Crack
Crack é a cocaína solidificada em cristais. O nome deriva do ruído peculiar que se produz quando o cloridrato de cocaína é aquecido.
Nas formas mais puras, as pedras de crack aparecem como cristais brancos, com bordas irregulares, com uma densidade ligeiramente maior do que a da parafina, semelhante a um plástico duro e quebradiço. Formas mais puras de crack afundam na água ou derretem nas bordas quando perto de uma chama (o crack vaporiza a 90 °C, 194 °F). O crack resulta da conversão do cloridrato de cocaína em base livre (que contém 5% a 40% de cocaína) ao ser misturado com bicarbonato de sódio e água. As pedras de crack oferecem uma curta, mas intensa euforia aos fumantes.
Síntese
O crack costuma ser vendido já em forma de pedra, mas não é incomum que alguns usuários "cozinhem" sua própria cocaína em pó para sintetizar o crack. O processe de síntese é frequentemente feito com bicarbonato de sódio (bicarbonato de sódio), água e uma colher. Após ser misturado e aquecido, o bicarbonato reage com o cloridrato da cocaína em forma de pó numa reação reversível entre ácido e base, formando ácido carbônico (H2CO3) e cocaína em forma de base livre. O aquecimento acelera a degradação do ácido carbônico em dióxido de carbono (CO2) e água (H2O). A perda de CO2 impede que o produto da reação seja transformado novamente em cloridrato de cocaína. Nesse processo, a cocaína em base livre se separa como uma camada oleosa e passa a flutuar na solução aquosa, ponto em que o óleo é coletado rapidamente, geralmente com o auxílio de um alfinete ou outros objetos pontiagudos e finos. Isso puxa o óleo para cima e permite que o ar realize a secagem do óleo, ponto em que a droga se transforma em extrato sólido, o crack.
Para o consumo inalatório da droga, são utilizados cachimbos elaborados pelos próprios usuários, geralmente de alumínio e compartilhados entre o grupo de uso. Também tem sido comum o consumo de cigarros comuns ou de maconha com fragmentos de pedras de crack. A forma injetável de cocaína não teve sucesso e foi quase extinta no Brasil, tendo sido substituída pelo crack, que provoca efeito semelhante e tão potente quanto o da cocaína injetada. O crack também pode ser injetado por via intravenosa, produzindo com efeitos semelhantes ao da cocaína em pó quando injetava. No entanto, enquanto a cocaína em pó se dissolve em água, o crack só pode ser dissolvido em solução ácida, como o suco de limão (que contém ácido cítrico) ou o vinagre (que contém ácido acético). Esse processo reverte a conversão da cocaína em pó em crack. Agências de saúde pública e redução de danos podem distribuir pacotes de ácido cítrico ou ácido ascórbico (vitamina C) para esse fim.
Os efeitos iniciais do crack são mais rápidos e intensos do que os de outras drogas injetáveis. A duração dos efeitos do crack é muito curta, em média cinco minutos, enquanto a cocaína, depois de injetada ou usada por via intranasal, provoca efeitos com duração em torno de 20 a 45 minutos. Os efeitos causados pelo crack são: Grandes quantidades podem induzir tremores, vertigens, espasmos musculares, paranoia ou, com doses repetidas, uma reação tóxica muito semelhante à da intoxicação por anfetaminas. O uso regular do crack pode provocar alucinações e causar comportamentos violentos, episódios paranoicos e mesmo impulsos suicidas. O uso de drogas estimulantes (principalmente anfetaminas e cocaína) pode levar à "parasitose delirante" ou síndrome de Ekbom: a crença equivocada de que se está infestado de parasitas. Essas ilusões também estão associados a febre alta ou abstinência do álcool, muitas vezes, juntamente com alucinações visuais sobre insetos. Pessoas que vivem essas alucinações podem arranhar-se, causando danos cutâneos graves e sangramento.
A abstinência dura cerca de dez semanas. Nos quatro primeiros dias o paciente se sente cansado e desestimulado, come muito e sofre alterações de humor. Segundo o psiquiatra Valdir Ribeiro Campos, "existe grande tendência de o dependente voltar a usar a droga, caso a abstinência não seja tratada corretamente. Sem a medicação, os sintomas continuam e, comumente, levam a um quadro de depressão, alterações no padrão de sono e desestímulo", que pode levar à anedonia. Mas os sintomas paranóides transitórios são os principais componentes do quadro de abstinência do crack. Esse quadro caracteriza a chamada fissura (do inglês: craving). A fissura é frequentemente referida como uma necessidade imprescindível para o corpo, indispensável à vida e descrita como uma vontade "pior que a fome". A abstinência causa grande sofrimento físico e psíquico; o indivíduo é tomado por grande ansiedade e psicose sobre as maneiras de obter a droga, não consegue ficar parado: "o corpo dói, a mente dói, o coração gela, a boca do estômago trava". O objetivo da procura obcecada por crack não é somente obter prazer, mas também aliviar esse grande mal-estar. Os contornos obsessivos da "fissura" pelo crack tiram do indivíduo a sua capacidade de escolha e o seu discernimento, embora ele seja consciente da sua degradação física e moral. Devido às semelhanças sintomáticas entre a dependência e o transtorno obsessivo-compulsivo, ambos dividem etiologia similar.
Imagem: dr.coop · BY-NC · Openverse
Atualmente várias abordagens de tratamento para dependência de cocaína e crack no Brasil vêm sendo discutidas, e há muitas controvérsias sobre qual abordagem teria demonstrado maior efetividade, segundo a literatura científica. Há um consenso de que a dependência de crack exige um tratamento difícil e complexo, por ser uma doença crônica e grave que deverá ser acompanhada por longo tempo. Não existe um único tratamento para eliminar a dependência do crack: o dependente precisa ser atendido nas diversas áreas afetadas, tais como social, familiar, física, mental, questões legais, qualidade de vida e trabalho de estratégias de prevenção de recaída. Devido aos baixos índices de motivação do dependente e, consequentemente, pouca aderência do paciente ao tratamento, a família e a rede social de apoio exercem um papel de fundamental importância durante o processo de intervenção terapêutica. Contudo, a maioria dos estudos de revisão sobre famílias de dependentes químicos confirma que o universo familiar dessa população é frequentemente disfuncional. Outra dificuldade no tratamento da dependência do crack é a ausência de uma medicação específica que reduza o desejo pelos efeitos da substância. Inúmeros ensaios clínicos já foram realizados com antidepressivos tricíclicos (imipramina), inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS) (fluoxetina, sertralina e paroxetina), anticonvulsivantes e estabilizadores de humor (carbamazepina, gabapentina, lamotrigina, lítio), antipsicóticos e agentes aversivos (dissulfiram).
O crack apareceu nos Estados Unidos primeiramente em bairros pobres do centro das cidades de New York, Los Angeles e Miami, entre 1984 e 1985. No Brasil, o crack passou a ser conhecido nos anos de 1990. As informações sobre a chegada do crack ao Brasil vêm da imprensa leiga ou de órgãos policiais. A primeira apreensão da substância no município de São Paulo registrada nos arquivos da Divisão de Investigação sobre Entorpecentes (DISE) aconteceu em 1990. Algumas evidências apontam para o surgimento da substância em bairros da Zona Leste da cidade, alcançando depois, a região central, nas imediações da Estação da Luz, área que ficou conhecida como Cracolândia.
Epidemiologia
Pesquisas recentes têm mostrado aumento no uso do crack, e um estudo com moradores de rua mostrou que 52,2% deles tinham consumido crack nos últimos seis meses. Em Toronto, 78,8% dos entrevistados relataram ter fumado crack nos últimos seis meses (15). Um estudo brasileiro de 2011, examinou a taxa de mortalidade, os indicadores de mortalidade e as causas de mortes entre 131 pacientes brasileiros dependentes de crack/cocaína que procuraram tratamento durante meados dos anos 1990 no Brasil, o perfil predominante do usuário foi: homem, jovem com menos de 30 anos, solteiro, de baixa classe socioeconômica, baixo nível de escolaridade, sem vínculos empregatícios formais e em geral isolado socialmente.


