Constâncio II
Flávio Júlio Constâncio, segundo filho de Constantino, o Grande (r. 306–337), com sua segunda esposa, Fausta, governou o Império Romano do Oriente, em Constantinopla, de 337 a 361. Após a morte de Constantino I, o Império Romano foi dividido em três regiões administrativas diferentes e governado por seus três filhos. O mais velho, Constantino II, governou a parte Ocidental, que abrangia a Hispânia e a Gália, com capital em Augusta dos Tréveros. Constante I, o terceiro filho, governou a parte central, com capital em Mediolano.
354 foi caracterizado pela campanha de Constâncio contra os alamanos que haviam saqueado os territórios romanos sem que Magnêncio nem Decêncio fossem capazes de combatê-los. Constâncio avançou para norte para combater com os Brísgavos, a mais meridional das tribos Alamanas. O imperador foi capaz de subjugar as tribos bárbaras e, depois de assinar um tratado com o rei Gundomado e Vadomário, voltando para o inverno em Mediolano. No ano seguinte, em 355, foram os lencienses a perturbar os súbditos do império: desta vez Constâncio não entrou em campo em pessoa, mas enviou o próprio mestre da cavalaria (magister equitum) Arbécio para erradicar esta ameaça, coisa que o general fez derrotando as tribos germânicas no Lago de Constança, e ganhando o título de Alamannicus maximus. Uma outra ameaça ao reinado de Constâncio foi a usurpação de Cláudio Silvano, o general de Magnêncio que foi aprovado pelo imperador e que Constâncio tinha premiado com a atribuição do grau de mestre dos soldados (magister militum) e enviado para a Gália. A Gália tinha sido sempre, desde os dias de Constâncio Cloro (o avô de Constâncio II), um César ou Augusto residente no seu território: ela permitia ao Estado Romano uma reacção imediata às frequentes incursões dos bárbaros, dando aos gauleses uma maior sensação de segurança. Neste contexto, deve ser vista como tendo apoiando a usurpação de Magnêncio (após a morte de Constantino II, o governante era Constante I, que viveu principalmente em Itália) e o posteriormente abandonado em favor do imperador legítimo Constâncio. O imperador, no entanto, estabeleceu a sua capital em Mediolano (Milão), longe da Gália, criando insatisfação entre as tropas gaulesas que permitiram a rebelião do seu mestre dos soldados.
Juventude
Constâncio II nasceu a 7 de agosto de 317 em Sirmio na Panónia, segundo filho do imperador romano Constantino I e de Fausta, e recebeu o nome de seu avô paterno, o imperador tetrárquico Constâncio Cloro. Constantino e Fausta tiveram outros dois filhos, Constantino II e Constante I, e duas filhas, Constantina e Helena. A 13 de Novembro de 324, na Nicomédia, Constâncio foi elevado à categoria de César, com a idade de sete anos; dois anos depois, realizou o seu primeiro consulado, juntamente com seu pai. Quando Constantino II foi enviado por seu pai para lutar na fronteira do Danúbio, em 332, Constâncio foi enviado para governar a Gália; o irmão mais velho obteve uma vitória sobre os Godos que também permitiu a Constâncio reivindicar o título de Germânico Máximo (a prática de assumir títulos obtidos de colegas governantes, de origem tetrárquica, permitiu-lhe obter o título de Sarmácico Máximo após a vitória de Constante sobre Sármatas em 338).
Situação do império no início do reinado de Constâncio
O reinado de Constâncio II deve ser entendido dentro do processo de transformação do Império que tinha sido iniciado pela tetrarquia, revigorado e continuado por Constantino I e que seria concluído com o fim da dinastia constantiniana em 363. Em particular, o reino de Constantino foi importante por duas razões: a primeira foi a mudança do centro do poder imperial do Ocidente para o Oriente, cuja importância estava já a crescer, em particular com a fundação da nova capital, Constantinopla; a segunda razão é o apoio que deu ao cristianismo, que em poucas décadas se tornou a religião de Estado. Ambos estes aspectos da política imperial, contudo, mantiveram-se até à morte de Constantino, e deste passaram a seus filhos e sucessores, em particular a Constâncio, onde caiu a gestão da parte oriental do império. A escolha da colocação da capital em Constantinopla foi devida á vontade de colocar o centro do poder imperial a certa distância das duas principais fronteiras do império, a danubiana e a sul do Eufrates; não obstante, Constantino não podia consolidar ambas, tanto que, no momento da sua morte, preparava uma campanha contra inimigos no Oriente, os Sassânidas.
Ascensão ao trono
Constantino morreu a 22 de maio de 337, quando preparava uma campanha militar contra os sassânidas: não nomeou o seu sucessor, mas a situação viu o poder repartido entre os seus césares. Constâncio, que estava comprometido na Mesopotâmia setentrional a supervisionar a construção de fortificações fronteiriças, apressou-se a voltar a Constantinopla, onde organizou e presenciou a cerimónia fúnebre do pai: com este gesto reforçou o seu direito como sucessor e obteve o apoio do exército, componente fundamental da política de Constantino. Durante o verão de 337, houve um massacre por mãos do exército, dos membros masculinos da dinastia Constantiniana e de outros representantes de grande relevo do estado: apenas os três filhos de Constantino e dois de seus netos crianças (Galo e Juliano, filhos do meio-irmão Júlio Constâncio) foram poupados. As razões por trás deste massacre não são claras: de acordo com Eutrópio, Constâncio não estava entre os seus promotores, mas não estava tão certo deste se opôr a ela e perdoar os assassinos; Zósimo afirma que Constâncio foi o organizador do massacre. Em setembro do mesmo ano, os restantes três césares (Dalmácio tinha sido vítima da purga) reuniram-se em Sirmio na Panónia, onde a 9 de setembro foram aclamados imperadores pelo exército, e dividiram o império: Constâncio viu reconhecida a soberania do Oriente.
Confronto com os Sassânidas (338–350)
Depois de ser proclamado imperador, Constâncio foi para Antioquia, na Síria, a cidade que foi a capital durante os últimos anos como César, onde ele poderia lidar melhor com a fundamental fronteira leste do que se permanecesse na capital imperial de Constantinopla. Aqui, manteve-se de 338 para 350. Durante todo o tempo de seu reinado Constâncio II esteve envolvido em guerras romano-persianas contra o xá Sapor II. Se antes de morrer Constantino pretendia resolver de uma vez por todas o problema da fronteira oriental, tocou a Constâncio resolver este problema, obtendo resultados variáveis. Havia dois principais pontos de colisão entre os dois grandes impérios: a fronteira leste, com a contenção da província da Mesopotâmia, e o controle do reino da Armênia, que estava entre as órbitas das duas potências vizinhas.
Usurpação de Magnêncio (350–353)
A 18 de janeiro de 350, o augusto do Ocidente, Constante I, foi derrubado e morto por um de seus generais, Flávio Magnêncio, que se proclamou imperador em Autun e foi reconhecido na Britânia, Gália e Hispânia. Constâncio estava na época ocupado na fronteira oriental, a lutar contra a ofensiva sassânida sobre Nísibis, e decidiu não sair imediatamente para defrontar diretamente o usurpador. A 1º de março do mesmo ano, o Mestre dos soldados Vetrânio proclamou-se imperador, por sua vez, por instigação de Constantina (irmã de Constante e Constâncio); este foi reconhecido imperador pelas tropas do Danúbio. Constâncio reconheceu Vetrânio como seu colega, enviando-lhe o diadema imperial e o dinheiro, enquanto, provavelmente, tentava comprometer Magnêncio opondo-lhe outro usurpador; o jogo era muito perigoso, prevendo-se um jogador adicional: Vetrânio, na verdade, vacilou na sua lealdade para com Constâncio quando Magnêncio lhe propôs uma aliança.
Queda e morte de Galo (353–354)
Em 354 Constâncio ordenou a morte do césar do Oriente Constâncio Galo, cuja conduta estava em desgraça devida em parte ao seu governo e em parte a maquinações de algum alto funcionário da corte de Constâncio. Alguns funcionários, que queriam derrubar Galo para obter ganhos pessoais - Dinâmio, Picêncio, Caio Ceiônio Rúfio Volusiano Lampádio, o mestre da cavalaria Arbício e prepósito do cubículo sagrado Eusébio -, Constâncio convencido de que Ursicino queria causar um motim contra Galo com o objectivo de colocar o seu filho no trono: aconselharam então o Imperador a dividir o Cesar pelo seu mestre da cavalaria antes de intervir contra Galo. Na primavera de 354, enquanto está aquartelado em Milão após uma campanha bem sucedida contra os Alamanos, Constâncio chama Ursicino à corte, com a desculpa de ter que organizar uma campanha contra os sassânidas, e substituiu-o por um homem de confiança. Ao mesmo tempo, consciente dos processos ordenados por Galo, ele decide dispensar o prefeito pretoriano do Oeste Vulcácio Rufino, que era tio de Galo e meio-irmão de sua mãe Gala, e substitui-o por alguém mais confiável, um dos conspiradores contra Galo.


