Domitila de Castro
Domitila de Castro Canto e Melo, primeira e única viscondessa com grandeza e marquesa de Santos, foi uma nobre brasileira, célebre pela sua influente relação amorosa, sendo, por um tempo, a amante do imperador D. Pedro I.
Família e nascimento
Domitila nasceu em São Paulo, filha de João de Castro Canto e Melo, primeiro visconde de Castro, e de Escolástica Bonifácia de Toledo Ribas. Era neta do coronel Carlos José Ribas e descendia de importantes famílias da elite paulista, como os Toledo Piza, sendo tetraneta do patriarca Simão de Toledo Piza. Foi batizada em 7 de março de 1798 na antiga Igreja da Sé, em São Paulo, tendo como padrinho o alferes José Duarte e Câmara. Tinha oito irmãos: João, José, Maria, Pedro, Maria Benedita, Ana Cândida, Fortunata, Francisco; e uma meia-irmã chamada Matilde Eufrosina.
Primeiro casamento e violência doméstica
Em 13 de janeiro de 1813, aos quinze anos, Domitila casou-se com o alferes Felício Pinto Coelho de Mendonça (1790–1833), oficial do Corpo dos Dragões de Vila Rica (atual Ouro Preto). A historiografia, baseada em seu processo de divórcio, descreve Felício como um homem violento e jogador compulsivo, que submetia a esposa a agressões físicas constantes. Após o casamento, o casal mudou-se para Vila Rica, onde nasceram seus três primeiros filhos. Devido aos contínuos maus-tratos, Domitila retornou à casa dos pais em São Paulo em 1816. Embora o casal tenha tentado uma reconciliação em 1818, a violência de Felício se intensificou. O episódio mais grave ocorreu na manhã de 6 de março de 1819, quando Felício, movido por ciúmes e questões financeiras, atacou Domitila com duas facadas, uma na coxa e outra no abdômen, perto da fonte de Santa Luzia, em São Paulo. Felício foi preso, e Domitila, após se recuperar, iniciou uma longa batalha judicial pela separação. O divórcio só foi oficialmente concedido em 21 de maio de 1824, quando ela já era a amante do imperador. A documentação do processo revela que a acusação de adultério, usada por detratores para justificar a violência, era infundada. Na verdade, as testemunhas e provas indicaram que Felício tentara assassiná-la para se apossar das terras que herdaram em Minas Gerais.
O início do romance e a ascensão na Corte
Domitila conheceu D. Pedro em 29 de agosto de 1822, em São Paulo, poucos dias antes da Proclamação da Independência. O relacionamento se consolidou rapidamente e, em 1823, o já Imperador do Brasil instalou Domitila em uma casa no Rio de Janeiro. A relação, que durou cerca de sete anos, foi a mais longa e notória de D. Pedro, embora ele mantivesse outros casos paralelos, inclusive com a irmã de Domitila, Maria Benedita. Em 1826, Domitila recebeu de presente do imperador a famosa "Casa Amarela", uma luxuosa mansão em estilo neoclássico próxima à residência oficial da família imperial, a Quinta da Boa Vista. Sua ascensão foi meteórica. D. Pedro concedeu-lhe títulos, honrarias e uma posição de destaque na corte:
Rivalidade com a Imperatriz Leopoldina
A presença ostensiva de Domitila na corte causou profundo sofrimento e humilhação à Imperatriz Maria Leopoldina. A nomeação da amante como dama de companhia foi o ápice do escândalo, forçando a imperatriz a conviver oficialmente com a rival. A morte de Leopoldina, em dezembro de 1826, gerou uma crise política e acusações de que a angústia causada pelo caso amoroso e uma suposta agressão física de D. Pedro teriam precipitado sua morte. Embora a versão da agressão tenha se popularizado, relatos médicos da época apontam para uma infecção puerperal como causa mortis. Em uma carta enviada à sua irmã, a futura Imperatriz do Brasil, Maria Luísa, Leopoldina desabafou sobre Domitila:
A intimidade do poder: As cartas e os filhos
As mais de 180 cartas trocadas entre D. Pedro e Domitila, analisadas por biógrafos como Alberto Rangel e Paulo Rezzutti, revelam a profundidade e a complexidade da relação. Nelas, o imperador usava o apelido de "Demonão", enquanto se referia a Domitila como "Titília". A correspondência mescla juras de amor com assuntos de Estado, fofocas da corte e detalhes íntimos, incluindo desenhos eróticos e linguagem vulgar, demonstrando uma paixão avassaladora que influenciava o humor e as decisões do monarca. Dessa relação nasceram cinco filhos, dos quais apenas dois chegaram à idade adulta. D. Pedro legitimou sua prole com a Marquesa, concedendo títulos e status, algo incomum para filhos fora do casamento na época.
O fim do romance e o exílio da Corte
A relação de D. Pedro e Domitila terminou em 1829. Pressionado a contrair um novo matrimônio para garantir a sucessão e restaurar sua imagem na Europa, o imperador negociou o casamento com a princesa Amélia de Leuchtenberg. A família da noiva e as cortes europeias, horrorizadas com o escândalo da amante, impuseram como condição o afastamento definitivo de Domitila da corte. O Barão Wenzel de Mareschal, embaixador austríaco, relatou que D. Pedro se convencera de que a presença da Marquesa era "inoportuna" e que sua partida para São Paulo era essencial. D. Pedro comprou as propriedades dela no Rio, incluindo a Casa Amarela (que mais tarde abrigaria a jovem rainha Maria II de Portugal), e Domitila retornou à sua província natal, encerrando o capítulo mais intenso e controverso de sua vida.
Segundo casamento e aliança de poder
De volta a São Paulo, Domitila não se retirou da vida pública. Em 1833, uniu-se a uma das figuras mais poderosas da província, o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar (1794–1857). Rico tropeiro e fazendeiro de Sorocaba, Tobias de Aguiar era um líder do Partido Liberal (Império), conhecido como "Reizinho de São Paulo" por sua influência e fortuna. O casamento, oficializado em Sorocaba em 1842, representou uma poderosa aliança entre o prestígio e a riqueza de Domitila e o poder político de Tobias. Juntos, formaram um dos clãs mais influentes de São Paulo.
A Revolução Liberal de 1842
Em 1842, Tobias de Aguiar foi um dos principais líderes da Revolução Liberal, um levante contra o governo conservador do Império. Com a iminente derrota dos rebeldes para as tropas lideradas por Luís Alves de Lima e Silva, então Barão de Caxias, Tobias fugiu para o sul, mas foi capturado e preso na Fortaleza da Laje, no Rio de Janeiro. Demonstrando lealdade e coragem, a Marquesa viajou para a corte e solicitou ao jovem imperador D. Pedro II permissão para viver com o marido na prisão e cuidar de sua saúde, o que foi concedido. Anistiado em 1844, o casal retornou a São Paulo, onde foi recebido com grandes festas. A união com Tobias de Aguiar durou 24 anos, até a morte dele em 1857, e foi o relacionamento mais longo da vida de Domitila. Tiveram seis filhos.
O Solar da Marquesa e a vida em São Paulo
Em 1834, Domitila adquiriu um vasto casarão no centro de São Paulo, hoje conhecido como Solar da Marquesa de Santos. O imóvel, único remanescente urbano da época construído em taipa-de-pilão no centro histórico, tornou-se um dos principais pontos de encontro da elite paulistana, palco de saraus e bailes. Após ficar viúva de Tobias de Aguiar, a Marquesa se tornou uma figura respeitada, dedicando-se a obras de caridade, auxiliando estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e amparando os necessitados. O biógrafo Paulo Rezzutti destaca que, ao contrário do que a historiografia tradicional sugeria, Domitila nunca foi uma "pobre coitada", mas sim uma hábil administradora de sua fortuna e uma mulher consciente de seu poder, como demonstra uma carta a um genro: "Eu sendo mulher lembro-me do futuro".
Morte e devoção popular
Domitila morreu de enterocolite em 3 de novembro de 1867, em seu solar. Foi sepultada no Cemitério da Consolação, em um jazigo construído com uma doação de 2 contos de réis feita por ela mesma para a capela do cemitério. No mesmo local estão enterrados seu irmão, seu filho Felício e sua filha com D. Pedro, a Condessa de Iguaçu. Seu túmulo tornou-se um local de peregrinação e é constantemente adornado com flores frescas. Domitila transformou-se em uma espécie de "santa popular", invocada por prostitutas (por ter sido estigmatizada em vida) e por mulheres que buscam um bom casamento, inspiradas em sua capacidade de se reerguer e formar uma nova família de prestígio após o escândalo com o imperador. O sanfoneiro Mario Zan, um de seus mais famosos devotos, cuidou do jazigo por anos e foi enterrado em frente ao dela.
A figura de Domitila de Castro é um caso exemplar de como a imagem de uma mulher pode ser construída e disputada pela historiografia. Ao longo de quase dois séculos, ela transitou entre os papéis de vilã, vítima e heroína, refletindo as mudanças sociais e ideológicas de cada época.
A vida de Domitila inspirou uma vasta produção cultural, consolidando seu lugar no imaginário brasileiro.


