Doença pulmonar obstrutiva crónica
A doença pulmonar obstrutiva crónica (português europeu) ou crônica (português brasileiro) (DPOC) é um tipo de doença pulmonar obstrutiva caracterizada por diminuição prolongada do calibre das vias aéreas respiratórias e destruição do tecido pulmonar. Entre os principais sintomas estão falta de ar e tosse com produção de expectoração. A DPOC é uma doença progressiva, o que significa que geralmente se agrava com o decorrer do tempo. A partir de determinado momento começam-se a verificar dificuldades em realizar atividades do dia-a-dia, como subir escadas. Bronquite crónica e enfisema são termos antigos usados para denominar diferentes tipos de DPOC. O termo "bronquite crónica" é ainda hoje usado para definir uma tosse produtiva que se manifeste durante pelo menos três meses por ano e ao longo de dois anos.
Os sintomas mais comuns da doença pulmonar obstrutiva crónica são produção de expectoração, falta de ar e tosse produtiva. Estes sintomas manifestam-se durante um longo período de tempo e geralmente vão-se agravando ao longo do tempo. Não é claro se existem ou não diferentes tipos de DPOC. Embora antigamente a doença se dividisse em enfisema e bronquite crónica, hoje considera-se que enfisema é apenas uma descrição das alterações no pulmão, e não uma doença em si, e que a bronquite crónica descreve apenas os sintomas que podem ou não ocorrer no contexto de DPOC.
Tosse
Em muitos casos, o primeiro sintoma a manifestar-se é a tosse crónica. Por definição, está-se perante bronquite crónica quando essa tosse persiste por mais de três meses por ano e durante pelo menos dois anos, quando é acompanhada pela produção de expectoração e quando não é possível determinar outra explicação. Esta condição pode anteceder o desenvolvimento completo de DPOC. A quantidade de expectoração produzida pode variar no prazo de horas ou dias. No entanto, em alguns casos da doença é possível que não se verifique tosse ou que se verifique apenas tosse ocasional e sem ser produtiva. Algumas pessoas com DPOC atribuem os sintomas ao "catarro do fumador". Dependendo do contexto social e cultural, a expectoração pode ser engolida ou cuspida. A tosse forte pode causar fracturas nas costelas e perda de consciência. As pessoas com DPOC muitas vezes apresentam um histórico daquilo que aparentam ser constipações de duração prolongada.
Falta de ar
A falta de ar é geralmente o sintoma que mais incomoda as pessoas com DPOC. O sintoma é geralmente descrito em termos leigos como "custar a respirar", "sentir-se sem fôlego" ou "não conseguir inspirar ar suficiente". Dependendo do contexto cultural, podem ser usados diversos termos. Geralmente a falta de ar é mais intensa ao realizar esforços de longa duração e vai-se agravando ao longo do tempo. Em estágios avançados da doença, a falta de ar manifesta-se até mesmo em repouso e pode-se manifestar continuamente. Em pessoas com a doença, a falta de ar é uma fonte de ansiedade e diminuição da qualidade de vida. Muitas pessoas com DPOC avançada recorrem a respiração freno-labial para aliviar a falta de ar. Esta técnica respiratória consiste em inspirar o ar pelo nariz com a boca fechada e expirar pela boca com os lábios cerrados o máximo possível.
Exacerbações
Em pessoas com a doença, uma exacerbação aguda da doença pulmonar obstrutiva crónica define-se pelo aumento da falta de ar, aumento da produção de expectoração, alteração na cor da expectoração de translúcido para verde ou amarelo, ou aumento da intensidade da tosse. A exacerbação pode-se apresentar com sinais de aumento de esforço respiratório, como respiração acelerada, aumento da frequência cardíaca, sudação, utilização ativa dos músculos do pescoço, pele azulada e confusão mental ou comportamento agitado nas exacerbações mais graves. Durante um exame com um estetoscópio, também é possível escutar crepitações pulmonares.
Outros sintomas
Na DPOC a expiração pode ser mais demorada do que a inspiração. Pode ocorrer sensação de aperto no peito, embora não seja comum e possa ser causada por outro problema. Em pessoas com vias aéreas obstruídas é possível ouvir um sibilo durante a auscultação com um estetoscópio. O tórax em tonel é um sinal característico de DPOC, embora seja relativamente pouco comum. À medida que a doença avança, o corpo pode adquirir uma postura com tendência para a posição de tripé. Os estádios avançados de DPOC podem causar pressão elevada nas artérias do pulmão, o que comprime o ventrículo direito do coração. Esta situação é denominada cor pulmonale e manifesta-se através de sintomas como pernas inchadas e pressão venosa jugular. A DPOC é a causa pulmonar mais comum de cor pulmonale, embora a sua prevalência tenha diminuído desde que foi introduzida a oxigenoterapia.
A principal causa da doença pulmonar obstrutiva crónica é o fumo de tabaco. Em alguns países, são também causas significativas a exposição ocupacional e a poluição com origem na queima de combustíveis em ambientes interiores. Geralmente são necessárias várias décadas de exposição até que apareçam os primeiros sintomas. A constituição genética da pessoa também tem influência no risco.
Tabagismo
Em todo o mundo, o principal fator de risco para a DPOC é fumar. Cerca de metade de todos os fumadores desenvolvem a doença. Entre 80% e 95% das pessoas com DPOC são ou foram fumadores. A probabilidade de desenvolver DPOC aumenta em função do número de cigarros fumados. As mulheres são mais suscetíveis aos efeitos nocivos do fumo do tabaco do que os homens. Em não-fumadores, o fumo passivo é a causa de cerca de 20% dos casos. Outros tipos de fumo também aumentam o risco, como o da canábis, de charutos ou o produzido pelos cachimbos de água. O fumo dos cachimbos de água aparenta ser tão nocivo como fumar cigarros. No entanto, é possível que os problemas derivados do fumo de canábis ocorram apenas mediante consumo intensivo. As mulheres que fumem durante a gravidez podem aumentar o risco de DPOC na criança. Para a mesma quantidade de cigarros fumados, as mulheres apresentam um risco superior aos homens de desenvolver DPOC.
Poluição do ar
A queima de combustíveis em espaços interiores mal ventilados é uma das causas mais comuns de DPOC nos países em vias de desenvolvimento. Estas queimas são geralmente alimentadas a carvão ou biomassa, como lenha ou excrementos animais, o que provoca poluição do ar interior. Estas queimas são a principal fonte de aquecimento e de cozinha para cerca de 3 mil milhões de pessoas, e a principal fonte de energia em 80% dos lares na Índia, China e África subsariana. Os seus efeitos são maiores entre as mulheres, uma vez que são o grupo mais exposto. No entanto, estudos recentes mostram que a associação entre a DPOC e o uso de queimas alimentadas a carvão ou biomassa pode não ser tão clara como se pensava até há pouco tempo.
Exposição ocupacional
A exposição intensa e prolongada a poeiras, produtos químicos e fumos no local de trabalho aumenta o risco de DPOC, tanto em fumadores como em não-fumadores. Pensa-se que a exposição ocupacional seja a causa de 10 a 20% dos casos. A maior exposição tem sido associada a determinadas atividades industriais, entre as quais a elevada quantidade de poeiras na mineração de carvão e de ouro e na indústria têxtil de algodão, às profissões que impliquem trabalhar com cádmio e isocianatos e aos fumos de soldadura. Trabalhar na agricultura é também um fator de risco. Estima-se que em algumas profissões o risco seja equivalente ao de fumar entre meio maço a dois maços de cigarros por dia. A exposição ao pó de sílica pode também causar DPOC, não estando o risco relacionado com o da silicose. Os efeitos negativos da exposição às poeias e ao fumo de tabaco aparentam ser cumulativos ou, possivelmente, mais do que cumulativos.
Genética
A genética tem influência no desenvolvimento de DPOC. Entre fumadores, a doença é mais comum entre parentes do que em não parentes. Atualmente, o único fator de risco claramente hereditário é a deficiência de alfa-1-antitripsina. Este risco é particularmente elevado quando a pessoa que apresenta deficiência de alfa-1-antitripsina também é fumador. Esta causa é responsável por 1–5% dos casos e a condição está presente em cerca de 3–4 pessoas em cada 10 000. Estão atualmente a ser investigados outros fatores genéticos, que se acredita serem em grande número.
Outras
Existe uma série de outros fatores cuja associação com a doença é menor. O risco é maior em pessoas que vivem na pobreza, embora não seja claro se isto se deve à pobreza em si ou a outros fatores de risco associados à pobreza, como a poluição do ar e a desnutrição. Existem alguns indícios de que as pessoas com asma e hiperatividade nas vias respiratórias possam apresentar maior risco de DPOC. É possível que alguns fatores de risco durante o nascimento, como baixo peso, possam também ter um papel na doença, assim como uma série de doenças infeciosas, como a sida ou a tuberculose. As infeções respiratórias como a pneumonia não aparentam aumentar o risco de DPOC, pelo menos em adultos.
Exacerbações
Uma exacerbação aguda de DPOC é um agravamento súbito dos sintomas. As exacerbações são geralmente espoletadas por uma infeção, por poluentes ambientais ou, ocasionalmente, por outros fatores como o uso indevido de medicamentos. As infeções aparentam ser a causa de 50% a 75% das exacerbações, estando presentes bactérias em 25%, vírus em 25% e ambos os organismos nos restantes 25%. Entre os poluentes ambientais estão tanto os que causam deterioração da qualidade do ar interior como exterior. O risco aumenta também com a inalação de fumo de tabaco ou exposição a fumo passivo. As baixas temperaturas podem também contribuir, uma vez que as exacerbações são mais comuns durante o inverno. As exacerbações são mais frequentes em pessoas com DPOC grave. Nos casos mais leves da doença, a média de exacerbações é de 1,8 por ano, nos casos moderados de 2 a 3 por ano e nos casos graves de 3 a 4 por ano. As pessoas com maior número de exacerbações apresentam maior velocidade de deterioração das funções do pulmão. As embolias pulmonares podem agravar os sintomas de pessoas com a doença. Entre os sinais de embolia pulmonar em pessoas com DPOC estão dor torácica pleurística e insuficiência cardíaca sem sinais de infeção.
A DPOC é um tipo de doença pulmonar obstrutiva caracterizada por uma limitação crónica e apenas parcialmente reversível das vias aéreas, verificando-se também a incapacidade de expirar por completo. A limitação é o resultado da destruição do tecido pulmonar (denominada "enfisema") e de doença das pequenas vias aéreas (denominada "bronquiolite obstrutiva"). A contribuição de cada um destes fatores varia entre pessoas. A destruição severa das pequenas vias respiratórias pode levar à formação de grandes bolhas de ar que substituem o tecido pulmonar. Esta forma da doença denomina-se "enfisema bolhoso". Algumas pessoas com DPOC apresentam também algum grau de hiperresponsividade a irritantes semelhante ao que se verifica na asma. A DPOC tem origem numa resposta inflamatória significativa e crónica à inalação de irritantes. Este estado inflamatório pode ainda ser agravado com infeções bacterianas crónicas. Entre as células inflamatórias envolvidas estão os granulócitos neutrófilos e os macrófagos, dois tipos de leucócitos. Entre os fumadores estão também envolvidos os linfócitos T citotóxicos e algumas pessoas com DPOC apresentam envolvimento dos granulócitos eosinófilos de forma semelhante à asma. Parte desta resposta celular é provocada por mediadores inflamatórios, como os fatores quimiotáticos. Entre outros processos envolvidos na destruição do tecido pulmonar estão o stress oxidativo, provocado por concentrações elevadas de radicais livres no fumo do tabaco e libertados por células inflamatórias, e a destruição do tecido conjuntivo dos pulmões por proteases que não são suficientemente inibidas pelos inibidores da protease. A destruição do tecido conjuntivo dos pulmões é o que provoca o enfisema, o que por sua vez contribui para a restrição do fluxo de ar e, por último, para a má absorção e libertação de gases respiratórios. O desgaste generalizado dos músculos que muitas vezes se verifica na DPOC pode ser devido, em parte, aos mediadores inflamatórios libertados pelos pulmões no sangue.
Deve ser considerado o diagnóstico de DPOC em qualquer pessoa com idade superior a 35 ou 40 anos que apresente falta de ar, tosse crónica, produção de expectoração, constipações frequentes e um historial de exposição aos fatores de risco da doença. O diagnóstico é geralmente confirmado com exames de espirometria. O rastreio em pessoas sem sintomas não está recomendado.
Espirometria
A espirometria permite medir a intensidade da obstrução das vias aéreas. Este exame é geralmente realizado após a administração de um broncodilatador, um medicamento que dilata as vias aéreas. Para a obtenção do diagnóstico, são medidos dois componentes principais: o volume expiratório forçado no primeiro segundo (VEF1), que é o volume máximo de ar que a pessoa é capaz de expirar no primeiro segundo da respiração, e a capacidade vital forçada (CVF), que é o volume máximo de ar que a pessoa é capaz de expirar durante toda a expiração. Geralmente, cerca de 75–80% da CVF é expelida no primeiro segundo. Conclui-se por diagnóstico de DPOC quando a pessoa simultaneamente apresenta sintomas de DPOC e a razão entre o VEF1 e a CVF é inferior a 70%. No entanto, no caso dos idosos estes valores podem levar ao sobre-diagnóstico da doença, pelo que alguns critérios de diagnóstico recomendam que se observe também um VEF1 inferior a 80% do normal.
Gravidade
Existem vários métodos para avaliar a gravidade dos sintomas e a intensidade com que a DPOC afeta determinada pessoa. Algumas avaliações consistem em questionários simples. A avaliação da dispneia é realizada através da Escala do Medical Research Council modificada (mMRC), em que uma pontuação igual ou superior a 2 é considerada elevada. Em alternativa, pode ser utilizado o COPD Assessement Test (CAT). Os resultados variam entre 0 e 40 e uma pontuação igual ou superior a 10 é considerada elevada (quanto mais elevado o resultado, mais grave é a doença). Os exames de espirometria permitem também avaliar a gravidade da restrição das vias aéreas. O valor VEF1 determinado pelo exame pode ser comparado com o valor normal ou expectável para a idade, género, altura e peso da pessoa. A diferença é expressa em percentagem. As normas europeias e norte-americanas recomendam basear as recomendações de tratamento nos valores de VEF1. As orientações da Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease (GOLD) sugerem dividir as pessoas em quatro categorias com base nos sintomas e na restrição das vias aéreas. Recomenda ainda que sejam tidas em conta a perda de peso, a fraqueza muscular e a presença de outras doenças.
Outros exames
A realização de uma radiografia ao tórax e de um hemograma permitem excluir outras condições no momento do diagnóstico. Os sinais característicos da DPOC observáveis em radiografia são pulmões sobre-expandidos, diafragma achatado e espaço retroesternal aumentado. Ao mesmo tempo, a radiografia permite excluir outras doenças pulmonares, como pneumonia, edema pulmonar ou pneumotórax. Uma tomografia axial computorizada ao tórax permite mostrar a distribuição do enfisema pelos pulmões e pode ajudar a excluir outras doenças pulmonares. No entanto, a não ser nos casos em que se planeie a realização de uma cirurgia, esta distribuição raramente influencia o tratamento. Pode ainda ser realizada uma gasometria arterial para determinar a necessidade de oxigénio suplementar. Este exame é recomendado em pessoas com VEF1 inferior a 35% do previsto, com saturação periférica de oxigénio inferior a 92% e pessoas com sintomas de insuficiência cardíaca congestiva. Em regiões do mundo onde é comum a deficiência de alfa-1 antitripsina, as pessoas com DPOC devem considerar a realização deste exame, sobretudo aquelas com idade inferior a 45 anos e em que o enfisema afeta a parte inferior dos pulmões.
Diagnóstico diferencial
Pode ser necessário diferenciar a DPOC de outras possíveis causas de falta de ar, como insuficiência cardíaca congestiva, embolia pulmonar, pneumonia ou pneumotórax. Muitas pessoas com DPOC assumem, equivocadamente, que têm asma. A distinção entre asma e DPOC baseia-se nos sintomas, no historial de tabagismo e se, durante a espirometria, a obstrução das vias aéreas é ou não reversível com broncodilatadores. A tuberculose pode também apresentar-se com tosse crónica, pelo que nas regiões onde é comum deve ser considerada no diagnóstico. Entre outras condições pouco comuns que podem apresentar sintomas idênticos estão a displasia broncopulmonar e a bronquiolite obliterante. Como a bronquite crónica pode ocorrer sem obstrução das vias aéreas, esta situação não é classificada como DPOC.
A maior parte dos casos de DPOC pode ser evitada diminuindo a exposição ao fumo e melhorando a qualidade do ar. Em pessoas com a doença, a vacina contra a gripe tomada anualmente diminui as exacerbações, hospitalizações e número de mortes. A vacina antipneumocócica pode também ter alguns benefícios. No entanto, a vacina Hib por via oral não aparenta diminuir as exacerbações em pessoas com DPOC. Uma dieta rica em betacaroteno pode também apresentar alguns benefícios. No entanto, a ingestão de suplementos não aparenta ter benefícios.
Parar de fumar
Um dos princípios fundamentais da prevenção da DPOC é evitar que as pessoas comecem a fumar. As leis, os institutos públicos e as organizações antitabágicas contribuem para a diminuição do número de fumadores ao desencorajar as pessoas de começar a fumar, ao mesmo tempo que as encorajam a parar de fumar. A proibição de fumar em locais públicos e de trabalho são medidas importantes para diminuir a exposição ao fumo passivo. Nos fumadores, deixar de fumar é a única medida comprovadamente eficaz para atrasar o agravamento da DPOC: Mesmo em estádios avançados da doença, deixar de fumar atrasa a velocidade de degradação da função pulmonar e atrasa o aparecimento de outras insuficiências e da morte.
Poluição do ar
Melhorar a qualidade do ar, tanto interior como exterior, pode ajudar a prevenir a DPOC ou atrasar o agravamento da doença existentes. Esta medida pode ser conseguida mediante políticas públicas adequadas, alterações culturais e envolvimento pessoal. Vários países desenvolvidos têm melhorado significativamente a qualidade do ar exterior através de legislação adequada. Estas medidas têm melhorado a função pulmonar da generalidade da sua população. Nos dias de menor qualidade do ar exterior, é possível que as pessoas com DPOC observem menos sintomas se ficarem dentro de portas. Uma das principais medidas para aumentar a qualidade do ar interior é diminuir a exposição ao fumo provocado ao cozinhar e pela queima de combustíveis. Entre estas medidas estão a ventilação adequada e a utilização de exaustores e chaminés com a devida tiragem. A utilização de fogões adequados pode melhorar a qualidade do ar interior em 85%. A utilização de fogões elétricos ou com fontes de energia alternativa, como os fogões solares, também é eficaz. A utilização de combustíveis como querosene ou carvão pode, apesar de tudo, ser menos prejudicial que combustíveis de biomassa, como lenha ou excrementos de animais.
Saúde ocupacional
Existem várias medidas possíveis de serem implementadas para diminuir a probabilidade de que os trabalhadores de indústrias de alto risco, como a mineração de carvão, pedra e construção, venham a desenvolver DPOC. Entre estas medidas estão a educação dos trabalhadores e da gerência sobre os riscos, a promoção da cessação tabágica, o rastreio de trabalhadores para os primeiros sinais de DPOC, a utilização de máscaras respiratórias e o controlo de poeiras. O controlo das poeiras pode ser conseguido com sistemas de ventilação apropriados, com a utilização de sprays de água e com recurso da técnicas de mineração que minimizem a criação de poeira. Quando um trabalhador desenvolve DPOC, é possível evitar o prolongamento da exposição ao transferir esse trabalhador para outra função.
Embora não exista cura para a DPOC, os sintomas são tratáveis e a sua progressão pode ser atrasada. Os principais objetivos do tratamento são diminuir os fatores de risco, gerir a DPOC estável, prevenir e tratar as exacerbações agudas e tratar as doenças associadas. As únicas medidas que comprovadamente diminuem a mortalidade são a cessação tabágica e a suplementação de oxigénio. Parar de fumar diminui o risco de morte em 18%. Entre outras recomendações estão a toma anual de vacina contra a gripe, a toma de vacina antipneumocócica a cada cinco anos e a diminuição da exposição à poluição do ar ambiental. Em pessoas com doença avançada, os cuidados paliativos podem diminuir os sintomas e a morfina ajuda a diminuir a sensação de falta de ar. A ventilação mecânica pode ajudar a respirar. Oferecer às pessoas um plano de ação personalizado, uma sessão educativa e apoio durante a realização do plano quando ocorre uma exacerbação pode diminuir o número de visitas hospitalares e encoraja o tratamento imediato das exacerbações.
Exercício físico
A reabilitação pulmonar consiste num programa coordenado e individualizado de exercício, gestão da doença e aconselhamento. Em pessoas com episódios recentes de exacerbações, a reabilitação pulmonar aparenta melhorar a qualidade de vida e a capacidade para realizar exercício físico. Não é ainda claro se a reabilitação pulmonar melhora a taxa de mortalidade ou de readmissão hospitalar. Tem-se verificado que a reabilitação melhora as emoções e o sentimento de controlo que a pessoa tem sobre a doença. No entanto, desconhece-se ainda a rotina e intensidade ideais de exercício físico e a quantidade ideal de ventilação não invasiva para pessoas com DPOC. A realização de exercícios de resistência no braço melhora o movimento do membro em pessoas com DPOC e pode causar uma ligeira melhoria nas dificuldades respiratórias. Realizar exercícios no braço isoladamente não aparenta melhorar a qualidade de vida. A realização de exercícios de respiração isoladamente aparenta ter uma função limitada. Os exercícios de respiração freno-labial podem ser benéficos. A prática de exercícios de tai chi aparenta ser segura em pessoas com DPOC e pode ser benéfica para a função respiratória e capacidade pulmonar, quando comparada com um programa de exercício normal. No entanto, não se verificou que o tai chi seja mais eficaz que outros programas de intervenção com exercício físico.
Medicamentos
Os principais medicamentos usados no tratamento da DPOC são os broncodilatadores por inalação, embora os seus benefícios sejam limitados. São geralmente administrados dois tipos de broncodilatadores: os agonistas adrenérgicos beta-2 e os anticolinérgicos. Ambos estão disponíveis nas formas de curta e longa duração. Estes medicamentos diminuem a falta de ar, a pieira e as limitações para a prática de exercício físico, contribuindo para o aumento da qualidade de vida. Não é ainda claro se alteram a progressão da doença subjacente. Para os casos menos graves da doença, são geralmente recomendados broncodilatadores de curta duração a usar apenas em caso de necessidade. Para os casos mais graves, são geralmente recomendados agentes de longa duração. Os agentes de longa duração atuam em parte ao melhorar a hiperinsuflação. Quando os broncodilatadores de longa duração não são suficientes, são geralmente acrescentados corticosteroides por inalação. Em relação aos agentes de longa duração, não é claro se é superior o tiotrópio (um anticolinérgico de longa duração) ou os agonistas beta de longa duração, sendo possível tentar o tratamento com ambos e continuar aquele que seja mais eficaz. Ambos os tipos aparentam diminuir o risco de exacerbações agudas em 15–25%. Embora possam ser usados em simultâneo, o benefício é pouco significativo.
Oxigénio
A oxigenoterapia é recomendada em pessoas com baixos níveis de oxigénio em repouso (pressão parcial de oxigénio inferior a 50–55 mmHg ou saturação de oxigénio inferior a 88%). Neste grupo de pessoas, quando usada 15 horas por dia, esta terapia diminui o risco de insuficiência cardíaca e de morte e pode melhorar a capacidade da pessoa em realizar exercício físico. Em pessoas com níveis de oxigénio normais ou ligeiramente baixos, a oxigenoterapia pode melhorar a falta de ar quando administrada durante o exercício, mas pode não ser eficaz durante as atividades quotidianas ou ter impacto na qualidade de vida. Quando a pessoa continua a fumar, além do pouco benefício existe ainda o risco de incêndio. Neste contexto, existem algumas recomendações contra o seu uso. Durante as exacerbações agudas, muitas pessoas necessitam de oxigenoterapia. No entanto, o recurso a concentrações elevadas de oxigénio sem levar em conta os níveis de saturação de oxigénio da pessoa pode levar ao aumento dos níveis de dióxido de carbono e a um pior prognóstico. Para pessoas com elevado risco de atingir níveis de dióxido de carbono excessivos, são recomendadas saturações de oxigénio de 88–92%, enquanto para pessoas sem este risco a saturação recomendada é de 94–98%.
Cirurgia
Em pessoas com DPOC muito grave, a cirurgia pode por vezes apresentar benefícios. Entre as opções disponíveis estão o transplante de pulmão ou a cirurgia de redução de volume do pulmão. A cirurgia de redução de volume implica remover as partes do pulmão mais afetadas pelo enfisema, o que permite ao restante pulmão expandir-se e funcionar melhor. Esta cirurgia aparenta ser particularmente eficaz quando o enfisema se situa principalmente no lóbulo superior. No entanto, este procedimento também aumenta o risco de morte prematura e e de efeitos adversos. Em determinados casos muitos graves de DPOC são por vezes realizados transplantes de pulmão, sobretudo em indivíduos mais jovens.
Tratamento de exacerbações
As exacerbações agudas de DPOC são geralmente tratadas aumentando a utilização de broncodilatadores de curta duração. Esta terapêutica geralmente consiste numa combinação de anticolinérgicos e agonistas beta de curta duração por via inalatória. Estes medicamentos podem ser administrados quer através de um inalador dosimetrado com um espaçador ou através de um nebulizador. A eficácia de ambos aparenta ser idêntica. A nebulização pode ser um método mais fácil para aqueles que se encontram em piores condições. A oxigenoterpia pode também ser eficaz. No entanto, a administração excessiva de oxigénio pode provocar o aumento dos níveis de dióxido de carbono e a diminuição do estado de consciência.
A DPOC geralmente vai-se agravando ao longo do tempo e pode, a determinado ponto, ser a causa da morte da pessoa. Estima-se que 3% dos anos de vida perdidos estejam relacionados com a doença. A proporção da incapacidade por DPOC diminuiu globalmente entre 1990 e 2010, o que se deve à melhoria na qualidade do ar interior, principalmente na Ásia. No entanto, o número de anos com que se vive com a doença tem vindo a aumentar. A velocidade a que a DPOC se agrava varia de acordo com a presença ou não de fatores que influenciam o prognóstico, como a obstrução grave das vias respiratórias, incapacidade de realizar exercício físico, falta de ar, falta ou excesso de peso significativos, insuficiência cardíaca congestiva, continuar a fumar e exacerbações frequentes. O prognóstico a longo prazo de DPOC pode ser estimado através do índice BODE. Este índice atribui à pessoa uma escala de zero a dez, tendo em conta fatores como volume expiratório máximo no 1º segundo, o índice de massa corporal, a distância percorrida em 6 minutos e aa escala do Medical Research Council modificada (mMRC) para a avaliação da dispneia. Embora os resultados dos exames de espirometria possam ser um bom indicador da progressão futura da doença, não são tão fidedignos como o índice BODE. A perda acentuada de peso é um sinal negativo de prognóstico.
Em 2010, a doença pulmonar obstrutiva crónica afetava cerca de 329 milhões de pessoas em todo o mundo, o que corresponde a cerca de 4,8% da população. A doença afeta praticamente de igual forma homens e mulheres. Acredita-se que o aumento da prevalência da doença nos países em vias de desenvolvimento entre 1970 e 2000 esteja relacionado com o aumento da percentagem de fumadores, ao aumento da população e ao envelhecimento da população como consequência da menor mortalidade por outras causas, como doenças infecciosas. Em alguns países desenvolvidos a prevalência tem vindo a aumentar, enquanto noutros se tem mantido estável e noutros ainda tem diminuído. É expectável que os números globais continuem a aumentar, uma vez que os fatores de risco continuam a ser comuns e a população continua a envelhecer. Entre 1990 e 2010, o número de mortes por DPOC diminuiu ligeiramente, de 3,1 milhões para 2,9 milhões, tendo-se tornado a quarta causa de morte mais comum. Em 2012 tornou-se a terceira causa de morte mais comum, após o número de mortes ter aumentado novamente para 3,1 milhões. Em alguns países, a mortalidade diminuiu entre os homens, mas aumentou entre as mulheres. É provável que isto se deva ao facto de a percentagem de fumadores entre os homens e as mulheres se ter vindo a aproximar. A DPOC é mais comum entre os idosos. Afeta 34–200 em cada 1000 pessoas com mais de 65 anos de idade, dependendo da população em estudo.
O termo "enfisema" deriva do grego ἐμφυσᾶν emphysan, que significa "inflar", por sua vez composto pelos termos ἐν (in) e φυσᾶν (physan), que significa sopro. O termo "bronquite crónica" teve origem em 1808, enquanto o termo "doença pulmonar obstrutiva crónica" começou a ser usado em 1965. Antes desta última data, a doença era conhecida por uma série de nomes diferentes, entre os quais "doença broncopulmonar obstrutiva crónica", "doença respiratória obstrutiva crónica", "obstrução crónica das vias aéreas", "limitação crónica das vias aéreas", "doença pulmonar crónica não específica" e "síndrome pulmonar obstrutivo difuso". Os termos "bronquite crónica" e "enfisema" foram formalmente estabelecidos em 1959 durante o simpósio CIBA e em 1962 na reunião do Comité da American Thoracic Society relativa às normas de diagnóstico. Entre as primeiras descrições conhecidas de um provável enfisema estão a do médico suíço Theophile Bonet, que em 1679 descrevia uma condição com "pulmões volumosos", e a do anatomista italiano Giovanni Morgagni, que em 1769 descrevia pulmões "particularmente túrgidos de ar". As primeiras ilustrações conhecidas de enfisema datam de 1721 e são da autoria de Frederik Ruysch, um anatomista holandês. São também conhecidas as ilustrações de Matthew Baillie, datadas de 1789 e acompanhadas por descrições da natureza destrutiva da doença. Em 1814, o médico Charles Badham propôs o uso do termo "catarro" para descrever a tosse e expectoração presentes na bronquite crónica. O termo "enfisema" foi usado por René Laennec, o médico que inventou o estetoscópio, no seu livro A Treatise on the Diseases of the Chest and of Mediate Auscultation (1837) para descrever pulmões que não encolhiam ao realizar uma autópsia porque se encontravam cheios de ar e de muco. Em 1842, o cirurgião inglês John Hutchinson inventou o espirómetro, o que viria a permitir medir a capacidade vital dos pulmões. No entanto, o espirómetro da época apenas permitia medir o volume, e não o fluxo de ar. Em 1947, Tiffeneau e Pinelli descreveram os princípios da medição do fluxo de ar.
A DPOC é um problema de saúde pública significativo e com custos sociais elevados. A doença afeta predominantemente as pessoas mais desfavorecidas socialmente e, quando tem início na fase mais produtiva da vida, pode obrigar a uma reforma antecipada de baixo valor. Estima-se que em 2010 o custo económico global da DPOC tenha sido de 2,1 biliões de dólares, metade do qual nos países em vias de desenvolvimento. Deste total, estima-se que 1,9 biliões de dólares correspondam a custos diretos, como cuidados médicos, enquanto 2 mil milhões de dólares correspondam a custos indiretos, como faltas ao emprego. Antevê-se que no ano de 2013 estes valores mais do que dupliquem. Na Europa, a DPOC é responsável por 3% das despesas de saúde. Embora proporcione alívio dos sintomas, a oxigenoterapia domiciliar prolongada associada à DPOC proporciona algumas barreiras físicas, emocionais e psicossociais. Em muitos casos, o doente com DPOC fica dependente de ajuda para desenvolver atividades quotidianas, necessitando da prestação de cuidadores. Alguns pacientes revelam isolamento social, dificuldade no envolvimento emocional e dificuldades de adaptação e aceitação.


