Catar
Catar, ou Qatar, oficialmente Estado do Catar, é um país árabe do Sudoeste Asiático que ocupa a pequena península do Catar, na costa nordeste da península Arábica, no Oriente Médio. Sua única fronteira terrestre é com a Arábia Saudita ao sul, enquanto o restante de seu território é cercado pelo golfo Pérsico. Um estreito também separa a península do estado insular do Barém através do golfo do Barém. A capital do país é Doha, lar de mais de 80% de seus habitantes. O Catar também sediou a Copa do Mundo FIFA de 2022.
O nome Catar deriva de Qatara, que se acredita referir à antiga cidade de Zubarah, um importante porto comercial e cidade da região. A palavra "Qatara" aparece pela primeira vez num mapa do mundo árabe de Ptolomeu. Em língua portuguesa o uso oscila entre a transcrição internacional Qatar e o aportuguesamento Catar que se pronunciam exatamente da mesma forma, isto é, com tónica na última sílaba — oxítona — e com o "a" aberto na primeira: [kaˈtaɾ] em português europeu e [kaˈtah] ou [kaˈtaɾ] em português brasileiro. Em árabe padrão o nome قطر é pronunciado [ˈqɑtˤɑr], enquanto que localmente se pronuncia [ɡɪtˤɑr]. Os gentílicos do Catar são catarense e catariano.[nota 1] Existe também a alternativa catari (oxítona), registada no Vocabulário da Academia Brasileira de Letras e no Dicionário Priberam (a par dos anteriores).
Pré-história e domínio islâmico
A habitação humana do Catar remonta a 50 000 anos. Assentamentos e ferramentas que remontam à Idade da Pedra foram descobertos na península. Artefatos da Mesopotâmia originários do período de al-Ubaid (ca. 6 500–3 800 a.C.) foram descobertos em assentamentos costeiros abandonados. O Catar era descrito como um famoso centro de criação de cavalos e camelos durante o período do Califado Omíada. No século VIII, a região começou a ser beneficiada por sua posição comercial estratégica no golfo Pérsico e tornar-se-ia um centro de negociação de pérolas. O desenvolvimento substancial na indústria de pérolas em torno da península do Catar ocorreu durante a era do Califado Abássida. Navios viajando de Baçorá para Índia e China faziam escalas nos portos do Catar durante este período. Peças de porcelana chinesa, moedas da África Ocidental e artefatos de Tailândia foram descobertas no Catar.
Domínio português
Grande parte da Arábia Oriental era controlada pelos usfuridas em 1253, mas o domínio da região foi conquistado pelo príncipe de Ormuz em 1320. As pérolas do Catar forneciam ao reino uma das suas principais fontes de renda. Em 1515, Manuel I de Portugal tornou o Reino de Ormuz um Estado vassalo. O Reino de Portugal passou a controlar uma parcela significativa da Arábia Oriental em 1521. Com a conquista do Barém pelos portugueses, a costa árabe até Alhaça ficou sob o domínio e influência do Império Português. Em 1550, os habitantes de Alhaça se colocaram voluntariamente sob domínio do Império Otomano, preferindo-o em relação ao Império Português.
Domínio otomano e britânico
Sob pressão militar e política do governador do otomano Midate Paxá, o governante tribal al-Thani submeteu-se ao domínio otomano em 1871. O governo otomano impôs medidas reformistas (Tanzimat) em matéria de impostos e de registro de terras para integrar plenamente estas áreas ao império. Apesar da desaprovação de tribos locais, al-Thani continuou apoiando o domínio otomano. No entanto, as relações catari-otomanas estagnaram e em 1882 ela sofreu novos retrocessos quando os otomanos se recusaram a ajudar al-Thani em sua expedição para Al Khor, então ocupado por Abu Dhabi. Além disso, os otomanos apoiavam Mohammed bin Abdul Waha, que tentou suplantar al-Thani como o caimacão do Catar em 1888. Isto conduziu al-Thani a se rebelar contra os otomanos, a quem ele acreditava que tentavam usurpar o controle da península. Ele renunciou ao cargo de caimacão e parou de pagar impostos ao império em agosto de 1892.
Independência
Em 3 de setembro de 1971, o Catar conquistou oficialmente a sua independência do Reino Unido e se tornou um Estado soberano. O governo então decidiu voltar ao realizar o abastecimento de armas para os franceses; essa ligação seria reforçada ao longo do tempo e os franceses se tornariam seu maior fornecedor no novo milênio. Em 1972, o califa bin Hamad al-Thani tomou o poder em um golpe palaciano durante um período de discórdia na família governante. Em 1974, a Qatar Geral Petroleum Corporation assumiu o controle de todas as operações de petróleo no país e o Catar rapidamente cresceu em riqueza. O depósito de gás natural do Campo Norte, então a maior do mundo, foi descoberto por volta de 1976 e o país foi um dos primeiros a ter embarcações de gás natural liquefeito.
A península do Catar se projeta por 160 km no golfo Pérsico, ao norte da Arábia Saudita. Encontra-se entre as latitudes 24° e 27°N e longitudes 50° e 52°E. A maioria do país é composta por uma planície árida baixa e coberta de areia. A sudeste encontra-se o Khor al Adaid ("mar interior"), uma área de dunas de areia que cercam uma entrada do Golfo. Há invernos amenos e verões muito quentes e úmidos. O ponto mais alto no Catar é Qurayn Abu al Bawl, com 103 m de altura. No Jebel Dukhan, a oeste, há uma série de afloramentos baixos de calcário no sentido norte-sul a partir Zikrit, através de Umm Bab. A área de Jebel Dukhan também contém as principais jazidas terrestres de petróleo do país, enquanto os campos de gás natural se encontram no mar, a noroeste da península.
Biodiversidade e meio ambiente
O Catar assinou a Convenção sobre Diversidade Biológica, em 11 de junho de 1992, e tornou-se parte da Convenção em 21 de agosto de 1996. O país posteriormente produziu um Plano Nacional de Estratégia para a Biodiversidade e Ação, que foi recebido pela convenção sobre 18 de maio de 2005. Um total de 142 espécies de fungos foram registrados no Catar. Um livro recentemente produzido pelo Ministério do Meio Ambiente documenta os lagartos conhecidos do Catar, com base em pesquisas realizadas por uma equipe internacional de cientistas e outros colaboradores. Por duas décadas, o Catar teve as mais altas emissões de dióxido de carbono per capita do mundo, com 49,1 toneladas por pessoa em 2008. Os residentes do país são também alguns dos maiores consumidores de água per capita, utilizando cerca de 400 litros por dia.
A população do Catar varia consideravelmente dependendo da época, uma vez que o país depende fortemente de trabalho migrante. Em 2020, a população total do Catar era de 2,8 milhões, dos quais 313 000 eram cidadãos do Catar (12%) e 2,3 milhões eram estrangeiros. Os estrangeiros não árabes constituem a grande maioria da população de Qatar; os indianos são a maior comunidade, em número de 545 000 em 2013, seguido por 341 000 nepaleses, 185 000 filipinos, 137 000 bengalis, 100 000 cingaleses e 90 000 paquistaneses entre muitas outras nacionalidades. Os primeiros registros demográficos do Catar datam de 1892 e foram conduzidos pelos governadores otomanos da região. Com base neste censo, que inclui apenas os residentes das cidades, a população total em 1892 era de 9 830. O censo de 2010 registrou uma população total de 1 699 435. Em janeiro de 2013, a Autoridade de Estatísticas do Catar estimou a população do país em 1 903 447, dos quais 1 405 164 eram homens e 498 283 mulheres. Na época do primeiro censo, realizado em 1970, a população era de 111 133 habitantes. A população triplicou na década de 2000, a partir de pouco mais de 600 000 pessoas em 2001, deixando os nativos do Catar como menos do que 15% da população total. O afluxo de trabalhadores do sexo masculino desequilibrou a quantidade de homens e mulheres na região, fazendo com que, atualmente, apenas um quarto da população seja composta por mulheres.
Religião
O islã sunita é a religião predominante e oficial do Catar. A maioria dos cidadãos pertencem ao movimento salafista do islã sunita, com cerca de 5% de seguidores do islã xiita. De acordo o censo de 2004, 71,5% da população são muçulmanos sunitas e cerca de 5% são muçulmanos xiitas, 8,5% são estrangeiros cristãos e 10% são "outras" religiões estrangeiras. A lei xaria é a principal fonte da legislação do Catar de acordo com a Constituição. Em 2010, a afiliação religiosa no país foi estimada pelo Pew Research Center como 67,7% de muçulmanos, 13,8% de cristãos, 13,8% hindus e 3,1% budistas. Outras religiões e pessoas sem afiliação religiosa representaram os restantes 1,6%.
Idiomas
O árabe é a língua oficial do Catar, sendo que o árabe catari é o dialeto local. A Língua de Sinais do Catar é a língua da comunidade surda. O inglês é comumente usada como uma segunda língua e é uma língua franca ascensão, especialmente no comércio, mas medidas estão sendo tomadas para tentar preservar o árabe da invasão anglófona. O inglês é particularmente útil para a comunicação no Catar para comunicação com a grande comunidade de expatriados. Em 2012, a Catar entrou para Organização Internacional da Francofonia como um membro associado, justificando a sua inscrição pelo consequente número de falantes de francês no país (10% da população do Catar seria francófona). Como reflexo da composição multicultural do país, muitas outras línguas também são faladas, como balúchi, hindi, malaiala, urdu, pachto, tâmil, telugo, nepali, cingalês, bengali e tagalog.
Sob a liderança da família Al Thani, cuja origem pode ser rastreada até a tribo Banu Tamim, o Catar têm sido governado desde que a Casa de Thani foi estabelecida, em 1825. Não há legislatura independente, e os partidos políticos são proibidos. As eleições parlamentares, que foram originalmente prometidas para 2005, acabaram adiadas indefinidamente. O oitavo Emir do Catar é Tamim bin Hamad al-Thani, cujo pai Hamad bin Khalifa Al Thani entregou o poder a ele em 25 junho de 2013. O chanceler supremo possui o poder exclusivo de nomear e destituir o primeiro-ministro e ministros, que, juntos, compõem o Conselho de Ministros, que é a autoridade executiva suprema no país. O Conselho de Ministros também inicia a legislação. As leis e decretos propostas pelo Conselho de Ministros, são encaminhadas ao Conselho Consultivo (Majlis al-Shura) para discussões, sendo posteriormente submetidas ao Emir para ratificação.
Charia
A charia é a principal fonte da legislação do país de acordo com a Constituição do Catar. Na prática, o sistema legal é uma mistura do direito civil e do direito islâmico. A lei charia é aplicada em casos relativos ao direito de família, herança e vários atos criminosos (como adultério, roubo e assassinato). Em alguns casos tribunais de família com base na charia consideram que o testemunho de uma mulher vale metade do de um homem, ou nem sequer o aceitam. O direito de família codificado foi introduzido em 2006. A poligamia islâmica é permitida no país para os homens. A flagelação é usada no país como um castigo para o consumo de álcool ou para relações sexuais ilícitas. O artigo 88 do código penal do Catar declara a punição que o adultério é punido com cem chicotadas. Em 2006, uma mulher filipina foi condenado a 100 chibatadas por adultério. Em 2010, pelo menos 18 pessoas (na sua maioria estrangeiros) foram condenados a flagelação (entre 40 e 100 chibatadas) por infrações relacionadas com "relações sexuais ilícitas" ou consumo de álcool. Em 2011, pelo menos 21 pessoas (também na maior parte estrangeiros) foram condenadas a flagelação (30 e 100 chibatadas) por infrações relacionadas aos mesmos crimes. Em 2012, seis estrangeiros foram sentenciados ao açoitamentos de 40 ou 100 chibatadas. Apenas muçulmanos considerados clinicamente aptos são susceptíveis a tais sentenças. Não se sabe se as sentenças chegaram a ser implementadas aos condenados. Em abril de 2013, um expatriado muçulmano foi condenado a 40 chicotadas por consumo de álcool. Em junho de 2014, um expatriado muçulmano também foi condenado a 40 chibatadas por consumo de álcool e por dirigir embriagado. A punição corporal judicial é comum no Qatar devido ao hanbalismo.
Direitos humanos
De acordo com o Departamento de Estado dos Estados Unidos, trabalhadores expatriados de países de toda a Ásia e de partes da África migram voluntariamente para o Catar como mão de obra pouco qualificada ou como empregados domésticos, mas alguns chegam posteriormente a condições de servidão involuntária. Entre algumas das violações mais comuns dos direitos trabalhistas no país estão espancamentos, retenção de pagamento, cobrança de trabalhadores de benefícios pelos quais o empregador é responsável, restrições à liberdade de movimento (tais como o confisco de passaportes, de documentos de viagem, ou da autorização de saída), detenção arbitrária, ameaças de ações legais e agressão sexual. Muitos trabalhadores migrantes que chegam para trabalhar no Catar pagam taxas exorbitantes para recrutadores em seus países de origem.
Relações internacionais
Como um pequeno país com grandes vizinhos, o governo do Catar tenta projetar influência e proteger seu Estado e dinastia reinante. A história de alianças do Catar explica a sua base da sua política. Entre 1760 e 1971, o Catar procurou proteção formal de grandes potências transitórias, como os otomanos, britânicos, do Barém, dos árabes e dos wahabitas da Arábia Saudita. A influência internacional crescente do Catar e o papel ativo do país em assuntos internacionais fez com que alguns analistas o identificassem como uma potência média. O Catar foi um dos primeiros membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e um dos membros fundadores do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC). É também um membro da Liga Árabe. O país não aceitou a competência obrigatória da Corte Internacional de Justiça.
Forças armadas
As Forças Armadas do Catar são as forças militares do país. O país mantém uma força militar modesta de cerca de 11 800 homens, incluindo um exército (8 500), marinha (1 800) e da força aérea (1 500). Os gastos com a defesa do Catar responderam por aproximadamente 4,2% do produto interno bruto do país em 1993. O Catar assinou recentemente pactos de defesa com os Estados Unidos e Reino Unido, bem como com a França, no início de 1994. O país desempenha um papel ativo nos esforços de defesa coletiva dos Conselho de Cooperação do Golfo; os outros cinco membros são Arábia Saudita, Cuaite, Barém, Emirados Árabes Unidos e Omã. A presença de uma grande base aérea do Catar, operado pelos Estados Unidos e por vários outros países da ONU, fornece uma fonte garantida de defesa e de segurança nacional. Em 2008, o Catar gastou 2,355 bilhões de dólares em gastos militares, ou 2,3% do PIB. As forças especiais do Catar foram treinadas pela França e por outros países ocidentais e acredita-se que possuam uma habilidade considerável. Elas também ajudaram a rebeldes líbios durante a Segunda batalha de Trípoli em 2011.
Desde 2014, o Catar está dividido em oito municípios (em árabe: baladias). Para fins estatísticos, os municípios são subdivididos em 98 zonas (desde 2015), que por sua vez são subdivididas em blocos.
O Catar tem experimentado um rápido crescimento econômico ao longo dos últimos anos graças aos elevados preços do petróleo e em 2008 publicou seu oitavo superávit orçamentário consecutivo. A política econômica é focada no desenvolvimento não associado às reservas de gás natural e em aumentar o investimento privado e estrangeiro em setores não energéticos, mas o petróleo e o gás ainda representam mais de 50% do PIB do país, cerca de 85% das receitas de exportação e 70% das receitas do governo. O petróleo e o gás deixaram o país com a segunda maior renda per capita — a seguir ao Liechtenstein — e com um dos mais rápidos crescimentos econômicos do mundo. As reservas descobertas de petróleo, estimadas em 15 bilhões * de barris (2,4 km³), deverá permitir a continuação da produção nos níveis atuais por mais 37 anos. As reservas descobertas de gás natural do Catar são de cerca de 26 trilhões de metros cúbicos, cerca de 14% das reservas totais do mundo e a terceira maior reserva do planeta.
Mídia e comunicação
Em 1996, o governo do Catar lançou a rede de televisão Al Jazeera, com sede principal em Doha, no Catar. Inicialmente com um canal de notícias em árabe, desde então se expandiu para vários canais de televisão especializados, tornando a rede mundialmente famosa. A mídia impressa tem crescido, com mais de três jornais em língua inglesa e títulos em língua árabe. O grupo Oryx Advertising é a maior editora do Catar, responsável pelas publicações das revistas Qatar Today (única revista mensal de negócios em inglês),Qatar Al Youm (a única revista mensal de negócios em árabe), Woman Today (única revista para trabalhadores do sexo feminino) e GLAM (primeira revista internacional de moda no país). Com o advento das redes sociais, portais de notícias on-line como Gulf Times Online e Qatar Chronicle ganharam popularidade entre o público no Catar.
Literatura
A literatura catariana remonta ao século XIX. Originalmente, a poesia escrita era a forma mais comum de expressão. Abdul Jalil Al-Tabatabai e Mohammed bin Abdullah bin Uthaymeen, dois poetas que datam do início do século XIX, formaram o corpus da primeira poesia escrita do Catar. Mais tarde, a poesia caiu em desuso depois que o país começou a colher os lucros das exportações de petróleo em meados do século XX e muitos catarenses abandonaram suas tradições beduínas em favor de estilos de vida mais urbanos. Devido ao crescente número de catarenses que começaram a receber educação formal nos anos 1950 e outras mudanças sociais significativas, a década de 1970 testemunhou a introdução da primeira antologia de contos e, em 1993, foram publicados os primeiros romances de autoria local. A poesia, particularmente a forma nabati predominante, manteve alguma importância, mas logo seria ofuscada por outros tipos literários. Diferentemente da maioria das outras formas de arte na sociedade do Catar, as mulheres se envolveram no movimento da literatura moderna com uma magnitude semelhante à dos homens.
Esportes
O futebol é o esporte mais popular do Catar. O país sediou a Copa da Ásia, principal torneio de seleções do continente em três ocasiões, em 1988, 2011 e 2023 Em dezembro de 2010, o país foi escolhido como sede da Copa do Mundo FIFA de futebol em 2022. O país foi sede do Jogos Asiáticos de 2006, do Campeonato Mundial de Basquetebol 3x3 de 2014, e também do Campeonato Mundial de Handebol Masculino de 2015, onde foi vice-campeão.


