Chiquinha Gonzaga
Francisca Edviges Neves Gonzaga, mais conhecida como Chiquinha Gonzaga, foi uma compositora, instrumentista, maestrina e abolicionista brasileira.
Família e primeiros anos
Chiquinha nasceu no Rio de Janeiro, em 1847. Era filha de José Basileu Neves Gonzaga (1817 - 1891), então major do Exército Imperial Brasileiro, e de Rosa de Lima Maria — esta, filha de Tomásia, uma mulher preta escravizada. Ainda muito nova, Rosa começou a se relacionar com José Basileu, proveniente de uma ilustre e rica família. Ela engravidou de Basileu pela primeira vez aos 15 anos e aos 16 já era mãe de Mamede. Basileu reconhecia os filhos apenas durante ou depois do batismo. Em seguida nasceria Joana. Chiquinha, além dos dois irmãos mais velhos, tinha também mais quatro irmãos mais novos: Juca (José Basileu Filho), com nove anos, José Carlos, com dois anos, e o recém-nascido Feliciano. Os irmãos Mamede e Joana, nascidos antes, e Tomásia, nascida em 1853, parecem não ter vingado, pois não se tem mais notícias deles nas memórias da família. O casal ainda teria mais tarde Rosa, Joana e Nicolau Tolentino.
Casamento
Desde pequena, Chiquinha revelara temperamento firme, personalidade decidida e espírito inquieto e é provável que seus familiares alimentassem a ideia de que o casamento daria jeito na moça inquieta. Não se sabe quem escolheu o marido de Chiquinha, mas sabe-se que ela não teve qualquer participação na escolha. Jacinto Ribeiro do Amaral, nascido no Rio de Janeiro em 11 de setembro de 1839, era filho de Miguel Ribeiro do Amaral, português, e de Maria Isabel da Rosa Amaral, carioca, sendo oito anos mais velho que ela. Na ocasião do casamento, o pai do rapaz, comendador e proprietário de terras na Ilha do Governador, já era falecido. A cerimônia ocorreu às cinco horas da tarde do dia 5 de novembro de 1863, com solenidade na Igreja de Sant'Ana, no centro do Rio de Janeiro. Chiquinha agora se chamava Francisca Edviges Gonzaga do Amaral. O dote de seu pai foi um piano. Chiquinha levava uma vida de conforto, cercada de escravos, mas a vida doméstica não lhe aprazia. Era apenas ao piano que Chiquinha se sentia confortável e Jacinto logo começou a exigir que ela deixasse a música de lado.
Guerra do Paraguai
A Guerra do Paraguai eclodiu em 1864, mas apenas no ano seguinte o Brasil se envolveu. Sem contar com uma reserva regular de soldados, o governo passou a simpatizar com a ideia da alforria aos escravos. Senhores das províncias, ordens religiosas, comendadores e outros libertaram milhares de escravos que se tornaram "voluntários da pátria" e foram para o Paraguai. Jacinto tornou-se coproprietário de um navio mercante, o São Paulo, e em junho de 1865 o navio foi fretado pelo governo para auxiliar no transporte. Como comandante da Marinha Mercante, Jacinto começou a realizar viagens ao sul. Na esperança de corrigir o comportamento de Chiquinha, ele decidiu levá-la em tais viagens, de maneira a afastá-la do piano. Em 1866, o São Paulo fez duas expedições para o acampamento do Passo da Pátria, na foz do rio Paraguai. Transportava parte do II Corpo do Exército, como armas, soldados e escravos, e também levava Chiquinha e seu filho João Gualberto.
Separação
A reação da parte de seus pais foi bastante rígida. Seu pai considerou Chiquinha morta e seu nome era impronunciável dentro de casa. Ela não teve autorização de criar os filhos. João Gualberto ficou com Jacinto, Maria foi criada pelos avós e Hilário foi morar com uma tia paterna. Chiquinha tinha 23 anos nesta época. Não se sabe quando Chiquinha conheceu o engenheiro João Batista de Carvalho, amigo da família Gonzaga e frequentador da casa dos Amaral. Cogita-se que a paixão entre eles tenha surgido quando Chiquinha ainda vivia com Jacinto. O que se sabe é que eles tinham os mesmos interesses pela música e pela dança. Carvalhinho, como era conhecido na sociedade, era um homem jovem, apenas três anos mais velho que Chiquinha. A fim de evitar um escândalo na corte, Chiquinha partiu com ele para fora da cidade. A Estrada de Ferro Mogiana estava em construção e o casal se mudou para o interior de Minas Gerais, onde moravam em acampamentos e canteiros de obra.
A época em que Chiquinha fez sua estreia profissional no mundo artístico era de uma profunda transformação na sociedade carioca. A vida pública era de grande efervescência. Os esforços de guerra aumentaram a dívida externa do país, sobretudo com a Inglaterra, fornecedora de armas e capitais. Ideias abolicionistas e republicanas começaram a chegar às classes mais baixas da sociedade, principalmente aos negros alforriados. O café começou a perder sua importância nas exportações e se instaurou uma crise institucional. Surgiram agremiações e associações artísticas, literárias, acadêmicas, políticas, cada uma advogando por suas próprias campanhas e por reformas. Discussões sobre a escravidão surgiram nas ruas e as leis do Ventre Livre (1871) e dos Sexagenários (1885) não satisfizeram as amplas parcelas da população empenhadas na causa. Surgiram clubes políticos, grêmios literários, associações recreativas, ligas abolicionistas, grupos de choro, sociedades carnavalescas, órgãos populares e distantes do aparelho de Estado.
Parceria com Callado
Com a noite carioca precisando de profissionais, tocar em confeitarias e teatros era um caminho para muitos músicos. Com a fusão de gêneros musicais consagrados, como a polca com o africano lundu, surgiram novas oportunidades tanto de músicas quanto de dança. Mas foi com o surgimento do choro que as oportunidades para Chiquinha surgiram. Recorrendo ao amigo e admirador Joaquim Callado, Chiquinha pediu ajuda para conseguir alunos, mas logo se tornou compositora. Em fevereiro de 1877, a polca Atraente foi publicada. A composição foi feita durante um choro na casa do compositor, professor e maestro Henrique Alves de Mesquita (1830-1906), à rua Formosa, atual General Caldwell, durante uma reunião informal que juntara os famosos músicos da época. Chiquinha sonhara com a melodia, mas seu trabalho como professora e pianista não lhe deixara tempo para escrever a música. Cantarolou e assobiou a música pelas ruas para que não lhe escapasse.
Teatro
Pouco depois da morte de Callado chegou ao Rio de Janeiro Carlos Gomes. Os amigos de Callado decidiram organizar um evento em homenagem ao maestro brasileiro e verter a receita arrecadada para socorrer a viúva de Callado, que tinha morrido na pobreza. Chiquinha conheceu Carlos Gomes nesta época. Ainda dava aulas particulares, mas passava por muitas dificuldades, já que a venda de suas músicas ainda não era suficiente para seu sustento. Ainda que a aproximação de Carlos Gomes em nada tenha lhe ajudado, Chiquinha logo percebeu que o teatro era um caminho para sua popularização. Novas camadas sociais vinham frequentando os teatros em busca de gêneros musicados, diferente das classes mais abastadas que preferiam o lírico e o drama.
Política
A década de 1880 foi marcada por uma efervescência intelectual, artística e política mais acentuada que a da década anterior. Manifestações populares e revoltas se multiplicavam. A campanha pela abolição da escravidão avançava consideravelmente com base em decisiva mobilização popular e Chiquinha se envolveu na causa abolicionista. Vendendo suas partituras de porta em porta, Chiquinha levantou o dinheiro necessário para a alforria de um escravizado que conhecia, Zé Flauta. Chiquinha também participava de outras maneiras, varrendo teatro, pregando cartazes, participando dos comícios e eventos, ouvindo discursos, usando sua fama para atrair apoiadores. Com a assinatura da abolição em 13 de maio de 1888, Chiquinha prestou uma homenagem à princesa Isabel, compondo um hino para coro e piano. Chiquinha também foi signatária da subscrição popular realizada para doar à regente a pena de ouro com que assinou a Lei Áurea.
Família
Nesta época, José Basileu adoeceu. Pouco antes da proclamação da República, Basileu foi exonerado como chefe de seção da repartição do quartel-general e logo depois reformado compulsoriamente no posto de marechal de campo já na República. Chiquinha soube que seu pai estava doente por seu irmão Juca, que seguira carreira diplomática e abandonara a mulher por uma inglesa, com quem vivia quase todo o tempo no exterior. Chiquinha sempre quis se reconciliar com o pai e esperava que no leito de morte talvez ele a perdoasse. Junto do irmão, ela foi até a casa do pai e ficou na calçada, esperando a permissão para entrar. Juca avisou José Basileu que Chiquinha aguardava para tomar a bênção e se despedir. Mas, ressentido, Basileu disse que sua filha Chiquinha estava morta havia muito tempo.
Ó Abre Alas
Com a proibição do entrudo, em 1853, pelo chefe de polícia, o Carnaval tal como se conhece hoje começou a tomar forma. Mas a festividade não envolvia nem ritmo, nem melodia. Também não havia música. O país cantava uma paródia à opereta de Offenbach, chamada O Zé Pereira, que começou a ser tocada em seções. Porém, perto do fim do século, o que era popular nas ruas durante o Carnaval era o cordão. Surgido na década de 1880, tornou-se um fenômeno e no começo do século XX já existiam mais de 200 cordões entre a Urca e o Caju. Os cordões não tinham músicas próprias. Dançava-se nas ruas ao som de cantigas de roda, hinos patrióticos, canções folclóricas, trechos de óperas, árias de operetas, fados lirós, quadrinhas musicadas na hora e até marchas fúnebres. Em algum momento perto do fim do século, os cordões passaram a entoar algumas canções, muitas vezes de improviso, e era comum eles utilizarem a marcha, com versos que pediam para abrir alas e apresentando o nome do cordão que estava passando.
Romance com João Batista
Em 1899, aos 52 anos, Chiquinha Gonzaga já era um nome famoso e estabelecido na música carioca. A convite de José Vasco Ramalho Ortigão, presidente do Clube Euterpe, Chiquinha tornou-se sócia honorária da agremiação. Frequentada por jovens interessados em música, o clube organizava concertos e soirées literomusicais, além de oferecer cursos de diversos instrumentos. Foi neste lugar que Chiquinha conheceu João Batista Fernandes Lage, de 16 anos. Como diretora de concertos da agremiação, João Batista foi colocado à sua disposição na qualidade de diretor de harmonia, para juntos organizarem um grande concerto. Os dois trocavam composições, fotos, e Chiquinha chegou a lhe dedicar duas músicas: a valsa Valquíria e o fado português Desejos.
Em seus últimos anos, alguns de seus filhos tentaram se aproximar. O único com quem Chiquinha mantinha um relacionamento mais próximos era João Gualberto, que vivia em São Paulo, onde estabelecera família com a jovem imigrante polonesa Vitalina Melinsky. Com ela tivera uma filha, Walda, nascida em 17 de janeiro de 1925. Em São Paulo, Gualberto tivera diversas ocupações, de classificador de café a corretor. Mantinha contato frequente com a mãe, que costumava viajar de trem para visitá-lo. Dos filhos, era o único que aceitava bem João Batista. Hilário vivia afastado da mãe e dos irmãos. Não tivera instrução e sobrevivia como sapateiro instalado em uma porta de aluguel no Méier morando com o pai, Jacinto, que perdeu a fortuna duas vezes. Jacinto terminou tendo o enterro pago por Chiquinha. Depois de se casar, Alice foi morar no interior do Rio Grande do Sul, na cidade de Alegrete, onde nasceram seus cinco filhos. Aos 28 anos, Alice ficou viúva, sozinha e sem saber como tomar conta dos negócios do marido, Israel, que lhe deixara uma loja, que logo passou para seu cunhado. Pouco tempo depois, ele decretou falência e Alice se viu sem nada. Lembrando-se da mãe ilustre, foi ao seu encontro no Rio de Janeiro e esperava contar com ela para criar seus filhos. Chiquinha, porém, se recusou a ajudá-la e Alice recorreu a uma tia paterna, na casa de quem se estabeleceu com os filhos. Seu pai, João Batista de Carvalho, acabou pobre e também terminou na casa da irmã.
Morte
Às seis da tarde de 28 de fevereiro de 1935, antevéspera do Carnaval, Chiquinha Gonzaga morreu, aos 87 anos. Ela foi sepultada no Cemitério do Catumbi.
Chiquinha Gonzaga já foi retratada como personagem no cinema, na televisão e no teatro. Dirigida por Jayme Monjardim, na minissérie Chiquinha Gonzaga (1999), na TV Globo, foi interpretada por Regina Duarte e Gabriela Duarte. No cinema, foi interpretada por Bete Mendes, no filme "Brasília 18%" (2006), dirigido por Nelson Pereira dos Santos, e por Malu Galli, no filme O Xangô de Baker Sreet, baseado no livro homônimo de Jô Soares. No teatro, foi homenageada na peça Ô Abre Alas, escrita por Maria Adelaide Amaral sob encomenda do Teatro Popular do SESI de São Paulo e cuja montagem ocorreu em 1983, com direção de Osmar Rodrigues da Cruz, cenografia de Flávio Império e tendo a atriz Regina Braga no papel principal. A peça e a montagem de São Paulo arrebataram vários prêmios: A segunda montagem da peça ocorreu em 1998 no Rio de Janeiro, em comemoração dos 150 anos de nascimento de Chiquinha Gonzaga, com encenação de Charles Möeller e direção musical de Claudio Botelho, tendo Rosamaria Murtinho no papel principal. Em São Paulo, essa segunda montagem, que retrata a vida da compositora dos 13 aos 87 anos, ficou em cartaz em 1999.
A Medalha de Reconhecimento Chiquinha Gonzaga, criada através do Projeto de Resolução 14/1999 pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro, é conferida a mulheres que militam em prol das causas democráticas, humanitárias, artísticas e culturais no âmbito da União, Estados e Municípios.


