Devanágari
O Devanágari, também conhecido como Nagari, é uma abugida (sistema de escrita que usa símbolos para consoantes com uma vogal inerente, e modifica esses símbolos para indicar outras vogais) grafada da esquerda para a direita, com raízes na antiga escrita Brāhmī do subcontinente indiano. Desenvolvido entre os séculos I e IV EC na Índia antiga e em uso regular a partir do século VII EC, este sistema é composto por 47 caracteres primários (14 vogais e 33 consoantes). Atualmente, o Devanágari é o quarto sistema de escrita mais adotado globalmente, sendo utilizado em mais de 120 idiomas.
Pontos-chave
- Devanágari é uma abugida derivada da escrita Brāhmī, usada em mais de 120 idiomas.
- Seu nome significa 'escrita da cidade divina', refletindo sua origem e importância cultural.
- Com 47 caracteres primários, é o quarto sistema de escrita mais adotado no mundo.
- Sua história remonta ao século I EC, com a forma padronizada moderna em uso por volta de 1000 EC.
- A ordem das letras é fonética, baseada na articulação de consoantes e vogais.
O termo Devanágari é uma junção de 'deva' (देव), que significa 'celestial ou divino' e também se refere a uma divindade no hinduísmo, e 'nāgarī' (नागरी), que deriva de नगरम् (nagaram), significando 'morada' ou 'cidade'. Assim, Devanágari pode ser interpretado como 'a morada da divindade ou divindades' ou 'escrita da cidade divina'. 'Nāgarī' é o feminino sânscrito de Nāgara, que significa 'relativo ou pertencente a uma cidade, urbana', frequentemente associado a 'lipi' (escrita), formando 'nāgarī lipi' ou 'escrita relacionada a uma cidade'. O uso do nome Devanāgarī evoluiu do termo mais antigo nāgarī, que surgiu no noroeste da Índia por volta de 633 EC, desenvolvendo-se plenamente no século XI e se tornando uma escrita principal para a literatura sânscrita.
O Devanágari pertence à família Brâhmica de escritas, que abrange Índia, Nepal, Tibete e Sudeste Asiático. É descendente do Brāhmī do século III AEC, que deu origem à escrita Nagari, e esta, por sua vez, deu origem ao Devanágari e ao Nandinagari. O Devanágari foi amplamente adotado na Índia e no Nepal para dialetos sânscritos, marata, hindi, concani, boro e várias línguas nepalesas. As primeiras evidências epigráficas do desenvolvimento da escrita sânscrita Nagari na Índia antiga datam dos séculos I a IV EC, encontradas em Gujarat. Variantes da escrita Nagari, precursoras do Devanágari, são atestadas a partir do século I EC em sânscrito, com a forma padronizada moderna em uso por volta de 1000 EC. Inscrições medievais revelam a ampla difusão de escritas relacionadas ao Nagari, muitas vezes em biescritas, como o pilar de Pattadakal (século VIII) em Karnataka, com textos em Siddha Matrika e uma antiga escrita Telugu-Kannada, e a inscrição Kangra Jawalamukhi em Himachal Pradesh, escrita em Sharada e Devanágari.
Influência no Leste Asiático
No século VII, sob o Império Tibetano de Songtsen Gampo, Thonmi Sambhota foi enviado ao Nepal para negociar um casamento e encontrar um sistema de escrita para o tibetano. Ele criou a escrita tibetana, baseada no Nagari da Caxemira, adicionando seis caracteres para sons inexistentes em sânscrito. Outras escritas ligadas ao Nagari, como Siddham Matrka, foram usadas na Indonésia, Vietnã, Japão e outras partes do leste da Ásia entre os séculos VII e X. A maioria das escritas do sudeste asiático tem raízes dravidianas, mas algumas em Java central e regiões isoladas se assemelham ao Devanágari ou seu protótipo. A escrita Kawi, por exemplo, é similar ao Devanágari em muitos aspectos, apesar de mudanças morfológicas locais. As primeiras inscrições em escritas semelhantes ao Devanágari datam do século X, com muitas mais entre os séculos XI e XIV, incluindo as encontradas em templos hindus de Java, como o Prambanan. As inscrições Ligor e Kalasan de Java central (século VIII) também estão na escrita Nagari do norte da Índia, possivelmente relacionadas à inscrição em placa de cobre de Devapaladeva (Bengala) do século IX, que usa uma forma inicial de Devanágari. O termo 'Kawi' na escrita Kawi é um empréstimo de 'Kavya' (poesia). A versão do século VIII da escrita Nagari ou Devanágari foi adotada em Java, Bali (Indonésia) e Khmer (Camboja) por volta dos séculos VIII ou IX, como evidenciado por inúmeras inscrições desse período.
A ordem das letras no Devanágari, como em quase todas as escritas brâhmicas, é fonética, considerando a maneira e o local de articulação de consoantes e vogais. Essa organização é conhecida como varṇamālā, ou 'guirlanda de letras'. O formato do Devanágari para o sânscrito serve como protótipo para sua aplicação em outros idiomas, com pequenas variações. Diversas fontes Unicode são usadas para Devanágari, incluindo Akshar, Annapurna, Arial, CDAC-Gist Surekh, CDAC-Gist Yogesh, Chandas, Gargi, Gurumaa, Jaipur, Jana, Kalimati, Kanjirowa, Lohit Devanagari, Mangal, Kokila, Raghu, Sanskrit2003, Santipur OT, Siddhanta e Thyaka.
Consoantes
As consoantes Devanágari são apresentadas em combinação com a vogal inerente 'a'. A tabela mostra a letra Devanágari, sua transliteração no Alfabeto Internacional de Transliteração Sânscrita (IAST) e o valor fonético (IPA) em hindi. Para uma lista completa das 297 sílabas sânscritas consoantes-vogais (curtas) possíveis, pode-se consultar a numeração de Āryabhaṭa.
Diacríticos Vocálicos
As vogais em sua forma independente são mostradas à esquerda, e suas formas dependentes (sinais de vogal) são combinadas com a consoante 'k' à direita. A sílaba 'ka' não requer um sinal de vogal, pois a vogal 'a' é inerente. A transliteração ISO 15919 é fornecida nas duas primeiras linhas. Uma vogal se combina com uma consoante em sua forma diacrítica. Por exemplo, a vogal आ (ā) se une à consoante क् (k) para formar a sílaba का (kā), onde o haland (sinal de cancelamento) é removido e o sinal de vogal é adicionado. Da mesma forma, a vogal अ (a) se combina com a consoante क् (k) para formar क (ka), com o haland removido. A série diacrítica de क, ख, ग, घ... (ka, kha, ga, gha) não possui sinal de vogal adicionado, pois a vogal अ (a) é inerente.
Consoantes Conjuntas (Ligaduras)
Quando consoantes sucessivas aparecem sem uma vogal entre elas, elas podem se unir fisicamente para formar uma consoante conjunta ou ligadura. No uso do Devanágari para outros idiomas além do sânscrito, os conjuntos são empregados principalmente em palavras sânscritas e empréstimos. Palavras nativas geralmente usam a consoante básica, e os falantes nativos sabem suprimir a vogal quando apropriado. Por exemplo, a palavra nativa hindi 'karnā' é escrita करना (ka-ra-nā). As regras para esses agrupamentos variam de amplamente aplicáveis a restritas, com exceções especiais. Embora amplamente padronizado, existem variações nos agrupamentos, e o Unicode usado nesta página representa apenas um esquema.
Pontuação
O final de uma frase ou meio verso pode ser marcado pelo símbolo '।', chamado daṇḍa ('barra') ou pūrṇa virām ('ponto final/pausa'). O final de um verso completo é indicado por um duplo daṇḍa, '॥'. Uma vírgula (alpa virām, 'curta parada/pausa') é usada para indicar uma pausa natural na fala. Sinais de pontuação de origem ocidental, como dois pontos, ponto e vírgula, ponto de exclamação e ponto de interrogação, têm sido usados na escrita Devanágari desde pelo menos os anos 1900, seguindo seu uso em línguas europeias.
Existem diversos métodos para romanizar ou transliterar o Devanágari para o alfabeto latino, cada um com suas particularidades e aplicações.
Sistema Hunteriano
O sistema Hunteriano é o 'sistema nacional de romanização na Índia' e é oficialmente adotado pelo governo indiano.
ISO 15919
Uma convenção de transliteração padrão foi codificada na norma ISO 15919 de 2001. Este sistema utiliza diacríticos para mapear o conjunto de grafemas brâhmicos para a escrita latina. A parte específica para o Devanágari é quase idêntica ao padrão acadêmico para o sânscrito, o IAST.
IAST (Alfabeto Internacional de Transliteração Sânscrita)
O IAST é o padrão acadêmico para a romanização do sânscrito, sendo o padrão de fato em publicações impressas (livros, revistas) e textos eletrônicos com fontes Unicode. Baseia-se em um padrão estabelecido pelo Congresso de Orientalistas em Atenas em 1912. A norma ISO 15919 de 2001 codificou a convenção de transliteração para incluir um padrão expandido para escritas irmãs do Devanágari. O sistema de romanização da Biblioteca Nacional de Kolkata, destinado à romanização de todas as escritas índicas, é uma extensão do IAST.
Harvard-Kyoto
Em comparação com o IAST, o sistema Harvard-Kyoto é consideravelmente mais simples, pois não contém todos os sinais diacríticos presentes no IAST. Ele foi desenvolvido para facilitar a disponibilização computacional de muitos textos em sânscrito, reduzindo o esforço de transliteração no teclado. Isso torna a digitação em Harvard-Kyoto muito mais fácil do que no IAST. No entanto, o sistema Harvard-Kyoto utiliza letras maiúsculas, o que pode dificultar a leitura no meio das palavras.
ITRANS
O ITRANS é um esquema de transliteração sem perdas de Devanágari para ASCII, amplamente utilizado na Usenet. É uma extensão do esquema Harvard-Kyoto. Em ITRANS, a palavra 'devanāgarī' é escrita como 'devanaagarii' ou 'devanAgarI'. O ITRANS está associado a um aplicativo de mesmo nome que permite a composição em escritas índicas. O usuário insere em letras romanas, e o pré-processador ITRANS traduz as letras romanas para Devanágari (ou outras línguas índicas). É semelhante ao sistema Velthuis e foi criado por Avinash Chopde para auxiliar na impressão de várias escritas índicas com computadores pessoais.
Romanização ALA-LC
A romanização ALA-LC é um esquema de transliteração aprovado pela Library of Congress e pela American Library Association, amplamente utilizado em bibliotecas norte-americanas. As tabelas de transliteração são baseadas em idiomas, existindo uma tabela para hindi, outra para sânscrito e prácrito, e assim por diante.
As codificações digitais permitem que o Devanágari seja representado e processado em sistemas computacionais, garantindo a compatibilidade e a correta exibição dos caracteres.
Unicode
O Padrão Unicode define três blocos específicos para o Devanágari: Devanagari (U+0900–U+097F), Devanagari Extended (U+A8E0–U+A8FF) e Vedic Extensions (U+1CD0–U+1CFF). Essas codificações garantem a representação abrangente dos caracteres Devanágari e suas variações.
Diferentes layouts de teclado foram desenvolvidos para facilitar a digitação em Devanágari, atendendo a diversas preferências e necessidades dos usuários.
Layout InScript
O InScript é o layout de teclado padrão para Devanágari, padronizado pelo Governo da Índia. Ele está integrado em todos os principais sistemas operacionais modernos. O Microsoft Windows, por exemplo, oferece suporte ao layout InScript (utilizando a fonte Mangal), que pode ser usado para inserir caracteres Unicode Devanágari. O InScript também está disponível em alguns celulares modernos.
Layout Fonético
O sistema operacional Mac OS X inclui dois layouts de teclado para Devanágari: um que se assemelha ao INSCRIPT/KDE Linux e outro, um layout fonético, chamado 'Devanagari QWERTY'. Ambos os sistemas de entrada de fontes Unicode são adequados para a Wikipédia em línguas índicas e outros projetos wiki, incluindo as Wikipédias em hindi, bhojpuri, marata e nepalesa. Embora algumas pessoas usem o InScript, a maioria prefere a transliteração fonética do Google ou o recurso de entrada Universal Language Selector (ULS) fornecido na Wikipédia. Atualmente, os projetos Wiki de idiomas índicos são suportados pelo ULS, que oferece teclado fonético (Aksharantaran, Marathi: अक्षरांतरण, Hindi: लिप्यंतरण, बोलनागरी) e teclado InScript (Marathi: मराठी लिपी, Hindi: इनस्क्रिप्ट).


