Eugênia Ana dos Santos
Eugênia Ana dos Santos, Mãe Aninha, Ọbá Bii, Ialorixá, fundadora do terreiro de candomblé Ilê Axé Opô Afonjá em Salvador e no Rio de Janeiro.
Imagem: Senado Federal · BY-NC · Openverse
Eugênia Ana dos Santos nasceu no dia 13 de julho de 1869, às dez horas da manhã, na rua dos Mares 76, em Salvador, Bahia. Filha de afro-brasileiros da nação Gurunsi (ou Grunci): Sérgio José dos Santos (chamado, em gurunsi, Aniió) e Leonídia Maria da Conceição Santos (chamada, em gurunsi, Azambrió). Não há informação sobre os avós paternos e maternos. Seu registro de nascimento fora efetuado pela própria Eugênia Ana dos Santos, no cartório do subdistrito do Paço, rua do Tingui 97, CEP 40040-380, Salvador, Bahia, no dia 7 de junho de 1937. Foi iniciada na nação Queto em 1884, aproximadamente, pela ialorixá Marcelina da Silva, Obá Tossi, na rua dos Capitães, residência de Maria Júlia de Figueiredo, Omoniquê. Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora, Oxum Muiuá, conta que depois da morte de Marcelina da Silva, Eugênia Ana dos Santos, fez santo Afonjá no Engenho Velho, com Tia Teófila, Bamboxê e Tio Joaquim. Indagada sobre essa segunda feitura no santo, Maria Bibiana do Espírito Santo afirmou que “isso tinha que ser feito, porque Xangô deu dois nomes na terra de Tapa, Ogodô e Afonjá”.
Iniciação Religiosa
Segundo Marcos Santana, as possibilidades de pesquisa sobre os processos de iniciação de Eugênia Ana dos Santos "ainda não foram esgotadas". Em seu livro 'Mãe Aninha de Afonjá: um mito afrobaiano', escreve: "(...) é de aceitação universal que a jovem Eugênia Ana dos Santos teria sido iniciada na nação Queto em 1884, aproximadamente, pela insigne Ialorixá Marcelina da Silva, Obá Tossi, na rua dos Capitães, residência de Maria Júlia de Figueiredo, Omoniquê." "Para se tornar mãe-de-santo tem que nascer, é uma escolha do Orixá. Ser mãe-de-santo é dom, porque a pessoa tem que ser dotada para exercer o cargo. Se a pessoa não for dotada ela pode saber o máximo, mas nunca será Mãe."
Comerciante no Pelourinho
Tinha como atividade civil o comércio de quitutes, artesanato e produtos rituais africanos, com estabelecimento na Ladeira da Praça, no Pelourinho. Foi uma empreendedora muito bem sucedida. Segundo Marcos Santana: "Diversos relatos dão conta de que Mãe Aninha era uma comerciante bem sucedida que ajudava os mais necessitados amparando-os e encaminhando-os para trabalhar na sua residência. Essa posição social iria refletir na aquisição em 1909, das terras no alto de São Gonçalo para a criação definitiva do Axé de Xangô Afonjá." Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, em seu livro 'História de Um Terreiro Nagô', descreve: "(...) Iá Obá Bii voltou a Salvador, para sua casa, à Ladeira do Pelourinho, onde tinha uma quitanda bem sortida de todos os ingredientes africanos e brasileiros para seu próprio uso e para vender também às pessoas que precisavam e procuravam comprar em suas mãos, para os devidos fins, nos respectivos terreiros de seitas africanas."
Ialorixá no Ilê Axé Opô Afonjá
Eugenia Ana dos Santos, comprou a roça de São Gonçalo do Retiro em 1909 e lá fundou o Ilê Axé Opô Afonjá. Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, em seu livro 'História de Um Terreiro Nagô', escreve: "(...) Aninha Iá Obá Bii residia na Ladeira do Pelourinho n.77, junto à Igreja de Nossa Senhora do Rosário, onde tinha posição de destaque, não só nas irmandades ali existentes como também na Igreja da Barroquinha. Foi quando, por ordem do seu eledá Xangô, comprou uma roça no alto de São Gonçalo do Retiro, onde organizou seu terreiro, fazendo uma grande casa para todos os orixás e as pessoas velhas que a acompanhavam, e realizando logo a inauguração do novo terreiro, denominado "Axé Opô Afonjá", com a iniciação de Agripina Souza, filha de Xangô. Agripina veio a ser a Ialorixá do Axé Opô Afonjá do Rio de Janeiro, situado e funcionando em Coelho da Rocha, Axé que lhe foi dado pela velha Aninha e que é uma espécie de sucursal carioca do Axé Opô Afonjá, casa matriz de onde ele nasceu.
Últimos dias
Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, participou dos eventos narrados e conta em seu livro História de Um Terreiro Nagô: No dia 6 de junho, Mãe Aninha fez a iniciação de José, de Ogum; Cantulina, de Airá; Eutrópia, de Oxum. Adoecendo, teve que parar um pouco para descansar, deixando algumas iaôs para quando melhorasse - o que não aconteceu. (...) Quando a morte se aproximou de Iá Obá Bii, às nove horas do dia 3 de janeiro de 1938, às nove horas, foi imediatamente reconhecida. Mãe Aninha, devido a seus profundos conhecimentos, estava ciente de seu fim e já tinha até a roupa preparada para o seu enterro. Chamou então seu neto, Didi, o Açobá, o Obá Aré Miguel de Sant'Anna, e a [[ossidagã Senhora. Imediatamente eles chegaram e se apresentaram ao lado da cama onde ela se encontrava, em um dos quartos da casa que atualmente é de Oçânhim.
Segue abaixo uma introdução das principais realizações de Eugênia Ana dos Santos, Mãe Aninha, Obá Bii, enquanto Ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Segundo Marcos Santana: "1936 pode ser considerado o ano das grandes realizações de Obá Bii na Roça de São Gonçalo. Após o longo período no Rio de Janeiro ela, ao retornar a Salvador, cumpre uma agenda típica de grandes políticos e estadistas. As metas do seu projeto de vida e da sua vocação fundadora se concretizam seguindo uma meta-pré-estabelecida". O Decreto-Lei número 1 202, publicado em 8 de abril de 1939, dispõe sobre a administração dos Estados e dos Municípios, ou seja, descreve qual a competência de cada esfera do Estado e da Administração Pública. No artigo 33, parágrafo 3, lê-se: "É vedado ao Estado e ao Município: Estabelecer, subvencionar ou embargar o exercício de cultos religiosos;". Esse fato é de suma importância porque, na época de Mãe Aninha, o exercício livre da religião do candomblé sofria de preconceito e perseguição policial. Embora o Decreto-Lei tenha sido publicado somente em 1939, consta que Mãe Aninha teria tido um encontro com o presidente Getúlio Vargas em data anterior, pois ela era sua conselheira espiritual, e Getúlio, no período da ditadura, com ela se cuidava espiritualmente. O encontro da Ialorixá com o Presidente, para tratativas sobre a Lei, aconteceu no Palácio do Catete, Rio de Janeiro, e foi promovido pelo chefe da Casa Civil, Oswaldo Aranha, que era filho-de-santo de Mãe Aninha, e do Ogã Jorge Manuel da Rocha.
Fundação do Ilê Axé Opô Afonjá - São Gonçalo, Salvador - BA, 1910
O terreiro de candomblé Ilê Axé Opô Afonjá foi criado em 1910 por Eugênia Ana dos Santos, Mãe Aninha, Obá Bii, em Salvador, Bahia. Ela adquiriu a roça de São Gonçalo, de aproximadamente trinta e nove mil m², onde está situado o terreiro, em 1909. O local é distante do centro histórico de Salvador - Pelourinho - onde Mãe Aninha tinha residência civil na época. São Gonçalo era conhecido pelos sítios de laranjais e pelos diversos quilombos. Donald Pierson detalha as direções de acesso ao terreiro: "Para se chegar à seita de uma conhecida mãe de santo, toma-se o bonde da Calçada para a periferia da cidade, passando-se por laranjais e pastos crescidos, até o matadouro, onde se desce: sobe-se depois por uma estrada íngreme, ladeada por plantas chamadas "nativos" (que dizem ser originárias da África), uricuris e outros coqueiros, até que depois de andar mais dois quilômetros, se chega a um cume que domina um verde vale, donde se pode ver a cidade, bem ao longe. Uma brisa fresca sopra do mar e tempera o calor do sol tropical. Entre palmeiras esparsas aninham-se várias casas, algumas elegantemente pintadas de branco, amarelo, verde e azul".
Reinauguração do Ilê Iá - São Gonçalo, Salvador - BA, 1936
Em pesquisa. Aguardando livro Bahia de Todos os Santos de Jorge Amado, relançamento da Companhia das Letras, em Maio de 2010. Há no livro um relato dele, com a descrição desse evento. Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, conta um pouco: "Ainda em 1936, a Ialorixá Iá Obá Bii - Aninha - participou do II Congresso Afro-Brasileiro, realizado em Salvador, enviando uma comunicação sobre culinária litúrgica baiana. Os congressistas foram festejados no Axé, por ocasião da remodelação da casa de Iá, numa cerimônia que a todos impressionou, pela pureza e formosura do ritual.
Lançamento da pedra fundamental do novo barracão, Ilê N'Lá - São Gonçalo, Salvador - BA, 1936
Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, escreve: "Em 1936, como resultado do esforço e da orientação de Iá Obá Bii, levantaram a primeira pedra para a construção do atual barracão, numa festa que contou com a presença de todos da casa e das autoridades da época." 5. Instituição do Corpo de Obá - São Gonçalo, Salvador - BA, 1936' Eugênia Ana dos Santos, Mãe Aninha, Obá Bii, introduziu o Corpo de Obá, ou Ministros de Xangô, no Ilê Axé Opô Afonjá no dia 29 de junho de 1936 - ato inédito num terreiro de candomblé, na América. Foi auxiliada diretamente por Martiniano Eliseu do Bonfim, Ajimudá do Ilê Axé Opô Afonjá. Descreve Donald Pierson, num depoimento recolhido de Mãe Aninha a ele:
Fundação da Sociedade Cruz Santa - São Gonçalo, Salvador - BA, 1936
Eugênia Ana dos Santos, Mãe Aninha, Obá Bii, fundou a Sociedade Cruz Santa no Ilê Axé Opô Afonjá no dia 8 de novembro de 1936, dia da festa dedicada a Oxum. Escreve Mãe Stella: "(...) Em 1936 criou a Sociedade Cruz Santa do Opô Afonjá, preservando, assim, a continuidade de nossa casa, evitando eventuais possíveis incidentes de sucessão, pós sua morte." Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, conta: "Foi organizada então a sociedade civil com o nome de Sociedade Beneficente Cruz Santa Opô Afonjá, tendo como presidente de honra o Sr. Martiniano Elizeu do Bonfim (Ajimudá), e a primeira diretoria como se segue: Presidente Arkelao de Abreu (Obá Abiodum), Vice-Presidente Miguel A. de Sant'Anna (Obá Aré), Secretário Tibúrcio Muniz (Ogã Ilê Ogum), Tesoureiro Jacinto Souza (Obá Odófin)."
Participação no II Congresso Afro-Brasileiro - Salvador - BA, 1937
Eugenia Ana dos Santos, Mãe Aninha, Obá Bii, participou do II Congresso Afro-Brasileiro, organizado por Edison Carneiro, com o apoio de Arthur Ramos e Áydano do Couto Ferraz, quando apresentou o assunto 'Notas sobre comestíveis africanos - 25 receitas sobre culinária ritual' (sendo 24 com nome iorubá, sem tratar dos processos de preparo ritual), publicado no livro de Edison Carneiro "O Negro no Brasil" (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1940). O primeiro Congresso Afro-Brasileiro foi realizado na cidade do Recife, em Pernambuco no ano de 1934, sob a liderança de Gilberto Freyre e tendo também como um dos idealizadores o poeta brasileiro Solano Trindade que além de poeta e folclorista era militante ativista que participou da fundação da Frente Negra Pernambucana, Centro de Cultura Afro-Brasileiro, Teatro Experimental do Negro. Waldir Freitas Oliveira, professor, escritor e membro da Academia de Letras da Bahia, comenta sobre o segundo Congresso Afro-Brasileiro:


