Eunuco
Eunuco é um homem que teve sua genitália removida parcial ou totalmente, por motivação bélica, punição criminal, imposição religiosa ou para servirem em funções sociais específicas. Se convertido a eunuco já adulto, o indivíduo é castrado e perde a capacidade de reprodução e tem uma substancial perda hormonal em seu organismo. Porém se convertido antes da puberdade, além de ter impossibilitada a reprodução, o indivíduo torna-se incapaz de desenvolver os mínimos traços masculinos, como estrutura muscular e engrossamento de voz, devido a total falta de testosterona em seu organismo.
Os Textos de Execração egípcios, com quatro mil anos, ameaçam os seus inimigos na Núbia e na Ásia, referindo-se especificamente a "todos os homens, todos os eunucos, todas as mulheres". A castração era por vezes punitiva; segundo a lei assíria (1450–1250 a.C.), os actos homossexuais eram puníveis com castração: "Se um homem copular com o seu companheiro e eles provarem as acusações contra ele e o encontrarem culpado, copularão com ele e torná-lo-ão num eunuco." Os eunucos eram figuras familiares no Império Neoassírio (ca. 934–610 a.C.) e na corte dos faraós egípcios (até à Dinastia Ptolemaica, terminando com Cleópatra VII, 30 a.C.). Os eunucos foram por vezes utilizados como regentes para herdeiros menores de idade ao trono, como parece ter sido o caso do estado Neo-Hitita de Carquemis. O eunuquismo político tornou-se uma instituição plenamente estabelecida entre os Persas Aqueménidos. Os eunucos ocuparam posições poderosas nos tribunais aqueménidos. O eunuco Bagoas, o Velho (não confundir com Bagoas, o Jovem, o dito amante de Alexandre Magno) foi o Vizir de Artaxerxes III e Artaxerxes IV, e foi o poder principal por detrás do trono durante os seus reinados, até ser morto por Dario III.
A prática estava também bem estabelecida noutras áreas mediterrânicas entre os gregos e romanos, embora o papel como funcionários da corte só surja nos tempos bizantinos. Os Galli ou Sacerdotes de Cibele, um culto com origem na Frígia, eram eunucos que se auto castravam.
Bagoas, o Jovem (termo usado para o diferençar de um outro Bagoas, vizir do Império Aqueménida), foi um eunuco persa que viveu no Século IV AC. Bagoas foi um cortesão de Dario III e mais tarde de Alexandre, o Grande. Embora informações sobre sua biografia sejam extremamente escassas, Bagoas ganhou destaque no imaginário contemporâneo em 1972, com o lançamento do livro O Menino Persa, da escritora Mary Renault. Em seu roteiro, Renault descreve a vida de Bagoas através de uma mistura entre pesquisa e imaginação, o definindo como um menino escravizado, castrado e feminizado pelos exércitos do imperador Dario. Também sugere que Alexandre, o Grande manteve com ele um relacionamento homossexual e que era um dos seus amantes preferidos.
Os eunucos existiram na China desde há cerca de quatro mil anos atrás, eram servidores imperiais há três mil anos, e eram comuns como funcionários públicos na época da dinastia Chim. Na China, a castração incluía a remoção do pénis bem como dos testículos, cortados simultaneamente com uma faca. Desde aqueles tempos antigos até à dinastia Sui, a castração era tanto um castigo tradicional (um dos Cinco Castigos) como um meio de obter emprego ao serviço do Império. Durante a dinastia Qing, crianças e homens eram submetidos a castração para se candidatarem ao serviço no palácio. A grande maioria destes não eram criminosos, prisioneiros de guerra, ou tributos que tivessem sido condenados à pena de castração. Eles eram os pobres da sociedade, jovens e homens adultos que se "voluntariavam" para se tornarem eunucos. Mergulhados na pobreza, os direitos do indivíduo -- crianças (preferidas para o procedimento) ou adultos -- vergavam-se às necessidades da família.
Após o surgimento do Islão, tornou-se proibido a um muçulmano escravizar outro muçulmano. A partir daí, os escravos tiveram de ser procurados fora das fronteiras do império, por captura, compra ou tributo. A súbita riqueza provocada pelas conquistas islâmicas tornou numerosos os haréns, e já cerca de 661 d.C., no califado Omíada, escravos eunucos guardavam os haréns, povoados de concubinas, além das esposas legítimas. Segundo várias fontes, o Islão proíbe a castração, não existindo porém no Alcorão uma proibição específica, parecendo ter existido antes uma espécie de consenso tácito contra - portanto eram adquiridos castrados já "fabricados" no exterior do império por membros de outras religiões, como as judaica e cristã. A mortalidade após esse processo, devido a hemorragias e infeções subsequentes, era enorme, o que fazia com que os preços de tais escravos fossem os mais altos. Os eunucos negros, que, ao contrário dos brancos, sofriam habitualmente a amputação total - testículos e pénis - eram os guardiões dos haréns. A guarda dos haréns - que não eram uma inovação islâmica, já existiam em culturas anteriores - foi, depois do véu e da reclusão, a fase seguinte duma cada vez maior segregação e degradação das mulheres.
No século III, a organização religiosa jordaniana denominada Valésios (Valesii) pregava castração à seus seguidores como forma de alcançar o Espírito Santo. Já entre os séculos XVIII e XX, a seita cristã Skoptsy sacudiu a Rússia ao pregar vida eterna por meio da emasculação e extração de seios. A castração era realizada por meio de um ferro quente – o "batismo de fogo", como lhe chamavam. Também eram castrados obrigatoriamente os filhos dos skoptsi, após a conversão. A organização foi criada por Kondráti Selivanov, um camponês que rapidamente conquistou grande número de adeptos entre os pobres e analfabetos. Acredita-se que em seu auge a seita possuiu cerca de 1 milhão de membros. No entanto, com o advento da Revolução Russa, a seita foi proibida e completamente extinta.
As hijras
No subcontinente indiano, a comunidade hinduísta denominada hijra impõe a emasculação como forma de agradar à deusa Bahuchara Mata. A partir daí, vestem-se e portam-se como mulheres. Segundo a tradição religiosa hindu, os hijras têm grande facilidade para "abençoar ou amaldiçoar", o que torna esta comunidade temida e respeitada naquela sociedade; ao mesmo tempo, são desprezados, abusados e discriminados. As hijra não são um grupo homogéneo: nem todos eunucos, a comunidade compreende também intersexuais, assexuais ou transgéneros. As hijras são encontrados em toda a Índia, e também no Paquistão, Afeganistão e Irão. Vivem juntas em grupos, liderados por uma guru e – usando roupa feminina e usando nomes femininos – consideram-se como mulheres. Ganham o seu sustento cantando e dançando em certas ocasiões como o nascimento de uma criança ou casamentos. e muitas através da prostituição, por razões de exclusão social.
Os castrati eram cantores masculinos que eram submetidos a castração antes da puberdade, a fim de manter o registro elevado duma voz infantil, beneficiando ao mesmo tempo do volume de som produzido pela capacidade pulmonar de um adulto. O fenómeno musical do castrati apareceu na segunda metade do século XVI no Ocidente. Desenvolveu-se principalmente em Itália, desaparecendo entre o final do século XIX e o início do século XX. Os primeiros cantores castrados nas igrejas apareceram no Império Bizantino. No Ocidente, o primeiro castrati conhecido cantou na capela do Duque de Ferrara no final dos anos 1550; o Duque refere-se ao uso do castrati como um fenómeno clássico. Ao mesmo tempo, Guilherme de Gonzaga, o terceiro Duque de Mântua, empregou na sua capela pessoal "pequenos cantores franceses", que provávelmente eram eunucos. O primeiro castrati, de origem espanhola, juntou-se ao coro da Capela Sistina em 1582, a capela privada do Papa, que já tinha recrutado cantores falsetistas espanhóis. A presença de espanhóis entre os primeiros castrati é surpreendente, uma vez que a Espanha não era um centro conhecido de produção de castrati; tem sido sugerido que a prática teve origem nos mouros espanhóis, mas não há provas que o sustentem. Em 1589, o papa Sisto V autorizou formalmente o uso de castrati no coro da Basílica de São Pedro com a bula Cum pro nostro pastorali munere, e em 1599 havia oficialmente dois cantores, padres oratorianos, qualificados como eunucos.
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Um artigo no Gulf Times, um jornal em língua inglesa do Qatar, revelou em 2005 que rapazes nepaleses foram atraídos para a Índia e vendidos a bordéis em Mumbai, Hyderabad, Nova Deli, Lucknow e Gorakhpur. Um dos adolescentes foi atraído aos 14 anos de idade, vendido como escravo, preso, espancado, mal alimentado, e castrado à força. Relatou ter sido mantido num bordel com 40 a 50 outros rapazes, muitos dos quais também foram castrados. Escapou e regressou ao Nepal. Duas organizações não governamentais, uma que trabalha com homossexuais no Nepal, e outra que trabalha para salvar e reabilitar mulheres e crianças traficadas, estavam a cooperar para ajudar e resgatar estes rapazes
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As consequências da castração – físicas e psíquicas – são tanto maiores quanto mais cedo o procedimento se der, assim como o modo como foi efetuado. Os efeitos fisiológicos da castração eram mais graves para as crianças submetidas ao procedimento antes do início da puberdade. A castração pode ser parcial, apenas com retirada dos testículos, ou total, com ablação também do pénis. A primeira consequência podia ser a morte (cuja prevalência é difícil de estabelecer) devido a hemorragias e infeções. As complicações a longo prazo incluem incontinência, restrição uretral, retenção de urina, infeção do tracto urinário, extravasamento de urina e pedras na bexiga. Alguns estudos descobriram que a emasculação pode causar uma série de alterações fisiológicas, tais como um tronco encurtado, estômago e ancas alargadas, aumento da altura, pernas arqueadas, e um crânio alongado. Os castrados têm menos ou nenhum pêlo facial e corporal, aumento do tecido adiposo ou ginecomastia, e uma distribuição de gordura corporal do tipo feminino. A castração também evitava que as vozes dos eunucos ficassem mais graves, com o resultado de na China ou na Europa serem apreciados como cantores.


