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Crise na Venezuela

Uma crise socioeconômica e política em curso teve início na Venezuela durante a presidência de Hugo Chávez, Nicolás Maduro e Delcy Rodríguez. Essa crise tem sido marcada por hiperinflação, fome crescente, doenças, criminalidade e altas taxas de mortalidade, resultando em emigração massiva.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 19/07/2026
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Antecedentes

Governo Hugo Chávez

Com o aumento dos preços do petróleo no início da década de 2000 e com o dinheiro arrecadado, Hugo Chávez criou as Missões bolivarianas (ou apenas "Missões") visando melhorar a prestação de serviços públicos para a população. De acordo com Corrales e Penfold, "a ajuda foi feita para alguns dos pobres, ajudando o presidente e seus aliados e comparsas mais do que qualquer outra pessoa". As Missões implicaram a construção de milhares de clínicas médicas para os pobres e a expansão de alimentos e subsídios de habitação. Em 2010, um relatório da Organização dos Estados Americanos (OEA) indicou melhorias no analfabetismo, saúde, pobreza, e no avanço econômico e social. A qualidade de vida para os venezuelanos também melhorou, de acordo com um índice da ONU. Teresa A. Meade escreveu que a popularidade de Chávez dependia fortemente "das classes mais baixas que se beneficiam destas iniciativas de saúde e políticas semelhantes."

Governo Nicolás Maduro

É impossível entender por que o governo não está reagindo à essa realidade, por que não tem adotado medidas para aliviar as distorções econômicas que estão destruindo a renda dos venezuelanos. Após a morte de Chávez em 2013, Nicolás Maduro assumiu a presidência ao vencer Henrique Capriles Radonski por 235.000 votos, com margem de 1,5%. Ele manteve a maior parte das políticas econômicas do governo Chávez. Ao assumir, sua administração enfrentou alta inflação e grandes escassezes de bens, herdados das políticas de Chávez. Maduro afirmou que a especulação capitalista elevou a inflação e causou escassez de itens básicos. Ele adotou medidas econômicas contra opositores, que, segundo ele e seus apoiadores, integrariam uma conspiração econômica internacional. Críticas foram feitas por priorizar a opinião pública em vez de abordar questões práticas apontadas por economistas ou propor medidas que melhorassem as perspectivas econômicas da Venezuela. Em 2014, a Venezuela entrou em recessão econômica e, em 2016, o país registrou inflação de 800%, a mais alta de sua história. A crise se agravou sob o governo Maduro, em parte devido aos preços baixos do petróleo no início de 2015, e à queda na produção de petróleo por falta de manutenção e investimento. O governo não reduziu os gastos diante da queda na receita do petróleo e tratou a crise negando sua existência e reprimindo violentamente a oposição. Execuções extrajudiciais pelo governo tornaram-se comuns; a ONU registrou 5.287 mortes pelas FAES em 2017, além de 1.569 nos primeiros seis meses de 2019, com indícios de que muitas constituíam execuções extrajudiciais, e classificou as operações de segurança como ações para neutralizar e reprimir opositores e críticos. Em janeiro de 2016, a Assembleia Nacional declarou uma “crise humanitária de saúde” devido à grave escassez de medicamentos, insumos médicos e deterioração da infraestrutura humanitária, pedindo ao governo de Maduro que garantisse acesso imediato a medicamentos essenciais. Em agosto, o Secretário-Geral das Nações Unidas Ban Ki-moon afirmou que havia uma crise humanitária na Venezuela, causada pela falta de necessidades básicas como alimentos, água, saneamento e vestuário. Antes da crise de 2019, o governo Maduro negou diversas ofertas de ajuda, afirmando que não havia crise humanitária e que tais alegações serviam para justificar intervenção estrangeira. A recusa de ajuda agravou os efeitos da crise. Em março de 2019, The Wall Street Journal afirmou que "Maduro há muito utiliza doações do governo, como alimentos, para pressionar os venezuelanos empobrecidos a comparecerem a comícios pró-governo e apoiá-lo nas eleições, à medida que o colapso econômico se intensifica." Em 2019, The Economist afirmou que o governo Maduro obteve "dinheiro extra com a venda de ouro (tanto de minas ilegais quanto de reservas) e narcóticos". Na madrugada do dia 3 de janeiro de 2026, as Forças Armadas dos Estados Unidos realizaram um ataque a Caracas, no qual capturaram Nicolás Maduro e a primeira-dama Cilia Flores. O ex-presidente e sua esposa foram levados para Nova York, onde serão julgados. Com a vacância do poder, a vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu a presidência interinamente.

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Crise econômica

Habitação

Ao longo do governo Maduro, a escassez de habitação continuou a agravar-se. Em 2014, o presidente anunciou que, devido à escassez de aço, os carros e outros veículos abandonados seriam adquiridos pelo governo e transformados em matéria-prima para a produção de vergalhões destinados a construção de moradias. Em abril de 2014, um decreto presidencial determinou que os proprietários de três ou mais imóveis vendessem esses imóveis. Os proprietários que se recusassem a vendê-los estariam sujeitos a multa ou poderiam até mesmo ter seus imóveis desapropriados pelo governo. Em 2016, os moradores de unidades de conjuntos habitacionais populares construídos pelo Estado - unidades que são cedidas gratuitamente aos mais necessitados -, que tradicionalmente apoiavam o governo bolivariano - também começaram a protestar contra a falta de alimentos e outros produtos de primeira necessidade, tais como sabão e remédios.

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Necessidades básicas

Pobreza

O The Wall Street Journal informou, em março de 2019, que a pobreza era o dobro do registrado em 2014. Um estudo da Universidade Católica Andrés Bello indicou que, em 2019, pelo menos 8 milhões de venezuelanos não tinham o suficiente para comer. Um relatório da ONU estimou, em março de 2019, que 94% dos venezuelanos vivem na pobreza e que um quarto deles necessita de algum tipo de assistência humanitária. Segundo a Pesquisa de Condições de Vida realizada pela Universidade Católica Andrés Bello (ENCOVI), em 2021, 94,5% da população vivia na pobreza com base na renda, dos quais 76,6% estavam em situação de pobreza extrema, a maior cifra já registrada no país.

Alimentos e água

Mais de 70% dos alimentos na Venezuela são importados; o país tornou-se tão dependente dessas importações que não conseguiu arcar com os custos quando o preço do petróleo caiu em 2014. Chávez entregou ao setor militar o controle da alimentação e nacionalizou grande parte da indústria, que passou a ser negligenciada, gerando escassez na produção. Com o “suprimento reduzido de alimentos”, Maduro colocou “generais no comando de tudo, desde a manteiga até o arroz”. Com o controle militar, o tráfico de alimentos tornou-se lucrativo, surgiram propinas e corrupção, e os alimentos não alcançaram os necessitados. O governo importa a maior parte dos alimentos necessários, controla-os por meio do setor militar e paga preços superiores aos de mercado. Venezuelanos passavam “o dia todo em filas” para comprar alimentos racionados, enquanto enfermarias pediátricas ficavam repletas de crianças abaixo do peso e adultos, antes de classe média, passavam a vasculhar lixeiras em busca de restos. Diversos outros fatores contribuíram para as escassezes: as importações, durante os dois anos até o final de 2017, caíram em dois terços; a hiperinflação tornou os alimentos inacessíveis para muitos venezuelanos; e, para os que dependiam das caixas de alimentos fornecidas pelo governo, “essas não alcançam todos os necessitados, a distribuição é intermitente e o recebimento muitas vezes está ligado ao apoio político ao governo”. A corrupção tornou-se um problema na distribuição dos alimentos. O diretor de operações de uma empresa de importação de alimentos afirmou que “paga uma longa lista de oficiais militares por cada remessa de alimentos que traz dos EUA. É uma cadeia ininterrupta de suborno desde a chegada do navio até a distribuição por caminhões”. Um tenente da Guarda Nacional da Venezuela nega essa acusação, afirmando que a corrupção seria maior se os militares não estivessem envolvidos; autoridades governamentais e militares dizem que a oposição está exagerando o problema para seu benefício. O general aposentado Antonio Rivero afirmou que “Maduro está tentando impedir que os soldados passem fome e sejam tentados a participar de uma insurreição contra um governo cada vez mais impopular”, acrescentando que o uso do exército para controlar a distribuição de alimentos “drenou o sentimento de rebelião das forças armadas”, ao proporcionar aos soldados o acesso a alimentos negados à população em geral, com a corrupção resultante ampliando as escassezes. Os colectivos também estão envolvidos no tráfico de alimentos, vendendo-os no mercado negro; um líder de um colectivo disse ao InSight Crime que traficar alimentos e remédios é tão lucrativo quanto o tráfico de drogas, mas com menos risco. Com conexões obscuras com o governo, o The Washington Post afirma que “alguns foram colocados no comando da distribuição dos pacotes alimentares do governo em áreas pobres — o que lhes confere controle sobre bairros famintos”. A Associated Press relata que pessoas se reúnem todas as noites no centro de Caracas em busca de alimentos descartados na calçada; normalmente, são desempregados, mas frequentemente se juntam pequenos empresários, universitários e aposentados — pessoas que se consideram de classe média, embora seus padrões de vida já tenham sido afetados pela inflação de três dígitos, escassez de alimentos e a desvalorização da moeda. Um funcionário da coleta de lixo em Maracaibo afirmou que a maioria dos sacos de lixo que recebia já havia sido vasculhada por pessoas em busca de alimento. Um depósito de lixo relatou encontrar partes de animais despedaçados, como “cães, gatos, burros, cavalos e pombos”, e há evidências de que pessoas estão comendo animais silvestres, como tamanduás, flamingos, abutres e lagartos. “Fome, desnutrição e severa escassez de alimentos estão generalizados em toda a Venezuela”, de acordo com a Human Rights Watch. Médicos de 21 hospitais públicos em 17 estados venezuelanos disseram ao The New York Times, em 2017, que “suas salas de emergência estavam sendo sobrecarregadas por crianças com desnutrição grave — uma condição raramente vista antes do início da crise econômica”, e que “centenas morreram”. O governo respondeu com “um quase bloqueio total das estatísticas de saúde e criando uma cultura em que os médicos têm medo de registrar casos e mortes que possam estar associados às falhas governamentais”. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) afirmou que menos de 5% dos venezuelanos estavam desnutridos entre 2008 e 2013, mas esse número mais que dobrou, alcançando quase 12% entre 2015 e 2017, o que representa 3,7 milhões de pessoas. Uma pesquisa de 2016 constatou que quase três quartos da população relataram ter perdido, em média, 8,7 kg devido à má nutrição, e 64% relataram ter perdido 11 kg em 2017. Uma pesquisa Venebarómetro de 2016 com 1.200 venezuelanos constatou que quase metade já não consegue fazer três refeições diárias; o governo atribui essa situação a uma “guerra econômica”. Um relatório da ONU afirmou, ainda, que, por conta da falta de água e saneamento, 4,3 milhões de venezuelanos precisavam de assistência em 2019. Durante os apagões na Venezuela em 2019, iniciados em 7 de março, o sistema de distribuição de água também enfrentou escassez. Analistas disseram que dois terços da população venezuelana (20 milhões de pessoas) ficaram sem água, parcial ou totalmente, nas semanas após os apagões. A chefe do departamento de doenças infecciosas do Hospital Clínico Universitário de Caracas, María Eugenia Landaeta, afirmou que, sem acesso a água potável, a chance de contrair infecções bacterianas aumentava e que os médicos observaram, durante os apagões, “surto de diarreia, febre tifóide e hepatite A”, enquanto a água não esterilizada e a falta de higiene contribuíam para infecções pós-parto. Em 2017, a fome alcançou um ponto em que quase 75% da população perdeu, em média, mais de 8 kg, e mais da metade não possuía renda suficiente para suprir suas necessidades alimentares básicas. Um relatório da ONU estimou, em março de 2019, que 94% dos venezuelanos viviam na pobreza, e que, em 2021, quase 20% dos venezuelanos (5,4 milhões) deixaram o país. A análise da ONU estimou, em 2019, que 25% dos venezuelanos necessitavam de algum tipo de assistência humanitária. A Venezuela liderava o mundo nas taxas de homicídio intencional, com 81,4 por 100.000 pessoas mortas em 2018, sendo o terceiro país mais violento do mundo. Após o aumento das sanções internacionais durante 2019, o governo de Maduro abandonou políticas estabelecidas por Chávez, como os controles de preços e de câmbio, o que resultou num repique temporário na economia, antes da chegada da pandemia de COVID-19 na Venezuela no ano seguinte. Em resposta à desvalorização do bolívar venezuelano, a população passou a depender cada vez mais do dólar norte-americano para transações. Maduro descreveu a dolarização como uma “válvula de escape” que auxilia na recuperação do país, na difusão das forças produtivas e na economia; contudo, afirmou que o bolívar permanece como moeda nacional.

Assistência médica

Durante a Revolução Bolivariana, o governo passou a oferecer saúde gratuita, com profissionais médicos cubanos prestando auxílio. A falta de foco no setor de saúde e a redução nos investimentos, somadas à corrupção desenfreada, resultaram em mortes evitáveis por conta da grave escassez de insumos e equipamentos médicos e na emigração dos profissionais da área. A dependência da Venezuela de produtos importados e as complicadas taxas de câmbio instauradas por Chávez provocaram crescentes escassezes durante o final dos anos 2000 e na década de 2010, afetando a disponibilidade de remédios e equipamentos médicos. A Associated Press afirma que o governo parou de publicar estatísticas de saúde em 2010. O Ministro da Saúde foi substituído diversas vezes durante o governo Chávez. Segundo um alto funcionário do ministério, os ministros eram usados como bode expiatório sempre que surgiam problemas de saúde pública e alguns deles se enriqueceram vendendo insumos destinados ao setor para terceiros. No início da presidência de Maduro, o governo não conseguia financiar adequadamente os insumos médicos; o presidente da Federação Médica Venezuelana afirmou que 9 em cada 10 grandes hospitais possuíam apenas 7% dos suprimentos necessários, enquanto médicos particulares relataram números “impossíveis” de pacientes morrendo de doenças tratáveis após o agravamento do declínio econômico pós- Chávez. Muitos venezuelanos morreram por causas evitáveis, com profissionais da saúde operando com recursos escassos e métodos obsoletos há décadas. Em fevereiro de 2014, médicos do Hospital Universitário de Caracas suspenderam cirurgias por falta de insumos, mesmo com cerca de 3.000 pessoas necessitando de procedimentos. No início de 2015, apenas 35% das camas hospitalares estavam disponíveis e 50% das salas de cirurgia não funcionavam por falta de recursos. Em março de 2015, uma ONG venezuelana, a Red de Médicos por la Salud, relatou uma escassez de 68% dos insumos cirúrgicos e 70% dos medicamentos em farmácias venezuelanas. Em 2018, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) informou que aproximadamente um terço (22.000 de 66.138) dos médicos registrados deixaram a Venezuela a partir de 2014. Rosemary DiCarlo da ONU afirmou que 40% dos profissionais de saúde haviam deixado o país e que os estoques de medicamentos estavam em 20% do necessário. A Federação Médica Venezuelana disse que os médicos abandonavam o sistema público devido à escassez de medicamentos, equipamentos e baixos salários. Em agosto de 2015, a Human Rights Watch afirmou: “Raramente vimos o acesso a medicamentos essenciais deteriorar-se tão rapidamente como na Venezuela, exceto em zonas de guerra”. Em 2015, o governo divulgou que um terço dos pacientes admitidos em hospitais públicos morria. Os medicamentos dos indivíduos que morrem são redistribuídos por esforços locais e familiares, tentando suprir os pacientes sobreviventes. Um estudo com 6.500 domicílios, realizado por três das principais universidades da Venezuela, constatou que “74% da população perdeu, em média, 19 libras em 2016”. Em abril de 2017, o ministério da Saúde venezuelano relatou que a mortalidade materna saltou 65% em 2016 e que o número de óbitos infantis aumentou 30%. Também informou que os casos de malária aumentaram 76%. Logo após a divulgação desses dados pela ministra da Saúde, Antonieta Caporale, e as estatísticas que mostravam aumentos na mortalidade infantil e materna e em doenças infecciosas em 2016, Maduro a destituiu, substituindo-a por um farmacêutico próximo ao vice-presidente Tareck El Aissami, Luis López Chejade. As publicações foram removidas do site do ministério e nenhum dado adicional foi divulgado, embora o governo produzisse boletins de saúde por várias décadas. Em março de 2019, o The Wall Street Journal relatou que “o colapso do sistema de saúde da Venezuela, outrora um dos melhores da América Latina, levou a um aumento nas taxas de mortalidade infantil e materna e ao retorno de doenças raras que haviam sido praticamente erradicadas. Autoridades de saúde afirmam que malária, febre amarela, difteria, dengue e tuberculose estão se espalhando da Venezuela para países vizinhos, à medida que o número de refugiados venezuelanos aumenta nas fronteiras.” A ONU estimou, em 2019, que 2,8 milhões de venezuelanos tinham necessidades médicas, 300 mil estavam em risco de morrer de câncer, diabetes ou HIV por falta de acesso a medicamentos há mais de um ano, e que doenças evitáveis, como difteria, malária, sarampo e tuberculose, estavam em ascensão, juntamente com hepatite A, devido à falta de saneamento e acesso à água. O relatório HRW/Johns Hopkins de abril de 2019 mostrou o aumento de doenças infecciosas e evitáveis, bem como o agravamento da desnutrição, da mortalidade infantil e materna e o subtratamento do HIV. A inflação e a escassez de medicamentos fizeram com que os pacientes fossem solicitados a providenciar seus próprios alimentos, água, sabão e insumos médicos, como bisturis e seringas. Em agosto de 2019, como parte dos esforços regionais para ajudar os migrantes venezuelanos, os Estados Unidos prometeram fornecer milhares de doses de medicamentos contra o HIV para prevenir a disseminação da AIDS e tratar os infectados.

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Social

Corrupção

A corrupção é alta na Venezuela, segundo o Transparency International e seu Índice de Percepção da Corrupção. Embora seja difícil medir com precisão, em 2018 a Transparency International colocou a Venezuela entre os 13 países mais corruptos de 180 avaliados, empatada com o Iraque e à frente de Afeganistão, Burundi, Guiné Equatorial, Guiné, Coreia do Norte, Líbia, Somália, Sudão do Sul, Sudão, Síria e Iémen. Uma pesquisa de 2016 constatou que 73% dos venezuelanos acreditavam que sua polícia era corrupta. O relatório de 2018 do Latinobarómetro apontou que 65% dos venezuelanos acreditavam que seu presidente estava envolvido em corrupção, e 64% afirmavam que os funcionários públicos também eram corruptos. O descontentamento com a corrupção foi citado por grupos alinhados à oposição como uma das razões dos protestos venezuelanos de 2014. Um país outrora próspero, a economia venezuelana foi arrastada para uma crise política e econômica pela corrupção e má gestão.

Crime

O nível de violência, especialmente homicídios, é uma das maiores preocupações dos venezuelanos durante a crise. Em 2017, a Venezuela apresentava, por várias medidas, a maior taxa de crimes violentos do mundo, com poucos casos sendo processados. Segundo o InSight Crime, a crise foi “frequentemente encoberta pela relutância do governo em divulgar estatísticas sobre o crime”. O The New Yorker relatou que até escadas de um hospital público não eram seguras, com ladrões se aproveitando de funcionários e pacientes, enquanto a polícia, designada para conter jornalistas, supostamente colaborava com os criminosos, ficando com parte do que era roubado. De acordo com o Bureau of Diplomatic Security dos EUA, a violência de gangues de rua, policiais mal pagos e corruptos, um sistema judicial ineficiente e politizado, um sistema prisional problemático e a disseminação de armas são fatores que alimentam a criminalidade, com homicídios sendo o crime mais frequente. Esse órgão informou que, em 2018, ocorriam 73 mortes violentas diárias, enquanto o governo, que afirmou 60 homicídios diários em 2016 e 45 em 2015, é amplamente contestado por observadores independentes. Para 2015, o governo declarou uma taxa de 70,1 homicídios por 100.000 habitantes, enquanto o Observatório Venezolano de Violência (OVV) apontou 91,8 homicídios por 100.000 habitantes. Segundo o World Bank, a taxa de homicídios em 2016 foi de 56 por 100.000, posicionando a Venezuela em terceiro lugar, depois de El Salvador e Honduras. Dados do OVV indicam 23.047 homicídios em 2018, o que equivale a 81,4 por 100.000 habitantes, atribuindo a queda à emigração. Em 2019, a taxa caiu ainda mais, para 60,3. Segundo o Los Angeles Times, grupos de assalto a carros armam emboscadas, deixando para trás vestígios de violência e até partes de corpos, enquanto tanto pobres quanto pessoas de classes média e alta, inclusive policiais e militares, são vítimas. A Venezuela liderava o mundo nas taxas de homicídio intencional, com 81 por 100.000 pessoas mortas em 2018, sendo o terceiro país mais violento.

Direitos humanos

A repressão e as detenções motivadas politicamente aumentaram a níveis recordes em 2019. O Foro Penal aponta que a Venezuela possui pelo menos 900 presos políticos em abril de 2019, com muitas detenções ocorrendo por períodos superiores a 48 horas e em condições precárias, envolvendo casos de “abuso sexual, estrangulamento com sacos plásticos e uso de lâminas para cortar os pés dos detidos”. Nos três primeiros meses de 2019, segundo o Foro Penal, 1.712 pessoas foram presas, e cerca de dois terços ficaram detidas por mais de 48 horas. Maduro classifica os presos como membros de “grupos terroristas” e afirma que seu governo não hesitará em interná-los. Exemplos de detenções “puramente políticas” incluem os casos de Juan Requesens e Roberto Marrero, segundo seus advogados. Um número cada vez maior de detidos é composto por trabalhadores, motivados a protestar pela crise. O relatório final publicado aborda execuções extrajudiciais, tortura, desaparecimento forçados e outras violações dos direitos humanos supostamente cometidas pelas forças de segurança venezuelanas nos últimos anos. Michelle Bachelet expressou preocupação com o número “surpreendentemente alto” de execuções extrajudiciais e pediu a dissolução das FAES. Segundo o relatório, 1.569 casos de execuções decorrentes de “resistência à autoridade” foram registrados de 1 de janeiro a 19 de março. Outras 52 mortes ocorridas durante os protestos de 2019 foram atribuídas aos colectivos. O relatório também detalha como o governo “buscou neutralizar, reprimir e criminalizar os opositores políticos e os críticos do governo” desde 2016. Em 16 de setembro de 2020, a Missão de Apuração de Fatos da ONU na Venezuela acusou o governo Maduro de crimes contra a humanidade. Em 15 de fevereiro de 2024, o governo Maduro fechou o escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos em Caracas, após o Comissário Volker Türk condenar a detenção da ativista Rocío San Miguel, exigindo “sua imediata liberação e respeito ao seu direito à defesa legal”. O governo expulsou os funcionários da ONU, com prazo de 72 horas para que deixassem o país.

Emigração

O êxodo de milhões de venezuelanos empobrecidos tem sido descrito como “um risco para toda a região”. Milhões de venezuelanos emigraram voluntariamente durante as presidências de Chávez e Maduro. A crise teve início durante a administração Chávez, mas se acentuou na gestão Maduro. A emigração foi motivada pelo colapso econômico, pelo aumento do controle estatal na economia, altos índices de criminalidade, inflação elevada, incerteza e pela falta de perspectivas de mudança de governo. O Grupo PGA estima que mais de 1,5 milhão de venezuelanos emigraram entre 1999 e 2014; aproximadamente 1,8 milhão deixaram o país em dez anos até 2015. A ONU informou que, no início de 2018, cerca de 5.000 venezuelanos saíam do país diariamente. Em fevereiro de 2019, a ONU estimou que 3,4 milhões de venezuelanos já haviam emigrado, e que mais 1,9 milhão poderiam sair ainda em 2019. A ONU estima que 2,7 milhões foram para o Caribe e América Latina. A maioria dos emigrantes se dirige para a Colômbia; estimam-se 1,1 milhão para lá, 506 mil para o Peru, 288 mil para o Chile, 221 mil para o Equador, 130 mil para a Argentina e 96 mil para o Brasil. Isso contrasta com a alta taxa de imigração que a Venezuela apresentava no século XX. O embaixador dos EUA na Colômbia, Kevin Whitaker, afirmou que “centenas de milhares de colombianos migraram para a Venezuela nas décadas de 1960, 1970 e 1980, quando a Venezuela era um país rico e a Colômbia não tanto. Agora, mais de 1 milhão de venezuelanos, muitos desde 2015, vivem na Colômbia.” Quem sai a pé é conhecido como los caminantes; a caminhada até Bogotá, Colômbia, tem cerca de 560 quilômetros (350 mi), e alguns percorrem centenas de quilômetros até o Equador ou Peru. Alba Pereira, que ajuda a alimentar e vestir cerca de 800 caminhantes diariamente no norte da Colômbia, afirmou em 2019 estar vendo um aumento de pessoas doentes, idosas e gestantes entre eles. A Cruz Vermelha colombiana montou tendas de descanso com alimentos e água nas estradas para os venezuelanos. Venezuelanos também cruzam para o norte do Brasil, onde o ACNUR instalou 10 abrigos para milhares de pessoas. Imagens de venezuelanos fugindo pelo mar evocam comparações com as da diáspora cubana.

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Opinião pública

Uma pesquisa Datincorp de novembro de 2016, que perguntou aos venezuelanos que vivem em áreas urbanas qual entidade era responsável pela crise, revelou que 59% culpavam o chavismo ou os presidentes (Chávez, 25%; Maduro, 19%; chavismo, 15%), enquanto outros responsabilizavam a oposição (10%), os empresários (4%) e os Estados Unidos (2%). Uma pesquisa Meganálisis de setembro de 2018 constatou que 85% dos venezuelanos queriam que Maduro deixasse o poder imediatamente. Uma pesquisa Datanálisis de novembro de 2018 constatou que 54% dos venezuelanos se opunham a uma intervenção militar estrangeira para remover Maduro, enquanto 35% apoiavam tal intervenção. Em contrapartida, 63% apoiavam um "acordo negociado para remover Maduro". Uma pesquisa realizada entre 11 e 14 de março de 2019, com 1.100 pessoas em 16 estados venezuelanos e 32 cidades, pela Meganálisis, revelou que 89% dos entrevistados desejavam que Maduro deixasse a presidência.

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Econômico

O governo de Maduro parou de divulgar indicadores sociais e econômicos, de modo que a maioria dos dados baseia-se em estimativas. O Institute of International Finance (IIF) afirmou em março de 2019 que “o colapso econômico da Venezuela está entre os piores do mundo na história recente”. Um economista-chefe do IIF afirmou que a crise resultou de “decisões políticas, má gestão econômica e turbulência política”, dizendo que está em uma escala que “só se esperaria de desastres naturais extremos ou confrontos militares”. O World Economic Outlook do Fundo Monetário Internacional (FMI) de abril de 2019 descreveu a Venezuela como estando em uma “economia de guerra”. Pelo quinto ano consecutivo, a Bloomberg classificou a Venezuela como a última em seu índice de miséria em 2019. A principal fonte de receita do governo é o petróleo, cuja produção está “caindo drasticamente devido à falta de investimentos, má manutenção e descaso”, dos quais o consultor Eduardo Fortuny espera que leve 12 anos para se recuperar.

Negócios e indústria

Várias empresas estrangeiras deixaram o país – frequentemente devido a desentendimentos com o governo socialista – incluindo Smurfit Kappa, Clorox, Kimberly Clark e General Mills; essas saídas agravam o desemprego e as escassezes. Antes dos efeitos dos apagões venezuelanos de 2019, o número de empresas multinacionais na cidade industrial de Valencia, no Estado de Carabobo caiu de 5.000, quando Chávez assumiu a presidência, para um décimo desse número. As companhias aéreas domésticas enfrentam dificuldades devido à hiperinflação e à escassez de peças, e a maioria das companhias internacionais deixou o país. Companhias de diversos países deixaram de operar na Venezuela, dificultando as viagens ao país: a Air Canada foi a primeira companhia aérea internacional a cessar operações na Venezuela em março de 2014, seguida por Alitalia em abril de 2015.

Produto Interno Bruto

Estimado em queda de 25% em 2019, o FMI afirmou que a contração do PIB da Venezuela – a maior desde o início da Guerra Civil Líbia em 2014 – estava afetando toda a América Latina. Em 2015, a economia venezuelana contraiu 5,7% e, em 2016, 18,6%, segundo o Banco Central venezuelano; após isso, o governo parou de produzir dados. Ecoanalítica, consultor venezuelano, disse ao The Wall Street Journal que a produção caiu pela metade entre 2016 e 2019. O FMI e a AGPV Asesores Económicos, uma firma de consultoria sediada em Caracas, estimam que o PIB encolheu de US$196 bilhões em 2013 para US$80 bilhões em 2018, tornando a economia menor que a da Guatemala ou da Etiópia.

Inflação

A taxa de inflação anual para os preços ao consumidor subiu centenas de milhares de por cento durante a crise. A inflação na Venezuela permaneceu alta durante o governo Chávez. Em 2010, a inflação eliminava qualquer avanço nos aumentos salariais, e em 2014 atingiu 69%, a maior do mundo. Em novembro de 2016, a Venezuela entrou em um período de hiperinflação, com inflação atingindo 4.000% em 2017; O governo venezuelano “praticamente parou” de produzir estimativas de inflação no início de 2018. No final de 2018, a inflação havia alcançado 1,35 milhão por cento. Na temporada de Natal de 2017, algumas lojas deixaram de usar etiquetas de preço, uma vez que os preços inflacionavam tão rapidamente. Entre 2017 e 2019, alguns venezuelanos passaram a atuar como “gold farmers” em videogames, sendo vistos jogando jogos como RuneScape para vender moeda ou personagens virtuais por dinheiro real; os jogadores conseguiam ganhar mais do que trabalhadores assalariados, com ganhos de apenas alguns dólares por dia. Alguns desses “gold farmers” usam criptomoedas como moeda intermediária antes de converter para bolívares, conforme indicado nesta entrevista .

Escassezes

As escassezes na Venezuela tornaram-se predominantes após a implementação dos price controls (controles de preços) conforme a política econômica do governo de Hugo Chávez. Sob a política econômica do governo de Nicolás Maduro, ocorreram escassezes ainda maiores devido à política do governo venezuelano de reter dólares norte-americanos de importadores submetidos aos controles de preços. Alguns venezuelanos precisam buscar alimento – às vezes recorrendo a frutas silvestres ou lixo – e ficam horas em filas, chegando até a se contentar em ficar sem determinados produtos.

Desemprego

[A economia de guerra da Venezuela tem o] maior desemprego do mundo desde o fim da Guerra da Bósnia e a maior contração desde o início da Guerra Civil Líbia em 2014 April 2019, Fundo Monetário Internacional (FMI) World Economic Outlook Em janeiro de 2016, a taxa de desemprego era de 18,1% e a economia era considerada a pior do mundo, segundo o índice de miséria. A Venezuela deixou de reportar números oficiais de desemprego desde abril de 2016, quando a taxa era de 7,3%. O desemprego foi previsto para chegar a 44% em 2019; o FMI afirmou que essa seria a maior taxa registrada desde o fim da Guerra da Bósnia em 1995.

Dívida venezuelana

Em agosto de 2017, o Presidente dos Estados Unidos Donald Trump impôs sanções à Venezuela que proibiram transações envolvendo a dívida do Estado venezuelano, inclusive reestruturação da dívida. O período de default técnico encerrou-se em 13 de novembro de 2017 e a Venezuela não pagou cupons de seus eurobônus em dólares, ocasionando um cross-default em outros títulos em dólares. Um comitê composto pelos quinze maiores bancos reconheceu o calote das obrigações da dívida do Estado, o que, por sua vez, implicou pagamentos de CDS em 30 de novembro. Em novembro de 2017, The Economist estimou a dívida da Venezuela em US$105 bilhões e suas reservas em US$10 bilhões. Em 2018, a dívida venezuelana cresceu para US$156 bilhões e, em março de 2019, suas reservas caíram para US$8 bilhões. Com exceção dos títulos da PDVSA de 2020, desde janeiro de 2019, todos os títulos venezuelanos estão em default, O governo e as empresas estatais venezuelanas devem quase US$8 bilhões em juros e principal, totalizando cerca de US$150 bilhões em dívida.

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Reação

Sanções econômicas

A União Europeia, o Grupo Lima, os Estados Unidos e outros países aplicaram sanções individuais contra funcionários do governo e membros tanto das forças armadas quanto das forças de segurança como resposta a violações dos direitos humanos, corrupção, degradação do Estado de Direito e repressão da democracia. Posteriormente, os Estados Unidos expandiram suas sanções para o setor petrolífero. Economistas afirmaram que a escassez e a alta inflação na Venezuela começaram antes que as sanções dos EUA fossem direcionadas ao país. The Wall Street Journal afirmou que os economistas atribuem a redução pela metade da economia venezuelana às "políticas de Maduro, incluindo nacionalizações generalizadas, gastos desenfreados que desencadearam a inflação, controles de preços que levaram à escassez, e ampla corrupção e má gestão." O governo venezuelano afirmou que os Estados Unidos são responsáveis pelo seu colapso econômico. O relatório da HRW/Johns Hopkins observou que a maioria das sanções está "limitada ao cancelamento de vistos e ao congelamento de ativos de autoridades-chave implicadas em abusos e corrupção. De forma alguma elas visam a economia venezuelana." O relatório também afirmou que a proibição de 2017 de negociar ações e títulos do governo venezuelano permite exceções para alimentos e remédios, e que as sanções à PDVSA de 28 de janeiro de 2019 poderiam agravar a situação, embora "a crise os preceda". The Washington Post afirmou que "a privação existe há muito tempo, muito antes das sanções dos EUA recentemente impostas".

Envolvimento estrangeiro

Em 11 de agosto de 2017, o Presidente Trump afirmou que "não vai descartar uma opção militar" para confrontar o governo autocrático de Nicolás Maduro e a crise crescente na Venezuela. Military Times afirmou que assessores não identificados disseram a Trump que não seria sensato sequer discutir uma solução militar, devido à longa história de intervenções impopulares na América Latina pelos Estados Unidos. O Ministro da Defesa da Venezuela, Vladimir Padrino, criticou Trump pela declaração, chamando-a de "um ato de extremismo supremo" e "um ato de loucura". O Ministro das Comunicações venezuelano, Ernesto Villegas, disse que as palavras de Trump equivaliam a "uma ameaça sem precedentes à soberania nacional".

Ajuda humanitária

Ao longo da crise, ajuda humanitária foi fornecida aos venezuelanos necessitados, tanto dentro da Venezuela quanto no exterior. Em outubro de 2018, o USNS Comfort partiu para uma operação de onze semanas na América Latina, com a missão principal de auxiliar os países que receberam refugiados venezuelanos que fugiram da crise na Venezuela. O objetivo principal era aliviar os sistemas de saúde na Colômbia, Equador, Peru e em outras nações que enfrentavam a chegada de milhares de migrantes venezuelanos. No final de janeiro de 2019, enquanto os EUA se preparavam para levar ajuda através da fronteira, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha alertou os Estados Unidos sobre o risco de entregar ajuda humanitária sem a aprovação das forças de segurança do governo. A ONU alertou de forma semelhante os EUA sobre a politização da crise e o uso da ajuda como moeda de troca na luta pelo poder. Outras organizações humanitárias também apontaram riscos.

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Fontes consultadas

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