Primeira Coligação
A Primeira Coligação, também chamada de Primeira Coalizão, foi um esforço conjunto de diversas monarquias europeias contra a França revolucionária. A República Francesa formalmente declarou guerra contra a monarquia de Habsburgo em 20 de abril de 1792. A Prússia aliou-se aos austríacos algumas semanas mais tarde.
A Revolução Francesa estava a tomar um caminho cada vez mais radical. As incompatibilidades crescentes entre os princípios defendidos por Luís XVI e as decisões da Assembleia Nacional Constituinte, levaram a que o rei fugisse de Paris com a sua família e alguns colaboradores, com a finalidade de procurar abrigo em local seguro onde pudesse organizar um movimento de contra-revolução. Frustrada a fuga e localizado o rei, no dia 21 de junho, em Varennes, este foi obrigado a regressar a Paris. Este incidente fez com que se tornasse mais acentuada a hostilidade popular contra a monarquia francesa e, desta forma, contra a própria família real. A ideia da abolição da monarquia e instauração de uma república ganhou mais adeptos. Houve tumultos graves e acções de repressão que agravaram ainda mais a já frágil situação da monarquia. Após o regresso forçado de Luís XVI e Maria Antonieta a Paris, o que Leopoldo II considerou ser uma situação de prisão da família real, o imperador propôs uma aliança entre várias potências europeias contra a Revolução Francesa. O Imperador Leopold II da Áustria, irmão de Maria Antonieta, deu vários passos no sentido de organizar uma coligação de potências europeias, a que se juntaria um corpo militar de emigrées,[nota 1] destinada a invadir a França e pôr fim à Revolução. Para este efeito foi enviada a Circular de Pádua, de 6 de Julho de 1791. Com esta circular, Leopoldo II propunha aos reis de Espanha, Grã-Bretanha, Prússia, Nápoles e Sardenha, assim como à imperatriz da Rússia, uma reunião destinada definir as medidas necessárias para restaurar a liberdade e honra de Luís XVI e sua família e limitar os extremismos perigosos da Revolução Francesa. Acrescentava ainda um projecto de declaração comum em que o texto era uma manifestação da vontade de as potências destinatárias da circular exigirem a restauração dos poderes de Luís XVI. Espanha, Nápoles e Sardenha apoiaram a declaração mas os soberanos da Prússia e da Rússia mantiveram-se afastados, sem no entanto a recusar, pois estavam mais preocupados com a partilha da Polónia. A Grã-Bretanha recusou claramente envolver-se.
O Arquiducado da Áustria e a Prússia foram as primeiras potências a estabelecerem um pacto contra a França revolucionária. As duas potências europeias, cujos soberanos subscreveram a Declaração de Pillnitz, estabeleceram uma aliança no dia 7 de fevereiro de 1792. Em parte, esta aliança respondia aos apelos dos emigrées. No entanto, a intenção daqueles soberanos não era, de forma nenhuma, desinteressada. Antes da Declaração de Pillnitz, Leopoldo II e Frederico Guilherme da Prússia tinham esboçado um plano de partilhas: a Áustria ocuparia a Alsácia e a Lorena; a Prússia teria direito à sua parte na partilha da Polónia. No Verão desse ano, quando se iniciaram as operações de invasão do território francês, o Reino da Sardenha também declarou guerra à França. Após a execução de Luís XVI, no dia 21 de janeiro de 1793, a Grã-Bretanha, as Províncias Unidas e a Espanha retiraram os seus embaixadores de Paris. O rei de Espanha tinha oferecido exílio a Luís XVI com a garantia de não lhe permitir a interferência nos assuntos internos de França e o seu embaixador tinha pago grandes quantias em subornos sem que, no entanto, obtivesse sucesso nas suas diligências. Em consequência da retirada dos embaixadores, a Convenção declarou guerra àquelas três potências.
A forma como foi formada a Primeira Coligação mostra que era difícil encontrar uma linha de acção comum a todos os Estados participantes. A Coligação foi conseguida à custa de acordos bilaterais e não a partir de um acordo global. Os acontecimentos iriam mostrar a fragilidade desta aliança. Desde o início, a Áustria mantinha divergências com a Rússia e a Prússia por causa das Partilhas da Polónia. E foi um levantamento nacional na Polónia, em 1794, que levou a Rússia a abandonar a Coligação. Sendo este um assunto que preocupava a Prússia, as promessas deste reino para a proporcionar ajuda militar nos Países Baixos Austríacos mostrou não ter valor pois era a Leste que mantinha a maior parte do seu exército. O esforço de guerra ficou concentrado nos Austríacos com o apoio da força expedicionária britânica e outros Estados de menor dimensão (Hessen-Cassel, Hanôver, Saxónia). Durante o ano de 1794, os Franceses alcançam vitórias importantes, tanto nos Países Baixos como nos Pirenéus. No ano seguinte, ocupam as Províncias Unidas (Holanda). Os seus inimigos começavam a acusar o cansaço de uma guerra que se prolongava mais que o previsto. A Prússia, com graves problemas financeiros e temendo que Catarina II ocupasse o que restava da Polónia, o que a preocupava mais que a expansão francesa, fez a paz com a França em Março de 1795 e assinou o Tratado de Basileia de 5 de Abril desse ano. A guerra contra a Revolução tinha sido transformada de forma a que os objectivos eram os ganhos e perdas territoriais. Em Janeiro de 1795, a Terceira Partilha da Polónia assegurava ganhos territoriais à Rússia, Prússia e Áustria. Além disto estas três potências concluíram acordos secretos segundo os quais, se a Áustria não conseguisse recuperar os Países Baixos, receberia a Baviera como compensação ou os territórios da República de Veneza. Além disso, a Áustria e a Rússia reafirmaram a intenção de, sob condições mais favoráveis, dividirem os territórios europeus do Império Otomano, tal como já tinham acordado em 1782.
1792
A França declarou guerra à Áustria a 20 de Abril de 1792 e invadiu os Países Baixos Austríacos (Bélgica) mas as suas forças foram derrotadas em Mons e Tournai. A Prússia, juntou-se à Áustria na guerra contra a França. O Piemonte[nota 3] entrou em seguida na guerra ao lado dos Austríacos e Prussianos. A 9 de Junho foi lançada nova ofensiva pelos Franceses mas igualmente sem sucesso. Após o fracasso da invasão dos Países Baixos Austríacos pelas tropas francesas, seguiu-se a invasão da França pelas tropas da Primeira Coligação (por enquanto, apenas a Áustria, a Prússia e o Piemonte.[nota 4] Antes de iniciada a invasão de França, Charles William Ferdinand, duque de Brunswick, comandante das forças invasoras, assinou, a 25 de julho de 1792, em Koblenz — a sua base para a invasão — uma proclamação que ficou conhecida como Manifesto de Brunswick, na qual ameaçava a população de Paris, caso se registasse alguma acção contra Luís XVI ou a sua família. Esta proclamação teve o efeito contrário ao desejado e, a 10 de agosto, foi assaltado o Palácio das Tulherias obrigando o rei e a sua família a procurar refúgio na Assembleia. Daí em diante, agravou-se a situação já precária de Luís XVI que acabaria por ser executado no início de 1793.
1793
No dia 21 de Janeiro de 1793, Luís XVI foi executado. Este acontecimento fez da guerra uma questão de vida ou de morte para a República. A Inglaterra, a Holanda e a Espanha retiraram os seus embaixadores em Paris e, em resposta, a República Francesa declarou guerra a estes Estados. Assim, abre-se uma nova frente de batalha – nos Pirenéus – e os territórios coloniais franceses começam a ser ocupados pelos Britânicos. Para agravar a situação, declara-se uma revolta interna em França, na Vendeia. As forças da Coligação retomaram a ofensiva e os Franceses, que já tinham invadido parte da Holanda no início do ano, foram expulsos dos Países Baixos Austríacos e da Renânia. Foi necessário negociar as condições de retirada das forças na Holanda. As forças francesas encontraram-se então numa situação defensiva dentro do seu próprio território. A revolta iniciada na Vendeia atingiu outras regiões. Foi dada prioridade à repressão interna e formou-se um governo radical sob a direcção de Robespierre. Em Toulon há uma tentativa de intervenção anglo-espanhola em apoio dos revoltosos mas, no final do ano, a cidade cai em poder dos republicanos. Nos Pirenéus, as forças espanholas (com uma força portuguesa integrada) invade a França, dando início à Campanha do Rossilhão. Para enfrentar estas situações, a Convenção decreta a levée en masse.
1794
O chefe do estado-maior austríaco, Barão Karl Mack von Leiberich apresentou um “plano de aniquilação” das forças francesas. Ao plano austríaco opunha-se o plano de Carnot. Após uma série de vitórias sobre as forças da Coligação – Courtrai (11 de Maio), Tourcoing (18 de Maio), Tournai (23 de Maio), Hooglede (17 de Junho), Fleurus (26 de Junho) - os Franceses asseguraram novamente a posse dos Países Baixos Austríacos (Bélgica). A 10 de Julho ocuparam Bruxelas e no dia 27 desse mês entraram em Antuérpia. Um exército sob o comando do General Jean-Charles Pichegru invadiu as Províncias Unidas (Holanda). Os territórios da margem esquerda do Reno - a Renânia - também ficaram completamente na posse dos Franceses. Em Outubro, o General Jean-Baptiste Jourdan, comandante do recém criado Exército do Reno e Mosela, pôs cerco a Mogúncia. A situação na fronteira com a Itália manteve-se estacionária mas na fronteira com a Espanha os Franceses lançaram uma ofensiva, derrotaram os Espanhóis em Le Boulou (30 de Abril e 1 de Maio), invadiram e ocuparam a faixa norte da Catalunha e capturaram San Sebastián. Na frente italiana os Piemonteses foram obrigados a recuar e os Franceses aproximaram-se de Génova.
1795
Em Janeiro, a França completou a conquista a Holanda e capturou toda a sua frota. No dia 19, a Holanda foi transformada na República Batava, um Estado aliado da República Francesa. Entretanto, o desgaste provocado pelo esforço de guerra e as preocupações com a situação na Polónia levaram a Prússia a assinar o Tratado de Paz de Basileia a 5 de abril. Este foi o primeiro golpe que pôs em causa a formação da Primeira Coligação. Nesta posição, a Prússia foi seguida pela Saxónia, Hanôver e Hesse-Cassel, pequenos Estados alemães que tinham fornecido tropas à Coligação. A situação agravou-se quando, a 22 de Julho, a Espanha também assinou um Tratado de Paz em Basileia, abandonando a Coligação e estabelecendo um acordo com a França. Por esta razão, a Espanha viu o seu império na América ser ameaçado pelos Britânicos e, desta forma, juntou-se à França na guerra contra a Coligação.
1796
Os Franceses elaboraram um plano para derrotar os Austríacos: atacariam na Itália sem outra finalidade que não fosse a de empenhar tropas austríacas que, assim não poderiam ser empregues a Norte, na Alemanha; aqui, os exércitos franceses lançariam uma ofensiva e teriam alcançariam as vitórias que decidiriam a guerra. No dia 26 de março, Napoleão assumiu o comando do Exército de Itália, em Nice, e em abril, invadiu o Norte de Itália. A 12 de abril, na Batalha de Montenotte, iniciou uma sucessão de vitórias. Em 17 dias, Napoleão derrotou as forças austríacas e do Piemonte e conquistou a Lombardia. No dia 15 de Maio as tropas francesas entraram em Milão e o Piemonte aceitou fazer a paz com a França a 21, embora a cidadela de Milão só viesse a capitular a 29 de Junho. Após poucos dias de descanso, Napoleão retomou a ofensiva e avançou para Leste. A Batalha de Arcola, entre 15 e 17 de Novembro, foi a última acção vitoriosa dos Franceses em 1796. No entanto, Mântua, cercada pelas forças francesas desde 4 de Julho (com um intervalo entre 2 e 27 de Agosto), continuava a resistir.
1797
Napoleão completou a conquista do Norte de Itália e avançou na Áustria. Desde o início do ano, os Austríacos lançaram várias operações com a finalidade de libertar Mântua que os Franceses continuavam a cercar. Após as vitórias dos Franceses nas batalhas de Rivoli (14-15 de Janeiro) e de Mântua (16 de Janeiro), aquela praça acabou por capitular no dia 2 de Fevereiro. Nestas operações pela posse de Mântua, os franceses capturaram 39 mil prisioneiros, 1 600 bocas de fogo de artilharia e 24 estandartes. Durante o cerco a Mântua, morreram cerca de 18 mil austríacos, a maior parte por doença. Em 10 de Março, Napoleão iniciou a invasão da Áustria. Registaram-se combates com as tropas austríacas mas não houve nenhuma batalha importante. Os Austríacos retiraram sempre perante as tropas francesas já reforçadas com novos efectivos chegados de França. No dia 6 de Abril, Napoleão atingiu Leoben, a cerca de 150 Km de Viena, e o imperador enviou emissários para discutir as condições de paz com Napoleão. No dia 18 desse mês foi assinado um tratado preliminar de paz (Paz de Leoben). Em 17 de Outubro, os termos da paz impostos por Napoleão Bonaparte foram formalmente aceitos no Tratado de Campoformio.
O mapa político da Europa sofreu importantes alterações. A Bélgica tornou-se parte da França e a Áustria foi obrigada a reconhecer a República Cisalpina, no norte de Itália. Por seu lado, a Áustria recebeu, como compensação pelas suas perdas, os territórios que ainda pertenciam à República de Veneza. Entre Basileia e Aldernach, a margem esquerda do Reno ficou na posse dos Franceses. Após a derrota da Áustria, a guerra continuou entre a França e a Inglaterra. Napoleão foi colocado no comando do Exército de Inglaterra, reunido em Dunquerque, tendo em vista a invasão das Ilhas Britânicas mas, atendendo ao facto de os Ingleses dominarem os mares, o que tornava improvável o sucesso da travessia do Canal da Mancha, Napoleão propôs ao Directório, em Fevereiro de 1798, o abandono deste projecto e a adopção de outro, uma expedição ao Egipto que, com sucesso, daria aos Franceses uma base para expulsar os Ingleses da Índia.
Os factores que conduzem a um determinado acontecimento histórico são sempre muito complexos e, dificilmente poderão ser exaustivamente enunciados. No entanto, vale a pena mencionar, de forma muito sumária, os factores que, no entender de Richard Ernest Dupuy e Trevor Nevitt Dupuy contribuíram para a vitória francesa:
Em Portugal as notícias da Revolução Francesa foram acolhidas com alguma expectativa, mas não com repúdio. A situação só começou a alterar-se após os acontecimentos da fuga de Luís XVI e daí por diante até à sua execução. Depois deste acontecimento, a guerra na Europa parecia inevitável e Portugal, entre o Atlântico e a Espanha, tinha que acautelar os seus interesses. Por um lado, tinha de assegurar a as linhas de comunicações do Império e, para isso, necessitava de se manter em bom relacionamento com a potência que dominava os mares, a Inglaterra. Por outro lado, necessitava da não hostilidade da Espanha para preservar a sua independência. O mais poderoso rival da Espanha nos seus objectivos comerciais era a Inglaterra. Pelo Tratado de Paris, de fevereiro de 1763, a Espanha teve de fazer importantes concessões à Inglaterra e até a sua única conquista durante a Guerra dos Sete Anos, a colónia de Sacramento, teve de ser devolvida a Portugal. Por isso, Carlos III não resistiu a interferir na Guerra da Independência Americana e, em abril de 1779, assinou um tratado secreto com a França. O tratado previa que, obtida a vitória, a Espanha recuperaria Gibraltar. Nesta guerra, a Espanha reconquistou a Florida, ocupou as posições britânicas nas Bahamas e expulsou os Ingleses de Belize. Na Europa, pôs cerco a Gibraltar mas não obteve sucesso pois não tinha capacidade para bloquear a posição pelo mar. No entanto, em fevereiro de 1782, recuperou Minorca que se encontrava em mãos inglesas. Seria difícil encontrar interesses coincidentes entre a Espanha e a Inglaterra.


