Etruscos
Os etruscos foram um povo que viveu na Etrúria, na península Itálica, ao sul do rio Arno e ao norte do Tibre, mais ou menos na área equivalente à atual Toscana, com partes do Lácio, Campânia e Úmbria. Eram chamados pelos gregos de tyrsenoi (τυρσηνοί) ou tyrrhenoi (τυρρηνοί), e tusci, ou depois etrusci, pelos romanos; eles autodenominavam-se rasena ou rašna.
A história desta antiga civilização desenrola-se ao longo de dez séculos e seis épocas sucessivas:
Origens
A região onde prosperaram, entre o Arno e o Tibre se chama Toscana por causa do nome que tinham em latim, tusci. O mar que banha a costa da região se chama Tirreno, termo derivado de tirrenoi, como os gregos denominaram os etruscos. A origem dos etruscos permanece uma incógnita, embora existam várias teorias a respeito. Duas delas são as que têm maior peso, ambas concebidas na Antiguidade e populares até hoje. Outra teoria, já descartada, foi a de uma origem "nórdica", defendida em finais do século XIX e primeira metade do século XX. Era baseada somente na similitude da sua autodenominação (rasena) com a denominação que os romanos deram a certos povos celtas que habitavam a Norte dos Alpes, no atual Leste da Suíça e Oeste da Áustria: os récios (em latim: ræthii).
Evolução
A cronologia da civilização etrusca ainda é polêmica e sabe-se de fato muito pouco sobre sua história, já que não sobrevivem documentos suficientes e nem se decifrou toda a sua língua. Para a maioria dos autores a cultura etrusca dá os primeiros sinais de emergência com a chamada cultura Villanova, surgida entre c. 1 200 e 900 a.C. (datação controversa), a primeira cultura que dominou o ferro na região central da Itália. Esta datação concorda com os próprios etruscos, que alegavam ter nascido entre os séculos XI e X a.C.. É muito significativo que não há uma solução de continuidade observável na cultura material desta região entre a Idade do Bronze e o início do período etrusco, e todas as principais cidades etruscas já eram habitadas no período Villanova. A cultura Villanova foi basicamente agrária, organizada em pequenas aldeias com cabanas, espalhadas de maneira mais ou menos uniforme pelo território, com cultura material avançada, economia baseada na cooperação, governo coletivo e pouca estratificação social. Eram também guerreiros e mineiros e há sinais de terem mantido uma apreciável rede de comércio. Deixaram espólios em tumbas contendo vasos, armas, ex-votos, joias e outros objetos, com uma decoração simples baseada em motivos geométricos e grafismos. Também eram capazes de criar pequenas e esquemáticas formas animais e humanas. Entre os séculos IX e VIII a.C. as aldeias começam a se aglutinar no topo de amplos platôs, ao que parece com propósitos defensivos, estabelecendo laços de interesses comuns. Possivelmente eram cercadas de paliçadas. Desta maneira vão sendo formadas as primeiras cidades, onde a estrutura social se modifica e surge uma elite embrionária que tende a concentrar renda e poder e é enterrada com artefatos simbólicos de status.
A organização política da Etrúria permaneceu em evolução constante. No período Villanova a sociedade se estruturou em aldeias habitadas por tribos agrárias de governo coletivo e igualitário, mas perfeitamente aptas para o combate militar sob um comando centralizado. As aldeias evoluíram para cidades, que a partir do século VIII a.C. estavam se constituindo em cidades-Estado independentes, a unidade política básica da sociedade etrusca, possivelmente mantidas unidas, porém, por um sistema de federação e por interesses comuns, principalmente religiosos. Nas cidades formou-se uma elite aristocrática fortemente militarizada, que passou a controlar as riquezas e a administração pública. No século VI a.C. o regime da monarquia absoluta havia se generalizado para quase todas as cidades. Ao rei (zilath) cabia distribuir a justiça, atuar como sumo-sacerdote e comandar o exército. Pelo fim do século V a.C., o processo de urbanização havia se completado e surgem repúblicas oligárquicas, com um oficial supremo e magistraturas subordinadas temporárias, mas praticamente nada se sabe sobre suas atribuições e sobre a legislação em vigor. Há sinais que sua organização jurídico-judiciária se baseava mais em tradições consuetudinárias do que em uma legislação escrita. A transformação social e política não ocorreu da mesma maneira em todas as cidades, que se desenvolveram formando micro-culturas razoavelmente individualizadas. A cidade de Veios, por exemplo, mudou de regime várias vezes.
Durante toda a existência da sua civilização, os etruscos foram um povo comerciante, principalmente marítimo, embora também terrestre. Por outro lado, as suas terras viram-se invadidas várias vezes por povos bárbaros já que as suas cidades eram muito ricas e cobiçadas, eram passo obrigado para as férteis terras da Campânia e para chegar a Roma (como ocorreu, por exemplo, com a invasão de Aníbal). A princípio aliaram-se e repartiram as zonas de influência marítima com os fenícios, contra os helenos. Por volta do século IV a.C. estreitaram relações com Corinto e cessou a hostilidade com os gregos. Contudo, em 545 a.C. aliaram-se com os cartagineses novamente contra os gregos. Tiveram numerosos inimigos. Desde um princípio, a Liga Latina (com Roma de aliada ou à frente da mesma), no Lácio; na Campânia os samnitas; nas costas e ilhas os siracusanos e cumanos e nas planícies do Pó os povos celtas. Apenas conservariam como aliado incondicional, durante toda a história desta civilização, os faliscos, povo que vivia a oeste do Tibre. Por volta de 300 a.C., aliaram-se com os gregos contra cartagineses e romanos, pelo controle das rotas comerciais. Ao redor de 295 a.C., uma liga de etruscos, sabinos, umbros e gauleses cisalpinos combateu contra Roma, saindo esta última vitoriosa. Contudo, em sucessivas alianças temporárias com os gauleses continuaram lutando contra os romanos, até ter lugar uma aliança com Roma contra Cartago. Após isso, os etruscos, já em decadência, começaram a ser absorvidos pelos romanos.
O etrusco é uma língua isolada e não aparentada com as línguas indo-europeias, e só é compreendida fragmentariamente. Têm sido propostas afinidades com várias outras línguas, como o basco, o armênio e o húngaro, mas essas supostas aproximações são objeto de grande discórdia entre os estudiosos. Já um parentesco com a língua lêmnia, também isolada, parece bem mais seguro. O etrusco utilizava uma variante do alfabeto grego, provavelmente absorvida através dos fenícios no fim do século VIII a.C., quando surgem as primeiras inscrições. Escreviam em geral da direita para a esquerda, às vezes a direção da escrita se inverte de linha para linha (bustrofédon), invertendo também a posição das letras. Seu alfabeto passou por modificações ao longo do tempo. Inicialmente tinha 26 letras, e no Período Clássico se estabilizou com 20, sendo 4 vogais e 16 consoantes. A escrita etrusca continuou em uso até o século I d.C. e deu origem ao alfabeto latino. A língua deixou de ser falada no período da Roma imperial, mas sobreviveu até o fim da Antiguidade em contextos religiosos.
Existem certas analogias com religiões orientais (especialmente com a de Suméria e Caldeia e mesmo a egípcia). O tipo de religião é politeísta de revelação, e estava plasmada numa série de livros sagrados conhecidos em seu conjunto como Etrusca Disciplina, que os romanos conheceram e comentaram mas depois foram perdidos. Partes sobrevivem em tradução grega. O primeiro, intitulado Livro dos Arúspices, aborda a arte da divinação; o segundo, Livro dos Raios, ensina como interpretá-los como augúrios, e o terceiro, Livro dos Rituais, tem um escopo mais largo, abordando desde as práticas rituais do culto, o destino, a duração da vida do homem e do Estado, até os padrões de vida que o indivíduo deveria alcançar e praticar. Havia ainda um Livro de Aqueronte, descrevendo o submundo, a vida no além e as formas de enterramento, e dois livros sobre os profetas Tages e Vegoia. Escritores gregos e romanos referem os etruscos como o povo mais religioso que conheciam. Sua vida era regida em grande parte por leis e regras de origem religiosa. Os sacerdotes denominavam-se arúspices, e sempre tiveram uma posição de privilégio na sociedade. Os arúspices especializavam-se em interpretar o que consideravam signos proféticos encontrados em entranhas de animais sacrificados, em fenômenos atmosféricos e no voo das aves, por exemplo, buscando desvendar a vontade divina.
Das suas cidades e palácios pouco se sabe e quase nada subsiste, construídos em sítios habitados ininterruptamente até a contemporaneidade e extensivamente remodelados sucessivas vezes. O que parece claro é que a arquitetura local evoluiu a partir de tradições autóctones, e a partir do século VIII a.C. passou a incorporar a influência grega e oriental. Como em todas as outras áreas da sua cultura, eles não se limitaram a imitar os modelos estrangeiros, mas se deram a liberdade de experimentar uma variedade de soluções ornamentais, estruturais e funcionais de sua própria invenção. Um tipo de cabana rural primitiva é conhecido através de urnas em cerâmica que reproduzem sua forma básica, com uma peça única de planta ovalada, uma grande porta quadrada de entrada e um telhado de duas águas. O material de suas paredes é incerto. Provavelmente eram construídas de barro com estrutura em gaiola de madeira e cobertas de palha, mas podiam ter paredes de madeira. O uso da pedra para a construção de habitações foi muito raro, mesmo entre a elite.
Destaca-se a arte funerária, que perfaz o maior legado arqueológico etrusco. Criaram variados tipos de sepulcros subterrâneos, sendo os mais importantes os túmulos principescos escavados em montes artificiais que aparecem a partir do século VIII a.C., que em geral continham um rico espólio de oferendas aos deuses e aos mortos. Essas oferendas consistiam de objetos de uso cotidiano como vasos e móveis, insígnias de autoridade e poder, armamentos, adornos corporais, estatuária, ex-votos, joalheria e outros. Desde o período Villanova foram grandes metalúrgicos, verdadeiros artistas do ferro e do bronze, produzindo sofisticadas peças decorativas, vasos rituais, ferramentas, acessórios de cavalaria, elmos e armas de elegante desenho e com requintes ornamentais. Evolução semelhante ocorreu na ourivesaria. Instigados pelo exemplo dos itens de luxo orientais, que importavam em massa para atender aos desejos de consumo e ostentação da elite emergente, os artesãos locais vieram a dominar com perícia a manufatura em cerâmica, vidro, marfim, prata, cobre, madeira, âmbar, pedras preciosas e outros materiais, e as técnicas artísticas da escultura em pedra, metal e terracota e a pintura em vasos e afrescos foram igualmente cultivadas.
Os etruscos exerceram influência cultural e econômica sobre um vasto território. Seus artefatos foram encontrados da Escandinávia, Gália, Península Ibérica e norte da África até o Oriente Próximo, transformando em alguma medida o cotidiano de uma diversidade de povos. A marca mais profunda deixaram nos romanos, que foram governados por eles e mesmo depois de os expulsarem continuaram a vê-los como povo culto e digno de respeito. Deles os romanos receberam uma importante massa de tradições, ritos, mitos, práticas, técnicas, costumes, símbolos, valores, padrões intelectuais, estéticos, arquitetônicos e urbanísticos, que formaram uma das bases da sua própria civilização, aprendendo deles também o alfabeto e um significativo vocabulário. Deram a Roma sua primeira muralha e seu primeiro sistema de drenagem de águas, e ergueram muitos monumentos na cidade, como o imponente Templo de Júpiter Capitolino, que veio a se tornar um dos símbolos da república. A família de Júlio César dizia descender dos etruscos, Augusto mandou preservar seus livros sagrados no Templo de Apolo Capitolino e Cláudio, um dos últimos romanos a falar sua língua, escreveu um tratado sobre eles em vinte volumes que incluía um dicionário, obra perdida. Muitas famílias patrícias romanas se orgulhavam de seus casamentos com a aristocracia etrusca, que era mais antiga que a romana e considerada um modelo de elegância e sofisticação. Entre o povo também ocorreu extensa mescla com os etruscos.


