Clivagem (embriologia)
A clivagem, também conhecida como segmentação, é a fase inicial do desenvolvimento embrionário em organismos multicelulares. Nesse processo, o grande volume de citoplasma do zigoto é dividido em inúmeras células menores e nucleadas, chamadas blastômeros. É a primeira etapa crucial para a formação de um novo ser.
Pontos-chave
- Clivagem é a divisão celular inicial do embrião.
- Blastômeros são as pequenas células formadas durante a clivagem.
- O fator promotor de mitose (MPF) regula o ciclo celular dos blastômeros.
- A quantidade e distribuição do vitelo influenciam o tipo de clivagem.
- Diferentes organismos apresentam padrões de clivagem específicos.
A transição da fertilização para a clivagem é desencadeada pela ativação do fator promotor de mitose (MPF). Inicialmente observado em sapos, o MPF regula o ciclo celular dos primeiros blastômeros, que geralmente passam por dois ciclos: M (mitose) e S (síntese de DNA). A mudança entre essas fases é controlada pela atividade do MPF. Este fator é composto por ciclina B e quinase ciclina-dependente (CDK). A ciclina B, essencial para a mitose, acumula-se na fase S e é degradada na fase M. Já a CDK ativa a mitose fosforilando proteínas, o que leva à condensação da cromatina, desintegração do envelope nuclear e formação do fuso mitótico, processos vitais para a divisão celular.
O padrão de clivagem varia entre os organismos, dependendo principalmente da quantidade e distribuição do vitelo (reserva nutritiva) e de fatores citoplasmáticos que afetam o fuso mitótico. O vitelo influencia o tamanho dos blastômeros: o polo com menos vitelo (polo animal) divide-se mais rapidamente que o polo com mais vitelo (polo vegetal). Existem dois tipos básicos de clivagem: holoblástica (completa), onde o fuso de clivagem atravessa todo o embrião (típica de ovos isolécitos e mesolécitos), e meroblástica (parcial), onde apenas uma porção do citoplasma se divide (típica de ovos telolécitos e centrolécitos).
O estudo de organismos como o ouriço-do-mar revolucionou o entendimento da clivagem devido à facilidade de obtenção de seus gametas, transparência dos embriões e condições favoráveis para experimentação. A maioria dos peixes ósseos exibe clivagem discoidal meroblástica, onde o embrião se desenvolve a partir de uma pequena área de citoplasma no polo animal, sobre uma grande massa de vitelo. As primeiras divisões formam a blastoderme, um aglomerado de células sobre o vitelo.
Ouriço-do-mar
A clivagem é holoblástica radial. As primeiras divisões são meridionais e perpendiculares entre si. A terceira divisão é equatorial, separando os polos animal e vegetal. Na quarta divisão, as células do polo animal dividem-se meridionalmente (mesômeros), enquanto as do polo vegetal sofrem divisão equatorial desigual, formando macrômeros (grandes) e micrômeros (pequenos). Nas divisões subsequentes, novas camadas de células são formadas, com os micrômeros originando um pequeno aglomerado.
Caracol
A clivagem é espiral holoblástica. As primeiras divisões formam quatro grandes macrômeros. Em cada clivagem seguinte, cada macrômero gera um pequeno micrômero no polo animal. Os micrômeros se deslocam em relação aos seus macrômeros-irmãos, criando um padrão de divisão em espiral.
Tunicados
A clivagem é bilateral holoblástica. O primeiro plano de clivagem estabelece o eixo de simetria do embrião, dividindo-o em lados direito e esquerdo. A segunda clivagem é meridional, mas assimétrica, resultando em células de tamanhos diferentes em cada lado. As divisões subsequentes acentuam a simetria bilateral, e no estágio de 64 células, uma pequena blastocele se forma, iniciando a gastrulação.
Caenorhabditis elegans
A clivagem é rotacional holoblástica. Divisões assimétricas produzem células fundadoras e células-tronco. Na primeira clivagem, o fuso mitótico se alinha assimetricamente, gerando uma célula fundadora anterior (AB) e uma célula-tronco posterior (P1). Na segunda clivagem, a célula fundadora (AB) divide-se equatorialmente, enquanto a célula-tronco (P1) divide-se meridionalmente, produzindo outra célula fundadora (SEM) e uma nova célula-tronco (P2). As células-tronco continuam a produzir células fundadoras e a linhagem de células-tronco através de divisões meridionais.
Drosophila melanogaster
A clivagem é superficial, ocorrendo na periferia do embrião devido à concentração de vitelo no centro. O núcleo do zigoto realiza múltiplas divisões mitóticas na região central (blastoderme sincicial), formando cerca de 256 núcleos. Estes núcleos migram para a periferia, onde a mitose continua. Cinco núcleos atingem a parte posterior, formando células polares que darão origem aos gametas. A maioria dos núcleos alcança a periferia no décimo ciclo de divisão.
Anfíbios
A clivagem é holoblástica e radialmente simétrica, similar à dos ouriços-do-mar, mas com maior quantidade de vitelo no polo vegetal, que dificulta a divisão. A primeira divisão inicia no polo animal e avança parcialmente para o polo vegetal. A segunda divisão é meridional e perpendicular à primeira, ocorrendo mais rapidamente no polo animal. A terceira divisão é equatorial, mas o fuso se desloca para o polo animal devido ao vitelo, resultando em micrômeros (pequenos) no polo animal e macrômeros (grandes) no polo vegetal.


