Estoicismo
O estoicismo é uma filosofia helenística que floresceu na Grécia e Roma antigas. Os estóicos acreditavam que o universo operava de acordo com a razão, ou seja, por um Deus que está imerso na própria natureza. De todas as escolas de filosofia antiga, o estoicismo fez a maior afirmação de ser totalmente sistemático.
O nome estoicismo deriva de Stoa Poikile (em grego clássico: ἡ ποικίλη στοά; romaniz.: pórtico pintado), uma colunata decorada com cenas de batalhas míticas e históricas no lado norte da Ágora de Atenas, onde Zenão de Cítio e seus seguidores se reuniam para discutir suas ideias, perto do final do século IV a.C. Ao contrário dos epicuristas, Zenão escolheu ensinar sua filosofia em um espaço público. O estoicismo era originalmente conhecido como zenonismo. No entanto, esse nome foi logo abandonado, provavelmente porque os estoicos não consideravam seus fundadores perfeitamente sábios e para evitar o risco de a filosofia se tornar um culto à personalidade. As ideias de Zenão desenvolveram-se a partir das dos cínicos (trazidas a ele por Crates de Tebas), cujo fundador, Antístenes, havia sido discípulo de Sócrates. O sucessor mais influente de Zenão foi Crisipo, que sucedeu Cleantes como líder da escola e foi responsável por moldar o que hoje é chamado de estoicismo. O estoicismo tornou-se a principal filosofia popular entre a elite intelectual do mundo helenístico e do Império Romano a ponto de, nas palavras de Gilbert Murray, "quase todos os sucessores de Alexandre [...] se declararem estoicos". Os estoicos romanos posteriores concentraram-se em promover uma vida em harmonia com o universo, do qual somos participantes ativos.
Para os estoicos, a lógica (logike) era a parte da filosofia que examinava a razão (logos). Para alcançar uma vida feliz — uma vida que valha a pena ser vivida — é necessário o pensamento lógico. Os estoicos sustentavam que a compreensão da ética era impossível sem a lógica. Nas palavras de Inwood, os estoicos acreditavam que: .mw-parser-output .flexquote{display:flex;flex-direction:column;background-color:#F1F1F1;border-left:3px solid #C7C7C7;font-size:100%;margin:1em 4em;padding:.4em .8em}.mw-parser-output .flexquote>.flex{display:flex;flex-direction:row}.mw-parser-output .flexquote>.flex>.quote{width:100%}.mw-parser-output .flexquote>.flex>.separator{border-left:1px solid #C7C7C7;border-top:1px solid #C7C7C7;margin:.4em .8em}.mw-parser-output .flexquote>.cite{text-align:right}@media all and (max-width:600px){.mw-parser-output .flexquote>.flex{flex-direction:column}}@media screen{html.skin-theme-clientpref-night .mw-parser-output .flexquote{background-color:transparent}}@media screen and (prefers-color-scheme:dark){html.skin-theme-clientpref-os .mw-parser-output .flexquote{background-color:transparent}}
Axioma
A menor unidade na lógica estoica é um axioma (ou afirmável), uma proposição que é verdadeira ou falsa e que afirma ou nega. Exemplos de axiomas incluem "é noite", "está chovendo esta tarde" e "ninguém está andando". Os axiomas têm um valor de verdade tal que são verdadeiros ou falsos apenas dependendo de quando foram expressos (por exemplo, o axioma "é noite" só será verdadeiro se for verdade que é noite). Os estoicos catalogaram esses axiomas simples de acordo com se são afirmativos ou negativos, e se são definidos ou indefinidos (ou ambos). As afirmações compostas podem ser construídas a partir de afirmações simples através do uso de conectivos lógicos, que examinam escolha e consequência, como "se... então", "ou... ou" e "nem ambos". Crisipo parece ter sido responsável pela introdução dos três principais tipos de conectivos: o condicional (se), o conjuntivo (e) e o disjuntivo (ou). Um condicional típico assume a forma "se p então q"; enquanto uma conjunção assume a forma "tanto p quanto q"; e uma disjunção assume a forma "ou p ou q". O "ou" que eles usaram é exclusivo, ao contrário do "ou" inclusivo geralmente usado na lógica formal moderna. Esses conectivos são combinados com o uso de "não" para negação. Assim, o condicional pode assumir as seguintes quatro formas: 1) "Se p, então q" 2) "Se não p, então q" 3) "Se p, então não q" 4) "Se não p, então não q". Os estoicos posteriores adicionaram mais conectivos: o pseudocondicional assumiu a forma de "já que p então q"; e o assertivo causal assumiu a forma de "porque p então q".[a] Havia também um comparativo (ou dissertivo): "mais/menos (provavelmente) p do que q".
Argumentos
Na lógica estoica, um argumento é definido como um composto ou sistema de premissas e uma conclusão. Um silogismo estoico típico é: "Se é dia, é claro; É dia; Portanto, é claro". Ele possui uma asserção não simples para a primeira premissa ("Se é dia, é claro") e uma asserção simples para a segunda premissa ("É dia"). A lógica estoica também usa variáveis que representam proposições para generalizar argumentos da mesma forma. Em termos mais gerais, este argumento seria: "Se p, então q; p; Portanto q." Crisipo listou cinco formas básicas de argumentos, chamadas indemonstráveis,[c] às quais todos os outros argumentos são redutíveis: Pode haver muitas variações desses cinco argumentos indemonstráveis. Por exemplo, as afirmações nas premissas podem ser mais complexas, e o seguinte silogismo é um exemplo válido do segundo indemonstrável (modus tollens): "se p e q, então r; não r; portanto não: p e q". Da mesma forma, pode-se incorporar a negação nesses argumentos. Um exemplo válido do quarto indemonstrável (modus tollendo ponens forte ou silogismo disjuntivo exclusivo) é: "ou [não p] ou q; não [não p]; portanto q", que, incorporando o princípio da dupla negação , é equivalente a: "ou [não p] ou q; p; portanto q."
Segundo os estoicos, o Universo é uma substância material racional (logos), que se dividia em duas classes: a ativa e a passiva. A substância passiva é a própria matéria, enquanto a substância ativa é um éter inteligente ou fogo primordial, que age sobre a matéria passiva, sendo o logos ou anima mundi que permeia e anima todo o Universo. Era concebido como material e geralmente é identificado com Deus ou a Natureza. Os estoicos também se referiam à razão seminal (logos spermatikos), ou a lei da geração no Universo, que era o princípio da razão ativa atuando na matéria inanimada. Os seres humanos também possuem uma porção do logos divino, que é o Fogo primordial e a razão que controla e sustenta o Universo. Tudo está sujeito às leis do Destino, pois o Universo age de acordo com sua própria natureza e com a natureza da matéria passiva que governa. O estoicismo não postula um começo ou um fim para o Universo. O Universo atual é uma fase no ciclo presente, precedido por um número infinito de Universos, fadados a serem destruídos ("Ekpyrosis", conflagração) e recriados novamente, e a serem seguidos por outro número infinito de Universos.
Os estoicos forneceram um relato unificado do mundo, construído a partir de ideais de lógica, física monista e ética naturalista. Destes, eles enfatizaram a ética como o foco principal do conhecimento humano, embora as suas teorias lógicas fossem de maior interesse para os filósofos posteriores.[carece de fontes?] O estoicismo ensina o desenvolvimento do autocontrole como meio de superar emoções destrutivas; a filosofia sustenta que tornar-se um pensador claro e imparcial permite compreender a razão universal (logos). O aspeto principal do estoicismo envolve a melhoria do bem-estar ético e moral do indivíduo: “A virtude consiste numa vontade que está de acordo com a Natureza”. Este princípio também se aplica ao domínio das relações interpessoais; “estar livre da raiva, da inveja e do ciúme”, e aceitar até mesmo os escravos como “iguais aos outros homens, porque todos os homens são produtos da natureza”.
Ética
O fundamento da ética estoica é que o bem reside no próprio estado da alma, na sabedoria e no autocontrolo. É preciso, portanto, esforçar-se para estar livre das paixões. Para os estoicos, a razão significava usar a lógica e compreender os processos da natureza – o logos ou razão universal, inerente a todas as coisas. A palavra grega pathos era um termo abrangente que indicava uma imposição que alguém sofria. Os estoicos usaram a palavra para discutir muitas emoções comuns, como raiva, medo e alegria excessiva. Uma paixão é uma força perturbadora e enganadora na mente que ocorre devido a uma falha em raciocinar corretamente. Para o estoico Crisipo, as paixões são julgamentos avaliativos. Uma pessoa que experiencia tal emoção valorizou incorretamente uma coisa indiferente. Uma falha de julgamento, alguma falsa noção do bem ou do mal, está na raiz de cada paixão. O julgamento incorreto quanto a um bem presente dá origem ao deleite, enquanto que a luxúria é uma estimativa errada sobre o futuro. Imaginações irreais do mal causam angústia no presente ou medo no futuro. O estoico ideal, em vez disso, mediria as coisas pelo seu valor real, e veria que as paixões não são naturais. Estar livre das paixões é ter uma felicidade autossuficiente. Não haveria nada a temer – pois a irracionalidade é o único mal; não há motivo para raiva – pois os outros não podem prejudicá-lo.
Imagem: escael · BY-NC · Openverse
Uma característica distintiva do estoicismo é o seu cosmopolitismo: todas as pessoas seriam manifestações do espírito universal único e deveriam, de acordo com os filósofos estoicos, em amor fraternal, ajudarem-se uns ao outros de maneira eficaz. Nos Discursos, Epicteto comenta sobre a relação do ser humano com o mundo: "cada ser humano é, primeiro, um cidadão da sua comunidade; mas também é membro da grande cidade dos homens e deuses...". Esse sentimento ecoa o de Diógenes de Sínope, que disse "Eu não sou nem ateniense nem coríntio, mas um cidadão do mundo". Os estoicos da época promoviam a ideia de que as diferenças externas, como status e riqueza, não são importantes nas relações sociais. Em vez disso, advogavam a irmandade da humanidade e a natural igualdade do ser humano. O estoicismo tornou-se a mais influente escola do mundo greco-romano e produziu uma grande quantidade de escritores e personalidades de renome, como Catão, o Jovem e Epiteto.[carece de fontes?]
Durante cerca de quinhentos anos, a lógica estoica foi um dos dois grandes sistemas de lógica. A lógica de Crisipo foi discutida juntamente com a de Aristóteles, e pode muito bem ter sido mais proeminente, visto que o estoicismo era a escola filosófica dominante. De uma perspectiva moderna, a lógica de termos de Aristóteles e a lógica estoica das proposições parecem complementares, mas por vezes foram consideradas sistemas rivais.
Neoplatonismo
Na Antiguidade Tardia, a escola estoica entrou em declínio, e a última escola filosófica pagã, os neoplatônicos, adotou a lógica de Aristóteles. Plotino criticou tanto as Categorias de Aristóteles quanto as dos estoicos; seu aluno Porfírio, no entanto, defendeu o esquema de Aristóteles. Ele justificou isso argumentando que elas deveriam ser interpretadas estritamente como expressões, e não como realidades metafísicas. Essa abordagem pode ser justificada, pelo menos em parte, pelas próprias palavras de Aristóteles em As Categorias. A aceitação da interpretação de Porfírio por Boécio levou à sua aceitação pela filosofia escolástica.[carece de fontes?] Como resultado, os escritos estoicos sobre lógica não sobreviveram, e apenas elementos da lógica estoica chegaram aos escritos lógicos de Boécio e outros comentadores posteriores, transmitindo partes confusas da lógica estoica para a Idade Média. A lógica proposicional foi redescoberta por Pedro Abelardo no século XII, mas em meados do século XV a única lógica que estava sendo estudada era uma versão simplificada da de Aristóteles. O conhecimento sobre a lógica estoica como um sistema foi perdido até o século XX, quando lógicos familiarizados com o cálculo proposicional moderno reavaliaram os relatos antigos sobre ela.
Cristandade
Os Padres da Igreja consideravam o estoicismo uma "filosofia pagã"; no entanto, os primeiros escritores cristãos usaram alguns dos conceitos filosóficos centrais do estoicismo. Exemplos incluem os termos "logos", "virtude", "Espírito" e "consciência". Assim como o estoicismo, o cristianismo afirma uma liberdade interior diante do mundo exterior, uma crença na afinidade humana com a Natureza ou Deus, um senso da depravação inata — ou "mal persistente" — da humanidade, e a futilidade e a natureza temporária das posses e apegos mundanos. Ambos incentivam a equanimidade em relação às paixões e emoções inferiores, como a luxúria e a inveja, para que as possibilidades mais elevadas da humanidade possam ser despertadas e desenvolvidas. A influência estoica também pode ser vista nas obras de Ambrósio de Milão, Marco Minúcio Félix e Tertuliano.
Neoestoicismo
O neoestoicismo foi um movimento filosófico que surgiu no final do século XVI a partir das obras do humanista renascentista Justo Lípsio, que procurou combinar as crenças do estoicismo e do cristianismo. O projeto do neoestoicismo foi descrito como uma tentativa de Lípsio de construir "uma ética secular baseada na filosofia estoica romana". Ele não endossou a tolerância religiosa de forma incondicional: daí a importância de uma moralidade não atrelada à religião. A obra de Guillaume du Vair, Traité de la Constance (1594), foi outra influência importante no movimento neoestoico. Enquanto Lípsio baseou principalmente seu trabalho nos escritos de Sêneca, du Vair enfatizou Epiteto. Pierre Charron chegou a uma posição neoestoica por meio do impacto das guerras religiosas na França. Ele fez uma separação completa entre moralidade e religião.
Reavaliação da lógica estoica
No século XVIII, Immanuel Kant declarou que "desde Aristóteles... a lógica não conseguiu avançar um único passo e, portanto, é aparentemente um corpo de doutrina fechado e completo." Para os historiadores do século XIX, que acreditavam que a filosofia helenística representava um declínio em relação à de Platão e Aristóteles, a lógica estoica era vista com desprezo. Carl Prantl considerava a lógica estoica "tediosa, trivial e minúcia escolástica" e saudava o fato de as obras de Crisipo não existirem mais. Embora os desenvolvimentos na lógica moderna que são paralelos à lógica estoica tenham começado em meados do século XIX com o trabalho de George Boole e Augustus De Morgan, a própria lógica estoica só foi reavaliada no século XX, começando com o trabalho do lógico polonês Jan Łukasiewicz e Benson Mates. De acordo com Susanne Bobzien, "As muitas semelhanças estreitas entre a lógica filosófica de Crisipo e a de Gottlob Frege são especialmente impressionantes".
Estoicismo contemporâneo
O uso contemporâneo define um estoico como uma "pessoa que reprime sentimentos ou suporta pacientemente". A entrada da Stanford Encyclopedia of Philosophy sobre estoicismo observa: "o sentido do adjetivo inglês 'estoico' não é totalmente enganoso em relação às suas origens filosóficas". O estoicismo contemporâneo se baseia no aumento das publicações de obras acadêmicas sobre o estoicismo antigo no final do século XX e início do século XXI. O renascimento do estoicismo no século XX pode ser rastreado até a publicação de Problemas do Estoicismo por A. A. Long em 1971. Segundo o filósofo Pierre Hadot, a filosofia para um estoico não é apenas um conjunto de crenças ou afirmações éticas; é um modo de vida que envolve prática e treinamento constantes (ou "askēsis"), um processo ativo de prática constante e auto-lembrete. Epiteto, em seus Discursos, distinguiu três tipos de ato: juízo, desejo e inclinação, que Hadot identifica com a lógica, a física e a ética, respectivamente. Hadot escreve que nas Meditações, "Cada máxima desenvolve um desses tópicos [isto é, atos] muito característicos, ou dois deles, ou três deles."
Psicologia e psicoterapia
A filosofia estoica foi a inspiração filosófica original para a psicoterapia cognitiva moderna, particularmente mediada pela terapia racional‐emotiva comportamental (TREC) de Albert Ellis (REBT), o principal precursor da terapia cognitivo-comportamental (TCC). O manual original de tratamento de terapia cognitiva para depressão de Aaron T. Beck et al. afirma: "As origens filosóficas da terapia cognitiva podem ser rastreadas até os filósofos estoicos". Uma citação bem conhecida do Manual de Epiteto era ensinada à maioria dos clientes durante a sessão inicial da TREC tradicional por Ellis e seus seguidores: "Não são os eventos que nos perturbam, mas nossos julgamentos sobre os eventos".


