Cidade Proibida
Cidade Proibida foi o palácio imperial da China desde meados da Dinastia Ming até ao fim da Dinastia Qing. Fica localizada no centro da antiga cidade de Pequim, acolhendo atualmente o "Palácio Museu". Durante quase 500 anos serviu como residência do Imperador e do seu pessoal doméstico, sendo o centro cerimonial e político do governo chinês.
O nome comum em português, "a Cidade Proibida", é a tradução do nome chinês Zijin Cheng (紫禁城), literalmente "Cidade Proibida Púrpura". Outro nome português de origem semelhante é "Palácio Proibido". Na língua manchu é chamado de Dabkūri dorgi hoton, que significa literalmente "Cidade Interior em Camadas". O nome "Zijin Cheng" é uma denominação imbuída de significado a vários níveis. Zi, ou "Púrpura", refere-se à Estrela do Norte, a qual antigamente era chamada na China de Estrela Ziwei, e na astrologia chinesa tradicional era a moradia do Imperador Celestial. A região celestial envolvente, as Três Delimitações (em chinês: 紫微垣; em pinyin: Zǐwēiyuán), era o reino do Imperador Celestial e da sua família. A Cidade Proibida, como residência do Imperador terreno, era seu correspondente na Terra. Jin, ou "Proibida", refere-se ao facto de ninguém poder entrar ou sair do palácio sem a permissão do Imperador. Cheng significa "Cidade Muralhada".
A História da Cidade Proibida estende-se por cerca de seis séculos, desempenhando o papel de palácio imperial durante 500 anos, desde a época do Imperador Yongle, terceiro soberano da Dinastia Ming, até ao final da Dinastia Qing, em 1911. Na década de 1920 foi transformado em museu, função que desempenha até à actualidade com o nome de "Palácio Museu".
Construção e Dinastia Ming
O lugar onde se ergue a Cidade Proibida fazia parte da cidade Imperial de Khanbaliq durante a Dinastia Yuan Mongol. O Imperador Hongwu, da Dinastia Ming, mudou a capital de Pequim, no Norte, para Nanjing, no Sul, e em 1369 ordenou que os palácios mongóis fossem arrasados. O seu filho Zhu Di foi feito Príncipe de Yan, com sede em Pequim. Em 1402, Zhu Di usurpou o trono e tornou-se no Imperador Yongle, fazendo de Pequim uma capital secundária do Império Ming. Em 1406 começou a construção do que viria a ser a Cidade Proibida. A construção durou quinze anos e empregou o trabalho de 100 mil mestres artesãos e de mais de um milhão de trabalhadores. Os pilares das mais importantes galerias foram feitos com madeira de preciosos Phoebe zhennan (chinês: 楠木, pinyin: nánmù) encontrados nas selvas do Sudoeste da China. Tal feito não se repetiria nos anos seguintes — os grandes pilares que se vêm actualmente foram reconstruídos, usando múltiplas peças de pinheiro, durante a Dinastia Qing. Os vastos terraços e grandes entalhes foram feitos em pedra vinda de pedreiras próximas de Pequim. As peças maiores não puderam ser transportadas convencionalmente. No entanto, foram escavadas cavidades ao longo do caminho, tendo a água transbordado para a estrada no intenso Inverno, formando uma camada de gelo. As pedras foram dragadas através do gelo.
Dinastia Qing
Em Outubro, os manchus adquiriram supremacia no Norte da China, e o Príncipe regente Dorgon proclamou a Dinastia Qing como sucessora da Ming. Foi realizada uma cerimónia na Cidade Proibida para proclamar o jovem Imperador Shunzhi como governante de toda a China. Os governantes Qing mantiveram amplamente o esquema do palácio da Dinastia Ming, exceptuando os nomes dos principais edifícios. Os nomes da Dinastia Ming favoreciam o carácter ji (em chinês tradicional: 極; em chinês simplificado: 极), o que significava "supremacia" ou "extremismo", enquanto que os novos nomes Qing davam relevância a nomes que significavam "paz" e "harmonia"; por exemplo, Huangji Dian, a "Galeria da Supremacia Imperial", foi alterado para Taihe Dian, a "Galeria da Harmonia Suprema".
Depois da Revolução
A oposição à permanência de Puyi no palácio cresceu durante o Governo Beiyang da República da China. Em 1923, Reginald Johnston, o professor inglês de Puyi, contou ao antigo Imperador que os eunucos contrabandeavam tesouros para fora do palácio e vendiam-nos em lojas de antiguidades. Puyi ordenou uma auditoria às colecções do palácio. Antes de isso começar, um incêndio consumiu os jardins do "Palácio da Prosperidade Estabelecida" (建福宫), onde estava armazenada a maior parte da colecção de arte do Imperador Qianlong. Nas suas memórias, Puyi afirmou que o fogo foi iniciado pelos eunucos para dissimular os seus desfalques. Este incêndio viria alimentar os sentimentos públicos contra a permanencia da ocupação do palácio por parte de Puyi. Os jardins só foram reconstruídos em 2005. Sun Yaoting, último eunuco da corte, morreu aos 94 anos, em 1996.
Sob a República Popular da China
Em 1949, a República Popular da China foi proclamada na praça da Paz Celestial, directamente em frente da Cidade Proibida. Durante as duas décadas seguintes foram feitas várias propostas de arrasar ou reconstruir a Cidade Proibida para criar um parque público, um interface de transportes ou "lugares de entretenimento". A Cidade Proibida sofreu alguns danos durante este período, incluindo o desmantelamento do trono na Galeria da Harmonia do Meio, a remoção das tabuletas de vários edifícios e jardins, e a demolição de alguns portões e estruturas de menor importância. Os danos atingiram o seu auge durante a Revolução Cultural. Em 1966, a Galeria do Culto aos Ancestrais foi modificada e alguns artefactos destruídos para permitir uma exibição de esculturas revolucionárias em terracota. No entanto, uma futura destruição foi prevenida quando o primeiro-ministro Zhou Enlai interveio enviando um batalhão do exército para guardar a cidade. Estas tropas também preveniram o saque por parte dos Guardas Vermelhos, que foram arrastados na tempestade para demolir as "Quatro Velharias" (Velhos Costumes, Velha Cultura, Velhos Hábitos e Velhas Ideias). Entre 1966 e 1971, todos os portões da Cidade Proibida foram selados, salvando-a de mais destruições.
Presente
Atualmente, o Palácio Museu é responsável pela preservação e restauro da Cidade Proibida. As construções em altura ao redor da Cidade Proibida estão restringidas. Em 2005, iniciou-se um projeto de restauro de dezesseis anos, para reparar e restaurar todos os edifícios da Cidade Proibida para os seus estado antes de 1912. Este é o maior restauro da Cidade Proibida empreendido nos últimos dois séculos, e envolve o encerramento progressivo das secções da Cidade Proibida para avaliação, reparações e restauro. Também no âmbito do projecto, algumas secções abandonadas ou destruídas serão reconstruídas. Os jardins do "Palácio da Prosperidade Estabelecia", destruídos num incêndio em 1923, foram reconstruídos em 2005, mas permanecem encerrados ao público. O interior também foi desenhado num estilo diferente, e os edifícios são utilizados por dignitários em visita.
A Cidade Proibida é o maior complexo palaciano sobrevivente no mundo, cobrindo uma área de 723 633 m² (0,0007 km², 0,178 acres, ou 0,00028 mi²). É constituído por um rectângulo com 961 metros de Norte a Sul e 753 metros de Leste a Oeste. Consiste em 980 edifícios sobreviventes com 8 707 secções de salas. A Cidade Proibida foi desenhada como o centro da antiga cidade muralhada de Pequim. Fica encerrada numa grande área muralhada chamada de "Cidade Imperial". A Cidade Imperial está, por suas vez, encerrada pela Cidade Interior; para Sul desta fica a Cidade Exterior. A Cidade Proibida mantém importância no esquema cívico de Pequim. O eixo central Norte-Sul permanece como o eixo central da capital chinesa. Este eixo estende-se para Sul através do Portão Tiananmen até à Praça da Paz Celestial, o centro cerimonial da República Popular da China. Para Norte, o eixo estende-se através das Torres Gulou e Zhonglou (Sino e Tambor), em direcção ao portão Yongdingmen.
Muralhas e portões
A Cidade Proibida está rodeada por uma muralha com 7,9 metros de altura e por um fosso com seis metros de profundidade e 52 metros de largura. As paredes têm 8,62 metros de largura na base, afunilando para 6,66 metros no topo. Estas muralhas serviram como paredes defensivas e de retenção para o palácio. Foram construídas com um coração de taipa, e recobertas com três camadas de tijolos especialmente cozidos, em ambos os lados, com os interstícios recheados com argamassa. Nos quatro cantos da muralha situam-se outras tantas torres ("E") com telhados intrincados ostentando 72 arestas, as quais reproduzem o Pavilhão do Príncipe Teng e o Pavilhão da Garça Amarela tal como apareciam nas pinturas da Dinastia Song. Estas torres são as partes mais visíveis do palácio para os plebeus no exterior das muralhas, e muito folclore foi ligado a elas. De acordo com uma lenda, os artesãos não puderam unir uma torre de canto depois desta ter sido desmantelada para renovações no início da Dinastia Qing, tendo esta sido reconstruída apenas depois da intervenção do carpinteiro-imortal Lu Ban.
Pátio Exterior
Tradicionalmente, a Cidade Proibida está dividida em duas partes; o Pátio Exterior (外朝), ou Pátio Frontal (前朝), que inclui as secções Sul e foi usado para propósitos cerimonias, e o Pátio Interior (内廷), ou Palácio Traseiro (后宫), que inclui as secções Norte e servia como residência do Imperador e da sua família, sendo ainda usado para os assuntos de Estado quotidianos. A linha imaginária, representada na planta acima, mostra a divisão aproximada dos dois pátios. Geralmente, a Cidade Proibida tem três eixos verticais. Os edifícios mais importantes situam-se no eixo central Norte-Sul. Entrando pelo Portão Meridiano encontra-se uma grande praça, perfurada pelo serpenteante Rio Interior de Água Dourada, o qual é atravessado por cinco pontes. Para lá da praça ergue-se o Portão da Suprema Harmonia ("F"). Mais além fica a Praça da Galeria da Suprema Harmonia A partir desta praça eleva-se um terraço em três camadas de mármore. No topo deste terraço erguem-se três galerias, o foco do complexo palatino. A partir do Sul sucedem-se, a Galeria da Harmonia Suprema (太和殿), a Galeria da Harmonia Central (中和殿) e a Galeria da Harmonia Preservada (保和殿).
Pátio Interior
O Pátio Interior está separado do Pátio Exterior por um pátio oblongo ligado de forma ortogonal ao eixo principal da Cidade Proibida. Este recinto era a casa do Imperador e da sua família. Na Dinastia Qing, o Imperador vivia e trabalhava quase exclusivamente no Pátio Interior, com o Pátio Exterior usado apenas para propósitos cerimoniai. No centro do Pátio Interior fica um outro conjunto de três galerias ("L"). A partir do Sul sucedem-se o Palácio da Pureza Celeste(乾清宮), a Galeria da União e o Palácio da Tranquilidade Terrena. Menores que as galerias do Pátio Exterior, as três galerias do Pátio Interior foram as residências oficiais do Imperador e da Imperatriz. O Imperador, representando o Yang e os Céus, ocupava o Palácio da Pureza Celeste. A Imperatriz, representando o Yin e a Terra, ocupava o Palácio da Tranquilidade Terrena. Entre eles ficava a Galeria da União, onde o Yin e o Yang se misturavam para produzir harmonia.
Religião
A religião era uma parte importante da Corte Imperial. Durante a Dinastia Qing, o Palácio da Harmonia Terrena tornou-se num local de cerimónia xamanista manchu. Ao mesmo tempo, a religião nativa chinesa, o Taoismo, continuou a ter um papel importante ao longo das Dinastias Ming e Qing. Existiam dois santuários taoistas, um no jardim imperial e outro na área central do Pátio Interior. Uma forma prevalente de religião no palácio era o Budismo tibetano, ou Lamaísmo. Um número de templos e santuários foi disperso por todo o Pátio Interior. A iconografia budista também proliferou nas decorações interiores de muitos edifícios. Entre estes, o Pavilhão da Chuva e Flores é um dos mais importantes. Este alberga um grande número de estátuas budistas, ícones e mandalas, colocados em arranjos rituais.
Arredores
A Cidade Proibida está rodeada por jardins imperiais em três lados. Para Norte fica o Parque Jingshan, Também conhecido como Colina de Carvão, uma colina artificial criada com o solo extraído na construção do fosso e dos lagos vizinhos. Para Este fica o Zhongnanhai, um antigo jardim centrado em dois lagos ligados entre si, que serve actualmente como quartel-general do Partido Comunista da China e do Concelho de Estado da República Popular da China. Para Norte fica o Parque Beihai, igualmente centrado num lago ligado com os outros dois para Sul, o qual constitui um parque popular. A Sul da Cidade Proibida ficam dois importantes santuários; o Santuário Imperial de Família (chinês: 太庙, pinyin: Tàimiào) e o Santuário Imperial de Estado (chinês: 太社稷, pinyin: Tàishèjì), onde o Imperador venerava os espíritos dos seus ancestrais e o espírito da nação, respectivamente. Actualmente, estes constituem a Galeria Cultural do Povo Trabalhador de Pequim e o Parque Zhongshan (comemorativo do Sun Yat-sen) respectivamente.
Simbolismo
O desenho da Cidade Proibida, do seu esboço geral ao mais pequeno detalhe, foi meticulosamente planeado para reflectir os princípios filosóficos e religiosos, e sobre todos os simbolismos a majestade do poder Imperial. Entre os mais notáveis exemplos simbólicos incluem-se:
As colecções do Palácio Museu são baseadas na colecção imperial Qing. De acordo com os resultados de uma auditoria de 1925, cerca de 1,17 milhões de elementos foram guardados na Cidade Proibida. Adicionalmente, as bibliotecas imperiais acolhem uma das maiores colecções de livros antigos e vários documentos do país, incluindo documentos governamentais das dinastias Ming e Qing. A partir de 1933, a ameaça da invasão japonesa forçou à evacuação das partes mais importantes da colecção do museu. Depois do final da Segunda Guerra Mundial, esta colecção voltou para Nanjing. No entanto, com a vitória iminente dos Comunistas na Guerra Civil Chinesa, o governo Nacionalista decidiu embarcar uma selecção desta colecção para Taiwan. Das 13 427 caixas de artefactos evacuados, 2 972 estão agora alojadas no Palácio Museu Nacional, em Taipei. Quase dez mil caixas regressaram a Pequim, mas 2 221 permanecem armazenadas sob administração do Museu de Nanjing.
A Cidade proibida, o culminar do desenvolvimento de duzentos anos de arquitectura clássica Chinesa e do Este Asiático, tem tido influência no desenvolvimento subsequente da arquitectura chinesa, assim como tem servido de fonte de inspiração para várias construções modernas. Alguns exemplos específicos da sua influência são: A Cidade Proibida tem servido de cenário para vários trabalhos de ficção. Em anos recentes, tem sido apresentado em vários filmes e séries televisivas. Entre os exemplos mais notáveis incluem-se: A Cidade Proibida também tem servido como local de actuação. No entanto, o seu uso para este propósito é estritamente limitado devido ao pesado impacto dos equipamentos e das actuações nas antigas estruturas. Quase todas as actuações anunciadas como sendo "na Cidade Proibida" realizam-se, na verdade, fora das muralhas do palácio.


