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Djerba

Djerba, Jerba ou Yerba, também chamada no passado Gerba, Girba, ou, em castelhano, Los Gelves, é uma ilha situada na costa mediterrânica do sul da Tunísia, com 514 km² de área. É a maior ilha costeira do Norte de África e situa-se a sudeste do golfo de Gabès, barrando a entrada do golfo de Boughrara. Tem cerca de 20 por 25 km e 150 km de costa. Em 2004, a ilha tinha 139 517 habitantes. Houmt Souk, a capital e única verdadeira cidade, tinha então 44 555 habitantes.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 20/07/2026
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Toponímia

Desde a Antiguidade que Djerba é identificada por alguns como a ilha dos Lotófagos (comedores de lotos), descrita na Odisseia de Homero,[d] o que está na origem de por vezes os habitantes da ilha serem chamados lotofágitas (ou Lotófagos; do grego antigo Λωτοφάγων νῆσος). Segundo o historiador e geógrafo tunisino Salah-Eddine Tlatli (1916–2008), até ao século II d.C. a ilha teve diversos nomes. No Périplo de Pseudo-Cílax, uma obra grega do século IV ou III a.C. aparece com o nome de Braquion (Βραχείων) ou "ilha dos baixios". Heródoto chamou-lhe Phlâ, Políbio, Teofrasto e todos os autores usaram o nome Meninx (Μῆνιγξ), que é também o nome de um sítio arqueológico situado no sudeste da ilha. Meninx ("terra das águas que se afastam") teria sido igualmente o nome dado à ilha pelos cartagineses, uma menção ao facto das marés de Djerba serem as mais altas do Mediterrâneo, um mar onde as marés são geralmente quase impercetíveis.

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Geografia

Localização

A ilha depende administrativamente da província de Médenine e situa-se a cerca de 500 km de Tunes por estrada (300 km em linha reta) e a pouco mais de 100 km de Gabès. As parte mais próximas do continente são Ajim, a sudoeste, onde o estreito tem dois quilómetros de largura, e El Kantara, a sudeste, onde o estreito tem seis quilómetros. El Kantara dista menos de 30 km de Zarzis. Na costa oriental, a praia de Mezraya (ou Sidi Mahrez) forma a península de Ras R'mal, um dos locais turísticos mais importantes da ilha. A área de Djerba é cerca de 514 km². Nas imagens por satélite, a forma da ilha assemelha-se a um dente molar gigante, em que as penínsulas de de Ajim, Ras Terbella e Bine El Oudiane representam as raízes. O comprimento máximo é 29,5 km e a maior largura 29 km. As suas costas estendem-se por 125 km, seguindo um traçado muito irregular. As três penínsulas marcam os pontos mais próximos do continente, que está separado da ilha por dois canais: o de Ajim, a sudoeste, com cerca de 4 km de comprimento e 2 km de largura, e o de El Kantara, com cerca de 12 km de comprimento e 6 km de largura (4 km na sua parte mais estreita). No canal de Ajim existem duas ilhotas: Elgataia Kbira et Elgataia Sghira.

Clima

O clima de Djerba é do tipo mediterrânico, com tendência para semiárido, pois encontra-se no cruzamento das massas de ar mediterrânicas e saarianas. A temperatura anual média é 19,8 °C, as médias mensais pouco ultrapassam os 30 °C e não descem abaixo de 8 °C. No verão, a média máxima chega aos 30,7 °C, mas o calor é atenuado pela brisa marítima, enquanto que no inverno as médias mensais são superiores a 12 °C. O escritor francês Emmanuel Grevin escrevia na década de 1930 a propósito das particularidades do clima de de Djerba: No seu romance histórico Salammbô, Gustave Flaubert coloca na boca de Mâtho, o protagonista a seguinte descrição de Djerba: «ilha coberta de pó de ouro, de verdura e de pássaros, onde as laranjeiras são altas como cedros […] onde o ar é tão doce que impede de morrer».

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História

Antiguidade

Desde a Antiguidade que os historiadores mencionam Djerba, que identificam como a primeira ilha onde, na Odisseia de Homero, Ulisses e os seus companheiros encalham enquanto andam perdidos no mar no regresso da Guerra de Troia (c. 1 185 a.C.). Por ter provado o lotos, «um fruto doce como o mel que mergulha todos os que o provam nas delícias de um feliz esquecimento que que apaga todas as preocupações da existência», Ulisses «que esse fruto milagroso tinha mergulhado numa feliz amnésia» resiste a deixar a ilha dos lotofagitas (comedores de lotos). Na Pré-história, o que é hoje a Tunísia eram territórios povoados por berberes com hábitos de vida do Neolítico. Vários especialistas, como Lucien Bertholon e Stéphane Gsell, admitiam a existência de migrações durante o 2º milénio a.C. entre o mar Egeu e o golfo das Sirtes (nome dado na Antiguidade ao conjunto dos golfos de Sirtes e de Gabès), onde se encontra Djerba. Ainda antes da fundação de Cartago, no século IX a.C., os fenícios de Tiro teriam impantado diversos entrepostos ao longo das costas do que são hoje a Líbia e a Tunísia, até Útica. Djerba fazia sem dúvida parte dessa rede de entrepostos fenícios. O Périplo de Pseudo-Cílax, escrito em meados do século IV a.C., contém as informações mais antigas sobre a ilha, à exceção das de Homero:

Idade Média

Após a Queda do Império Romano do Ocidente, Djerba foi invadida pelos Vândalos, a que se seguem os Bizantinos. Em 665 é tomada pelos Árabes comandados por Ruwayfa ibn Thâbit Al Ansari, um companheiro do profeta Maomé, durante a campanha de Bizacena liderada por Muawiya Ben Hudaydj. A ilha assiste então a lutas entre fações muçulmanas, acabando por se juntar aos Carijitas. No século XI, a ilha torna-se independente após a invasão de Ifríquia (nome dado à região centrada no que é hoje a Tunísia pelos árabes) pelos Banu Hilal vindos do Egito e a ilha torna-se um reduto de piratas. É também nessa época que a presença duma comunidade judia é atestada historicamente pela primeira vez por uma carta de comércio proveniente da Geniza do Cairo, onde são emitidos também outros documentos que mencionam os djerbanos na Idade Média. Escrita cerca de 1030, a carta faz referência a um certo Abū al-Faraj al-Jerbī (Abū al-Faraj, o Djerbano) residente em Cairuão e comerciante com o Oriente, tanto com o Egito como com o Oceano Índico.

Do século XVI ao XIX

Cerca de 1500, Djerba passa a estar sob o controlo do Império Otomano. O corsário otomano Oruç Reis (Aruj Barba Ruiva) obtém do soberano haféssida a posse da ilha, que se torna a base da dezena de navios da sua esquadra. Em 1511, tropas espanholas comandadas por Pedro Navarro atacam Djerba com o objetivo de ali estabelecerem uma fortaleza para apoiar a conquista de Orão, Bugia, Argel e Trípoli, mas foram derrotadas. Em 1513, a ilha é pilhada pelos genoveses. Os espanhóis logram dominar a ilha entre 1520 e 1524 e entre 1551 e 1560. Nos períodos em que não está nas mãos dos espanhóis, é usada como base temporária pelo corsário otomano Barba Ruiva, irmão de Aruj. Entre 1524 e 1551, Djerba torna-se um das principais redutos de corsários otomanos e norte-africanos comandados pelo almirante otomano Dragute Arrais. Em abril de 1551, o imperador Carlos V enviou uma expedição a Djerba para combater Dragute. A expedição foi organizada pelos Cavaleiros de Malta e pelo vice-rei de Nápoles e durante o seu decurso as galés do almirante genovês Andrea Doria bloquearam a frota de Dragute a sudeste da ilha. Os piratas conseguem escapar graças a um plano audaz de Dragute, que mandou que os seus homens derrubassem parte da ponte que atravessa o canal de El Kantara[e] durante a noite e pusessem os navios a salvo no golfo de Boughrara, ao mesmo tempo que ele entretinha as tropas inimigas barricando-se no forte de Borj Kastil. Os estragos provocados na ponte milenar tornaram-no praticamente inútil, apesar de ainda poder ser atravessado durante a maré baixa. Ficaria nesse estado durante 400 anos, só sendo sido reaberto em 1953.

Depois de 1881

Djerba é mantida sob o domínio otomano, através dos beis de Tunes, até 1881, quando a Tunísia passa a ser o protetorado de França. A ocupação da ilha pelos franceses é antecedida por um bombardeamento. As tropas francesas ocupam o Borj El Kebir, em Houmt Souk, a 28 de julho de 1881 e ali permanecem até 1890, data em que a administração da ilha passou para a autoridade civil. Em 1956 a Tunísia torna-se independente e Djerba passa a ser uma delegação da província (gouvernorat) de Médenine. Devido ao principal adversário político de Habib Bourguiba durante a luta pela independência, Salah Ben Youssef, ser natural da ilha, esta é negligenciada pelo governo tunisino durante vários anos. Enquanto que no resto do país o governo se empenha na construção de hospitais, escolas secundárias e estradas, inclusivamente em pequenas localidades, nada disso acontece em Djerba até aos anos 1970 e 1980. Apesar de ser mais povoada que muitas regiões que se tornaram províncias, a ilha continua a fazer parte da província de Médenine. Entre 1962 e 1969, devido às condições económicas adversas resultantes das reformas estatizantes das estruturas comerciais, milhares de djerbanos emigram (entre cinco e seis mil chefes de família) para a Europa. A maior partes (80%) desses emigrantes instalam-se em França, metade deles na região parisiense. As localidade de Sedouikech, Guellala e Ajim ficam praticamente sem população ativa devido à emigração.

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Arquitetura e urbanismo

Organização do espaço

Devido estarem sujeitos a ataques frequentes vindos do mar ao longo de toda a sua história, tradicionalmente os djerbanos vivem longe da costa, dispersos nos campos do interior. As construções tradicionais são em geral dispersas e estruturam-se segundo uma organização hierárquica do espaço baseada no menzel, um nome que significa "casa" em árabe moderno que se aplica a espaços residenciais e funcionais nos quais vivem famílias. O menzel constitui a célula de base do habitat humano agrupado em torno duma mesquita. O silêncio dos campos de Djerba impressionou vários visitantes célebres, como por exemplo Simone de Beauvoir, para quem aqueles era «o lugar mais silencioso do mundo».

Habitação tradicional: o menzel

O menzel é constituído por diversas unidades de habitação (o chamado houch), rodeadas de pomares e terrenos agrícolas. Por vezes estão associadas ao menzel oficinas de tecelagem, celeiros, lagares de azeite (frequentemente subterrâneos). Cada menzel tem um número variável de poços ou cisternas e está rodeado de taludes (habia) com funções defensivas, onde são plantadas palmeiras sebes de catos (figueiras-da-índia), agaves e aloes que aumentam a privacidade e protegem contra as poeiras e invasão de areia. Geralmente é habitado por três gerações da mesma família. O houch é de forma quadrada ou retangular, sem janelas para o exterior. As janelas existentes abrem-se geralmente para um pátio interior. O houch tem várias áreas, cada uma para a sua função: quartos de dormir (sedda ou doukkana), cozinhas, casas de banho com (mesthan) e sem sanitários (knif ou mihadh), áreas de lavagens (houch el bir), etc.

Cisternas: feskia e majen

Devido à fraca pluviosidade (menos de 250 mm por ano) e à consequente falta de água potável, os djerbanos ganharam o hábito de construir cisternas (chamadas implúvios; impluvium pelos romanos) para recolher e armazenar a água das chuvas. Há dois tipos de cisternas tradicionais: as feskia ou fesghia e as majen ou majel. As primeiras são geralmente subterrâneas, de forma retangular ou quadrada e situam-se no exterior do houch. As segundas assemelham-se a enormes garrafões largos e abertos, e são construídas na maior parte das vezes dentro do pátio interior das houch. Os majen as feskia recolhem a água da chuva que cai no teto das habitações, terraços e pátios, que todos os anos são caiadas com cal viva (jir) antes da estação húmida a fim de garantir alguma higiene. Este sistema de recolha de água pluvial já existia na época romana, tendo sido descobertas grandes cisternas na antiga cidade de Meninx. Em 1967 estimou-se em cerca de 1 000 000 m² a área usada por implúvios em Djerba.

Arquitetura civil e religiosa

As cores dominantes das casas de Djerba são o branco vivo para as paredes e tetos, o branco-celeste ou, mais raramente, o verde-garrafa para as portas e janelas. Outras cores começaram a aparecer com a instalação de habitantes vindos de fora da ilha, na sua maioria do sul e do centro-oeste da Tunísia, e a construção de casas "de prestígio" pelos djerbanos emigrados. É proibido construir mais de dois andares por cima do rés de chão, o que contribui para a preservação duma certa harmonia arquitetural. Em Houmt Souk existem diversos funduques (versão magrebina dos caravançarais do Médio Oriente, ou seja, pousadas para viajantes) com arquitetura particular, reunidos no antigo bairro maltês, entre a mesquita dos turcos, a igreja católica e a atula rua de Bizerte. Alguns deles foram transformados em pequenos hotéis ou pensões. Sabe-se da existência de funduqs cristãos em Djerba desde o século XIV.

Arquitetura militar

Ao longo das costas de Djerba existiram vários fortes medievais, testemunhas do passado agitado da ilha. Muitos deles foram demolidos. O maior monumento histórico da ilha, ainda em bom estado de conservação, é o Borj El Kebir, também chamado Borj El Ghazi Mustapha e Forte Espanhol. Situado na costa norte, junto a Houmt Souk, foi construído sobre as ruínas da antiga cidade de Girba por ordem do soberano haféssida de Tunes para albergar a sua guarnição militar cerca de 1392, sendo ampliado cerca de 1450. A 11 de março de 1560, foi entregue ao vice-rei da Sicília, João Luís de Lacerda e Silva pelo xeque Messaúde, o governador muçulmano da ilha, após este ter sido derrotado militarmente. O domínio siciliano-aragonês não duraria muito tempo, pois entre 11 de maio e 29 de julho desse ano os corsários otomanos Dragute Arrais e Piale Paxá levam a cabo um assalto que se salda em cinco a seis mortos cristãos. Ghazi Mustapha Bey, nomeado caide (governador) e encarregado por Dragute para fazer da ilha uma base naval, termina as obras iniciadas pela expedição de João Lacerda, que dotam o forte de instalações para os soldados e duma pequena mesquita.

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Demografia

Em 2004 Djerba tinha 139 517 habitantes, repartidos entre as três delegações (nome dado aos municípios na Tunísia) da ilha, cada uma deles com características muito diferenciadas. Houmt Souk, considerada a capital da ilha, embora não de forma oficial, tinha 64 892 habitantes (44 555 na cidade); Midoun, o centro urbano mais próximo dos grandes empreendimentos hoteleiros, tinha 50 459 habitantes (30 481 na cidade); Ajim contava com 24 166 (13 950 na cidade). A maioria dos habitantes tem como língua materna o árabe, mas há uma minoria importante que ainda usa o berbere, nomeadamente os membros das tribos cotamas, nefzas e hauaras, entre outros. A maior parte da ilha é ocupada por populações rurais de origem berbere. Em localidades como Mezraya, Ghizen, Tezdaine, Wersighen, Sedouikech, Ajim e Guellala, o berbere (ou tamazigue), também chamado localmente chelha ainda é a língua tradicional, usada sobretudo pelas mulheres. O dialeto berbere local caracteriza-se por vogais explosivas e pelo uso do som "t" em quase todas as palavras.

Religião

A esmagadora maioria da população é muçulmana, mas subsiste uma pequena comunidade judia. Nos séculos XIX e XX houve também uma pequena minoria cristã constituída por imigrantes europeus. Na Tunísia, predomina largamente o islão sunita de rito maliquita, apesar de existir uma pequena minoria que pratica o rito sunita hanafita[h] Tal não é a situação em Djerba, onde uma grande parte da população segue o ibadismo, um ramo do carijismo. O islão carijita recusa aos homens, incluindo o califa, o direito de interpretar os textos sagrados e preconiza o seu espeito estrito, uma vida sóbria e uma igualdade perfeita entre todos os muçulmanos. Segundo Charles-André Julien, o carijismo subsistiu em duas comunidades berberes no Mzab, na Argélia, e em Djerba, que nunca se envolveram em luta aberta com os ortodoxos que as rodeavam.

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Cultura

O Museu de Artes e Tradições Populares de Houmt Souk foi fundado no final dos anos 1970 na antiga zauia de Sidi Zitouni, uma santuário de estilo mourisco construído no século XVIII por ordem do caide (governador) da ilha Ben Ayed. No seu acervo destaca-se o cenotáfio do xeque Abu Bakr Ezzitouni, um erudito e teólogo sunita. O museu permite descobrir o rico folclore da ilha, como o vestuário de diversos grupos sociais, joias fabricadas pelos artesãos judeus, exemplares do Alcorão, utensílios de cozinha, etc. Em 17 de dezembro de 2008, após obras de restauro e ampliação, reabriu com o nome de Museu do Património Tradicional de Djerba. As obras de melhoramento incluíram o restauro da zauia e a construção de um novo bloco com 2 000 m² com arquitetura tradicional da ilha. O Museu de Guellala, inaugurado em 2001, tem igualmente em exposição coleções do património djerbano. Com mais de 4 000 m² de área de exposição, é constituído por uma série de pavilhões independentes, cada um dedicado a um tema (festas, tradições e vestuário, artesanato, mitos e lendas, música tradicional, mosaicos e ainda uma coleção importante de caligrafia árabe. Em 2005 recebia anualmente uma média de cerca de 100 000 visitantes, 30% deles tunisinos.

Crenças, superstições e lendas locais

A superstição e os seus mistérios, como os danos da inveja e do mau-olhado de origem berbere, são objeto de numerosas crenças populares há muito espalhadas na ilha, à semelhança do que se passa no resto da Tunísia. Algumas estão relacionadas com dias e nomes: por exemplo, durante muito tempo os djerbanos consideraram a quarta-feira um dia aziago durante o qual não se devia empreender fosse o que fosse, como iniciar um negócio ou visitar um doente. O número cinco e os seus múltiplos são pronunciados para afastar o azar ou influências negativas, donde resulta a grande popularidade da khamsa, ou "mão de Fátima". O sétimo dia após um acontecimento, como um casamento ou um nascimento, é considerado um dia propício para celebrar. O mesmo acontece como o 40º dia após um nascimento ou morte. Há outras crenças muito arreigadas: ainda hoje se diz que dá azar contar as pessoas e sobrepor os sapatos ou arrumá-los é sinal precursor de viagem; se os sapatos caem, devem ser imediatamente novamente arrumados, senão Satanás (echitan) fará as suas orações em cima deles.

Tradições

Djerba é muito rica em tradições e artesanato, nas quais se podem destacar, por exemplo, uma grande variedade de joias e bijuteria, durante muito tempo uma atividade exclusiva dos judeus djerbanos, o vestuário tradicional, os chapéus característicos de algumas aldeias como Guellala e Sedouikech, a gastronomia que varia de lugar em lugar, e as particularidades da sua música, durante muito tempo tocada e cantada maioritariamente por músicos negros. Esta riqueza e variedade traduz a diversidade étnica da população, das suas línguas e dos seus ritos. Muitas tradições estão ligadas às datas mais importantes do calendário muçulmano e particularmente ao Ramadão. Em algumas famílias djerbanas ibaditas, a filha menor que jejua pela primeira vez (em princípio na puberdade) é recebida durante a ceia pelos seus parentes e amigos durante todo o mês e são-lhe oferecidos presentes destinados ao seu enxoval de casamento (panos, lençóis, etc.).[carece de fontes?]

Gastronomia

Antes do desenvolvimento do turismo, os djerbanos cultivavam trigo, cevada, sorgo e lentilhas, que constituíam a base da sua alimentação. Algumas das especialidades da ilha são o cuscuz de cevada (malthoutha) com peixe ou a carne seca conservada em azeite (dhan) e pequenas anchovas secas (ouzaf). A zammita, um prato à base de cevada torrada, feno-grego e especiarias, é consumida ao pequeno-almoço ou como refeição principal, acompanhado de legumes crus ou em picless (cebolas verdes, nabos, cenouras ou pimentos) ou então de frutos (uvas ou romãs. O sorgo é usado em bolos, sobremesas (sahlab e bouza) e no bsissa, um prato à base de cereais torrados com especiarias consumido sobretudo ao pequeno-almoço.Tlatli 1967, p. 76

Música e dança

A música tradicional de Djerba é baseada essencialmente nas percussões, como a darbuka (pequeno instrumento usado por homens e mulheres) e o tabl,[j] usado exclusivamente pelos homens, bem como um instrumento de sopro que antigamente se chamava ghita mas que cada vez é mais conhecido como zoukra (zucra) ou zurna, só usado pelos homens. Outro instrumento, introduzido mais recentemente na ilha, é o mezoued, uma espécie de gaita-de-foles usada por cantores com alguma fama como Hbib Jbali e Mahfoudh Tanish. Os ritmos são geralmente lentos e melodiosos. Um deles, a chala, é específico da ilha. O canto temático ocupa uma posição importante: as canções contam geralmente uma história romântica, na maior parte das vezes triste e nostálgica; as letras são por vezes ousadas, sobretudo quando se tratam de histórias de amor. A autoria de muitas das letras é de mulheres, o que possivelmente pode ser explicado pelo facto de que eram as mulheres que se ocupavam da terra, dos filhos e dos mais velhos quando os seus maridos se ausentavam para comerciar.[carece de fontes?]

Casamento

Sendo as distrações raras, os casamentos, celebrados principalmente no verão, envolvem grandes festas, particularmente entre os maliquitas, para os quais representam uma ocasião para relaxar e libertar tensões, nomeadamente para as mulheres. Entre os djerbanos ibaditas, os casamentos são mais austeros, frequentemente sem música nem dança. Até há pouco tempo, não havia casamentos mistos entre os diferentes grupos étnicos e religiosos, apesar das relações entre eles serem afáveis. O casamento endogâmico foi durante séculos o mais comum na ilha e assim continua a ser nas zonas rurais. O casamento tradicional é celebrado durante vários dias e inclui diversas cerimónias. Em Houmt Souk, a hejba é a primeira delas: é então que o dote é dado ao pai da noiva. Depois da hejba, a futura casada deixa de sair da sua casa durante um certo tempo (uma semana a um mês), principalmente para se proteger do sol, pois a pele branca é um dos principais critérios de beleza em Djerba, como na Tunísia em geral. Durante esse período, são visitadas várias zauias, onde são acesas velas.

Relação com o meio ambiente

Os djerbanos desenvolveram relações particulares com o meio ambiente antes do desenvolvimento turístico que tem mudado a ilha em tempos mais recentes. As centenas de milhares de palmeiras tamareiras da ilha representam um recurso muito importante para a população, que a utiliza todas as suas partes, para cestaria e para as barreiras das armações de pesca fixas. As partes mais novas e mais maleáveis são usadas para os chapéus femininos tradicionais, que podem atingir preços elevados para o poder de compra local. Em algumas aldeias, como Guellala, esses chapéus são usados até de noite, e podem ser protegidos com um lenço ou pano de seda contra a humidade noturna. As folhas de palmeira são ainda usadas para confecionar outros artigos de cestaria, como alcofas e sacolas.

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Economia

A economia de Djerba é tradicionalmente «mista, baseada na complementaridade dos recursos da terra, do mar e do artesanato […] o agricultor pode ser pescador ou artesão durante uma parte do ano.», ao mesmo tempo que é sempre comerciante. Tipicamente, o djerbano é antes de mais um comerciante, sempre pronto a deixar a sua ilha natal para desenvolver a sua atividade comercial. Desde os ano 1940, só 4% dos comerciantes de Djerba estão instalados na ilha. René Stablo escrevia em 1941 que entre os «6 444 muçulmanos que se dedicam ao comércio, 6 198, ou seja 96%, deles tinham lojas na bacia mediterrânica desde o litoral atlântico até às margens do Bósforo […] Eles são merceeiros, vendedores de tecidos, colchas, "chéchias"[l] cerâmica, donos de cafés, barbeiros, etc.» Em 1961 estimou-se em pouco mais de um milhão de dinares tunisinos o valor das remessas aunais dos djerbanos que viviam fora da ilha, o que representava 42% do valor das produções e serviços gerados em Djerba; a agricultura representava então 17%. Em 1998 estimava-se entre 20 e 25 milhões de dinares (17 a 20 milhões de dólares US) o valor das remessas anuais dos djerbanos emigrados no estrangeiro, enquanto que os recursos agrícolas representavam 2 a 4% dos recursos globais da ilha, 20 vezes menos do que as atividades turísticas.

Turismo

Djerba dispõe de cerca de vinte quilómetros de praias de areia, situadas sobretudo na extremidade leste e nordeste da ilha, que levaram Gustave Flaubert a apelidar Djerba de "Ilha das Areias de Ouro". As melhores praias encontram-se no nordeste (Sidi Hacchani, Sidi Mahrez et Sidi Bakkour), no leste (entre Sidi Garrous e Aghir), a sul (perto de Guellala) e a oeste (Sidi Jmour). Até ao início dos anos 1950, as praias só eram frequentadas durante as visitas (ziara) que os locais faziam aos marabutos. Com a abertura dum hotel da cadeia Club Méditerranée em 1954 e o desenvolvimento do turismo a partir dos anos 1960 (o primeiro hotel importante desse período foi construído em 1961) as praias passaram a ser cada vez mais frequentadas. O estado tunisino tem sido o principal protagonista do desenvolvimento turístico através dos seus investimentos e dos benefícios fiscais e financeiros concedidos aos estabelecimentos turísticos, a maior parte deles instalados, naturalmente, na costa oriental.

Agricultura

A agricultura ainda desempenha um papel importante na economia da ilha. O clima propicia a existência de numerosas oliveiras, cujos frutos são colhidos pelas famílias de agricultores no outono, de romãzeiras, tamareiras, figueiras, macieiras, amendoeiras, figueiras-da-índia de frutos espinhosos que ladeiam as estradas e campos, vinha, legumes e alguns cereais. As receitas geradas pelas tamareiras e oliveiras representam 64% do total da produzido pela agricultura. Os recenseamentos agrícolas de 1929 e 1963 registaram, respetivamente, 394 500 e 497 000 oliveiras. Em 1963 existiam ainda 52 000 oliveiras silvestres (zabbous) que se tornaram uma moda e começaram a ser arrancadas para serem transplantadas fora da ilha. Apesar disso, atualmente ainda se encontram algumas oliveiras milenares em Djerba. As variedades de tâmaras mais apreciadas localmente são a r´tab, lemci, matata e temri. À exceção da última, que é conservada e consumida todo o ano, as restantes variedades são consumidas principalmente frescas, durante a sua época.

Pesca

Djerba tem vários pequenos portos de pesca, nomeadamente os de Houmt Souk, Aghir, Lella Hadhria, El Kantara e de Ajim, este último famoso no passado pela pesca de esponjas, introduzida por pescadores gregos provenientes da ilha de Calímnos que ali se instalaram cerca de 1890. As águas ao largo da ilha encontram-se entre as mais ricas em peixe de todo o Mediterrâneo e entre as espécies mais pescadas destacam-se o polvo, capturado com pequenos potes de barro, que os animais adotam como refúgio e por isso neles se introduzem, e diversas espécies de tainha, que localmente se designam bouri, ouraghi e maazoul. Embora tradicionalmente as mulheres participem nas atividades agrícolas e de artesanato, elas nunca se dedicam à pesca, ao contrário do que acontece nas ilhas Kerkennah. A pesca é uma das especialidades dos habitantes ibaditas de algumas aldeias entre Ajim e Sedouikech. Um método muito particular, a zriba ou charfia (armações de pesca fixas) é muito praticada e ao largo das costas oeste e norte é comum verem-se tapumes ou tabiques fixados nos baixios para encaminharem os peixes para as nassas (armadilhas).

Artesanato

O artesanato, em particular os trabalhos em lã, desempenhou um papel primordial na vida económica e social da ilha ao longo de muitas gerações e ainda hoje constitui uma fonte importante de receitas para os djerbanos dos dois sexos. A produção de lã vai desde a tosquia à tecelagem e à confeção de colchas e tapetes, passando pela lavagem, fiação e cardagem. A arquitetura das oficinas de tecelagem é típica de Djerba: semi-enterradas a fim de preservar a humidade e uma certa temperatura, são facilmente identificadas pelo seu frontão triangular. Em 1873 existiam na ilha 428 tecelagens e 2 524 tecelões, um número que em 1955 tinha descido para cerca de 1 600 e 1 299 em 1963. Além dos tecelões, a indústria de tecelagem envolve lavadeiras, cardadoras e fiadoras de lã, em princípio sempre mulheres, bem como tintureiros, uma atividade que em Djerba remonta à época púnica. As colchas djerbanas, chamadas farracha ou farrachia eram célebres e muito apreciadas. Outros produtos importantes das tecelagens de Djerba são os houlis[o] em algodão, lã ou seda natural, bem como os kadrouns, k'baia, kachabia, wazras e burnous (albornozes, trajes masculinos em lã.

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Infraestruturas

Transportes

A ilha está ligada ao continente na ponta sudeste por uma ponte de 7,5 km de comprimento e cerca de 10 metros de largura, frequentemente chamada "calçada romana" devido à sua origem milenar. Na realidade, trata-se de uma espécie de talude ou aterro com condutas por baixo do piso da estrada para deixar circular a água do mar. Supõe-se que o seu traçado remonta ao final do século III a.C., quando foi construída pelos cartagineses. A obra foi modificada pelos romanos, que lhe chamaram Pons Zita e a perfuraram para instalarem moinhos de água. A ponte, chamada El Kantara (que significa simplesmente "a ponte" em árabe) deu o nome à localidade vizinha. Entre meados do século XVI e a década de 1950 esteve em grande parte submersa, depois de ter sido parcialmente derrubada pelo corsário otomano Dragute em 1551 para escapar a um bloqueio naval espanhol e italiano comandado por Andrea Doria (ver secção História).

Outras infraestruturas

Djerba conta com alguns hospitais públicos e diversas clínicas privadas, construídas sobretudo nos anos 1990, quando também se multiplicaram os estabelecimentos escolares. Desde 2004 que Houmt Souk dispõe dum grande teatro ao ar livre, onde decorrem manifestações culturais como o Festival Internacional Djerba Ulisses. Há vários estádios de futebol, dos quais os mais importantes são os de Houmt Souk, com capacidade para 12 000 espetadores, e o de Midoun, com capacidade para 10 000 espetadores. Os principais clubes da ilha são o Association sportive de Djerba (Associação Desportiva de Djerba ou AS Djerba) e o Espoir sportif de Jerba Midoun (Espírito Desportivo de Djerba Midoun, ESJM). O primeiro foi fundado em 1946 e joga normalmente na segunda divisão tunisina, mas nas temporadas 2000-2001 e 2002-2003 subiu à primeira divisão. O ESJ Midoun foi fundado em 1976 e chegou a ganhar a Taça da Liga. Em 2000-2001, e foi o campeão da segunda divisão nacional em 2006-2007, mas desceu para a terceira divisão em 2008.[carece de fontes?]

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Fontes consultadas

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