Pesquisa · Mapa mental

Erving Goffman

Erving Goffman foi um cientista social, antropólogo, sociólogo e escritor canadense. Foi considerado "o sociólogo norte-americano mais influente do século XX". Em 2007, foi listado pelo “The Times Higher Education Guide” como o sexto autor nas ciências humanas e sociais mais citado, atrás de Anthony Giddens e à frente de Jürgen Habermas.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 13/07/2026
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Vida

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Goffman nasceu em 11 de junho de 1922, em Mannville, Alberta, Canadá, de Max Goffman e Anne Goffman, née Averbach. Ele era de uma família de judeus ucranianos que haviam emigrado para o Canadá, na virada do século. Ele tinha uma irmã mais velha, Frances Bay, que se tornou uma atriz. A família mudou-se para Dauphin, Manitoba, onde seu pai operava um negócio de costura bem sucedido. Em 1952, casou-se com Angelica Choate; em 1953, seu filho Thomas nasceu. Angelica sofria de doença mental e suicidou-se em 1964. Fora de sua carreira acadêmica, Goffman era conhecido por seu interesse, e relativo sucesso, no mercado de ações e em jogos de azar. Em certo ponto, em busca de seus hobbies e estudos etnográficos, ele se tornou chefe de equipe em um casino em Las Vegas. Em 1981, casou-se novamente, agora com a sociolinguista Gillian Sankoff. No ano seguinte, sua filha Alice nasceu. Em 1982, Goffman morreu na Filadélfia, Pensilvânia, no dia 19 ou 20 de Novembro (fontes variam), de câncer de estômago. Alice Goffman também é socióloga.

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Trajetória acadêmica

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Goffman era um notável observador dos encontros sociais, ao mesmo tempo em que, pessoalmente, demonstrava falta de vontade de lidar com as convenções sociais e regras típicas da interação humana. No livro “Goffman Unbound!” (2006), de Thomas Scheff - sociólogo e ex-aluno de Goffman – é documentado como ele se aproveitava de meras conversas cotidianas para testar as pessoas e suas reações, um comportamento que segundo Scheff e atestado por amigos e colegas, sugeria estar Goffman sempre “trabalhando”. Essa atenção aos menores detalhes da prática humana está muito clara em seus escritos. Goffman, com uma perspicaz habilidade observacional, dá atenção aos detalhes que costumam passar batido, ao que normalmente não é notado. Surpreendentemente, a opinião acadêmica sobre o autor é dividida. Os simpáticos a ele, ressaltam o criativo e perspicaz vocabulário que seu trabalho fornece para a compreensão dos encontros sociais. Por outro lado, os “críticos” veem em sua sociologia não-convencional um estilo de análise “não-sistemático”. A despeito das divergências, é inegável a contribuição de Goffman para as ciências sociais, principalmente no que se refere a temas como o “eu”, emoções, civilidade e resistência.

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Carreira

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A pesquisa que Goffman tinha feito em Unst o inspirou a escrever sua primeira grande obra, “A Representação do Eu” (1956). Depois de se formar pela Universidade de Chicago, em 1954-57 foi assistente para o diretor de esportes do Instituto Nacional de Saúde Mental, em Bethesda, Maryland. A observação advinda da participação o instituto o levou a escrever seus ensaios sobre a doença mental e instituições totais, que veio a formar o seu segundo livro, “Asylums: Essays on the Social Situation of Mental Patients and Other Inmates” (1961). Em 1958, tornou-se um membro do corpo docente do departamento de sociologia da Universidade da Califórnia, em Berkeley, primeiro como professor visitante, em seguida, a partir de 1962 como professor titular. Em 1968, ele mudou-se para a Universidade da Pensilvânia, recebendo a “Benjamin Franklin Chair” em Sociologia e Antropologia, em grande parte devido aos esforços de Dell Hymes, um ex-colega de Berkeley. Em 1969, ele tornou-se membro da Academia Americana de Artes e Ciências. Em 1970, tornou-se um co-fundador da Associação Americana para a Abolição da Hospitalização Mental Involuntária e coautor de sua Declaração de Plataforma. Em 1971, ele publicou “Relations in Public”, no qual ele amarra muitas de suas idéias sobre a vida cotidiana, vista de uma perspectiva sociológica. Outro grande livro dele, Frame Analysis, saiu em 1974. Ele recebeu uma bolsa da Fundação Guggenheim para 1977-1978. Em 1979, recebeu o Prêmio “Cooley-Mead” para acadêmico distinto, a partir da seção de Psicologia Social da American Sociological Association. Ele foi eleito o 73ª presidente da American Sociological Association, servindo em 1981-82; no entanto, foi incapaz de realizar o discurso presidencial em pessoa devido à progressão da doença. Postumamente, em 1983, ele recebeu o Prêmio “Mead” da Sociedade para o Estudo da Interação Simbólica.

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Influência e Legado

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Goffman foi influenciado por Herbert Blumer, Émile Durkheim, Sigmund Freud, Everett Hughes, Alfred Radcliffe-Brown, Talcott Parsons, Alfred Schütz, Georg Simmel e W. Lloyd Warner. Hughes foi o "mais influente de seus professores", de acordo com Tom Burns. Gary Alan Fine e Philip Manning afirmam que Goffman nunca se empenhou em diálogos sérios com outros teóricos. Seu trabalho tem, no entanto, influenciado e foi discutido por vários sociólogos contemporâneos, incluindo Anthony Giddens, Jürgen Habermas e Pierre Bourdieu. Embora Goffman seja frequentemente associado com a escola de interação simbólica do pensamento sociológico, ele não vê a si mesmo como um representante dela, o que condiz com a colocação de Fine e Manning que ele "não se encaixa facilmente dentro de uma escola específica de pensamento sociológico". Suas idéias são também "difícil reduzir a uma série de temas-chave"; seu trabalho pode ser genericamente descrito como o desenvolvimento de "uma sociologia comparativa, qualitativa com o objetivo de produzir generalizações sobre o comportamento humano".

Influências na criminologia

No campo criminológico, Goffman faz parte da chamada teoria surgida nos Estados Unidos conhecida como labelling approach, surgida no início dos anos 60, sendo uma perspectiva crítica ao Direito Penal e à criminologia vigente à época. Como leciona Sergio Salomão Shecaira, no Brasil ficou conhecida como teoria interacionista e utiliza métodos qualitativos e de observação, dentre os quais inclui-se o estudo de Goffman acerca das instituições totais. Tal teoria expõe que, ao reprimir movimentos sociais, a política criminológica vigente na década de 50 transforma pessoas comuns em criminosos. O enfoque passa a ser a interação social, e a delinquência é tida como resultado do processo causal desencadeado pela estigmatização. As instâncias de controle social primam pelo status em detrimento do merecimento. Shecaira aponta a grande contribuição de Goffman com “Manicômios, prisões e conventos”, apresentando a degradação do eu, como já supracitado. Aponta que Felipe Martínez irá recuperar o conceito de instituição total para analisar a pena em três aspectos: a mutilação do eu, a relação dramatúrgica entre os atores das instituições deste tipo e, por fim, o estigma.

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Trabalhos

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“Frame Analysis: An Essay on the Organization of Experience” (1974) é a tentativa de Goffman para explicar como quadros conceituais - maneiras de organizar a experiência - estruturam a percepção do indivíduo da sociedade. Este livro é, portanto, sobre a organização da experiência e não a organização da sociedade. Um quadro é um conjunto de conceitos e perspectivas teóricas que organizam experiências e orientam as ações de indivíduos, grupos e sociedades. Análise do quadro (“frame analysis”), então, é o estudo da organização da experiência social. Para ilustrar o conceito do quadro, Goffman dá o exemplo de um quadro de imagem: a pessoa usa a armação (que representa a estrutura) para manter unida a sua imagem (que representa o conteúdo) do que ele está passando em sua vida. Os quadros mais básicos são chamados de estruturas primárias. Um quadro primário leva a experiência de um indivíduo ou um aspecto de uma cena que iria originalmente ser sem sentido e torna significativa. Um tipo de estrutura principal é um quadro natural, que identifica situações no mundo natural, e é completamente biofísica, sem influências humanas. O outro tipo de quadro é um quadro social, o que explica os eventos e os conecta aos seres humanos. Um exemplo de um quadro natural é o tempo, e um exemplo de um quadro social é um meteorologista que prevê o tempo. Concentrando-se nas estruturas sociais, Goffman procura "construir uma declaração geral sobre a estrutura, ou forma, de experiências individuais, em qualquer momento de sua vida social". Goffman ve este livro como sua magnum opus, apesar de não ser tão popular quanto suas obras anteriores.

Primeiras obras

Os primeiros trabalhos de Goffman consistem em seus escritos NA pós-graduação de 1949-1953. Sua tese de mestrado foi um levantamento das respostas do público para uma novela de rádio, “Big Sister”. Um dos seus elementos mais importantes era uma crítica de sua metodologia de pesquisa - da lógica experimental e de análise das variáveis. Outros escritos do período incluem “Symbols of Class Status” (1951) and “On Cooling the Mark Out” (1952) sua tese de doutorado, “Communication Conduct in an Island Community” (1953), apresentou um modelo de estratégias de comunicação na interação face-a-face, e se concentrou em como todos os dias, rituais de vida afetam projeções públicas de si mesmo.

A Representação do Eu na Vida Cotidiana

O autor busca interpretar o comportamento dos indivíduos em seu cotidiano. Para isso, são utilizadas diversas metáforas ligadas ao meio teatral. Essa obra visou, principalmente, entender a necessidade que as pessoas têm de causar impressões em outrem, bem como o modo de se transmitir e de se obter tais impressões. Goffman aborda que existem maneiras diferenciadas de se colher tais elementos, a fim de se obter dados sobre a outra pessoa ( Goffman denomina essas formas de ´´veículos de indícios``): (i) podem ser pautados em estereótipos ligados a experiências passadas; (ii) podem ser provas documentadas, cujas características dizem respeito ao indivíduo que as entregou.

Manicômios, prisões e conventos

Em “Manicômios, prisões e conventos”, uma das mais relevantes obras para o estudo da Criminologia, Goffman baseia-se na sua experiência em um trabalho de campo no Hospital St. Elizabeths em Washington D.C. Nesta obra, o autor desenvolve, a partir da análise in loco, o conceito de instituição total e aponta, desde o início do trabalho, que seu objetivo é chegar a uma versão sociológica da estrutura do eu. Dividido em quatro ensaios, busca-se focar a situação do internado. No primeiro ensaio “As Características das Instituições Totais”, o autor inicia, já na Introdução, definindo o que são estabelecimentos sociais, apesar da terminologia não ser unívoca na sociologia, bem como aponta que todas as instituições tem tendência de “fechamento”, tomando algum tempo e interesse dos participantes destas. Nas instituições totais, o fechamento é extremo: há proibições e barreiras, físicas inclusive, impedindo a saída dos internos. Divide tais instituições em cinco: instituições para cuidar de pessoas inofensivas (asilos, casas para órfãos, etc.); instituições para cuidar de pessoas que não são capazes de cuidar de si mesmas e que também são uma ameaça à comunidade, ainda que não intencionalmente (sanatórios para tuberculosos, leprosos e doentes mentais); instituições para proteger a comunidade de perigos intencionais (cadeias, penitenciárias, campos de prisioneiros de guerra); instituições voltadas para a realização de algum trabalho de forma mais profícua (quartéis, navios, campos de trabalho, escolas internas); e, por fim, instituições voltadas para servir de refúgio do mundo (abadias, mosteiros).

Estigma: Notas sobre a Manipulação de uma Identidade Deteriorada

Lançado em 1963 têm-se a sua última versão traduzida (4ª) e lançada no Brasil no ano de 1988 pela editora LT. O tema dessa obra é a relação social das pessoas estigmatizadas e as ditas “normais”. Para se entender o significado da palavra estigma é necessário compreender o conceito de identidade virtual e identidade real dos indivíduos. O primeiro conceito [identidade virtual] corresponde as expectativas normativas criadas através da maior probabilidade de ser encontradas determinadas características em um indivíduo através de um determinado ambiente social. Já o segundo conceito [identidade real] corresponde às verdadeiras características encontradas nos indivíduos. Assim, quando existem discrepâncias entre a identidade virtual e a identidade real, de modo negativo, surge o estigma. Quando a diferença entre expectativa e realidade se mostra de modo a beneficiar o sujeito passivo da avaliação manifesta-se o “símbolo de status” ou, como prefere o autor, o “símbolo de prestígio”.

Interaction Ritual

“Interaction Ritual: Essays on Face-to-Face Behavior” é uma coleção de seis ensaios de Goffman. Os quatro primeiros foram originalmente publicados na década de 1950, o quinto em 1964, e o último foi escrito para a coleção. Eles incluem: "On Face-work" (1955); "Embarrassment and Social Organization" (1956); "The Nature of Deference and Demeanor" (1956); "Alienation from Interaction" (1957); "Mental Symptoms and Public Order" (1964); e "Where the Action Is". O primeiro ensaio, "On Face-work", discute o conceito de rosto, que é a auto-imagem positiva que um indivíduo detém ao interagir com os outros. Goffman acredita em face "como uma construção sociológica de interação, não é inerente nem um aspecto permanente da pessoa". Uma vez que um indivíduo dispõe de uma auto-imagem positiva de si mesmo para os outros, esse indivíduo sente a necessidade de manter e viver de acordo com essa imagem. Inconsistência na forma como uma pessoa projeta a si próprio na sociedade traz o risco de constrangimento e descrédito. Portanto, as pessoas permanecem guardadas, para garantir que elas não mostram-se aos outros em uma luz desfavorável.

Strategic Interaction

O livro “Strategic Interaction” (1969) de Goffman, é a sua contribuição para a teoria dos jogos. Discute-se a compatibilidade da teoria dos jogos com o legado da Escola de Chicago de Sociologia e com a perspectiva do interacionismo simbólico. É uma de suas poucas obras que envolvem claramente essa perspectiva. A visão de Goffman sobre a teoria dos jogos foi moldada pelas obras de Thomas Schelling. Goffman apresenta a realidade como uma forma de jogo, e discute as suas regras e os vários movimentos que os jogadores podem fazer (o "inconsciente", o "ingênuo", a "cobertura", a "descoberta" e a "contra-descoberta").

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Contribuição teórica

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Estudou a interacção social no dia-a-dia, especialmente em lugares públicos, principalmente no seu livro A Representação do Eu na Vida Cotidiana, no qual desenvolve a ideia que mais identifica a sua obra: o mundo é um teatro e cada um de nós, individualmente ou em grupo, teatraliza ou é actor consoante as circunstâncias em que nos encontremos, marcadas por rituais e posições distintivas relativamente a outros indivíduos ou grupos. Já em Estigma - Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada (Stigma: Notes on the Management of Spoiled Identity), reexamina os conceitos de estigma e identidade social, o alinhamento grupal e a identidade pessoal, o eu e o outro, o controle da informação, os desvios e o comportamento desviante, abordando a "comunidade dos estigmatizados", constituída por aqueles considerados como "engajados numa espécie de negação coletiva da ordem social" - boêmios, delinqüentes, prostitutas, ciganos, malandros de praia, mendigos e até mesmo os músicos de jazz.

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