Eduardo I de Inglaterra
Eduardo I, chamado de Eduardo Pernas Longas e o Martelo dos Escoceses, foi o Rei da Inglaterra de 1272 até sua morte. Primeiro filho de Henrique III e Leonor da Provença, Eduardo se envolveu desde cedo nas intrigas políticas do reinado do pai, que incluíram uma rebelião dos barões ingleses. Ele brevemente ficou do lado do movimento de reforma baronial em 1259, apoiando as Provisões de Oxford. Depois de se reconciliar com Henrique, Eduardo permaneceu leal durante o subsequente conflito armado, conhecido como a Segunda Guerra dos Barões. Foi feito prisioneiro pelos barões na Batalha de Lewes, porém escapou alguns meses depois e juntou-se a luta contra Simão de Montfort. Montfort foi derrotado na Batalha de Evesham em 1265 e a rebelião foi suprimida em dois anos. Com a Inglaterra em paz, Eduardo partiu em cruzada para a Terra Santa. Ele realizou pouco e estava voltando para casa em 1272 ao ser informado da morte de Henrique. Eduardo voltou devagar e chegou na Inglaterra em 1274, sendo coroado em 19 de agosto.
Infância e casamento
Eduardo nasceu no Palácio de Westminster, Londres, na noite de 17 de junho de 1239, filho do rei Henrique III de Inglaterra e sua esposa Leonor da Provença. Eduardo é um nome anglo-saxão, assim sendo não era comumente dado entre a aristocracia inglesa depois da conquista normanda, porém Henrique era muito devoto de Eduardo, o Confessor, e decidiu nomear seu primeiro filho em homenagem ao rei santo.[nota 1] Dentre seus amigos de infância estava Henrique de Almain, filho de seu tio Ricardo, 1.º Conde da Cornualha. Ele permaneceria um amigo próximo de Eduardo, tanto através da guerra civil que se seguiu quanto da posterior cruzada. Eduardo ficou aos cuidados de Hugo Giffard, pai do futuro chanceler Godofredo Giffard, até ele morrer em 1246, quando foi substituído por Bartolomeu Pecche.
Primeiras ambições
Eduardo mostrava independência política desde 1255, quando se aliou com a família Soler na Gasconha no conflito existente entre os Soler e os Colomb. Isso ia de encontro com a política de seu pai de mediação entre as facções locais. Um grupo de magnatas escreveu um documento em maio de 1258 para reformar o governo real – as chamadas Provisões de Oxford – principalmente contra os Lusinhão. Eduardo ficou do lado de seus aliados políticos e se opôs fortemente às provisões. Entretanto, o movimento conseguiu limitar a influência dos estrangeiros e gradualmente a atitude de Eduardo mudou. Ele entrou em uma aliança formal com Ricardo de Clare, 6.º Conde de Gloucester e um dos principais reformistas, em março de 1259. Então em 15 de outubro anunciou que apoiava os objetivos dos barões e seu líder, Simão de Montfort.
Segunda Guerra dos Barões
A Segunda Guerra dos Barões ocorreu entre os anos de 1264 e 1267, em que as forças baroniais lideradas por Simão de Montfort lutaram contra aqueles que permaneciam leais a Henrique. A primeira cena de batalha aconteceu na cidade de Gloucester, que Eduardo conseguiu retomar do inimigo. Ele negociou uma trégua com Roberto de Ferrers, 6.º Conde de Derby, quando este veio ajudar os rebeldes, um acordo que ele mais tarde quebrou. Eduardo então capturou Northampton do filho de Simão, também chamado Simão, embarcando em seguida numa campanha retaliatória contra as terras de Roberto. As forças baroniais e realistas se enfrentaram finalmente na Batalha de Lewes em 14 de maio de 1264. Eduardo comandou a ala direita e foi bem, logo derrotando o contingente londrino das forças de Simão. Entretanto, ele insensatamente seguiu o inimigo disperso e ao retornar descobriu que o restante de seu exército havia sido derrotado. Eduardo e seu amigo Henrique de Almain foram entregues como reféns ao inimigo como parte de um acordo chamado Mise de Lewes.
Cruzadas e ascensão
Eduardo assumiu a cruz das cruzadas em 24 de junho de 1268 durante uma elaborada cerimônia junto de Henrique de Almain e seu irmão Edmundo, 1.º Conde de Lencastre. Alguns de seus antigos adversários se comprometeram com a Nona Cruzada – como Ricardo de Clare, que no final acabou não participando. Com o país em paz, o maior impedimento do projeto era alcançar seu financiamento. Luís IX, que era o líder da cruzada, fez um empréstimo de 17,5 mil libras. Porém não foi o suficiente; o restante teve de ser arrecadado através de um imposto nos laicatos, que não eram taxados desde 1237. O parlamento aprovou em maio de 1270 um imposto de um vigésimo,[nota 6] em troca Henrique concordou em reafirmar a Magna Carta e impor restrições nos empréstimos dos judeus. Eduardo partiu de Dover para a França em 20 de agosto. Historiadores não conseguiram determinar com certeza o tamanho da força, porém Eduardo provavelmente levou consigo 225 cavaleiros e no total menos de mil homens.
Guerras galesas
Llywelyn ap Gruffudd conseguiu uma situação muito vantajosa depois da Guerra dos Barões. Com o Tratado de Montgomery de 1267 ele obteve oficialmente as terras que havia conquistado em Perfeddwlad e teve seu título de Príncipe de Gales reconhecido. Mesmo assim os conflitos armados continuaram, particularmente contra Lordes das Bordas insatisfeitos, como Gilberto de Clare, 7.º Conde de Gloucester, Rogério Mortimer, 1.º Barão Mortimer, e Humberto de Bohun, 3.º Conde de Hereford. Os problemas pioraram em 1274 quando Gruffydd ap Gwenwynwyn e Dafydd ap Gruffydd, irmão de Llywelyn, deserdaram para a Inglaterra depois de falharem em uma tentativa de assassinato ao príncipe. Llywelyn recusou-se a prestar homenagem a Eduardo por causa das hostilidades e o fato do rei estar abrigando seus inimigos. Uma nova provocação contra Eduardo veio quando o príncipe planejou se casar com Leonor, filha de Simão de Montfort.
Diplomacia e guerra
Eduardo nunca mais partiu em uma cruzada depois de voltar para a Inglaterra em 1274, porém manteve a intenção e tomou a cruz novamente em 1287. Essa intenção guiou boa parte de sua política religiosa pelo menos até 1291. Para organizar uma cruzada era essencial impedir o conflito entre os grandes príncipes europeus do continente. Um dos maiores obstáculos era o conflito entre a francesa Casa de Anjou que governava o sul da Itália e o Reino de Aragão. Os cidadãos de Palermo rebelaram-se em 1282 contra Carlos de Anjou e pediram a ajuda de Pedro de Aragão, naquilo que ficou conhecido como Vésperas Sicilianas. Carlos de Salermo, filho de Carlos de Anjou, foi feito prisioneiro pelos aragoneses na guerra que se seguiu. Os franceses começaram a planejar um ataque contra Aragão, aumentando ainda mais as perspectivas de uma guerra continental. Era imperativo para Eduardo que tal conflito fosse evitado, e ele acabou conseguindo uma trégua entre a França e Aragão em 1286 que também ajudou na libertação de Carlos. Em relação as cruzadas, os esforços do rei inglês foram infrutíferos. Um golpe devastador para seus planos ocorreu quando os muçulmanos capturaram Acre em 1291, eliminando o último refúgio cristão da Terra Santa.
A Grande Causa
A relação entre as nações da Inglaterra e Escócia era de relativa coexistência harmoniosa por volta da década de 1280. A questão da homenagem não chegou ao mesmo nível de controvérsia como havia acontecido em Gales; o rei Alexandre III da Escócia prestou homenagem a Eduardo em 1278, porém aparentemente apenas para as terras que tinha na Inglaterra. Os problemas surgiram apenas no início da década de 1290 com a crise da sucessão escocesa. Os dois filhos e a filha de Alexandre morreram em rápida sucessão entre 1281 e 1284. O próprio rei morreu em 1286 e o trono da Escócia passou para a princesa Margarida da Noruega, sua neta de três anos filha de sua filha Margarida e do rei Érico II da Noruega. O Tratado de Birgham acertou que Margarida se casaria com Eduardo de Caernarfon, o filho de um ano de idade de Eduardo, porém a Escócia permaneceria livre do senhorio inglês.
Personalidade
Eduardo tinha a reputação de ter um temperamento feroz e intimidador; uma história conta como o Dêcano de St. Paul, querendo confrontá-lo em 1295 sobre os altos impostos, desmaiou e morreu assim que esteve na presença do rei. Quando seu filho Eduardo de Caernarfon exigiu um condado para seu favorito Piers Gaveston, Eduardo explodiu de raiva e supostamente arrancou punhados de cabelo do filho. Alguns de seus contemporâneos o consideravam como assustador, particularmente no início de sua vida. A Canção de Lewes o descreve como um leopardo, um animal considerado como particularmente poderoso e imprevisível. Entretanto, apesar das características assustadoras, contemporâneos consideravam Eduardo como um rei capaz e até mesmo ideal. Apesar de não ser amado por seus súditos, ele era temido e respeitado. Ele se encaixava nas expectativas contemporâneas em seu papel de soldado capaz e determinado, incorporando os ideais de cavalaria. Sua observação dos ritos religiosos também cumpriam as expectativas da época: ele ia regularmente a igreja e dava esmolas generosas.
Administração e leis
Eduardo começou a restaurar a ordem e a restabelecer a autoridade real assim que assumiu o trono depois do final de reino desastroso de seu pai. Para realizar isso ele ordenou uma grande mudança no pessoal administrativo. A mais importante alteração foi a nomeação de Roberto Burnell como chanceler, que permaneceu no posto como um dos conselheiros mais próximos do rei até 1292. Eduardo em seguida substituiu a maioria dos oficiais locais, como embargadores e xerifes. Essa medida foi uma preparação para um enorme inquérito por toda a Inglaterra, que ouviu reclamações sobre abuso de poder por oficiais reais e estabelecer quais propriedades e direitos da coroa haviam sido perdidos durante o reinado de Henrique III. O inquérito produziu os chamados Cem Rolos, a partir da subdivisão administrativa da centena.
Economia, parlamento e judeus
As frequentes campanhas militares de Eduardo prejudicaram a nação economicamente. Havia vários meios pelos quais o rei podia arrecadar dinheiro para guerras, incluindo impostos, empréstimos e subsídios. Eduardo negociou um acordo em 1275 com a comunidade mercante nacional que assegurou um imposto permanente na lã. Um acordo similar foi alcançado com mercadores estrangeiros em 1303 em troca de certos privilégios e direitos. Os lucros dos impostos eram entregues aos riccardi, um grupo de banqueiros de Luca, na Península Itálica. Isso era em troca por seus serviços como agiotas para a coroa, ajudando a financiar as guerras em Gales. O rei francês confiscou os recursos dos riccardi quando começou a guerra entre a França e a Inglaterra, assim o banco faliu. Depois disso, a família Frescobaldi de Florença assumiu o papel de agiotas da coroa inglesa.
Crise constitucional
As guerras incessantes da década de 1290 colocaram uma grande pressão financeira em cima dos ingleses. Enquanto Eduardo cobrou apenas três subsídios até 1294, quatro desses impostos foram cobrados nos anos de 1294–97, arrecadando mais de vinte mil libras. Junto com isso vieram a apropriação de comida, tomada de lã e couro e a cobrança de um imposto impopular sobre a lã, chamada de maltolt. As exigências fiscais do rei sobre seus súditos criaram ressentimentos, com isso eventualmente levando a uma oposição política séria. Entretanto, a resistência inicial se deu pelos subsídios clericais e não pelos subsídios leigos. Eduardo exigiu em 1294 uma subvenção de metade de todas as rendas clericais. Houve certa resistência, porém o rei respondeu ameaçando-os com criminalização e a subvenção foi concedida. O cargo de Arcebispo da Cantuária estava vago na época, já que Roberto Winchelsey estava na península Itálica para receber sua consagração.[nota 17] Winchelsey voltou em janeiro de 1295 e teve que concordar com outra subvenção em novembro. Porém, ele mudou de posição no ano seguinte ao receber a bula pontifícia Clericis laicos. A bula proíbia o clero de pagar impostos para autoridades leigas sem a explícita aprovação do papa. Eduardo respondeu com criminalização quando o clero seguiu a bula e se recusou a pagar. Winchelsey ficou no dilema entre sua lealdade ao rei e a defesa da bula pontifícia, decidindo deixar que cada clérigo pagasse se assim quisessem. Uma solução foi oferecida no final do ano pela nova bula Etsi de statu, que autorizava os impostos clericais em caso de grande urgência.
Retorno à Escócia
A situação na Escócia parecia resolvida quando Eduardo deixou o país em 1296, porém a resistência logo surgiu sob a liderança de William Wallace. Uma grande força inglesa liderada por João de Warenne, 6.º Conde de Surrey, e Hugo de Cressingham foi atacada em 11 de setembro de 1297 na Ponte de Stirling por uma força escocesa bem menor comandada por Wallace e André Moray. A derrota criou indignação na Inglaterra e preparações começaram imediatamente para uma campanha de retaliação. Eduardo rapidamente voltou de Flandres e seguiu para o norte. O rei conseguiu derrotar as forças de Wallace em 22 de julho de 1298 na Batalha de Falkirk. Entretanto, Eduardo não conseguiu tirar vantagem do momento e os escoceses conseguiram recapturar o Castelo de Stirling no ano seguinte. O rei fez outras campanhas na Escócia em 1300, quando cercou e capturou o Castelo Caerlaverock, e em 1301, porém os escoceses não o enfrentaram em campo aberto e preferiram atacar os campos ingleses em pequenos grupos.
Morte
Roberto reapareceu em fevereiro de 1307 e reuniu seus homens, derrotando o exército de Aymer em maio na Batalha de Loudoun Hill. Eduardo também tinha reunido seus homens e seguiu ele mesmo para o norte. Entretanto, ele desenvolveu disenteria no caminho e sua condição deteriorou. O rei acampou no vilarejo de Burgh by Sands em 6 de julho, ao sul da fronteira escocesa. Eduardo morreu nos braços de seus serventes na manhã do dia seguinte quando estes vieram acordá-lo para o desjejum. Várias histórias surgiram sobre os desejos de Eduardo em seu leito de morte; de acordo com uma tradição, ele pediu que seu coração fosse levado para a Terra Santa junto com um exército para combater os infiéis. Uma história mais duvidosa conta que ele queria que seus ossos fosse carregados para futuras expedições contra os escoceses. Outro relato sobre seu leito de morte é mais crível; de acordo com um crônico, o rei chamou Henrique de Lacy, 3.º Conde de Lincoln; Guido de Beauchamp, 10.º Conde de Warwick; Aymer de Valence e Roberto Clifford, 1.º Barão Clifford, e os encarregou de cuidarem de seu filho Eduardo. Particularmente eles deveriam impedir que Piers Gaveston voltasse para a Inglaterra. Este último desejo foi ignorado por seu filho, com ele trazendo seu favorito do exílio quase imediatamente. O novo rei Eduardo II permaneceu no norte até agosto, abandonando a campanha e indo para o sul. Ele foi coroado em 25 de fevereiro de 1308.
As primeiras histórias de Eduardo nos séculos XVI e XVII se baseavam principalmente na obra de crônicos contemporâneos e semi-contemporâneos e usaram muito pouco dos registros oficiais do período. Elas se limitavam a comentários gerais sobre sua significância como monarca e repetiam os elogios dos crônicos sobre suas realizações. O advogado sir Edward Coke do século XVII escreveu bastante sobre as legislações de Eduardo, chamando o rei de o "Justiniano Inglês" em homenagem ao renomado legislador bizantino imperador Justiniano I. Mais tarde no mesmo século, historiadores utilizaram os registros disponíveis para comentar o papel do parlamento sob Eduardo, elaborando comparações entre seu reinado e as disputas políticas do século XVII. Historiadores do século seguinte estabeleceram uma imagem do rei como um monarca capaz, mesmo que implacável, condicionado pelas circunstâncias de sua época.
Eduardo e Leonor tiveram pelo menos catorze filhos, talvez até chegando em dezesseis. Deles, cinco filhas chegaram à idade adulta, porém apenas um dos meninos sobreviveu a Eduardo, o futuro Eduardo II. Afirma-se que Eduardo I temia pelo fracasso do filho em viver às expectativas de um herdeiro da coroa, em determinado momento decidindo exilar o favorito dele Piers Gaveston. Com Margarida, ele teve dois filhos que ambos viveram até a idade adulta e uma filha que morreu criança. A crônica de Abadia de Hailes indica que João Botetourt pode ter sido um filho ilegítimo de Eduardo, porém a afirmação não tem fundamentos.


