Conjunto Governador Kubitschek
O Conjunto Governador Kubitschek, comumente conhecido como Edifício JK ou Conjunto JK, é um conjunto residencial histórico de uso misto localizado no bairro Santo Agostinho, em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.
Ocupação anterior do terreno
O terreno do Conjunto Governador Kubitschek havia sido anteriormente ocupado pela Escola de Aprendizes Artífices de Minas Gerais, escola profissionalizante que mais tarde passou a integrar a história institucional do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais. A instituição foi criada como Escola de Aprendizes Artífices de Minas Gerais e depois teve vários nomes, entre eles Liceu Industrial de Minas Gerais, Escola Industrial de Belo Horizonte, Escola Técnica de Belo Horizonte e Escola Técnica Federal de Minas Gerais, antes de se tornar o Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais. A escola permaneceu no local até o fim da década de 1930, e o antigo edifício foi demolido na década de 1940 como parte da reurbanização da Praça Raul Soares.
Encomenda e lançamento
O conjunto foi concebido durante o governo de Juscelino Kubitschek em Minas Gerais. Kubitschek havia deixado a prefeitura de Belo Horizonte para assumir o governo do estado em 1º de fevereiro de 1951, depois de uma administração municipal fortemente associada às obras da Pampulha e à imagem pública da arquitetura moderna na cidade. Oscar Niemeyer projetou o empreendimento em 1951, e os cálculos estruturais foram realizados por Joaquim Cardozo. O empreendimento foi conduzido pelo empresário Joaquim Rolla, enquanto o governo estadual forneceu o terreno próximo à Praça Raul Soares e a iniciativa privada assumiu a construção. O projeto foi lançado publicamente no fim de novembro de 1951. Jornais locais o apresentaram como uma obra excepcionalmente grande e moderna para Belo Horizonte, cidade que ainda tinha relativamente poucos edifícios altos e pouco mais de 350.000 habitantes. A linguagem promocional em torno do conjunto o associava ao progresso, ao conforto e a uma nova forma de vida urbana. O plano prometia apartamentos para uma classe média em crescimento, serviços públicos para o governo estadual e uma ampla variedade de equipamentos compartilhados para moradores e visitantes.
Programa original
A proposta de Niemeyer dialogava com a ideia de um grande edifício coletivo, com algumas afinidades com os falanstérios imaginados por Charles Fourier.[nota 2] O conjunto foi planejado como uma comunidade urbana densa, reunindo habitação, repartições públicas, espaços comerciais, áreas de lazer e equipamentos culturais em um mesmo complexo. O programa original era muito mais ambicioso do que o edifício que depois entrou em uso. Ele incluía apartamentos, lojas, restaurantes, lavanderias, hotel, cinema, teatro, boate, café, piscina, museu de arte moderna e terminal rodoviário e turístico. O projeto também previa uma passarela elevada monumental ligando os dois blocos, com alguns dos espaços culturais planejados em torno dessa conexão.
Alterações no projeto e construção
O projeto mudou durante seu desenvolvimento. Uma versão inicial previa um bloco horizontal longo, com 637 apartamentos distribuídos em 22 pavimentos. Versões posteriores acrescentaram a torre mais alta e ampliaram o número de unidades habitacionais, levando à composição em dois blocos que define o conjunto atualmente. O complexo final foi organizado em dois edifícios. O Bloco A, voltado para a Rua dos Timbiras, tem 23 pavimentos. O Bloco B, voltado para a Rua dos Guajajaras, tem 36 pavimentos. O empreendimento concluído tem mais de 1.000 apartamentos em várias plantas diferentes, com unidades que variam de cerca de 22,7 m² (244 ft²) a 152,8 m² (1 640 ft²). Cerca de 5.000 pessoas vivem no conjunto.
Ocupação e mudanças posteriores
A distância entre o plano original e o uso posterior do edifício marcou grande parte de sua história. O museu de arte moderna, as áreas hoteleiras, a piscina, os espaços de lazer e a passarela elevada prevista não se concretizaram plenamente como Niemeyer e Rolla haviam planejado. A passarela elevada, projetada para conectar os dois blocos no quinto andar, nunca foi concluída. Vários espaços planejados receberam outros usos ao longo do tempo. A área destinada ao museu de arte moderna foi posteriormente ocupada por uma instalação policial e hoje é usada pela 3ª Área Integrada de Segurança Pública. O espaço previsto para o cinema abrigou depois uma boate e, em seguida, passou a ter uso religioso. Áreas destinadas a restaurantes e à vida noturna também mudaram de função à medida que o complexo se adaptou à rotina condominial.
O Conjunto Governador Kubitschek é uma das principais obras residenciais de Oscar Niemeyer em Belo Horizonte. Projetado em 1951, o conjunto aplicou ideias modernistas de habitação em escala incomumente grande, reunindo apartamentos, serviços, comércio, áreas de lazer e usos públicos no mesmo empreendimento. O projeto estrutural foi de Joaquim Cardozo, colaborador frequente de Niemeyer. A linguagem arquitetônica do Conjunto Governador Kubitschek pertence à obra de Niemeyer dos anos 1950, com concreto armado, grandes volumes, pilotis, funções mistas e forte interesse pela seção do edifício. O projeto seguia a crença modernista de que a arquitetura poderia reformular a vida cotidiana por meio de novas formas de moradia, serviços compartilhados e espaço coletivo. Em Belo Horizonte, o conjunto marcou uma nova escala de verticalização residencial. Seus dois blocos, o grande número de unidades e a mistura de apartamentos privados com funções públicas e comerciais fizeram dele uma das tentativas mais claras da cidade de transformar a teoria modernista da habitação em um ambiente urbano cotidiano.
Conceito urbano e programa
O complexo foi concebido como um grande esquema residencial e urbano junto à Praça Raul Soares. A proposta de Niemeyer empregava a ideia de uma comunidade vertical compacta, na qual a moradia estaria ligada a serviços cotidianos e equipamentos públicos. O programa original incluía apartamentos, lojas, restaurantes, lavanderias, áreas de lazer, hotel, repartições públicas, cinema, teatro, boate, café, piscina, museu de arte moderna e terminal rodoviário e turístico. O projeto foi organizado em torno de dois blocos residenciais, conhecidos como Bloco A e Bloco B. As torres foram planejadas com funções compartilhadas no térreo e no subsolo, incluindo áreas comerciais e espaços de circulação que conectavam o conjunto à cidade ao redor. Algumas partes do programa original foram simplificadas, adiadas ou deixadas inacabadas durante o longo processo de construção.
Bloco A
O Bloco A é voltado para a Rua dos Timbiras e tem 23 pavimentos. É o mais baixo dos dois blocos residenciais e ocupava papel central no programa original de uso misto. Os quatro primeiros andares foram planejados para uso hoteleiro, enquanto outros equipamentos compartilhados também foram propostos para o conjunto, incluindo o museu de arte moderna e espaços de lazer. As plantas aprovadas em 1954 para o Bloco A mostram duas formas diferentes de organização dos apartamentos. Em um lado do núcleo triangular de elevadores, os apartamentos foram dispostos como unidades de um só nível, usando um ritmo estrutural repetido de paredes portantes. Esse lado do bloco incluía cinco tipos diferentes de apartamento. No outro lado, Niemeyer utilizou a planta semidúplex, com corredores comuns apenas em andares alternados.
Bloco B
O Bloco B é voltado para a Rua dos Guajajaras e tem 36 pavimentos. É a torre mais alta e dá ao conjunto grande parte de sua presença na paisagem da Praça Raul Soares. Sua altura e sua massa vertical estreita contrastam com o Bloco A, mais baixo e mais largo, fazendo com que o conjunto seja percebido como um par de edifícios relacionados, e não como uma única torre. A organização semidúplex tornou-se mais ampla no Bloco B. A partir do décimo andar, a torre utilizou essa solução em todos os seus pavimentos residenciais. Isso deu ao bloco mais alto um ritmo interno diferente de uma torre residencial convencional, pois os corredores não precisavam atravessar todos os andares.
Tipos de apartamentos e planta semidúplex
O conjunto possui 1.086 apartamentos distribuídos em 13 tipos, com áreas que variam de cerca de 22,7 m² (244 ft²) a 152,8 m² (1 640 ft²). Essa variedade era incomum em um único conjunto residencial e deu ao edifício uma população diversa, com moradores em unidades compactas e famílias ocupando apartamentos maiores. As unidades semidúplex estavam entre os elementos mais distintivos do projeto. Nesses apartamentos, os níveis dos pisos eram deslocados, criando interiores em meios níveis conectados por escadas privativas. O corredor comum atendia a unidade em um nível, enquanto parte do apartamento se estendia meio nível acima ou abaixo. Essa solução reduzia a área de corredores compartilhados e dava aos apartamentos uma seção interna mais variada do que a de uma planta plana de um só nível.
Áreas compartilhadas e elementos inacabados
As áreas entre os blocos e sob eles foram planejadas como partes importantes do conjunto. O projeto incluía espaços comerciais, serviços e uma área de lazer e circulação entre as torres, destinada a facilitar o deslocamento de moradores e visitantes pelo empreendimento. Também foi planejada uma passarela elevada monumental para ligar os dois blocos, mas ela nunca foi concluída. O subsolo e os níveis inferiores deveriam receber o terminal rodoviário e turístico, além de lojas, bancos, serviços postais, agências de turismo e agências de viagem. Esses usos compartilhados davam ao projeto uma escala mais próxima de um pequeno centro urbano do que de um edifício residencial comum. O longo processo de construção e as mudanças posteriores no condomínio fizeram com que o conjunto concluído preservasse apenas parte do programa social e urbano original de Niemeyer.
Relação com outras obras residenciais de Niemeyer
O Conjunto Governador Kubitschek pertence a um grupo mais amplo de edifícios residenciais e de uso misto projetados por Niemeyer durante a década de 1950, quando o arquiteto aplicava ideias modernistas a terrenos urbanos densos em Belo Horizonte e São Paulo. Essas obras pertencem a um período em que Niemeyer testava como edifícios de apartamentos poderiam incorporar serviços, comércio e vida pública em cidades brasileiras em rápido crescimento. Em Belo Horizonte, a comparação mais próxima é o Edifício Niemeyer, na Praça da Liberdade, projetado na década de 1950 e concluído em 1960. O edifício da Praça da Liberdade é muito menor e mais escultórico, com uma fachada curva envolvida por brise-soleil horizontais. Seus apartamentos se organizam em torno de um terreno triangular, enquanto o Conjunto JK utiliza dois blocos muito maiores e um programa de uso misto mais amplo. A comparação mostra dois lados da obra residencial de Niemeyer na cidade: de um lado, um edifício compacto de apartamentos de luxo junto a uma praça histórica; de outro, um grande conjunto urbano planejado como comunidade vertical junto à Praça Raul Soares.
O processo de patrimonialização municipal do Conjunto Governador Kubitschek começou em 2007, quando o conselho de patrimônio de Belo Horizonte abriu os primeiros procedimentos para examinar seu valor cultural. O entorno do conjunto já havia entrado no registro patrimonial da cidade. Em 2009, o conjunto da Praça Raul Soares e da Avenida Olegário Maciel foi colocado sob proteção municipal, trazendo reconhecimento formal a uma das principais áreas moldadas pelo crescimento de Belo Horizonte no século XX. Em 27 de abril de 2022, o Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte aprovou o tombamento definitivo do complexo como patrimônio cultural municipal. A decisão abrangia os dois edifícios que formam o conjunto, situados na Rua dos Timbiras, 2500, e na Rua dos Guajajaras, 1268. O tombamento deu proteção formal a um dos marcos residenciais modernistas mais visíveis da cidade, uma obra de grande escala de Oscar Niemeyer ligada ao período em que Belo Horizonte experimentava novas formas de habitação vertical.
Durante décadas, uma das características mais conhecidas do conjunto foi o relógio luminoso do Itaú instalado no topo do Bloco B. O relógio permaneceu no local por cerca de 40 anos e tornou-se um marco noturno para quem circulava pelo centro de Belo Horizonte. Em 2019, o Itaú decidiu remover a estrutura após mudanças nas regras de publicidade e uma disputa com a administração do condomínio. A retirada ocorreu depois de um acordo mediado pela Justiça, no qual o banco concordou em pagar valores em aberto relativos ao uso do terraço da torre. O conjunto também abrigou espaços culturais e de vida noturna. O Matriz, bar e casa de shows situado dentro do Edifício JK, tornou-se um dos principais palcos da música independente em Belo Horizonte. Seus proprietários anunciaram o fechamento do espaço em 2021, depois de 21 anos de atividade, citando a dificuldade de manter o local aberto após a suspensão dos eventos culturais presenciais durante a pandemia de COVID-19. Em 2022, os fundadores do Matriz abriram a Casa Matriz em parceria com o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, dando continuidade a um projeto iniciado dentro do complexo JK.


