Chinelagem
Chinelagem ou chinelice é uma expressão do regionalismo do Rio Grande do Sul, no Brasil, mais especificamente da região de Porto Alegre. Foi integrada a um socioleto de bandas de rock locais, indicando uma estética e uma ideologia baseadas no descompromisso e na rebeldia em relação às normas culturais dominantes.
Imagem: Henriq FS · BY-NC · Openverse
O conceito, segundo Luís Augusto Fischer, em seu Dicionário de Porto-Alegrês, provém de "chinelão", definido como "altamente depreciativo, um xingamento forte. Chamar alguém de chinelão equivale a dizer que o insultado é bagaceiro, pobre, mal arrumado, descomposto, mal educado, tudo isso junto. Também se usa, mais contemporaneamente, dizer chinelo, no mesmo sentido. Usa-se a forma feminina, também, chinelona". Daí que chinelagem seria os atributos e comportamento do chinelão. Fabricio Lopes da Silveira o define como derivado do hábito de andar de chinelos de dedo, mas com associações semelhantes, como sinal de uma atitude de desprendimento em relação às convenções sociais: "andar à vontade, descompromissar-se, não se preocupar, não se levar muito a sério; quer dizer alguma coisa mal feita ou feita sem muita dedicação. (...) [chinelão seria] alguém bagaceiro, tosco e vulgar, mal-arrumado, sem educação". Para Márcio Ezequiel, significa "atitude ou coisa de mau gosto. [...] É a tosqueira elevada ao totalmente sem noção".
O termo foi apropriado por grupos de rock entre as décadas de 1980 e 1990, quando ocorreu uma grande proliferação de bandas e selos independentes em Porto Alegre, na intenção de significar essa atitude casual e despojada, baseada no à-vontade, no improviso, mas também na contestação dos costumes, que caracteriza a postura de bandas como Graforréia Xilarmônica, Comunidade Nin-Jitsu e Cascavelletes. Felipe Estivalet diz que "a chinelagem é um tipo de anti-profissionalismo", e acrescenta: "Desde os anos 80, a chamada cena underground caracterizou-se por um despojamento no tipo de produção tanto em termos de fonogramas, como na produção de shows, apoiada na caracterização do improviso ou no que muitas bandas e artistas definiam como a grande característica do rock independente gaúcho: a chinelagem". Júpiter Maçã usou o termo na música "Pictures and Paintings", incluída em A Sétima Efervescência, um dos seus álbuns mais marcantes, e que inicia assim: "Quero toda a sua chinelagem / Quero a metade do seu micro-ponto / [...] / Amei o seu estilo e o seu cabelo, curto e grudado na testa / Até parece que você não toma banho".


