Emishi
Os Emishi ou Ebisu (蝦夷) foram um grupo étnico tribal do Japão, que viveu no nordeste da ilha de Honshu na região de Tohoku. Sua primeira menção na literatura data do ano 400, em que são chamados de "povo peludo" em registros chineses. Algumas tribos Emishi resistiram a autoridade dos imperadores japoneses durante o final do período Nara e o início do período Heian.
Os Emishi eram formados por diferentes tribos; algumas tornaram-se aliadas dos japoneses (fushu, ifu), enquanto outras permaneceram hostis à integração (iteki). Os Emishi do nordeste de Honshū dependiam de seus cavalos para a guerra; eles desenvolveram um estilo único de combate, no qual a cavalaria, armada com arco e flechas, usava táticas de guerrilha. Esse estilo se provou eficaz contra o exército imperial japonês, que era mais lento por ser constituído principalmente de infantaria pesada. Seu estilo de vida baseava-se em caça, coleta e no cultivo de grãos, como o painço e a cevada. Também acredita-se que cultivavam arroz em áreas onde o cultivo deste grão era propício. No século VIII, as tentativas de subjugar os principais grupos dos Emishi foram em grande parte infrutíferas. Os exércitos imperiais, modelados tendo como parâmetro os exércitos da China continental, não foram páreo para os táticas de guerrilha dos Emishi.
Etimologia
O registro do Imperador Jimmu no Nihon Shoki menciona os "Emishi" (愛瀰詩) com ateji—cujas forças armadas ele havia derrotado antes de ser empossado como imperador do Japão. De acordo com o Nihon Shoki, Takenouchi no Sukune, na era do Imperador Keikō, propôs que o Japão deveria subjugar os Emishi (蝦夷) de Hitakami no Kuni (日高見国) no leste do Japão. A primeira menção dos Emishi em fontes fora do Japão vem do Livro de Song, de 478, que se referia a eles como "povo peludo" (毛人). O livro menciona os "55 reinos (国) do povo peludo (毛人) do leste" como um relato do rei Bu—um dos Cinco Reis de Wa. Os japoneses provavelmente usaram este kanji para descrever esse povo por volta do século VII, mas mudaram a leitura de kebito ou mōjin para emishi. Durante o mesmo século, os kanji foram mudados para 蝦夷, que é composto pelos kanji de "camarão" e "bárbaro". Acredita-se que se refere aos longos bigodes do camarão. O aspecto bárbaro claramente descrevia um forasteiro que vivia além das fronteiras do império do Japão, que se via como uma influência civilizadora; assim, o império poderia justificar sua conquista. Esses kanji foram vistos pela primeira vez em fontes dos T'ang, que descreviam o encontro com os dois Emishi que um emissário japonês levou consigo para a China. Os kanji aparentemente foram adotados da China, mas as leituras "ebisu" e "emishi" são de origem japonesa e provavelmente vieram do japonês "yumishi", que significa arqueiro, ou de "emushi", que significa espada na língua ainu.
Batalhas contra o exército Yamato
A passagem no Nihon Shoki referente ao Imperador Yuuryaku, também conhecido como Ohatsuse no Wakatakeru, menciona uma rebelião de tropas Emishi que tinham sido recrutadas para uma expedição à Coreia após a morte do imperador. Suspeita-se que o Imperador Yuuryaku tenha sido o rei Bu, mas a data de sua existência é incerta e a referência coreana pode ter sido anacronística. Em 658, a expedição naval de Abe no Hirafu, composta por 180 embarcações, chega a Aguta (atual Akita) e Watarishima (Hokkaido). Uma aliança com os Emishi de Aguta, Tsugaru e Watarishima foi formada por Abe, que então derrotou um assentamento dos Mishihase (Su-shen na tradução de Aston do Nihongi), um povo de origem desconhecida. Este é um dos registros confiáveis mais antigos sobre os Emishi. Os Mishihase provavelmente foram outro grupo étnico que competia com os ancestrais dos ainus por Hokkaido. Acredita-se que os Mishihase tenham sido o povo Okhotsk. A expedição foi o máximo que o exército imperial japonês já tinha percorrido na direção norte até o século XVI.
Guerra dos Trinta e Oito Anos
O ano de 774 AD marcou o início da Guerra dos Trinta e Oito Anos "( 三十八年戦争), com a deserção de Korehari no kimi Azamaro, um oficial Emishi de alta patente no exército imperial japonês, baseado no castelo de Taga. Os Emishi contra-atacaram em uma ampla frente, começando pelo Castelo Momonofu, onde a guarnição ali estabelecida foi aniquilada. Em seguida, destruíram diversas fortalezas ao longo de uma linha defensiva, estabelecida cuidadosamente na geração passada pelos japoneses. Nem mesmo o Castelo de Taga foi poupado. Grandes forças japonesas foram recrutadas, contando milhares, as maiores com dez a vinte mil soldados que lutaram contra as forças Emishi, que contavam por volta de três mil guerreiros. Em 776, um grande exército de vinte mil homens foi enviado para atacar os Emishi de Shiwa, mas falhou em destruir o inimigo, que contra-atacou com sucesso nas montanhas Ōu. Em 780, os Emishi atacaram a planície de Sendai, incinerando vilarejos japoneses. Os japoneses quase entraram em pânico enquanto tentavam recrutar soldados de Kanto.
Clãs Abe, Kiyohara e Fujiwara do Norte
Após a conquista, alguns líderes dos Emishi se tornaram parte da estrutura regional do governo em Tohoku, culminando com o regime dos Fujiwara do Norte. Este regime e outros, como Abe e Kiyohara, foram criados por gōzoku locais e se tornaram estados regionais semi-independentes baseados nos povos Emishi e nos japoneses. Porém, mesmo antes de tais regimes surgirem, o povo Emishi gradualmente vinha perdendo sua cultura distinta enquanto se tornavam minorias. Especula-se que os Fujiwara do Norte tenham sido Emishi, mas há dúvidas quanto à sua linhagem. Tanto o clã Abe quanto o clã Kiyohara quase com certeza descendiam de japoneses, ambos representantes de gōzoku, famílias poderosas que haviam se mudado para as províncias de Mutsu e Dewa e desenvolveram laços com os Emishi fushu.
Imagem: Dunechaser · BY-NC-SA · Openverse
Estudos de esqueletos Jōmon datados de há milhares de anos mostram conexões diretas com os ainus. Tal conexão mostra que os povos Jōmon eram diferentes dos japoneses modernos e de outros asiáticos. A aparência dos ainus, que eram similares aos caucasianos, causou uma agitação entre antropólogos do século XIX e até hoje é motivo de debates. Antropólogos descobriram que a estrutura esquelética dos povos Jōmon mudou com o tempo, do sudeste para o nordeste, de acordo com a migração dos povos japônicos historicamente. Estudos de esqueletos de grandes habitações em Tohoku – correspondentes a lugares em que montes funerários (kofun) foram construídos – sugerem que os traços físicos dos Emishi eram intermediários entre os ainus e os japoneses. Logo, é possível que os Emishi descendam de uma população ainoide e de outra correspondente ao "povo kofun", que não eram um grupo étnico ou genético distinto, mas uma mistura de povos Jōmon e Yayoi. Isto está de acordo com a teoria que defende que gradualmente houve miscigenação entre os povos Jōmon e Yayoi, do sudeste para o nordeste.
Imagem: Dunechaser · BY-NC-SA · Openverse
A evidência de que os Emishi são relacionados com os ainus também vem de documentos históricos. Boas fontes vêm de documentos das dinastias Tang e Song, que descrevem negócios com o Japão, e do Shoku Nihongi. Há um registro da visita de um ministro de relações exteriores do Japão no ano 659 e sua conversa com o imperador Tang. O encontro é descrito da seguinte maneira: Dois Emishi, um homem e uma mulher, acompanharam o ministro Sabaibe no Muraji em sua visita à China da dinastia Tang. O imperador ficou encantado com o casal de Emishi por conta de sua aparência "estranha". O imperador provavelmente era Tang Taizong, que estava acostumado a ver vários grupos étnicos, de uigures e turcos a comerciantes do Oriente Médio. O emissário japonês descreve a relação do Japão com os vários grupos de Emishi: aqueles que se aliaram à corte de Yamato eram conhecidos como niki-emishi (和蝦夷, "Emishi gentis"), aqueles que continuaram a ser inimigos eram conhecidos como ara-emishi (荒蝦夷, "Emishi selvagens"), e os distantes Emishi de Tsugaru (津軽蝦夷). Todos os documentos das dinastias Song e Tang referem-se a eles como tendo um estado independente ao norte do Japão e os chamam de 毛人 (máo rén em mandarim, literalmente "povo peludo"). Os Emishi são descritos no Shoku Nihongi como tendo longas barbas e são chamados de kebito ou mōjin.


