Doença de Von Gierke
A Doença de Von Gierke, também conhecida como Glicogenose Tipo I, é uma condição metabólica hereditária que afeta aproximadamente 1 em cada 50.000 nascidos anualmente. Ela se caracteriza pela incapacidade do corpo de processar adequadamente o glicogênio, levando a sérias complicações.
Pontos-chave
- É um distúrbio hereditário autossômico recessivo do acúmulo de glicogênio.
- A deficiência da enzima glicose-6-fosfatase impede o fígado de produzir glicose a partir de suas reservas.
- Os sintomas incluem hipoglicemia grave, aumento do fígado e rins, e problemas renais e de lipídios.
- O diagnóstico é feito por testes de tolerância a açúcares e a falta de resposta à administração de glucagon.
- O tratamento foca na prevenção da hipoglicemia e acidose láctica através de dieta rica em carboidratos e monitoramento regular.
A Glicogenose Tipo I é causada por uma condição hereditária autossômica recessiva, onde ocorre um acúmulo anormal de glicogênio no corpo. A raiz do problema é a deficiência da enzima glicose-6-fosfatase. Essa enzima é crucial para que o fígado consiga liberar glicose na corrente sanguínea, seja a partir de suas reservas de glicogênio (glicogenólise) ou através da produção de nova glicose (gliconeogênese). Com a deficiência dessa enzima, o glicogênio se acumula excessivamente no fígado e nos rins, prejudicando o funcionamento desses órgãos.
Indivíduos com a Doença de Von Gierke apresentam fígados que não conseguem liberar glicose no sangue, especialmente durante períodos de jejum, resultando em episódios de hipoglicemia (baixo nível de açúcar no sangue) severa. O acúmulo de glicogênio no fígado leva ao seu aumento de tamanho (hepatomegalia), e depósitos nos rins causam nefromegalia (aumento renal), comprometendo a função renal. A hipoglicemia pode desencadear outras complicações: anormalidades nos níveis de lipídios podem levar à formação de xantomas (depósitos de colesterol na pele). O mau funcionamento renal pode elevar os níveis de ácido úrico, causando gota (artrite gotosa). Além disso, o metabolismo de alternativas à glicose, como galactose, frutose e glicerol, produz lactato. Níveis elevados de lactato no sangue resultam em acidose láctica e acidose metabólica, condições perigosas para o organismo.
O diagnóstico correto das glicogenoses é fundamental, pois a abordagem terapêutica disponível é simples e eficaz. As alterações laboratoriais mais comuns incluem a incapacidade do fígado em responder à administração de glucagon, um hormônio que estimula a liberação de glicose. Tradicionalmente, testes de tolerância a glucagon, galactose, frutose e glicose são utilizados. Na Glicogenose Tipo I, a glicemia não se eleva após a administração de glucagon. Como os pacientes não conseguem converter galactose e frutose em glicose, a administração desses açúcares provoca um aumento do lactato e consequente acidose metabólica, sem resposta glicêmica. Curiosamente, a administração de glicose normaliza os níveis de lactato. O teste de tolerância com glucagon também ajuda a diferenciar a Glicogenose Tipo I da Tipo III: na Tipo I, não há resposta glicêmica ao glucagon em jejum ou após alimentação; já na Tipo III, há resposta glicêmica após dieta. É crucial interromper os testes assim que o paciente apresentar sintomas.
O principal objetivo do tratamento é prevenir a hipoglicemia e a acidose láctica, o que é feito através de uma dieta rica em glicose ou amido, pois o amido é rapidamente convertido em glicose no corpo. Para compensar a incapacidade do fígado em fornecer açúcar, a ingestão total de carboidratos na dieta deve ser ajustada para suprir a necessidade de glicose de 24 horas. Recomenda-se uma dieta com aproximadamente 65-70% de carboidratos, 10-15% de proteínas e 20-25% de gordura. É essencial que pelo menos um terço dos carboidratos seja consumido durante a noite, para que crianças pequenas não fiquem mais de 3 a 4 horas sem ingestão de carboidratos. Isso pode ser alcançado com infusão contínua de glicose ou refeições frequentes, inclusive durante a madrugada. Deve-se evitar outras formas de açúcar, como frutose e lactose, e também o excesso de gorduras. O ácido úrico persistentemente elevado (acima de 6,5 mg/dl) requer tratamento com alopurinol para prevenir a formação de depósitos dolorosos de cristais de ácido úrico nos rins e articulações. O monitoramento anual do fígado e rins, juntamente com hemogramas regulares, é fundamental.
Antigamente, a sobrevivência à idade adulta era rara, mas com os avanços no diagnóstico e tratamento, a expectativa de vida tem aumentado significativamente. Os sintomas tendem a melhorar com o avanço para a vida adulta. A morte precoce, quando ocorre, geralmente está associada a complicações metabólicas agudas da hipoglicemia e acidose láctica, hemorragias ou infecções. Falhas no funcionamento de bombas de infusão de glicose podem levar a hipoglicemia e acidose fatais. Complicações hepáticas são frequentes, com o desenvolvimento de adenomas (tumores benignos) no fígado entre os 20 e 30 anos, havendo uma pequena chance de transformação maligna para hepatoma ou carcinoma hepático em casos avançados. Em situações mais graves, o transplante hepático pode ser necessário.


