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Che Guevara

Ernesto Guevara de la Serna, mais conhecido como Che Guevara, foi um revolucionário marxista, médico, escritor, guerrilheiro, diplomata e teórico militar argentino. Uma figura importante da Revolução Cubana, seu rosto estilizado tornou-se um símbolo contracultural de rebeldia e insígnia global na cultura popular.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 15/07/2026
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Primeiros anos

Infância e adolescência

Ernesto Guevara nasceu em 14 de maio de 1928[a] em Rosário, Argentina, filho de Ernesto Guevara Lynch e Celia de la Serna e Llosa. Em sua certidão consta a data 14 de junho, mas, segundo o livro do biógrafo Jon Lee Anderson, Che Guevara: A Revolutionary Life, sua mãe confiou a um amigo astrólogo que Che nasceu em 14 de maio de 1928. O engano foi feito para evitar o escândalo de já estar grávida de três meses antes do casamento. De acordo com essa explicação, os Guevara deixaram Buenos Aires durante a gravidez e depois foram intencionalmente para Rosário para evitar que descobrissem a verdadeira data do parto. Anderson apoia sua versão nos dados fornecidos por Julia Constenla, biógrafa de Celia, como resultado de suas conversas com ela e nas inconsistências da certidão de nascimento de Ernesto. Ernesto Guevara foi por vezes apresentado durante a sua vida como sietemesino, um termo que à época era considerado "o resultado de uma relação pré-matrimonial".

Interesses intelectuais e literários

Guevara aprendeu xadrez com seu pai e começou a participar de torneios locais aos 12 anos de idade. Durante a adolescência, ele era apaixonado por poesia, especialmente a de Pablo Neruda, John Keats, Antonio Machado, Federico Garcia Lorca, Gabriela Mistral, César Vallejo e Walt Whitman. Também poderia recitar "If-" de Rudyard Kipling e Martín Fierro de José Hernández com facilidade. Com mais de 3 mil livros em sua casa, Guevara tornou-se um leitor entusiasta e eclético, interessado em Karl Marx, William Faulkner, André Gide, Emilio Salgari e Júlio Verne. Além disso, ele admirava as obras de Jawaharlal Nehru, Franz Kafka, Albert Camus, Vladimir Lenin e Jean-Paul Sartre; bem como Anatole France, Friedrich Engels, H. G. Wells e Robert Frost.

Viagens pela América Latina

Em 1948, Guevara entrou na Universidade de Buenos Aires para estudar medicina. Sua "fome de explorar o mundo" levou-o a intercalar suas atividades acadêmicas com duas longas viagens introspectivas que mudaram fundamentalmente a maneira como ele enxergava a si próprio e as condições econômicas contemporâneas da América Latina. A primeira expedição em 1950 foi uma viagem solo de 4,5 mil quilômetros através das províncias rurais do norte da Argentina em uma bicicleta na qual ele instalou um pequeno motor. Em 1951, iniciou uma viagem de motocicleta continental de nove meses e 8 mil quilômetros por parte da América do Sul. Para esta última viagem, ele tirou um ano de folga de seus estudos para embarcar com seu amigo Alberto Granado, com o objetivo final de passar algumas semanas como voluntário no leprosário San Pablo no Peru, às margens do rio Amazonas.

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Guatemala, Árbenz e United Fruit

Em 7 de julho de 1953, Guevara partiu novamente, desta vez para uma viagem pela Bolívia, Peru, Equador, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras e El Salvador. Em 10 de dezembro de 1953, antes de partir para a Guatemala, ele enviou uma carta para sua tia Beatriz de San José, Costa Rica. Nela, Guevara falava em atravessar o domínio da United Fruit Company, uma jornada que o convenceu de que o sistema capitalista da companhia era terrível. Esta carta afirmava o tom mais agressivo que ele adotou para assustar seus parentes mais conservadores e terminava com Guevara jurando a uma imagem de Josef Stalin que não iria descansar até que esses "polvos tenham sido vencidos". Mais tarde naquele mês, chegou à Guatemala, onde o presidente Jacobo Árbenz liderou um governo democraticamente eleito que, por meio da reforma agrária e outras iniciativas, tentava acabar com o sistema latifundiário. Para conseguir isso, o Presidente Árbenz promulgou um importante programa de reforma agrária, no qual todas as porções não cultivadas de grandes propriedades de terra seriam desapropriadas e redistribuídas para os camponeses sem terra. A maior proprietária de terra, e uma das mais afetadas pelas reformas, foi a United Fruit Company, da qual o governo Árbenz já havia tomado mais de 225 mil acres de terras não cultivadas. Satisfeito com o rumo que a nação estava tomando, Guevara decidiu estabelecer-se na Guatemala para "aperfeiçoar-se e realizar o que for necessário para se tornar um verdadeiro revolucionário".

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Cidade do México e preparação

Guevara chegou à Cidade do México em 21 de setembro de 1954 e trabalhou na seção de alergia do Hospital Geral e no Hospital Infantil do México. Além disso, deu palestras na Faculdade de Medicina da Universidad Nacional Autónoma de México e trabalhou como fotógrafo de notícias para a Prensa Latina. Sua primeira esposa, Hilda, observou em suas memórias My Life with Che, que por um tempo, Guevara considerou ir trabalhar como médico na África e que ele continuou profundamente perturbado pela pobreza ao seu redor. Em um exemplo, Hilda descreveu a sua obsessão com uma lavadeira idosa que ele estava tratando, observando que ele a via como "representante da classe mais esquecida e explorada". Mais tarde, Hilda encontrou um poema que Che havia dedicado à idosa, contendo "uma promessa de lutar por um mundo melhor, por uma vida melhor para todos os pobres e explorados". Durante esse tempo, ele renovou sua amizade com Ñico López e os outros exilados cubanos que ele havia conhecido na Guatemala. Em junho de 1955, López apresentou-o a Raúl Castro, que posteriormente o apresentou a seu irmão mais velho, Fidel Castro, o líder revolucionário que havia formado o Movimento 26 de Julho e agora planejava derrubar a ditadura de Fulgencio Batista. Durante uma longa conversa com Fidel na noite de seu primeiro encontro, Guevara concluiu que a causa cubana era aquela pela qual ele estivera procurando e, antes do amanhecer, ele se inscrevera como membro do Movimento 26 de Julho. Apesar de suas "personalidades contrastantes", a partir de então Che e Fidel começaram a fomentar o que o biógrafo Simon Reid-Henry considerou uma "amizade revolucionária que mudaria o mundo", como resultado de seu compromisso coincidente com o anti-imperialismo.

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Revolução Cubana

Invasão, guerra e Santa Clara

O primeiro passo no plano revolucionário de Castro foi um assalto a Cuba vindo do México, através do Granma, um antigo cruzador de cabine com vazamentos. Eles partiram para Cuba em 25 de novembro de 1956. Atacados pelos militares de Batista logo após o desembarque, muitos dos 82 homens foram mortos no ataque ou executados após a captura; apenas 22 se encontraram depois. Durante este sangrento confronto inicial, Guevara largou seus suprimentos médicos e pegou uma caixa de munição deixada por um companheiro em fuga, provando ser um momento simbólico em sua vida. Apenas um pequeno bando de revolucionários sobreviveu para se agrupar como uma força de combate nas profundezas das montanhas da Sierra Maestra, onde receberam apoio da rede de guerrilha urbana de Frank País, do Movimento 26 de Julho e de camponeses locais. Com o grupo se retirando para a Sierra Maestra, o mundo se perguntou se Castro estaria vivo ou morto até o começo de 1957, quando a entrevista de Herbert Matthews apareceu no The New York Times. O artigo apresentava uma imagem quase mítica e duradoura para Castro e os guerrilheiros. Guevara não estava presente para a entrevista, mas nos meses seguintes ele começou a perceber a importância da mídia em sua luta. Enquanto isso, como os suprimentos e a moral diminuíram, e com uma alergia a picadas de mosquito que resultou em agonizantes cistos do tamanho de nozes em seu corpo, ele considerou estes "os dias mais dolorosos da guerra".

La Cabaña, reforma agrária e alfabetização

A primeira grande crise política surgiu sobre o que fazer com os funcionários capturados de Batista que perpetraram o pior da repressão. Durante a rebelião contra a ditadura de Batista, o comando geral do exército rebelde, liderado por Fidel Castro, introduziu nos territórios sob seu controle a lei penal do século XIX, comumente conhecida como Ley de la Sierra (Lei da Serra). Essa lei incluía a pena de morte para crimes graves, perpetrados pelo regime de Batista ou por partidários da revolução. Em 1959, o governo revolucionário estendeu sua aplicação para toda a república e àqueles que considerava criminosos de guerra, capturados e julgados após a revolução. De acordo com o Ministério da Justiça cubano, esta medida foi apoiada pela maioria da população e seguiu o mesmo procedimento dos julgamentos de Nuremberg realizados pelos Aliados após a Segunda Guerra Mundial.

Influência ideológica marxista

O mérito de Marx é que ele de repente produz uma mudança qualitativa na história do pensamento social. Interpreta a história, compreende sua dinâmica, prevê o futuro, mas além de predizer isso (o que satisfaria sua obrigação científica), ele expressa um conceito revolucionário: o mundo não deve apenas ser interpretado, deve ser transformado. O homem deixa de ser escravo e instrumento de seu ambiente e se converte no arquiteto de seu próprio destino. Em setembro de 1960, quando Guevara foi questionado sobre a ideologia cubana no Primeiro Congresso Latino-Americano, ele respondeu: "Se me perguntassem se nossa revolução é comunista, eu a definiria como marxista. Nossa revolução descobriu por seus métodos os caminhos que Marx apontou". Consequentemente, ao promulgar e defender a política cubana, ele citou o filósofo político Karl Marx como sua inspiração ideológica. Ao defender sua posição política, comentou com confiança: "Há verdades tão evidentes, tão importantes no conhecimento das pessoas, que agora é inútil discuti-las. Deve-se ser marxista com a mesma naturalidade com que se é "newtoniano" na física, ou "pasteuriano" na biologia". Segundo ele, os "revolucionários práticos" da Revolução Cubana tinham como meta "simplesmente cumprir as leis previstas por Marx, o cientista". Usando as previsões de Marx e o sistema de materialismo dialético, comentou que "As leis do marxismo estão presentes nos eventos da Revolução Cubana, independentemente do que seus líderes professam ou conheçam sobre essas leis do ponto de vista teórico".

Visão econômica e o "homem novo"

O homem realmente alcança sua condição humana plena quando produz sem ser compelido pela necessidade física de se vender como mercadoria. Nesta fase, Guevara adquiriu a posição adicional de ministro da Fazenda, bem como de presidente do Banco Nacional. Essas nomeações, combinadas com sua posição atual como Ministro das Indústrias, o colocaram no auge de seu poder, como o "czar virtual" da economia cubana. Como consequência de sua posição à frente do banco central, tornou-se seu dever assinar a moeda cubana. Em vez de usar seu nome completo, ele assinava nas contas simplesmente "Che". Foi através desse ato simbólico, que horrorizou muitos no setor financeiro cubano, que o revolucionário sinalizou seu desgosto pelo dinheiro e as distinções de classe que ele provocou. Seu amigo de longa data, Ricardo Rojo, comentou mais tarde que "no dia em que assinou Che nas contas, literalmente derrubou os adereços da crença generalizada de que o dinheiro era sagrado".

Baía dos Porcos e crise dos mísseis

Em 17 de abril de 1961, 1,4 mil exilados cubanos treinados nos EUA invadiram Cuba durante a invasão da Baía dos Porcos. Guevara não desempenhou um papel fundamental nos combates, pois um dia antes da invasão, um navio de guerra que levava fuzileiros navais simulou uma invasão na costa oeste de Pinar del Río e atraiu forças comandadas por ele para aquela região. No entanto, os historiadores dão a ele uma parcela de crédito pela vitória, já que ele era diretor de instrução das forças armadas de Cuba na época. O autor Tad Szulc, em sua explicação da vitória cubana, atribui crédito parcial a Guevara, afirmando: "Os revolucionários venceram porque Che Guevara, como chefe do Departamento de Instrução das Forças Armadas Revolucionárias encarregado do programa de treinamento das milícias, havia feito tão bem na preparação de 200 mil homens e mulheres para a guerra". Foi também durante esse acontecimento que ele foi baleado na bochecha quando sua pistola caiu do coldre e foi descarregada acidentalmente.

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Diplomacia internacional

Em dezembro de 1964, Che Guevara ascendeu como um "estadista revolucionário de estatura mundial" e, assim, viajou para a cidade de Nova Iorque como chefe da delegação cubana para falar nas Nações Unidas. Em 11 de dezembro de 1964, em um discurso de uma hora na ONU, criticou a incapacidade das Nações Unidas de enfrentar a "política brutal do apartheid" na África do Sul, perguntando: "As Nações Unidas não podem fazer nada para impedir isso?". Também denunciou a política discriminatória dos Estados Unidos em relação à população negra, afirmando: Aqueles que matam seus próprios filhos e os discriminam diariamente por causa da cor de sua pele; aqueles que deixam os assassinos de negros permanecerem livres, protegendo-os, e, além disso, punindo os negros porque exigem seus direitos legítimos como homens livres — como podem aqueles que fazem isso se considerarem guardiões da liberdade? Indignado, terminou seu discurso recitando a Segunda Declaração de Havana, decretando a América Latina como "uma família de 200 milhões de irmãos que sofrem as mesmas misérias". Esse "épico", declarou, seria escrito pelas "massas indígenas famintas, camponeses sem terra, trabalhadores explorados e massas progressistas". Para ele, o conflito era uma luta de massas e ideias, que seria levada a cabo por aqueles "maltratados e desprezados pelo imperialismo" que antes eram considerados "um rebanho fraco e submisso". Com este "rebanho", afirmou, "o capitalismo monopolista ianque" agora via seus "coveiros". Seria durante esta "hora de vindicação", declarou, que a "massa anônima" começaria a escrever sua própria história "com seu próprio sangue" e reivindicaria aqueles "direitos que foram ridicularizados por todos durante 500 anos". Guevara encerrou seus comentários à Assembleia Geral, levantando a hipótese de que essa "onda de ira" "varreria as terras da América Latina" e que as massas operárias que "giravam a roda da história" estavam agora, pela primeira vez, "despertando do longo e brutalizador sono ao qual haviam sido submetidos".

Argel, os soviéticos e China

Em Argel, Argélia, em 24 de fevereiro de 1965, Guevara fez a sua última aparição pública no cenário internacional, quando proferiu um discurso em um seminário econômico sobre a solidariedade afro-asiática. Ele especificou o dever moral dos países socialistas, acusando-os de cumplicidade tácita com os países ocidentais exploradores. Passou a delinear uma série de medidas que disse que os países do bloco comunista deveriam implementar a fim de realizar a derrota do imperialismo. Como revelado em seu último discurso público em Argel, ele passou a ver o hemisfério norte, liderado pelos EUA no Ocidente e a União Soviética no Oriente, como o explorador do hemisfério sul. Apoiou fortemente o Vietnã do Norte comunista na Guerra do Vietnã e incitou os povos de outros países em desenvolvimento a pegar em armas e criar "muitos Vietnãs". As denúncias de Che sobre a União Soviética tornaram-no popular entre intelectuais e artistas de esquerda da Europa Ocidental que perderam a fé nos soviéticos, enquanto a condenação do imperialismo e o apelo à revolução inspirou jovens estudantes radicais nos Estados Unidos, impacientes por mudanças sociais.

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Congo

No início de 1965 Guevara foi para a África para oferecer seu conhecimento e experiência como guerrilheiro para o conflito em curso no Congo. De acordo com o presidente argelino Ahmed Ben Bella, ele achava que a África era o elo fraco do imperialismo e, portanto, tinha um enorme potencial revolucionário. O presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, que manteve relações fraternas com Che desde a sua visita em 1959, viu o seu plano de lutar no Congo como "insensato" e advertiu que ele se tornaria uma figura "Tarzan", condenada ao fracasso. Apesar do aviso, Guevara viajou para o Congo usando o pseudônimo de Ramón Benítez. Ele liderou a operação cubana em apoio à Rebelião Simba, que emergiu durante a crise do Congo. Guevara, seu segundo comandante, Víctor Dreke, e 12 outros expedicionários cubanos chegaram ao Congo em 24 de abril de 1965, e um contingente de aproximadamente 100 afro-cubanos se juntou a eles logo depois. Por um tempo, colaboraram com o líder guerrilheiro Laurent-Désiré Kabila, que ajudou os partidários do presidente deposto Patrice Lumumba a liderar uma revolta fracassada meses antes. Como admirador do falecido Lumumba, Guevara declarou que seu "assassinato deveria ser uma lição para todos nós". A Guevara, que tinha um conhecimento limitado do suaíli e das línguas locais, foi atribuído a um intérprete adolescente, Freddy Ilanga. Ao longo de sete meses, cresceu a admiração de Ilanga por Guevara, que "mostrava o mesmo respeito aos negros como aos brancos". No entanto, Guevara logo se desiludiu com a pobre disciplina das tropas de Kabila e mais tarde o dispensou, afirmando que "nada me leva a acreditar que ele é o homem da hora".

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Bolívia

No final de 1966, a localização de Guevara ainda não era conhecida publicamente, embora representantes do movimento de independência de Moçambique, a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), relatassem que se encontraram com ele no final de 1966 em Dar es Salaam em relação a sua oferta para ajudar em seu projeto revolucionário, que foi rejeitada. Antes de partir para a Bolívia, alterou sua aparência raspando a barba e grande parte do cabelo, também pintando-o de cor cinza, ficando irreconhecível. Em 3 de novembro de 1966, chegou secretamente em La Paz em um voo de Montevidéu com o nome falso Adolfo Mena González, fazendo-se passar por um empresário uruguaio de meia-idade que trabalhava para a Organização dos Estados Americanos. Três dias depois de sua chegada à Bolívia, deixou La Paz para a região rural do sudeste do país para formar seu exército guerrilheiro. O seu primeiro acampamento base era localizado na floresta seca e montanhosa na remota região de Ñancahuazú. O treinamento no acampamento no vale de Ñancahuazú provou ser perigoso, e pouco foi conseguido para construir um exército guerrilheiro. A funcionária da Alemanha Oriental nascida na Argentina, Haydée Tamara Bunke Bider, mais conhecida por seu nome de guerra "Tania", foi instalada como agente principal de Che em La Paz.

Captura e morte

Félix Ismael Rodríguez, um exilado cubano que se tornou um agente da Divisão de Atividades Especiais da CIA, assessorou as tropas bolivianas durante a caçada a Guevara na Bolívia. Além disso, o documentário My Enemy's Enemy, de 2007, alega que o criminoso de guerra nazista Klaus Barbie aconselhou e possivelmente ajudou a CIA a orquestrar a eventual captura do revolucionário. Em 7 de outubro de 1967, um informante avisou as Forças Especiais da Bolívia sobre a localização do acampamento de guerrilha na garganta de Yuro. Na manhã de 8 de outubro, eles cercaram a área com dois batalhões, contando com 1,8 mil soldados e avançaram até o barranco, desencadeando uma batalha em que Guevara foi ferido e feito prisioneiro enquanto liderava um destacamento com Simeón Cuba Sarabia. Jon Lee Anderson, biógrafo de Che, relatou a história do sargento boliviano Bernardino Huanca: quando os Rangers Bolivianos se aproximaram, Guevara duas vezes ferido, com sua arma inutilizada, ergueu os braços em sinal de rendição e gritou aos soldados: "Não atire! Eu sou Che Guevara e valho mais para você vivo do que morto".

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Eventos posteriores

Após a sua execução, o corpo de Guevara foi amarrado aos patins de aterragem de um helicóptero e transportado para Vallegrande, onde foram tiradas fotografias dele deitado numa laje de cimento na lavandaria da Nuestra Señora de Malta. Várias testemunhas foram chamadas para confirmar sua identidade, entre elas o jornalista britânico Richard Gott, a única testemunha que o conhecera quando ainda estava vivo. Colocado em exibição, enquanto centenas de residentes locais passavam pelo corpo, o cadáver era considerado por muitos como representando um rosto "semelhante a Cristo", com alguns até mesmo aparando mechas de cabelo como relíquias divinas. Tais comparações foram estendidas ainda mais quando o crítico de arte britânico John Berger, duas semanas depois de ver as fotografias pós-morte, observou que elas se assemelhavam a duas pinturas famosas: A Lição de Anatomia do Dr. Tulp de Rembrandt e a Lamentação sobre o Cristo Morto de Andrea Mantegna. Havia também quatro correspondentes presentes quando o corpo de Guevara chegou a Vallegrande, incluindo Björn Kumm, do sueco Aftonbladet, que descreveu a cena em um 11 de novembro de 1967, exclusivo para o New Republic.

Recuperação dos restos mortais

No final de 1995, o general da reserva boliviano Mario Vargas revelou a Jon Lee Anderson, autor de Che Guevara: A Revolutionary Life, que o cadáver de Guevara estava perto de uma pista de Vallegrande. O resultado foi uma busca internacional pelos restos mortais, que durou mais de um ano. Em julho de 1997, uma equipe de geólogos cubanos e antropólogos forenses argentinos descobriu os restos de sete corpos em duas valas comuns, incluindo um homem com mãos amputadas (como Guevara). Oficiais do governo boliviano com o Ministério do Interior identificaram o corpo como sendo do revolucionário quando os dentes escavados "combinavam perfeitamente" com um molde de gesso dos seus dentes feito em Cuba antes de sua expedição congolesa. O "argumento decisivo" então chegou quando o antropólogo forense argentino Alejandro Inchaurregui inspecionou o bolso interno oculto de uma jaqueta azul desenterrada ao lado do cadáver sem mãos e encontrou um pequeno saco de tabaco para cachimbo. Nino de Guzman, o piloto de helicóptero boliviano que dera a Che um pequeno saco de tabaco, comentou mais tarde que "tinha sérias dúvidas" a princípio e "achava que os cubanos encontrariam ossos velhos e chamariam de Che"; mas "depois de ouvir sobre o saco de tabaco, não tenho dúvidas". Em 17 de outubro de 1997, os restos mortais de Guevara, juntamente com seis de seus companheiros combatentes, foram sepultados com honras militares em um mausoléu construído especialmente na cidade cubana de Santa Clara, onde ele havia comandado a vitória militar decisiva da Revolução Cubana.

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Legado

A descoberta dos restos mortais de Che ativou metonimicamente uma série de associações interligadas—rebelde, mártir, figura desonesta de uma aventura picaresca, salvador, renegado, extremista—nas quais não havia divisão fixa entre si. A atual opinião popular coloca Che em um contínuo que oscila entre vê-lo como um rebelde mal orientado, um filósofo guerrilheiro brilhante, um poeta-guerreiro lutando contra moinhos de vento, um guerreiro de bronze que lançou o desafio à burguesia, o objeto de fervor homenagem à sua santidade, ou um assassino em massa vestido com o disfarce de um anjo vingador, cujas ações estão imbricadas em violência—o arquétipo do terrorista fanático. A vida e o legado de Guevara permanecem controversos. As contradições percebidas de seu ethos em vários pontos de sua vida criaram um caráter complexo de dualidade, que era "capaz de empunhar a caneta e a submetralhadora com igual habilidade", enquanto profetizava que "a mais importante ambição revolucionária era ver o homem libertado de sua alienação". A posição paradoxal de Guevara é ainda mais complicada por sua gama de qualidades aparentemente opostas. Humanista secular e simpatizante da medicina que não hesitou em atirar em seus inimigos, um célebre líder internacionalista que defendia a violência para impor uma filosofia utópica do bem coletivo, um intelectual idealista que amava a literatura, mas se recusava a permitir a dissidência, um anti-imperialista e insurgente marxista que estava radicalmente disposto a forjar um novo mundo sem pobreza nas cinzas apocalípticas do antigo e, finalmente, um anticapitalista declarado cuja imagem foi mercantilizada. A história de Che continua a ser reescrita e recriada. Além disso, o sociólogo Michael Löwy alega que as muitas facetas da vida de Guevara (ou seja, médico e economista, revolucionário e banqueiro, teórico militar e embaixador, profundo pensador e agitador político) iluminou a ascensão do "mito de Che", permitindo-lhe ser invariavelmente cristalizado em seus muitos papéis metanarrativos como um "Robin Hood Vermelho, Don Quixote do comunismo, novo Garibaldi, o santo marxista justo, Cid Campeador dos miseráveis da terra, Sir Galahad dos mendigos… e o diabo bolchevique que assombra os sonhos dos ricos, acendendo braseiros da subversão todos sobre o mundo".

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Fontes consultadas

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