algumas aderiram e outras permaneceram leais a Portugal. A vitória brasileira não rompeu a continuidade com a organização e doutrina militar do Exército Português, cujas características seriam visíveis na instituição brasileira até o início do século XX. Profissionais portugueses, proprietários privados, mercenários europeus e ordenanças juntavam-se num Exército heterogêneo. A hierarquia tinha aspectos feudais. Os critérios de promoção eram pouco definidos. Alguns oficiais progrediam na carreira dentro da instituição, mas outros, oriundos da elite civil e da aristocracia, transitavam entre as patentes e a política. Os oficiais não serviam longe de seus locais de nascimento, e só mais tarde surgiu a rotatividade de serviço nas províncias. Os soldados eram geralmente obtidos pelo recrutamento forçado, embora houvesse voluntários, incluindo escravos fugitivos. Até 1830, e novamente em 1851–1852, serviram mercenários estrangeiros, que inclusive tiveram uma revolta própria. O serviço militar, estigmatizado, era conhecido como o tributo de sangue.
Regência
Ao início do período regencial (1831–1840), o Partido Liberal, predominante na política, não aceitava uma força militar profissional de larga escala, associando-a, desde os anos anteriores, às perdas na Cisplatina, às revoltas de mercenários e à possibilidade de um golpe. A tropa de 2.ª linha foi substituída pela Guarda Nacional, que era considerada civil e estava fora da alçada da Secretaria da Guerra. O Exército não tinha o monopólio da violência legítima, que era dividido com a Guarda Nacional e os juízes de paz, párocos e delegados de polícia, que tinham autoridade sobre o recrutamento. Os efetivos foram drasticamente reduzidos: em 1837, a força inteira tinha apenas 6 320 homens.
Segundo Reinado
Por volta de 1850 o consenso político já era favorável ao Exército. O efetivo cresceu para 15–16 mil homens. Pela organização de 1851, o Exército tinha oito batalhões de fuzileiros, seis batalhões de caçadores, quatro regimentos de cavalaria ligeira, um regimento de artilharia a cavalo e quatro batalhões de artilharia a pé. Estes seriam os "corpos móveis", destinados a operações em qualquer região. Uma série de pequenos corpos e companhias eram designados "corpos de guarnição", responsáveis pela segurança interna das províncias. A carreira dos oficiais foi profissionalizada de 1850 em diante, com a adoção de critérios formais de avanço na hierarquia e a obrigatoriedade da formação escolar nos cursos militares. Gradualmente desapareceram os filhos da nobreza civil, que preferiam servir na Guarda Nacional. Exceto no Rio Grande do Sul, o oficialato foi sendo recrutado em grupos sociais de renda menor, especialmente filhos de militares.
Primeira República
Até 1894, período marcado pela Revolução Federalista e as Revoltas da Armada, o novo regime começou sob a tutela do Exército (a República da Espada). Os militares não estavam unidos e perderam o poder às oligarquias civis, que estavam alienadas do oficialato e transformaram as Forças Públicas dos estados mais poderosos em "pequenos exércitos", um enorme obstáculo à expansão do poder das Forças Armadas. O período foi de luta para afirmar sua relevância. Nesse contexto, o Exército federal garantia o poder central contra tendências regionalistas. Nos anos 1890, a operacionalidade do Exército havia caído a um nível às vezes inferior aos revoltosos que ele enfrentava. Isto e mais os receios de política externa acenderam um movimento de reformas militares. A Primeira Guerra Mundial (1914–1918) favoreceu o reformismo, embora a participação brasileira direta nas operações terrestres limitou-se a uma missão de 26 oficiais junto ao Exército Francês. Buscando um exército bem-sucedido como referência, grupos de oficiais (os Jovens Turcos) foram enviados para estagiar no Exército Imperial Alemão em 1906–1912, e uma Missão Militar Francesa foi contratada para assessorar a reorganização do Exército Brasileiro de 1920 a 1940. O planejamento estratégico tinha como inimigo hipotético o Exército Argentino, à época mais moderno e sustentado por uma malha ferroviária mais densa que a brasileira. O armamento também tinha que ser importado, pois a indústria bélica era muito limitada.
Era Vargas
O primeiro período de Getúlio Vargas no poder (1930–1945) foi de grande modernização e expansão para o Exército, que foi alçado ao centro do poder político. Os militares receberam investimentos e postos na administração. Mas o Exército estava profundamente dividido. Revoltas de sargentos e cabos ameaçavam a hierarquia, chegando a destituir o governo do Piauí em 1931, e os oficiais também se rebelavam. Grande parte da guarnição de São Paulo aderiu à Revolução Constitucionalista de 1932, que foi derrotada pela lealdade do resto das Forças Armadas e governos estaduais a Vargas. Unidades do Exército sublevaram-se na Intentona Comunista de 1935, que foi rapidamente sufocada. Em 1938 o Exército participou da repressão ao Levante Integralista.
Quarta República
O Exército adotou a doutrina, organização, manuais e métodos americanos no pós-Segunda Guerra, embora a absorção tenha sido parcial, pois sobravam materiais mais antigos de origem europeia e conceitos franceses. Novos equipamentos eram obtidos através do Acordo Militar Brasil-Estados Unidos. Desde a guerra, viaturas motorizadas começavam a substituir as carroças e mulas. Consolidava-se a operação dos blindados, até então muito limitada. A formação de sargentos foi centralizada e profissionalizada na Escola de Sargentos das Armas. Dos anos 1950 em diante, desaparecem as revoltas de sargentos. Os movimentos de praças no restante das Forças Armadas repercutiram menos no Exército.
Os militares podem estar na situação da ativa ou da reserva, e se da ativa, podem ser militares de carreira (com vitaliciedade garantida ou presumida) ou temporários. O efetivo fixado por decreto para o Exército em 2024 foi de 212 217 militares da ativa, dos quais 149 eram generais, 29 220 demais oficiais, 46 773 subtenentes e sargentos e 136 005 cabos e soldados. De 214 mil, o International Institute for Strategic Studies (IISS) quantifica 112 mil conscritos. Existem estimativas muito menores da proporção de conscritos (30%). Além do pessoal na ativa, a reserva foi estimada em 1 340 000 militares pelo IISS, sem diferenciar entre as três Forças Armadas; Frank McCann estima mais de um milhão de reservistas no Exército em 2017. O Exército Brasileiro é historicamente um dos maiores da região.[e] As mulheres são isentas do serviço militar obrigatório, mas podem se voluntariar como militares de carreira ou temporárias. O Exército Brasileiro foi o primeiro na América do Sul a admitir mulheres como militares de carreira. A primeira participação formal das mulheres no Exército foi em 1943, com as enfermeiras da FEB. A participação feminina retornou em 1992, acompanhando as mudanças na sociedade e a abertura da Marinha e Força Aérea às mulheres. Inicialmente ocupando cargos administrativos e técnicos no Quadro Complementar de Oficiais, ao longo da década as mulheres também foram admitidas no Quadro de Saúde, Quadro de Engenheiros Militares e quadros de oficiais e sargentos temporários. A EsPCEx recebeu suas primeiras alunas em 2017, abrindo a linha bélica às mulheres, mas elas só tiveram as opções da Intendência e Material Bélico. O Exército planeja abrir a arma de Comunicações em 2024. As mulheres eram cerca de 6% do corpo efetivo em 2023.
Hierarquia e uniformes
A hierarquia e a disciplina são formalmente definidas como a base da organização das Forças Armadas. A hierarquia no Exército compreende uma escala de 19 níveis, denominados, "postos", nos degraus superiores (de oficiais), e "graduações", nos degraus inferiores (de praças). Os postos e graduações são agrupados em círculos de convivência social: do mais alto ao mais baixo, são os círculos dos oficiais generais,[f] oficiais superiores,[g] oficiais intermediários,[h] oficiais subalternos,[i] subtenentes e sargentos[j] e cabos e soldados. Em tempos de paz, o posto mais alto é o de general de exército. O posto de marechal pode ser criado em tempo de guerra. Os praças podem ser denominados "graduados", exceto os soldados, base da hierarquia, que são considerados militares não graduados.
Instrução militar
O ensino e a instrução militar podem ser definidos como as principais missões do Exército em tempos de paz. O sistema de ensino abrange a educação, instrução e pesquisa. As atividades de soldados e cabos correspondem ao ensino fundamental, as de sargentos ao ensino médio, técnico ou ensino superior (tecnólogo) e as de oficiais ao ensino superior.[l] Praticamente todas as organizações militares têm alguma responsabilidade no preparo dos soldados. As organizações da ativa têm um efetivo fixo, mas treinam anualmente um efetivo variável de reservistas. Existem organizações exclusivamente voltadas aos reservistas: os Órgãos de Formação de Oficiais da Reserva (OFOR), que são os Centros de Preparação (CPOR) e Núcleos de Preparação (NPOR), e os Tiros de Guerra. Outras organizações preparam os militares de carreira (oficiais e sargentos). Por lei, o ensino militar é regulado exclusivamente pela própria instituição.
Armas, quadros e serviços
As tropas subdividem-se, conforme suas missões e características, em diversas especialidades, denominadas "armas", "quadros" e "serviços". Sete delas realizam diretamente as operações militares, e seus oficiais são exclusivamente formados na AMAN: as Armas da Infantaria, Cavalaria, Engenharia, Artilharia e Comunicações, o Serviço de Intendência e o Quadro de Material Bélico. Coloquialmente, as sete são chamadas de "Armas". A Infantaria e a Cavalaria são as chamadas "Armas base", pois entram diretamente em contato com o inimigo. A Artilharia participa diretamente do combate, mas à distância, provendo apoio de fogo. A Engenharia e as Comunicações são Armas de apoio, mas também agem diretamente no campo de batalha. A Intendência e o Material Bélico são a logística do teatro de operações.
Oficiais
Os oficiais de carreira da linha de ensino militar bélico, também chamados de "oficiais da AMAN" ou "oficiais de academia", são a espinha dorsal e a elite da instituição, nos quais o Exército investe para representá-lo legitimamente e, futuramente, dirigi-lo. Eles são a maioria dos generais e a totalidade dos generais de exército, o topo da hierarquia. Mas existem diversas outras carreiras de oficial. Os oficiais da reserva de 2.ª categoria (R/2) são incorporados através dos OFOR. O Quadro de Engenheiros Militares (QEM), que não deve ser confundido com a Arma de Engenharia da Linha Bélica, é formado no Instituto Militar de Engenharia e tem competências mais próximas às de um engenheiro formado em universidade. O engenheiro do QEM trabalha na ciência, tecnologia e produção de material bélico. O Quadro Auxiliar de Oficiais (QAO) é formado de sargentos e subtenentes promovidos ao oficialato. A Escola de Saúde e Formação Complementar do Exército forma os oficiais do Quadro Complementar de Oficiais (QCO), Quadro de Saúde (QSau) e Quadro de Capelães Militares; os oficiais do QCO já têm graduação prévia num curso superior civil, e os capelães militares têm formação prévia como ministros católicos ou evangélicos. Os Oficiais Técnicos Temporários (OTT), também com formação acadêmica prévia, são incorporados após um estágio e permanecem por até oito anos.
Subtenentes e sargentos
O lema "sargento, elo fundamental entre o comando e a tropa" sintetiza a função atribuída pelo Exército a esse círculo hierárquico. O sargento é ao mesmo tempo chefe e executante. De modo geral, é ele quem mantém o contato direto com os soldados, sobre os quais tem a responsabilidade de disciplinador. Sua formação objetiva um executor prático, que se preciso, põe em prática o que o oficial pensa, mas não sabe executar. Os sargentos nunca foram uma elite, mas sua formação é uma prioridade, ainda que secundária à dos oficiais. Espera-se do sargento de carreira a obediência aos oficiais, senso crítico, maior cultura e preparo técnico-profissional do que seus subordinados e uma identidade profissional robusta. Os alunos da Escola de Sargentos das Armas são, em sua maioria, filhos de civis, mas muitos têm experiência militar prévia, especialmente no serviço militar obrigatório. Eles são mais velhos que os cadetes da AMAN (18–28 anos ao ingressar, com maior frequência na faixa de 20–24) e oriundos de famílias com rendas menores.
Cabos e soldados
Os soldados nas unidades de combate são incorporados através do serviço militar obrigatório inicial. O alistamento é obrigatório para os homens no ano que completam 18 anos. Das três forças singulares, o Exército é a que mais depende do serviço militar obrigatório. Os conscritos são uma parte considerável de seu efetivo, ao contrário da Marinha e Aeronáutica, nas quais eles são uma pequena minoria. Existem diversas alternativas a esta modalidade de serviço militar,[o] dentre as quais os Tiros de Guerra, dispersos em municípios em todo país, formam soldados reservistas sem ocupar o tempo integral de seus recrutas, conhecidos como atiradores. As Juntas de Serviço Militar, nível administrativo mais baixo da conscrição, estão em todo o país. Entretanto, somente nos municípios tributários, escolhidos por motivos geográficos e econômicos, os alistados prosseguirão às etapas seguintes do processo. Cada organização militar receberá recrutas das redondezas. Ao final do processo, cerca de 5% dos alistados são incorporados ao serviço. Em 2012, 92% eram voluntários, segundo o Exército.
O Exército se atém a seus valores e identidade mesmo à medida que se moderniza, e nesse sentido é uma instituição conservadora. Ao captar indivíduos da sociedade, transforma-os mais do que é transformado por eles. O tenente-coronel e sociólogo Everton Araújo dos Santos define-o: "conservador, tradicional, hermético, austero, reservado e avesso a investigações", tendo "muito bem delineados os contornos dos papéis sociais a serem desempenhados por cada um dos indivíduos que o compõem". O Exército pode também ser conservador externamente, com relação à sociedade civil e ao Estado. Os valores militares fundamentam-se numa distinção entre os mundos "de dentro" e "de fora"; o mundo militar é considerado mais organizado, honesto e patriótico que o civil. Conforme o Estatuto dos Militares, as "manifestações essenciais do valor militar" são o patriotismo, o "civismo e o culto das tradições históricas", a "fé na missão elevada das Forças Armadas", o espírito de corpo, o amor à profissão e o aprimoramento técnico-profissional.
Patronos e datas
Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, é a "representação máxima da autoridade, da ordem e da tradição para o Exército Brasileiro". No centenário de sua morte, em 1980, o ministro do Exército Walter Pires chamou-o de "personificação do próprio Exército" e "modelo perfeito de soldado". Caxias é designado "patrono do Exército" e seu aniversário em 25 de agosto é comemorado como o "Dia do Soldado". O "culto" a Caxias foi oficializado em 1923 e promovido pelas autoridades militares como símbolo de um militar disciplinado e leal. Até então, a principal comemoração era 24 de maio, aniversário da Batalha de Tuiuti, e Caxias era menos comemorado que Manuel Luís Osório.
Simbologia
O Exército tem símbolos visuais — brasões, bandeiras, estandartes e galhardetes — e auditivos — toques de tambores, cornetas e clarins, canções, gritos e refrões de guerra. Nos desfiles, seu gênero musical dominante é o dobrado, tocado por bandas militares e fanfarras.[t] Existem hinos e canções do Exército, das armas, quadros e serviços, das organizações militares e canções tradicionais. Da mesma forma, tropas específicas têm seus próprios gritos de guerra. Os mais tradicionais são "Selva", dos guerreiros de selva, e "Brasil acima de tudo", originado entre os paraquedistas e depois disseminado.[u] Na identidade visual, o Exército tem um símbolo, um brasão de armas e um estandarte no qual figura o brasão. O atual símbolo do "cocar elíptico" nas cores da bandeira nacional foi regulamentado para os uniformes em 1951. Ele foi usado nas viaturas a partir da década de 1990, substituindo o Cruzeiro do Sul inscrito num círculo, que era usado desde a Segunda Guerra.
Como parte das Forças Armadas Brasileiras, o Exército Brasileiro tem sua direção superior exercida pelo Ministério da Defesa e seu Comandante Supremo é o Presidente da República, que nomeia um comandante do Exército indicado pelo ministro da Defesa. Sua estrutura, complexa e bem demarcada territorialmente, é centrada no Comando do Exército, que tem autonomia funcional. O Quartel-General do Exército fica no Setor Militar Urbano, em Brasília. O Comando do Exército tem um Órgão de Direção Geral, o Estado-Maior do Exército (EME), quatro Órgãos de Assessoramento Superior,[v] seis Órgãos de Assistência Direta e Imediata,[w] um Órgão de Direção Operacional, o Comando de Operações Terrestres (COTER), e seis Órgãos de Direção Setorial (ODS).[x] O braço operacional do Exército é a Força Terrestre. O COTER, criado para desonerar o EME dos aspectos executivos das operações, avalia a capacidade operacional e instrução da Força Terrestre. O EME formula a doutrina militar, o planejamento estratégico e as diretrizes gerais de atuação. O Alto Comando do Exército (ACE), integrado pelos generais de exército, é somente um órgão de assessoramento superior, mas foi órgão de direção geral, coexistindo com o EME, até 2006. A Indústria de Material Bélico do Brasil (Imbel) é vinculada ao Comando do Exército.
Comandos, divisões e regiões
A Força Terrestre é composta por oito Comandos Militares de Área, cada qual responsável por uma porção do território nacional. A subdivisão do território, quando criada, tinha certa semelhança com a regionalização do IBGE de 1969. Os Comandos Militares de Área evoluíram dos quatro Exércitos numerados e dois comandos de área existentes até 1985. Eles enquadram grandes comandos operacionais, as Divisões de Exército (DEs), e grandes comandos administrativos, logísticos e territoriais, as Regiões Militares (RMs). Algumas RMs comandam organizações militares combatentes, mas isto não é o padrão. As DEs são comandos de coordenação de brigadas e não possuem constituição fixa.
Brigadas e unidades
Conforme a doutrina do Exército, a brigada é a "grande unidade (GU) básica de combinação de armas", "com capacidade de atuar independente e de durar na ação". Seus principais componentes são batalhões de infantaria e regimentos de cavalaria, que são apoiados por elementos de comando, artilharia de campanha, logística, reconhecimento e segurança, artilharia antiaérea, engenharia de combate, comunicações e Polícia do Exército. Cada tipo de brigada tem uma constituição fixa, mas a constituição real pode divergir da doutrinária, e várias brigadas são incompletas. O efetivo de uma brigada pode ser inferior a 2 000 militares ou superior a 5 000. As brigadas de Cavalaria Blindada e Infantaria Blindada são brigadas pesadas. Sua composição é idêntica, tendo como peças principais dois regimentos de carros de combate e dois batalhões de infantaria blindada. As brigadas de Cavalaria Mecanizada e Infantaria Mecanizada são brigadas médias; uma Brigada de Cavalaria Mecanizada tem dois regimentos de cavalaria mecanizada e um de cavalaria blindada,[aa] enquanto a Brigada de Infantaria Mecanizada, com três batalhões de infantaria mecanizada, pode ser comparada ao Stryker Brigade Combat Team do Exército dos Estados Unidos. As demais (Infantaria Motorizada, Infantaria Leve, Infantaria Paraquedista, Infantaria de Selva e Infantaria de Pantanal) são brigadas leves,[ab] compostas de três batalhões de infantaria de vários tipos.
Distribuição geográfica
A distribuição da tropa no território nacional acompanha a estratégia, guardando resquícios das diretrizes passadas. O país é amplamente pontilhado de quartéis, até nas fronteiras mais remotas. Batalhões de engenharia de construção trabalham em vários eixos rodoviários e ferroviários. Ao longo da história, cada reorganização e aumento do efetivo preencheram mais espaços, conforme preconiza a "Estratégia da Presença". Isto difere, por exemplo, do Exército Chileno, que desde os anos 1990 tornou-se compacto e móvel. Ainda assim, o Exército Brasileiro tem forças de reação estratégica no "núcleo central" do país, entre São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, de onde podem acessar qualquer outra região.
Grupos de emprego e Forças de Prontidão
A Força Terrestre é dividida em três "grupos de emprego": as Forças de Emprego Geral, que reforçam as demais, as Forças de Emprego Imediato, que atuam na faixa de fronteira, e as Forças de Emprego Estratégico, que se deslocam para qualquer parte do país, sendo "forças com poder de combate que possibilitam, em situações de crise/conflito armado, o desequilíbrio estratégico, por meio das estratégias dissuasão e ofensiva". Existem ainda os módulos de apoio e as Forças Especializadas de Emprego Estratégico. Na distribuição de material e pessoal, a prioridade é das Forças de Emprego Estratégico e de algumas Forças de Emprego Geral. Os grupos de emprego foram definidos em 2017[ac] e substituem categorizações mais antigas, como as "Forças de Atuação Estratégica" e, antes delas, as "Forças de Ação Rápida Estratégica" (FAR Estrt), entendidas como a reserva estratégica do Exército, com grande mobilidade, completas em pessoal e com todos os treinamentos realizados. Uma série de companhias e batalhões eram designadas como FAR regionais. As demais forças, denominadas "Organizações Militares Operacionais", teriam faltas maiores de pessoal e material, e seriam as principais responsáveis pela formação da reserva. Até os anos 1990, a Brigada de Infantaria Paraquedista era a única força de pronto-emprego estratégico.
Componentes especializados
As operações especiais do Exército envolvem um "adestramento altamente especializado do combatente, a utilização de armamentos e equipamentos não convencionais, missões com alta sensibilidade política, a aplicação heterodoxa dos princípios da guerra, e o aproveitamento de oportunidades limitadas", em missões de guerra irregular, ação direta, reconhecimento estratégico, contraguerrilha, contraterrorismo, operações psicológicas, busca e salvamento e assistência humanitária. As forças encarregadas são enquadradas pelo Comando de Operações Especiais (C Op Esp), sediado em Goiânia e subordinado ao Comando Militar do Planalto, com vínculo de preparo e emprego ao COTER. A exceção é a 3.ª Companhia de Forças Especiais (Força 3), em Manaus, que é subordinada ao Comando Militar da Amazônia, mas vinculada ao C Op Esp.
Blindados
No Exército Brasileiro, as forças centradas em veículos blindados de combate são denominadas "blindadas", se seus veículos movem-se sobre lagartas, e "mecanizadas", se usam rodas. A "espinha dorsal" das forças blindadas e da Cavalaria é o Leopard 1A5 BR. Em 2024 o Exército operava 220 unidades desse modelo, 41 do Leopard 1A1 BE e 31 do M60 A3 TTS, para um total de 292 main battle tanks (MBTs, ou carros de combate). Eles são complementados por 660 veículos blindados de transporte de pessoal (VBTPs) sobre lagartas, de vários modelos de M-113 e do M-577 A2, pelo menos sete viaturas blindadas de engenharia, treze de socorro e cinco lança-pontes. As brigadas blindadas não usam viaturas blindadas de combate de infantaria (VBCIs).
Artilharia
A Arma de Artilharia subdivide-se em grupos e baterias de Artilharia de Campanha, Artilharia de Mísseis e Foguetes e Artilharia Antiaérea.[ai] O IISS estimou uma quantia de 1 881 peças de Artilharia de Campanha e de Mísseis e Foguetes em 2023: 1 245 morteiros (1 168 de calibre 81 mm e os demais, 120 mm), 431 peças de artilharia rebocada (336 de 105 mm e 95 de 155 mm), 169 peças de artilharia autopropulsada de 155 mm e 36 lançadores de mísseis e foguetes. Entretanto, existem números menores para vários modelos.[aj] O número era parecido por volta de 2009, representando uma leve preponderância numérica no continente. No quesito tecnológico, modernos lançadores de mísseis convivem com obuseiros fabricados na década de 1950, com uma média de alcance de dez a quinze quilômetros. Os sistemas mais sofisticados estão na Artilharia de Mísseis e Foguetes, com plataformas ASTROS II organizadas em dois Grupos de Mísseis e Foguetes, somando 78 veículos lançadores e de postos de comando, remuniciadores, radares, oficinas e meteorológicos. Eles estão sediados em Formosa, Goiás, e subordinados ao Comando de Artilharia do Exército. Esta é a artilharia estratégica do Exército, com os maiores alcances, podendo atingir alvos a 90 quilômetros com foguetes de sub munições ou 300 quilômetros com mísseis de cruzeiro, embora estes últimos ainda não estavam em serviço em 2023.
Aviação
Em 2022 a Aviação do Exército operava 95 helicópteros de modelos HA-1 Esquilo, HM-1 Pantera, HM-2 Black Hawk, HM-3 Cougar e HM-4 Jaguar. No início dos anos 2000, a frota brasileira era a segunda maior entre os exércitos sul-americanos. Em comum com a maioria das aviações de exército regionais, ela foca em helicópteros de transporte e não tem helicópteros de ataque dedicados. A capacidade de transporte das aeronaves sediadas em 2020 na Base de Aviação de Taubaté, próximas à Brigada de Infantaria Aeromóvel, não chega a ser suficiente para transportar um batalhão de infantaria inteiro.


