Ciro Gomes
Ciro Ferreira Gomes é um advogado, professor universitário, escritor e político brasileiro, atualmente filiado ao Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), no qual é o presidente estadual no Ceará. Exerceu diversos cargos públicos de destaque, incluindo deputado estadual e federal pelo Ceará, prefeito de Fortaleza, governador do Ceará, ministro da Fazenda no Governo Itamar Franco — durante a implantação do Plano Real — e ministro da Integração Nacional no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, quando atuou na formulação do projeto de transposição do rio São Francisco.
Ciro Ferreira Gomes nasceu em Pindamonhangaba, interior de São Paulo, filho do cearense José Euclides Ferreira Gomes Júnior (1918-1996) e da paulista Maria José Santos (1928–2015). Em 1961, aos quatro anos de idade, a família de Ciro instalou-se em Sobral, Ceará, onde vivia toda a sua família paterna. Seu pai era defensor público e sua mãe professora. Em Sobral, Ciro concluiu o curso secundário em uma escola pública da cidade. Os Ferreira Gomes, na cidade de Sobral, sempre foram uma família de pequenos comerciantes ou funcionários públicos. Em 1975, José Euclides Ferreira Gomes, mesmo sem militância política, foi cogitado para ser prefeito de Sobral em um momento que a política da cidade se alternava entre as famílias Prado e Barreto.
Vida estudantil (1957–1982)
Aos 15 anos, Ciro venceu um prêmio literário sobre a vida e obra do poeta Luís de Camões. Após concluir o curso secundário em uma escola pública da cidade, transferiu-se para Fortaleza e ingressou em 1976 na Universidade Federal do Ceará (UFC), na faculdade de direito. Ciro foi aprovado em primeiro lugar no vestibular. Ciro também sempre revelou interesse por Futebol, sendo torcedor e sócio do Guarany de Sobral. Durante o período universitário, Ciro militou no grupo Habeas-Corpus, de acordo com seu depoimento no livro "No País dos Conflitos". Em 1979, disputou as eleições da União Nacional dos Estudantes (UNE), onde concorreu para vice-presidente na chapa Maioria. Em entrevista dada ao Roda Viva, em 1991, afirmou que, no movimento estudantil, se aproximava mais com a esquerda católica.
Em outubro de 2006, Ciro foi candidato a deputado federal pelo PSB. Elegeu-se o deputado proporcionalmente mais votado do país, com 667 830 votos. Em valores absolutos, foi o segundo mais votado no país, ficando atrás apenas de Paulo Maluf. Durante a legislatura, Ciro participou com destaque no começo da legislatura das articulações para eleição de presidente da Câmara dos Deputados. Na época, Ciro apoiou Aldo Rebelo (PCdoB-SP). O PT e o PMDB lançaram o nome de Arlindo Chinaglia (PT-SP), e PSDB lançou Gustavo Fruet (PSDB-PR), com o apoio da oposição. Chinaglia venceu no segundo turno. Para contrapor a hegemonia do Partido dos Trabalhadores, Ciro Gomes e Aldo Rebelo formaram um bloco composto por PSB, PDT e PCdoB. Ciro integrou a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara, as Comissões Especiais sobre Crise Econômico-Financeira e sobre as atividades de exploração e produção do pré-sal, além ter sido membro do grupo de trabalho de consolidação das leis brasileiras.
Deputado estadual (1983–1988)
Ciro disputou sua primeira eleição em 1982, para deputado estadual, tendo sido o deputado estadual mais votado na cidade de Sobral, onde obteve 11 600 votos. Foi candidato pelo Partido Democrático Social (PDS), que era o partido do pai. Defendeu nesta eleição o "voto camarão": recomendava vereadores, prefeitos e deputados, mas o voto em branco para senador e governador. Em 1983, Ciro filiou-se ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) e assumiu seu primeiro mandato de forma ousada: se manifestando inclusive contra o governador eleito pelo seu próprio partido, Gonzaga Mota. Ciro chamou a atenção da imprensa local por debater questões nacionais, democracia, reformas sociais, liberdades, e até geopolítica internacional, algo que segundo ele havia sido deixado de lado pelos políticos cearenses.
Prefeito e Governador (1989–1994)
Ciro assumiu a prefeitura da capital cearense em janeiro de 1989. De acordo com o jornal O Estado de S. Paulo, a gestão anterior deixou uma herança pesada, com serviços públicos paralisados, mas, de acordo com a mesma reportagem, em um ano ele reconstruiu a cidade. Colocou em funcionamento os serviços de limpeza e manutenção viária, de saúde e educação, além de pagar em dia o salário dos mais de 20 mil funcionários da cidade. Obteve, no ano seguinte, o melhor índice de aprovação entre todas as prefeituras das capitais brasileiras, atingindo 77% de ótimo/bom, de acordo com a Folha de S.Paulo. Ainda em seu mandato, implantou o primeiro IPTU progressivo do Brasil.
Ministro da Fazenda (1994–1995)
Em setembro de 1994, Ciro assumiu o Ministério da Fazenda, substituindo Rubens Ricupero que foi flagrado no Escândalo da parabólica. Como ministro, uma de suas medidas foi a redução da tarifa de importação de 445 produtos. Em uma de suas primeiras declarações como ministro, Ciro afirmou que existiam dois tipos de empresários no país: "os patrióticos, que merecem o nosso respeito, e os que sonegam, elevam os preços abusivamente e não merecem respeito de ninguém". Ciro também criticou os juros altos, e disse que o "melhor juro é o menor possível". Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, afirmou que pretendia equacionar os juros de modo que eles permitissem a produção e ao mesmo tempo evitassem a imprudência de provocar o consumo, garantindo que durante sua gestão, não iria admitir formação artificial de preços e especulação. Durante sua gestão à frente da pasta, foi responsável pela Medida Provisória 794/1994, que regulamentou a Participação nos Lucros e Resultados de empresas, substituída pela MP 980/1995, no governo de Fernando Henrique Cardoso. Criou a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), com o intuito de estabelecer um índice para os empréstimos do BNDES e remunerar o PIS/Pasep, FAT, e Fundo da Marinha Mercante.
Primeira candidatura à presidência (1998)
Foi membro do PSDB até 1996, quando filiou-se ao recém-criado PPS em setembro de 1997 (do antigo Partido Comunista Brasileiro, presidido por Roberto Freire — fundado em 19 de março de 1992), para concorrer à presidência da República em 1998. As eleições de 1998 foram as primeiras eleições que permitiam a reeleição, além de já vir acompanhada de uma crise econômica grave, estimulada pelo equilíbrio dos preços do Plano Real. De acordo com relato do jornalista Vicente Gentilli, em 1998, Fernando Henrique e a grande imprensa “uniram-se para evitar todo debate e os jornais praticaram um jornalismo anódino, insosso e inodoro”. Ainda segundo o jornalista, a imprensa decidiu não abriu discussões sobre programas de cada candidato, suas vantagens e desvantagens.
Segunda candidatura à presidência (2002)
No princípio das discussões em relação aos candidatos à presidência nas eleições presidenciais de 2002, Ciro defendia uma unidade das oposições no primeiro turno para enfrentar o candidato do Governo. Com esse propósito, conseguiu formar uma frente unindo PTB, PDT e PPS, a Frente Trabalhista. Foi um momento de muita alegria para Leonel Brizola, na época com 80 anos de idade. Na convenção nacional da Frente Trabalhista, realizada em Pindamonhangaba em junho de 2002, Leonel Brizola leu emocionado a Carta Testamento de Getúlio Vargas e disse que esperava por aquele momento por 22 anos. Em seu programa de Governo, Ciro defendeu câmbio flutuante, controle inflacionário e estabilidade. Afirmou que não haveria rupturas de contrato do governo anterior e nem quebra de direitos já adquiridos. No plano também afirmou que o Banco Central de seu governo seria profissional e não seria presa da especulação financeira. Como medida fundamental do seu modelo de crescimento econômico, previa a elevação da taxa de poupança do país através de uma simplificação e reforma do sistema tributário, reduzindo os tributos no setor produtivo e nos salários e eliminando os privilégios da especulação financeira. Essas reformas em conjunto permitiriam, de acordo com o programa, uma elevação do salário mínimo gradativa e continuamente. As propostas de política externa do Governo eram focadas em integração da economia brasileira na economia mundial, promovendo as exportações. A política de exportação reforçaria uma política industrial, que seria potencializada com uma coordenação entre o governo e as empresas privadas. Já em 2001, o projeto previa um aumento dos contatos com China e Índia, além da União Europeia e Mercosul. Na área de Habitação, os objetivos do programa eram resolver a dificuldade da compra da casa própria, regularizar a posse de terra em bairros mais pobres, e construir casas para famílias com renda até três salários-mínimos (uma espécie de Minha Casa Minha Vida).
Ministro da Integração Nacional (2003–2006)
Escolhido por Lula para comandar o Ministério da Integração Nacional, Ciro tinha como objetivo algumas tarefas de infraestrutura, principalmente na área de infraestrutura hídrica, mas a grande tarefa era articular iniciativas de todas as esferas do governo, visando equilibrar o desenvolvimento desigual no território brasileiro àquela época. As principais ações de Ciro Gomes frente ao Ministério foram a revitalização da SUDENE e da SUDAM, e avançar com a transposição do rio São Francisco. Ainda em seu primeiro ano à frente do ministério, Ciro foi admitido pelo presidente Lula à Ordem do Mérito Militar no grau de Grande-Oficial especial. Uma das promessas de Lula durante sua campanha era a recriação dos órgãos de desenvolvimento, visando retomar o papel estratégico do estado brasileiro. Ciro afirmou na época que o gap entre população e produção do PIB das regiões norte e nordeste do Brasil precisavam ser reduzidos. A proposta elaborada pelo Ministério da Integração Nacional faria com que a SUDAM e a SUDENE fossem geridas por conselhos deliberativos formados pela sociedade civil, governos estaduais, empresários, trabalhadores, ministros de estado e membros de agências de crédito. Isso teria como objetivo blindar as instituições contra corrupção, e os riscos dos empreendimentos seriam assumidos pelos operadores financeiros privados. O projeto de lei que recriava as agências ficou pronto em 2003, mas o seu funcionamento dependia de aprovação do Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional. A aprovação do fundo, no entanto, foi duramente negociada com governadores e suas bancadas no congresso. Os acordos feitos foram classificados por Ciro como um equívoco de projeções históricas, e os recursos deveriam ser utilizados em projetos de infraestrutura sob coordenação federal.
Professor universitário
No ano de 1985, Ciro Gomes foi professor de Direito Tributário na Unifor (Universidade de Fortaleza) e em 1979 foi professor de Instituições de Direito Público e Privado na Universidade do Vale de Aracaú (UVA). Judicael Pinho, que era o Coordenador de Curso de direito quando Ciro foi admitido professor na Universidade, afirmou à Folha que para ensinar a disciplina e ser admitido no curso "era necessário um amplo conhecimento da legislação tributária brasileira".
Visiting Scholar na Harvard Law School
Ciro candidatou-se para duas posições na Universidade de Harvard: Visiting Scholar na Law School de Harvard e Fellow no Center for International Affairs. Depois de ser aceito para ambos ele optou por ser Visiting Scholar na Harvard Law School. A posição de professor visitante se refere a um pesquisador de outra instituição que passa a ter acesso a estrutura da Harvard para realizar uma pesquisa, sem receber titulação de Harvard: "O programa ofertado aos visitantes dá acesso à estrutura da Faculdade de Direito (incluindo suas bibliotecas) para que estes possam conduzir pesquisas em temas aprovados enquanto residentes". Nesse mesmo período, passou a escrever aos domingos uma coluna para o Jornal do Brasil e publicou, junto com o professor Roberto Mangabeira Unger, o livro O Próximo Passo: uma alternativa prática ao neoliberalismo, traduzido inclusive para o espanhol. No livro, Ciro e Mangabeira criticam tanto o "nacional populismo do terceiro mundo", quanto o "defensivo e conservador modus operandi das sociais-democracias do primeiro mundo". Continuam, criticando "a adesão do Brasil ao neoliberalismo", o "abandono da tentativa de construção de uma civilização própria no país", e a "rejeição da concepção de que a história humana deve ser a história das grandes alternativas". O livro tem a proposta de provocar uma discussão no Brasil, propondo um caminho que se contraponha ao discurso neoliberal. A partir deste livro, Ciro Gomes começou a combater fortemente as "políticas de estado mínimo" e a defender um estado capaz de construir um planejamento de longo prazo, definindo políticas de desenvolvimento para o país.
Ciro Gomes apoia o nacional-desenvolvimentismo e o trabalhismo brasileiro. Em um discurso realizado em 2018, Ciro afirmou que a "primeira e mais urgente" tarefa no país é "gerar empregos, muitos milhares, milhões" e também que o Brasil precisa de um novo projeto de desenvolvimento para voltar a crescer e se reindustrializar, buscar afirmar a identidade brasileira como cultura e ainda investir em "nossa ciência e tecnologia".
Devido ao trabalho de seu pai como defensor público, a família viajou muito pelo país, tanto que Ciro, o filho mais velho da família e seu irmão, Lúcio Gomes, nasceram em Catarina no Ceará terra de seu pai. Aos quatro anos de idade, mudou-se para Sobral. Foi casado com Patrícia Saboya Gomes entre os anos de 1983 e 1999, sua aliada política, pedagoga, ex-deputada estadual e senadora pelo Ceará. Com ela, teve três filhos. Também foi casado com a atriz Patrícia Pillar, entre 1999 e dezembro de 2011. Em agosto de 2002, perguntado sobre a participação de sua mulher na campanha, Ciro disse que o papel seria "dormir comigo". Logo em seguida, refez a resposta: "Evidentemente eu estou brincando. Essa minha companheira tem uma longa tradição de manejar assuntos sociais, tem muita inteligência, muita sensibilidade". Ele foi criticado pela primeira afirmação, a qual continuou a ser utilizada pelos seus opositores anos depois. Para o Canal Livre, Ciro disse ter se desculpado pela frase, que teria sido uma "brincadeira de mau gosto", mais de uma vez. Patrícia comentou que guarda boas lembranças do casamento com Ciro, tendo declarado voto nele em 2018 e 2022.
Segundo um levantamento do jornal O POVO, Ciro responde a pelo menos 80 processos por danos morais no estado do Ceará, 37 deles movidos pelo emedebista Eunício Oliveira (MDB-CE). Fernando Collor e Eduardo Cunha também já moveram processos contra o ex-governador, o último por ter sido chamado de “o maior bandido do país”. Cunha teve seu processo arquivado contra Ciro. Um caso envolveu Jair Bolsonaro, que o processou após Ciro acusá-lo de lavagem de dinheiro em uma entrevista concedida a Rádio Jovem Pan, quando se referia a doação de R$ 200 mil do fundo partidário do Partido Progressista (PP) ao parlamentar. Ciro Gomes virou réu na ação em abril de 2019, mas Bolsonaro decidiu retirar a queixa posteriormente. Uma outra ação envolve João Dória, que o processou por "calúnia, difamação e injúria", após ser chamado de "farsante" durante uma Conferência Nacional do PDT. Na ocasião, o juiz responsável não viu configurada a prática dos dois primeiros crimes, remetendo a acusação de injúria para o juizado especial. Após Dória recorrer da decisão, o processo foi acatado e o pedetista tornou-se réu. Ciro Gomes também virou réu em dezembro de 2018 em uma outra ação movida por Dória, desta vez por declarações dadas em uma palestra na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Em sua defesa, Ciro alega que suas declarações são somente fruto da liberdade de expressão e que o tempo prova quem está certo.
Ciro Gomes é também autor de livros na área de economia política:


