Pesquisa · Mapa mental

Carolina Maria de Jesus

Carolina Maria de Jesus foi uma escritora, cantora, compositora e poetisa brasileira. Uma das primeiras escritoras negras do Brasil, De Jesus é considerada uma das mais importantes escritoras do país, de tal modo que sua obra e vida permanecem objetos de diversos estudos, tanto no Brasil quanto no exterior.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 06/07/2026
01

Biografia

Primeiros anos e juventude

De Jesus nasceu em 14 de março de 1914, na cidade de Sacramento, em Minas Gerais, numa comunidade rural. Oriunda de família muito humilde, que migrou para a cidade no início das atividades pecuárias na região. Aos sete anos, começou a frequentar o Colégio Allan Kardec, mas interrompeu os estudos no segundo ano, já tendo aprendido a ler e a escrever e desenvolvido o gosto pela leitura. De Jesus morou em Sacramento até 1930, quando se mudou com a mãe para a cidade de Franca, cidade do estado de São Paulo localizada a 100 km de Sacramento. Ali trabalhou como empregada doméstica, permanecendo na cidade até 1937.

Mudança para a favela do Canindé

Em 1937, sua mãe morreu e ela se viu impelida a migrar para a metrópole de São Paulo. Ao chegar à cidade, conseguiu emprego na casa do notório cardiologista Euryclides de Jesus Zerbini, precursor da cirurgia de coração no Brasil, o que permitia a De Jesus a ler os livros de sua biblioteca nos dias de folga. Em 1947, deu à luz seu primeiro filho, João José de Jesus, o que fez que perdesse seu emprego, voltando a ser catadora de recicláveis. Em 1949, aos 33 anos, desempregada e novamente grávida, instalou-se na extinta favela do Canindé, na zona norte de São Paulo — num momento em que surgiam na cidade as primeiras favelas — cujo contingente de moradores estava em torno de cinquenta mil. De Jesus construiu sua própria casa, usando madeira, lata, papelão e qualquer material que pudesse encontrar. Saía todas as noites para coletar papel, a fim de conseguir dinheiro para sustentar a família. Teve mais dois filhos: José Carlos de Jesus, nascido em 1950, e Vera Eunice de Jesus, nascida em 1953.

Publicação de Quarto de Despejo e saída da favela

Depois da publicação de Quarto de Despejo, De Jesus mudou-se para Santana, bairro de classe média na zona norte de São Paulo, após lidar com a raiva e inveja de seus antigos vizinhos, que a acusaram de ter colocado suas vidas no livro sem autorização. A autora relatou que muitos dos moradores da favela chegaram a jogar, nela e em seus três filhos, os conteúdos de seus penicos. De Jesus definiu a favela como "tétrica", "recanto dos vencidos" e "depósito dos incultos que não sabem contar nem o dinheiro da esmola".[carece de fontes?] O sucesso da primeira publicação, no entanto, acabou por não se repetir nos títulos posteriores. Depois de Quarto de Despejo, a Editora Francisco Alves encomendou mais uma obra, a partir dos diários escritos por De Jesus quando já morava no bairro de Santana. Surgiu Casa de Alvenaria: Diário de uma Ex-Favelada (1962) que, segundo Audálio Dantas responsável pela edição do material publicado, vendeu apenas 10 mil exemplares. Em 1963, De Jesus publicou o romance Pedaços da Fome e o livro Provérbios posteriormente em 1969 que, de acordo com Dantas, foram títulos custeados pela própria autora e não tiveram vendas significativas.

Ida para o sítio em Parelheiros

Sofrendo de dificuldades financeiras para manter o padrão de vida, De Jesus vendeu sua casa de Santana para comprar um pequeno sítio em Parelheiros, numa região remota da Zona Sul de São Paulo, no pé de uma colina. Próxima de casas ricas, local de algumas das habitações mais pobres do subúrbio da cidade, com impostos e preços menores, era lá que a autora esperava encontrar solitude. Parelheiros se caracterizava por fortes contrastes entre ricos e pobres: grandes casarões ao lado de barracos, que, via de regra, surgiam em vales, onde o ar era poluído pelas indústrias da região do Grande ABC. Embora pobre, Parelheiros era o mais próximo que De Jesus poderia chegar do interior de sua infância sem deixar São Paulo e suas escolas públicas, para as quais seus filhos iam de ônibus. Os três moravam com ela: João José, com 21 anos, trabalhava numa fábrica de têxteis; José Carlos, com 19 anos, cursava o primeiro ano do Segundo grau e vendia objetos na rua; Vera, com 16 anos, também estava na escola.

Morte

De Jesus morreu aos 62 anos no seu sítio em Parelheiros, Zona Sul de São Paulo, no dia 13 de fevereiro de 1977, vítima de insuficiência respiratória devido a uma crise de asma. Contudo, a causa da morte é contestada por sua filha Vera Eunice: “Ela não tinha asma, tinha Doença de Chagas. (...) Ela fazia tratamento." O enterro da escritora foi realizado no Cemitério do Cipó, no município de Embu-Guaçu, a 40 km do centro de São Paulo.

02

Reconhecimento

Nacional

Publicado em 1960, a tiragem inicial de Quarto de Despejo foi de dez mil exemplares e esgotou-se em uma semana. Desde sua publicação, a obra vendeu mais de um milhão de exemplares e foi traduzida para catorze línguas e distribuído em mais de quarenta países, tornando-se um dos livros brasileiros mais conhecidos no exterior. De Jesus recebeu homenagens na Academia de Letras de São Paulo e na Faculdade de Direito de São Paulo, a escritora que, até então, nunca havia ganhado atenção, passou a realizar entrevistas em canais de televisão e rádio por todo o país. O professor da Universidade de São Paulo (USP) Ricardo Alexino Ferreira caracterizou sua escrita como "direta, nua e crua, mas, ao mesmo tempo, suave".

Internacional

Com o lançamento do seu primeiro livro em 1960, De Jesus passou a ser reconhecida internacionalmente como "a negra da literatura brasileira". A presença da obra da escritora naquele período era almejada não só no Brasil, mas também no exterior. A autora viajou para o Uruguai, Chile e Argentina, recebendo, em Buenos Aires, a Orden Caballero del Tornillo. Em 1962, Quarto de Despejo foi publicado nos Estados Unidos pela editora E. P. Dutton com o título de Child of the Dark. No ano seguinte, como parte da coleção Mentor, a tradução ganhou uma edição de bolso, publicada primeiro pela New American Library, depois pela Penguin USA.

03

Vida pessoal

Religião

De Jesus não negava sua religiosidade, tendo se referido a Deus em seu diário. Sonhei que era um anjo. Meu vestido estava flutuando e tinha mangas rosas compridas. Fui da terra para o céu. Pus estrelas em minhas mãos e brincava com elas. Falei-as. Elas apresentaram um me honrando [sic]. Dançaram ao meu redor e criaram um caminho luminoso. Quando acordei eu pensei: estou tão pobre. Não consigo pagar para ir e assistir uma peça, então Deus me manda esses sonhos para minha alma dolorida. Ao Deus que me protege, eu mando meu [sic] gratidão

04

Legado

Mesmo diante das mazelas e discriminações que sofreu desde a infância, por ser negra e pobre, De Jesus revelou através de sua escrita, a importância do testemunho como meio de denúncia sócio-política numa cultura hegemônica que exclui aqueles que lhe são alteridade. A literatura documentária e de contestação da escritora, tal como foi conhecida e nomeada pelo jornalismo da época é, na atualidade, a literatura das vozes periféricas que manifesta à partir dos anos 1970, novos testemunhos narrativos femininos.

05

Álbum musical

Imagem: Arquivo Nacional do Brasil · PDM · Openverse

Em 1961, com o sucesso da publicação do livro Quarto de Despejo; Carolina Maria de Jesus grava suas composições em um disco lançado pela gravadora RCA Victor. O álbum contém 12 faixas autorais de samba, marcha e baião, com o acompanhamento do maestro Chiquinho de Moraes nos arranjos e direção artística de Julio Nagib. Segundo relato de sua filha, o disco foi produzido para uma peça teatral: "Pelo que a gente sabe, não foi usado, então caiu no esquecimento. A gravação foi feita com músicos do estúdio. A gente não sabe se Carolina interferiu nos arranjos. Ela tocava um pouco de violão, mas na ficha técnica não consta ela tocando." Por ser o primeiro e único álbum musical gravado por De Jesus, atualmente é um dos mais valiosos LPs do mercado brasileiro e muito cobiçado por colecionadores. O disco está cotado em R$ 2 mil.

06

Direitos autorais

Imagem: midianinja · BY-NC-SA · Openverse

Em março de 1961, uma reportagem afirmou que a publicação de Quarto de Despejo havia rendido a De Jesus seis milhões de cruzeiros em direitos autorais, contudo a quantia exata variava, de acordo com a reportagem. É certo que a autora tinha direito a dez por cento do preço de venda das traduções, com trinta por cento de sua parte reservada a Audálio Dantas; ela recebia pequenos pagamentos em dólares das editoras estadunidenses, mas, por força do contrato original, não podia autorizar traduções de sua obra: este direito fora cedido à editora Paulo de Azevedo, uma filial da editora Francisco Alves. Segundo o acadêmico Robert Levine, somente das vendas da edição americana, totalizaram mais de trezentas mil cópias nos EUA. De Jesus e sua família deveriam ter recebido, pelo contrato original, mais de cento e cinquenta mil dólares. Contudo, não foi encontrado indício algum de que ela tenha recebido sequer uma pequena parte disto. Para Levine, a família da escritora vivia bem melhor do que na favela, mas num nível muito abaixo do esperado para uma autora cujos livros ainda estavam vendendo bem em diversos países.

Vídeos recomendados

Fontes consultadas

Continue pesquisando