Cordoaria
Cordoaria é a arte, ofício, indústria ou estabelecimento dedicado ao fabrico de cordas, cabos, cordéis, fios, enxárcias e outros artefactos obtidos pela torção ou entrançamento de fibras. O termo pode designar tanto a actividade de produção como a oficina, fábrica ou conjunto de produtos fabricados por cordoeiros. Historicamente, a cordoaria esteve ligada à navegação, à pesca, à construção naval, à agricultura, ao transporte e a múltiplos usos domésticos e industriais.
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Os produtos de cordoaria incluem cordas, cabos, cordéis, linhas, fios grossos, enxárcias, amarras, mechas e outros artefactos flexíveis obtidos pela união de fibras ou filamentos. No contexto marítimo, o conjunto de cabos e cordas de uma embarcação é frequentemente designado por cordame, sendo indispensável para a amarração, o governo das velas, o suporte de mastros e outras operações de bordo. Durante séculos, a cordoaria utilizou sobretudo fibras naturais, como linho, cânhamo, esparto, sisal, juta, manilha e fibra de coco. A partir da industrialização e, sobretudo, do desenvolvimento das fibras sintéticas, passaram também a ser comuns cordas e cabos fabricados com materiais artificiais ou sintéticos, bem como cabos metálicos, usados em aplicações que exigem maior resistência mecânica.
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O fabrico tradicional de cordas baseia-se na torção sucessiva de fibras. De modo geral, o processo compreende a preparação das fibras, a sua fiação em fios ou filamentos, a reunião desses fios em cordões ou pernas, e a torção final de três ou mais pernas para formar a corda ou cabo. Nas cordoarias tradicionais, a produção exigia espaços compridos e rectilíneos, onde as fibras ou fios podiam ser estendidos antes de serem torcidos. Estes espaços podiam ser ao ar livre ou cobertos, sendo conhecidos em inglês como ropewalks. A extensão disponível condicionava o comprimento da corda que podia ser fabricada sem emendas. O trabalho do cordoeiro recorria a instrumentos como a roda de cordoeiro, usada para torcer e esticar as matérias-primas até formar a corda. Em Lisboa, os cordoeiros distinguiam-se historicamente entre os de «obra grossa» e os de «obra delgada», conforme o tipo de produto fabricado, havendo regimentos profissionais próprios para o ofício.
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A cordoaria é uma actividade muito antiga, associada a necessidades básicas de transporte, construção, caça, pesca, agricultura e navegação. Com o desenvolvimento do comércio marítimo europeu na Idade Média e na Época Moderna, a produção de cordas ganhou especial importância, uma vez que as embarcações à vela dependiam de grandes quantidades de cordame para a manobra das velas, a amarração e a fixação das estruturas do navio. Em Portugal, a actividade dos cordoeiros esteve ligada à expansão marítima e à economia urbana dos portos. Na Lisboa quinhentista, os cordoeiros eram contados entre os artífices necessários à construção e manutenção dos navios, juntamente com carpinteiros, calafates, ferreiros e outros oficiais.
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A passagem da produção oficinal para estruturas fabris levou à criação de cordoarias de grande dimensão, especialmente em contextos marítimos e militares. Estas instalações exigiam edifícios longos, adequados à torção de cabos de grande extensão, e podiam reunir oficinas de cordame, velame, bandeiras e outros apetrechos náuticos. Um dos exemplos mais conhecidos em Portugal é a Cordoaria Nacional, em Lisboa, fundada no século XVIII como Real Fábrica da Cordoaria da Junqueira. A sua criação esteve relacionada com a necessidade de fornecer cabos para o Arsenal da Marinha e para a construção naval portuguesa, tendo sido escolhida a zona da Junqueira, junto ao rio Tejo, para a instalação do estabelecimento. O edifício da Cordoaria Nacional, classificado como Monumento Nacional, apresenta planta longitudinal e desenvolve-se paralelamente ao Tejo, reflectindo as necessidades espaciais próprias da produção de cordame. Albergava oficinas ligadas ao cordame, ao velame, à alfaiataria e à produção de bandeiras, constituindo um exemplo relevante de arquitectura industrial setecentista em Portugal.
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Cordoaria mecânica refere-se à produção de cordas e cabos com recurso a máquinas, em contraste com os métodos inteiramente manuais ou artesanais. A mecanização permitiu aumentar a regularidade e a escala da produção, através de equipamentos destinados à preparação das fibras, fiação, torção e formação dos cabos. No Porto, a Fundição do Bolhão, fundada por José Vitorino Damásio e seus sócios em 1847, produziu, entre outras máquinas, a máquina da primeira cordoaria mecânica instalada na cidade.


