Dimitri Seniavin
Dimitri Nicolaievich Seniavin foi um almirante russo que se notabilizou durante as Guerras Revolucionárias Francesas, tendo comandado as forças russas no Mediterrâneo e protagonizado um complexo incidente aquando da tomada de Lisboa pelas forças francesas comandadas por Jean-Andoche Junot, que culminaria no efectivo aprisionamento no estuário do Tejo da esquadra russa por ele comandada durante vários meses.
Dimitri Seniavin nasceu nos arredores de Borovsk, uma cidade a sul de Moscovo, no seio de uma família aristocrática com tradicionais ligações ao serviço militar e à Marinha Imperial. O seu tio avô, Naum Akimovich Seniavin (Наум Акимович Сенявин em russo), fora vice-almirante da Marinha Imperial, distinguindo-se durante a Grande Guerra do Norte e na Guerra Russo-Austríaco-Otomana de 1736–1739), e vários dos seus familiares mais próximos eram oficiais navais. Seguindo a tradição familiar, ingressou na Marinha Imperial Russa, sendo graduado oficial em 1780 e iniciado a sua carreira na guarnição de um dos navios russos que naquele ano visitou Lisboa.
A comissão na Esquadra do Mar Negro
Dimitri Seniavin foi transferido em 1783 para a recém-formada Esquadra do Mar Negro, passando então a servir sob as ordens do almirante Fiodor Fiodorovich Ushakov e participando activamente na construção da base naval de Sebastopol e nas campanhas de vigilância da actividade militar otomana naquela região, então fortemente disputada entre os impérios Russo e Otomano na sequência do desfecho da Guerra Russo-Otomana de 1768–1774. Durante estes primeiros anos de serviço naval demonstrou ser um oficial resoluto e corajoso, distinguindo-se ao salvar um navio durante uma expedição contra o porto de Varna, na costa búlgara, e por ter conseguido, sob as ordens directas do príncipe Grigori Alexandrovich Potemkin, levar até Constantinopla correio diplomático considerado vital para a embaixada russa junto da Sublime Porta. Estes sucessos e as suas relações familiares ganharam-lhe rápida promoção na sua carreira naval, passando em poucos anos a ocupar uma posição de destaque no estado-maior da Esquadra do Mar Negro.
A acção no Adriático
Aproveitando a sua experiência no Mediterrâneo e fazendo fé na sua reputação de coragem e denodo, três anos depois, em 1806, o novo czar, Alexandre I da Rússia, nomeou Seniavin comandante de uma força naval russa que deveria actuar no Mar Adriático com o objectivo de contrariar a crescente influência francesa naquela região do Mediterrâneo. Seniavin houve-se nesta missão com grande eficácia, de tal forma que em Setembro de 1806 já tinha conseguido expulsar a Armada francesa do sul do Adriático, bloqueado Ragusa (hoje Dubrovnik), impedindo o seu comércio marítimo, e estava a preparar um ataque a Lesina. Tendo como aliados naturais as populações ortodoxas do Montenegro, que lhe prometiam ajuda em terra e apoio logístico, o esquadrão russo capturou as ilhas de Korčula (Curzola) e Vis (Lissa), persuadindo os austríacos a entregarem-lhe a cidade de Cattaro. Em resultado dessas operações, os franceses foram impedidos de consolidar a sua posição nas ilhas Jónicas e os russos recuperaram influência ao longo da fronteira ocidental do Império Otomano.
A acção no Mar Jónio e nos Dardanelos
Contudo, mesmo antes de ter havido tempo para consolidar posições, rebentou nova Guerra entre os Impérios Russo e Otomano, a Guerra Russo-Otomana de 1806-1812, e o esquadrão de Seniavin foi envido para o Mar Egeu com ordens para atacar Constantinopla. A força russa penetrou no Estreito dos Dardanelos a 24 de Fevereiro de 1807 e conseguiu capturar a ilha de Bozcaada (Tenedos) em Março. Usando aquela ilha como base de apoio, Seniavin bloqueou o Estreito e cortou a linhas de abastecimento às forças turcas que defendiam a cidade. A partir da sua base na ilha de Bozcaada (Tenedos), as possibilidades de conseguir capturar os Dardanelos pareciam excelentes, especialmente quando surgiu a oportunidade de contar com o apoio de um esquadrão britânico, comandado por Sir John Thomas Duckworth, que se encontrava na região. Contudo, o comandante britânico, que a 19 de Fevereiro perdera 600 homens devido ao fogo da artilharia de costa, recusou colaborar, preferindo antes encetar uma expedição contra a cidade de Alexandria, que se revelaria desastrosa.
O incidente de Lisboa
Não poderia ter sido pior o momento escolhido para a escala: na sequência do Tratado de Fontainebleau, assinado a 27 de Outubro, ou seja dias antes, fora decidida a partilha de Portugal e iniciados os preparativos para uma invasão do país pelos exércitos combinados de Napoleão Bonaparte e de Carlos IV de Espanha, com o general Jean-Andoche Junot à frente. Por outro lado, a 7 de Novembro a Rússia, em protesto contra o bombardeamento britânico a Copenhaga, declarara-se em guerra com a Grã-Bretanha, iniciando a Guerra Anglo-Russa. Entretanto, para impor o Bloqueio Continental, a 16 de Novembro chega à barra do Tejo um esquadrão naval britânico, comandado por Sir Sidney Smith.
Os anos finais
Tendo sido considerado culpado de desobediência às ordens do imperador, este nunca lhe voltou a atribuir qualquer comando efectivo de forças. Mesmo quando Napoleão Bonaparte invadiu a Rússia e se desencadeou a Guerra Patriótica, nome pelo qual ficou conhecida na Rússia a invasão napoleónica de 1812, Seniavin permaneceu como comandante do porto de Reval (Tallinn), uma posição secundária longe da frente de batalha, isto apesar de ter solicitado por diversas vezes ao czar a sua readmissão ao serviço activo ou que fosse autorizado a constituir uma milícia na sua província natal. Apesar de Seniavin ter passado à reserva no ano imediato, o seu nome permaneceu popular no seio da Armada Imperial, de tal forma que os conspiradores Decembristas planearam colocá-lo como um dos membros do governo provisório que pretendiam instaurar através de uma revolução palaciana.


