Cladística
A Cladística, também conhecida como sistemática filogenética, é uma abordagem da Sistemática Biológica que agrupa espécies ou táxons exclusivamente com base em suas relações evolutivas. Fundamentada por Willi Hennig, ela defende que a classificação deve expressar a história evolutiva, independentemente das semelhanças ou diferenças morfológicas. Segundo a Cladística, todos os grupos devem ser monofiléticos, ou seja, incluir o ancestral comum mais recente e todos os seus descendentes, excluindo grupos parafiléticos e polifiléticos.
Pontos-chave
- A Cladística classifica organismos com base unicamente em suas relações evolutivas.
- Willi Hennig foi o entomólogo que formulou os princípios fundamentais da Cladística.
- Uma classificação cladística exige que todos os grupos sejam monofiléticos, incluindo o ancestral comum e todos os seus descendentes.
- Grupos parafiléticos e polifiléticos não são aceitos na classificação cladística.
- A Cladística prioriza a história evolutiva sobre semelhanças superficiais na organização dos táxons.
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As ideias que deram origem à Cladística foram desenvolvidas pelo entomólogo alemão Willi Hennig, nascido em Dürrhennersdorf em 20 de abril de 1913. Ele as apresentou inicialmente em sua obra 'Grundzüge einer Theorie der Phylogenetischen Systematik' (1950). Apesar de ter sido utilizada por pesquisadores por mais de 50 anos, a Cladística só se popularizou e se tornou quase universalmente aceita nas últimas duas décadas. Essa demora na difusão foi em grande parte devido à barreira do idioma alemão, que tinha pouca representatividade no cenário científico da época. O reconhecimento da Sistemática Filogenética só ocorreu 15 anos após sua criação, em 1966, com a publicação de 'Phylogenetic Systematics', uma versão revisada e mais acessível do livro de 1950, escrita por Hennig e traduzida para o inglês. A partir dessa obra, o trabalho de Hennig ganhou maior projeção, especialmente nos últimos 10 anos, com um aumento significativo de estudos e livros focados na sistemática filogenética e uma ampla aceitação de sua estrutura teórica por novas gerações de biólogos, evidenciando a grande influência desse método.
A Cladística baseia-se no princípio de que a classificação dos organismos deve refletir suas relações evolutivas, ou seja, o quão recente é o ancestral comum. Espécies com um ancestral comum mais recente são agrupadas em um táxon de nível inferior, enquanto um ancestral mais distante indica maior separação taxonômica. Esse processo é aplicado continuamente a espécies vivas e fósseis até que todas estejam contidas em um único grupo, abrangendo todos os descendentes do ancestral comum mais distante da vida. O princípio mais crucial é que todos os táxons em uma filogenia devem ser monofiléticos. Para a Cladística, os táxons não são inventados, mas correspondem a entidades históricas a serem descobertas. A estrutura de uma classificação deve refletir de forma precisa e inequívoca o conhecimento das relações de parentesco entre os táxons, permitindo que qualquer leitor recupere essa informação. Embora não haja uma única forma de criar classificações estritamente filogenéticas, a representação inequívoca das relações de parentesco é um requisito incontestável para qualquer filogeneticista.
Cladogramas: Árvores da Vida
O resultado de uma análise cladística é apresentado em forma de árvore ou cladograma, um dendrograma que hipotetiza as relações filogenéticas entre táxons. Essas análises podem usar diversas informações, como sequências de DNA (dados moleculares), dados bioquímicos e morfológicos. Em um cladograma, os organismos são posicionados nas extremidades dos ramos, e cada nó interno é idealmente binário, gerando dois táxons terminais, chamados táxons-irmãos ou grupos-irmãos. Cada subárvore é um clado, contendo organismos que compartilham um ancestral comum exclusivo. Os clados são definidos por características que aparecem em seus membros, mas não em formas que não divergiram, chamadas sinapomorfias (caracteres derivados compartilhados). Por exemplo, as asas anteriores endurecidas (élitros) são uma sinapomorfia dos besouros.
Apomorfias e Plesiomorfias
A Cladística se distingue por utilizar apenas caracteres apomórficos (derivados, 'diferentes da condição ancestral') em suas análises. Quando um caráter derivado é compartilhado por múltiplos grupos, é chamado de Sinapomorfia (do grego 'syn' = junto). Caracteres derivados que ocorrem em um único grupo são Autapomorfias e geralmente não são usados para determinar relações filogenéticas. Organismos também possuem caracteres ancestrais, ou primitivos, herdados sem modificações, denominados Plesiomorfias. Plesiomorfias compartilhadas por mais de um grupo são chamadas de Simplesiomorfia (onde 'sim' tem o mesmo significado de 'syn', ou seja, 'em conjunto').
Inferindo a 'Polaridade' de um Caráter
Identificar a 'polaridade' de um caráter (se é plesiomórfico ou apomórfico) é um desafio na análise cladística, que pode ser resolvido de duas maneiras principais: inferência direta por dados paleontológicos sobre o estado primitivo, ou uso de um 'grupo externo' (outgroup). Um grupo externo é um grupo próximo ao estudado, mas claramente distinto. Por exemplo, para determinar se a oviparidade é ancestral ou derivada em amniotas (que possuem o âmnion), pode-se usar salamandras, rãs e peixes como grupo externo. Como quase todas essas espécies externas são ovíparas, conclui-se que a oviparidade é ancestral nos amniotas.
Grupos Fósseis e a Cladística
Há algumas décadas, muitos filogeneticistas, incluindo Willi Hennig, duvidavam da possibilidade de concluir que uma espécie extinta fosse, de fato, ancestral. Atualmente, alguns autores admitem que, com uma reconstrução filogenética, dados de fósseis em estratos geológicos e uma reconstrução biogeográfica, é possível formular uma hipótese consistente de ancestralidade para uma espécie extinta em relação a um grupo monofilético conhecido. Contudo, tais hipóteses exigem muitos dados precisos e seriam refutadas pela primeira autapomorfia encontrada na espécie extinta. O acúmulo de informações detalhadas de fósseis em âmbar do Cretáceo e Terciário tem revolucionado a paleontologia tradicional, permitindo verificar detalhes morfológicos e dados indiretos de comportamento e biologia (itens alimentares, parasitas, comensais), conferindo um posicionamento filogenético muito mais seguro a essas espécies extintas.
Critério da Objetividade na Classificação
A objetividade é um critério para avaliar a qualidade de um método de classificação. Uma classificação objetiva representa uma propriedade natural real e livre de ambiguidades, em contraste com uma classificação subjetiva, baseada em propriedades arbitrárias escolhidas pelo taxonomista. Por exemplo, agrupar espécies pelo dia da semana em que foram descobertas é subjetivo, pois não há base teórica ou propriedade inerente aos indivíduos que justifique tal agrupamento. Nenhuma característica dos indivíduos 'da segunda-feira' os distingue dos 'da terça-feira', impedindo que diferentes pesquisadores racionais cheguem ao mesmo resultado de forma independente. A Cladística busca a objetividade ao basear-se em relações evolutivas, que são propriedades naturais dos organismos.


