Engenheiros do Hawaii
Engenheiros do Hawaii foi uma banda brasileira de rock formada no início de 1985 na cidade de Porto Alegre. Com a exceção de um pequeno hiato no final de 1996 e início de 1997, o grupo esteve na ativa até abril de 2008, quando foi anunciada uma "pausa por tempo indeterminado". Em todo esse período, foi liderado pelo multi-instrumentista Humberto Gessinger, único membro a permanecer em todas as formações da banda. Com mais de 20 discos lançados — entre álbuns de estúdio, ao vivo, coletâneas e álbuns de vídeo —, conquistou mais de uma dezena de certificações por vendagem, com mais de 3 milhões de discos vendidos. Também, em todo o período de atividade, mais de 15 músicos fizeram parte da banda, sendo os mais conhecidos — fora Gessinger — Carlos Stein, Marcelo Pitz, Carlos Maltz, Augusto Licks, Adal Fonseca, Luciano Granja e Lucio Dorfman.
No início de 1990, Augusto viajou novamente à Nova Iorque para comprar instrumentos musicais. Desta vez, foi direto ao showroom da Gibson, que comercializava as guitarras Steinberger. Ao conversar com o pessoal do lugar se identificou como guitarrista de uma banda de rock brasileira. Rapidamente o gerente foi chamado e Augusto foi convidado para ser endorsee da marca no Brasil, o que permitiria que ele customizasse modelos e tivesse descontos. Foi nesta ocasião que ele comprou a sua Steinberger branca que aparece na capa do disco seguinte da banda, O Papa É Pop. A banda, durante a turnê, já começa a pensar neste próximo disco: Humberto e Carlos passam a programar em uma "drum machine" Dynacord as baterias do próximo álbum. Assim, após cumprir as datas da turnê, o grupo entra em estúdio para gravar o disco, tomando a decisão de dar um passo a frente na sua carreira: se autoproduzir. Desse modo, a partir do dia 2 de julho, eles entram em estúdio e começam a gravação, dividindo o dia em 3 partes, com cada um gravando em um turno: Carlos de manhã, Humberto à tarde, e Augusto à noite. Desse jeito, todos teriam liberdade para gravar suas partes e Humberto poderia encontrar os dois quando chegava e quando saía para passar instruções ou discutir algum pormenor.
O início: formação do grupo
No final de 1984, aconteceu uma greve dos professores que paralisou as aulas na Faculdade de Arquitetura da UFRGS. Por esta ocasião, as aulas estenderam-se para o ano seguinte, obrigando os estudantes a inventarem maneiras de se divertirem no verão porto-alegrense, já que, normalmente, as famílias de classe média e média alta — faixa de renda da maioria dos estudantes naquela época — viajavam para as praias de Santa Catarina. Uma das ideias para isto, foi a promoção de um show da banda de rock de um dos estudantes (chamada Ritual). Logo, surgiu entre os estudantes que organizavam a apresentação a ideia de abrir o espetáculo com a apresentação de uma banda formada somente pelo pessoal que estudava arquitetura. Assim, um dos organizadores — Carlos Maltz, que tocava bateria e já havia participado de outras bandas — resolveu ir atrás dos alunos que ele sabia que tocavam algum instrumento. Foi assim que ele recrutou Carlos Stein (guitarra) — que ele conhecia por já terem tocado juntos; Humberto Gessinger (vocal e guitarra) — que Maltz só conhecia de vista, mas admirava intelectualmente; e Marcelo Pitz (baixo) — que tinha vindo recomendado por ter tocado em bandas pela noite de Porto Alegre.
Sucesso local: rádios e o Rock Unificado
A partir de abril de 1986, o grupo começa a gravar demos e enviá-las às rádios da capital, especialmente à Ipanema FM, que aceitava tocar na sua programação canções não gravadas de modo profissional. Assim, gravam seis músicas: "Causa Mortis" e "Engenheiros do Hawaii", em abril; "Spravo", em maio; "Segurança", em junho; e "Nada a Ver" e "Sopa de Letrinhas", em julho. "Spravo", "Segurança" e "Sopa de Letrinhas" se tornam hits locais e o grupo passa a excursionar também pelo interior do estado, algo que a maioria das bandas gaúchas da capital não fazia. Com a movimentação que provocavam pelos shows que faziam e pelas músicas que tocavam nas rádios, receberam um convite para participarem do Rock Unificado, festival de bandas que aconteceria no ginásio Gigantinho, no dia 11 de setembro de 1985. Este festival foi muito importante para a cena local, marcando o início da nacionalização do rock gaúcho. Dez bandas se apresentaram e um olheiro da RCA, presente ao espetáculo, selecionou 4 delas - mais o DeFalla, que não participou do show - para participarem de uma coletânea que seria lançada nacionalmente, Rock Grande do Sul.
Longe demais: os Paralamas do sul
A partir de maio, eles começaram a gravar o seu álbum de estreia, Longe Demais das Capitais, nos estúdios da RCA em São Paulo, com produção do mesmo Reinaldo Barriga que produziu as músicas do grupo na coletânea. Enquanto isso, a banda continuava fazendo seus shows. Os mais importantes foram quatro noites em setembro, no Teatro Presidente. A série de shows deveria ser o lançamento do disco — e da turnê Toda Forma de Tour, mas o álbum teve o seu lançamento atrasado e acabou saindo apenas em outubro. A gravadora investiu na divulgação do disco tanto que, em 30 de outubro, o clipe de "Sopa de Letrinhas" foi exibido na grade de programação da MTV americana, sendo o primeiro vídeo musical de rock brasileiro a ser exibido naquele canal. Na mesma semana, a banda gravou outro videoclipe, para a canção "Toda Forma de Poder", que a gravadora estava lançando como single. Ainda, a música foi incluída na trilha sonora da novela Hipertensão, da TV Globo, exibida entre outubro daquele ano e abril do ano seguinte. Com esta divulgação e com a participação da banda em diversos programas de TV, o disco seria um sucesso nacional, vendendo mais de 130 mil cópias no ano de seu lançamento e rendendo o primeiro disco de ouro do grupo.
A revolta: início das polêmicas
Com a decisão sobre a saída de Pitz, em abril de 1987, a banda continuou excursionando para cumprir as datas contratadas. Assim, em maio, após show em Belém, no dia 9, o grupo voa para o Rio de Janeiro, onde Nei Lisboa gravava um disco (Carecas da Jamaica) no qual eles fariam uma participação especial, retribuindo o favor de Nei que participou dos vocais da faixa "Toda Forma de Poder", do álbum anterior da banda. Assim, no dia 11, os três foram aos estúdios da EMI-Odeon e gravaram a faixa-título, juntamente com Nei e Augusto. Após a gravação, Licks convida Carlos para irem ao show do Echo & the Bunnymen, banda de new wave inglesa que se apresentaria naquela noite no Canecão. Maltz aceita o convite e ambos conversam bastante e trocam telefones. Mais tarde, no mesmo dia, Carlos sugere a Humberto que convidem Augusto para entrar na banda, o que o vocalista prontamente aceita. Em seguida, Maltz liga para Licks e o convida, ficando o guitarrista de pensar na proposta e dar uma resposta. Augusto conversaria ainda com Nei Lisboa antes de aceitar a proposta.
Primeiro time do rock nacional
No início da turnê que se seguiu ao disco (a Infinita Tour, que começou com show em Joinville, no dia 12 de setembro), a banda teve bastante dificuldades de acertar o som como um trio, devido às duas inexperiências: de Gessinger com seu novo instrumento; e de Licks com a nova banda. Assim, o guitarrista teve que abandonar diversos arranjos que tinha construído para o disco — e que funcionavam bem na gravação — por arranjos mais simples e que "preenchessem" mais o som da banda. O guitarrista precisou, também, desenvolver outra postura de palco - já que ficava muito parado ao tocar - e outra persona, mudando a sua aparência com gel no cabelo, óculos quadrados e camisa abotoada até o pescoço. Um visual que o próprio Augusto chamava de Clark Kent, o alter ego do personagem dos quadrinhos da DC Comics, o superman. Assim, a partir dos shows de início de março no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro, o grupo passaria a ser elogiado por sua presença de palco, pela energia das apresentações e pela intimidade com os instrumentos que demonstrava. Por exemplo, em 16 de julho de 1988, a banda fez uma apresentação no festival Alternativa Nativa, no Maracanãzinho. A Legião Urbana havia feito shows sozinha nos dois primeiros dias e os Paralamas se apresentariam no último. Neste dia, os Engenheiros abriram para o Capital Inicial e tiveram o show muito elogiado pela imprensa, sendo considerado muito superior ao da banda brasiliense, e o melhor do festival. Nem o tombo que Humberto sofreu na primeira música - "Longe Demais das Capitais", quando quebrou uma tarraxa do seu baixo, atrapalhou a apresentação. Significativa foi a matéria do Jornal do Brasil do dia 18 com o título "Vitória dos Dândis" que enaltecia o show da banda que considerou o melhor do festival.
O primeiro disco ao vivo
A nova turnê — Variações sobre a Mesma Tour — começou em no Canecão, no Rio de Janeiro, em dois fins de semana consecutivos de fevereiro (dias 17, 18 e 19, e 24, 25 e 26). Foi mais uma turnê nacional da banda, mas esta teve duração menor, encerrando com dois shows no Projeto SP, em 24 e 25 de junho do mesmo ano. No dia 6 de julho, o grupo receberia um disco de ouro pelo seu terceiro trabalho - o segundo da carreira. O segundo disco também já havia passado da marca, mas não havia feito isto no período de 1 ano que era exigido para a certificação. A banda havia crescido bastante, tanto em público e vendagens, quanto em prestígio com a sua gravadora. O que mostra isso é a estrutura que a BMG — que havia finalizado a aquisição da RCA em 1987 — recrutou para o disco ao vivo que a banda pretendia gravar na sequência: praticamente um estúdio inteiro foi desmontado e remontado no Canecão para a gravação. Além disso, um sistema quadrifônico de captação foi montado para tentar gravar a interação público e banda que ocorria nos shows, já que o grupo via a plateia como o "quarto elemento da banda". Também, a banda decidiu registrar duas canções em estúdio e utilizou-se fortemente de instrumentos eletrônicos nestas canções, tocados por músicos de estúdio convidados: estas canções de estúdio - "Alívio Imediato" e "Nau à Deriva" - já mostram a direção musical que a banda passaria a seguir nos álbuns posteriores.
Imagem: Rodrigo.Motta · BY-NC-ND · Openverse
Autoironia e despretensão
Uma das principais características que o grupo possuía era um humor baseado na autoironia - fazer troça da própria condição ou das próprias intenções - e uma desconfiança dos discursos oficiais que estabeleciam estéticas, ainda que marginais (por exemplo, a ideia de como os membros de uma banda de rock deveriam se vestir, ou a divisão da juventude em tribos — por exemplo, os adeptos do punk, do pós-punk ou da new wave, na época da formação da banda). Assim, o próprio nome da banda pode ser visto desse modo — embora tivesse surgido de uma brincadeira com alunos de outro curso e com um estilo estético diferente: a união de duas palavras que não parecem ter nada em comum ("Engenheiros" e "Hawaii"), mas que, juntas, servia também como uma homenagem ao kitsch e uma desconstrução da própria ideia de mau-gosto. Neste sentido, a própria escolha do nome e diversas composições parecem fazer eco às ideias do arquiteto americano Robert Venturi — que tanto Gessinger como Maltz adoravam, ferrenho crítico da arquitetura moderna e famoso por responder ao lema "less is more" ("menos é mais") desta com "less is bore" ("menos é uma chatice").


