Convento dos Cardais
O Convento dos Cardais ou da Conceição dos Cardais é um convento localizado no bairro das Mercês, em Lisboa. Foi fundado por D. Luísa de Távora (1609-1692) para alojar religiosas da Ordem das Carmelitas Descalças, tendo a aristocrata lá residido e falecido.
Origens
Existia originalmente um recolhimento feminino de invocação da Nossa Senhora da Conceição situado no Sítio dos Cardais, nas imediações da cerca do Convento de Jesus. Esta estrutura primitiva, sob a alçada da Casa Távora, havia sido criada por Rui Lourenço de Távora, abrigando cerca de 50 mulheres de virtude reconhecida sob a direcção de D. Catarina de Sá, vinda do recolhimento de São Cristóvão e falecida em 1668. A transformação deste espaço num reduto carmelita deveu-se à iniciativa de D. Luísa de Távora, ilustre fidalga nascida em 1609, filha de Álvaro Pires de Távora, 5.º Senhor do Morgado de Torre da Caparica, e de D. Maria de Lima, filha do 7.º Visconde de Vila Nova da Cerveira. A aristocrata herdara o património familiar após o falecimento da sua sobrinha, D. Helena de Távora, casando-se posteriormente em 1631 com Luís Francisco de Oliveira e Miranda, 11.º Senhor dos Morgados de Oliveira e Sobrados, 9.º Senhor do Morgado da Patameira e comendador de Santa Eulália na Ordem de Cristo.
O novo convento
Os trabalhos de conversão e ampliação das estruturas pré-existentes arrancaram por volta de 1677, implicando o dispêndio de uma larga porção da fortuna pessoal de D. Luísa, que doou terrenos adjacentes e assegurou o financiamento vitalício da congregação. A autorização régia para a alteração institucional foi precedida por um despacho do Desembargo do Paço datado de 22 de Novembro de 1681, sendo concedida pelo Príncipe Regente através de um alvará a 2 de Dezembro desse mesmo ano, o qual determinava "que não teria effeito esta fundação senão depois de feita a fabrica do convento e posto elle com todas as offecinas em perfeição". Na noite de 7 de Dezembro de 1681, quatro monjas deixaram o Convento de Santo Alberto, na Pampulha, para se instalarem no novo recinto. Este grupo fundador integrava a Madre Micaela do Santíssimo Sacramento e a irmã Umbelina Teresa de Santa Maria, ambas oriundas de Aveiro; a irmã Maria de Cristo, vinda de Santo Alberto; e a madre Maria Teresa de Jesus, originária do convento de Carnide. Constituindo o quinto convento desta ordem em Portugal, abriu oficialmente no dia 8 de Dezembro. A comunidade atingiria, apenas em 1688, as 21 freiras, número ideal estipulado pela regra de Santa Teresa. No alvorecer do dia seguinte à chegada, dedicado à Imaculada Conceição, procedeu-se à celebração da primeira eucaristia, à entronização do Santíssimo Sacramento e à efectivação da cerimónia de clausura. Embora as instalações já permitissem a habitação, a campanha de obras prolongou-se bastante.
Sismo e reconstrução
O terramoto de 1 de Novembro de 1755 provocou danos no complexo arquitectónico, forçando as freiras a recolherem-se temporariamente em barracas de madeira erguidas provisoriamente no interior da cerca. Os registos das Memórias Paroquiais datados de 26 de Abril de 1758, redigidos pelo pároco Joaquim Ribeiro de Carvalho, atestam a permanência das mulheres nestas barracas e referem a sujeição das mesmas aos religiosos do Convento dos Remédios à Estrela, sob a protecção do então governador da Torre Velha, D. José de Meneses de Távora. Apesar dos reveses materiais, a atracção pelo mosteiro manteve-se sólida, registando-se a admissão de 103 religiosas ao longo da sua existência. A adesão foi particularmente notável no século XVIII, verificando-se a entrada de 29 noviças num intervalo de apenas 19 anos, enquanto a média de admissões entre 1701 e 1833 era de uma freira a cada par de anos.
Assistência social a cegos
O decreto que extinguiu as ordens religiosas masculinas em 1834 ditava o fecho do convento assim que se desse a morte da última freira, e tal aconteceu no mês de Abril de 1876, com o falecimento da irmã Gertrudes Maria José. Perante este facto, a 12 de Abril o Ministério dos Negócios Eclesiásticos comunicou a vacatura à tutela da Fazenda para efeitos de expropriação, formalizando a posse estatal. Na prática, a vida religiosa nunca chegou a ser interrompida e o edifício não passou imediatamente para a Fazenda Pública. Nos alvores de Maio desse ano, o 2.º Marquês de Valada, D. José de Meneses da Silveira e Castro, descendente da instituidora, contestou a apropriação governamental reivindicando os direitos fiduciários sobre o imóvel, pretensão que acabou por ser rejeitada.
Contemporaneidade
Com a implantação da República em 1910, as freiras chegaram a ser presas, mas por apenas dois dias, uma vez que o choro das internas cegas tornava a situação demasiado incómoda para as autoridades. A importância patrimonial do recinto mereceu reconhecimento oficial a 26 de Setembro de 1940, quando o espaço foi decretado Imóvel de Interesse Público, classificação que sofreu uma breve suspensão a 1 de Novembro, motivada por questões relacionadas com a propriedade particular, mas que se consolidou com nova legislação em 1943. O edifício sofreu sérias patologias estruturais devido a um abalo sísmico ocorrido em Fevereiro de 1969, desencadeando intensas campanhas de consolidação das coberturas e da capela-mor. Antes, em 1968, os novos estatutos da Associação já haviam transformado o asilo numa escola, permitindo a admissão de outras pessoas com deficiências profundas.
Exterior
A implantação do imóvel define um perímetro delimitado pelas vias da Rua Eduardo Coelho a Norte, da Travessa da Conceição a Sul, da Rua do Século a Nascente (para a qual dá a fachada lateral ou eixo longitudinal da igreja) e da Travessa da Horta a Poente. O espaço ocupado pelo convento, igreja e cerca forma uma área limitada. O volume edificado apresenta-se externamente como uma caixa desprovida de profusão ornamental, inserindo-se no estilo chão português, pautado por um classicismo austero. O alçado de maiores dimensões, correspondente ao eixo longitudinal da igreja, desenvolve-se ao longo da Rua do Século, sendo pontuado por janelões rectangulares e por um óculo posicionado para iluminar a zona do presbitério. Neste mesmo alçado rasgam-se dois pórticos de traça barroca rematados por pináculos, elementos voluteados e nichos que albergam estatuária sagrada. A entrada secundária, sob a invocação de São José e encimada por um frontão interrompido com uma cruz, permite o acesso à portaria conventual, ao passo que o portal de Nossa Senhora da Conceição, coroado por um frontão triangular, leva à nave religiosa.
Igreja
A configuração da igreja obedece a uma planta longitudinal composta por uma nave única rectangular e uma capela-mor de formato idêntico, articulados através de um arco triunfal. A aparente simplicidade estrutural contrasta com a riqueza e variedade decorativa interior, erigindo o edifício como um dos arquétipos do "estilo nacional", à semelhança da Madre de Deus e de Marvila. Presumivelmente, a obra de pedraria da igreja e do claustro maior é da autoria do arquitecto João Antunes. O interior é rico, caracterizado por um fortíssimo impacto cénico e profusamente decorado numa associação tipicamente portuguesa com trabalhos de talha dourada, azulejo, pinturas, imaginária e embutidos de mármore ao gosto florentino, estes aplicados nas paredes absidais e nos embasamentos.
Convento
O ingresso nos antigos aposentos habitacionais faz-se através da porta exterior de São José para uma portaria de pavimento lajeado, guarnecida por silhares de padrão de tapete dos finais do século XVII de padronagem azul e branca (fase final do estilo joanino a transitar para o rococó). Cantoneiras emolduram as janelas gradeadas. O quadro da entrada é atribuído a José da Costa Negreiros. Nesta sala coexistem cerâmicas sevilhanas de ponta de diamante na Casa da Roda, cujo vão é encimado por azulejos recortados com as insígnias carmelitas, sustentadas por dois anjos de corpo inteiro e rematadas por uma coroa sob a qual espreitam cabeças de querubins.


