Carnitina
A carnitina, também conhecida como L-carnitina ou levocarnitina, é um composto quaternário de amônio crucial para o metabolismo de mamíferos, plantas e algumas bactérias. Presente em quase todas as células do corpo, ela desempenha um papel vital na produção de energia (ATP) a partir de ácidos graxos (gordura). Além disso, contribui para a melhoria dos níveis de colesterol HDL (colesterol bom), beneficiando o funcionamento do coração e a circulação sanguínea.
Pontos-chave
- A carnitina é fundamental para a produção de energia a partir de gorduras no corpo.
- Sua biossíntese requer lisina, metionina, ferro e vitaminas B3, B6 e C.
- Transporta ácidos graxos para as mitocôndrias, otimizando a queima de gordura.
- Pode melhorar a saúde cardiovascular e é usada por atletas para resistência.
- A suplementação é benéfica em casos de deficiência, mas seus efeitos em indivíduos saudáveis são debatidos.
A carnitina é sintetizada no organismo a partir de dois aminoácidos essenciais: lisina e metionina. Para que essa síntese ocorra de forma eficiente, são necessários cofatores importantes, como ferro e as vitaminas B3, B6 e C.
Imagem: Manuel Almagro Rivas · BY-SA · Openverse
A L-carnitina é uma substância chave no metabolismo de gorduras, atuando como transportadora de ácidos graxos de cadeia longa para as mitocôndrias – as "usinas de energia" das células. Dentro das mitocôndrias, esses ácidos graxos são oxidados, ou seja, "queimados" para gerar energia. Esse processo é crucial para o funcionamento muscular e a produção de ATP. A carnitina-palmitoil transferase II, uma enzima auxiliada pela carnitina, facilita a entrada desses ácidos graxos na mitocôndria. Sem níveis adequados de carnitina, a gordura não consegue entrar na mitocôndria e pode retornar à corrente sanguínea na forma de triglicerídeos. A carnitina é armazenada principalmente nos músculos esqueléticos, onde é vital para converter ácidos graxos em energia para as atividades musculares. A deficiência de carnitina pode levar a sérias complicações, como hepatite, acúmulo de gordura e sintomas neurológicos, tornando sua suplementação de grande importância nesses casos.
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A carnitina foi descoberta em 1905 por cientistas russos, que a nomearam a partir do latim 'carnis' (carne), devido à sua origem. Gulewitsch e Krimberg foram os primeiros a observar que essa substância era essencial para o funcionamento das células musculares. Desde então, inúmeros estudos foram realizados, culminando no estabelecimento da estrutura química da L-carnitina em 1932.
A abundante energia que a carnitina ajuda a gerar confere benefícios em diversos níveis. Para atletas, este nutriente é valorizado por sua capacidade de aumentar a resistência, aliviar a fadiga física e mental, promover o desenvolvimento da massa muscular e auxiliar na recuperação de lesões. Por não ser tóxica, não causar dependência e não ser considerada doping, muitos atletas profissionais a utilizam. No contexto cardiovascular, a L-carnitina contribui para aumentar o rendimento cardíaco, a contração do miocárdio, a produção de ATP e a resistência do coração ao exercício. Também pode ajudar a diminuir o ritmo cardíaco em situações de estresse e, possivelmente, a gravidade de enfartes e os sintomas de insuficiência cardíaca e angina de peito. Além disso, a L-carnitina atua nos triglicerídeos, elevando os níveis de HDL (colesterol bom). Em dietas de emagrecimento, especialmente quando combinada com uma dieta de baixo carboidrato, a carnitina é utilizada para promover a perda de peso, transformando depósitos de gordura acumulados em energia e protegendo o organismo de substâncias nocivas liberadas durante esse processo.
Apesar da suposição de que a suplementação de carnitina poderia melhorar a performance em atividades de endurance, aumentando o consumo de gorduras e poupando o glicogênio muscular, não há estudos que comprovem uma relação direta entre a falta de carnitina e a fadiga em indivíduos saudáveis. O mecanismo da fadiga é complexo e a deficiência de glicogênio não é o único fator envolvido. Embora estudos de longa duração tenham indicado alterações enzimáticas promissoras, a melhoria na performance física com suplementação de carnitina foi comprovada apenas em condições patológicas específicas, como doenças renais (Ahmad et al, 1991), vasculares (Brevetti et al, 1988) e síndrome de fadiga crônica.
A carnitina é geralmente bem tolerada. No entanto, alguns indivíduos que tomaram comprimidos de L-carnitina relataram sintomas gastrointestinais leves e transitórios, como náuseas, vômitos, cólicas abdominais e diarreia. Em pacientes com insuficiência renal, foi relatada fraqueza muscular. Não foram observadas alterações significativas nos indicadores de função hepática ou renal, nem nas variáveis hematológicas em estudos.
A eficácia da suplementação de carnitina em indivíduos saudáveis é alvo de críticas. Primeiramente, há uma grande distância fisiológica entre a ingestão do suplemento e o aumento de sua concentração nos músculos, levando muitos autores a questionar o efeito real da suplementação na concentração muscular. Em condições normais, a carnitina exógena é amplamente eliminada pela urina, e a pequena porção que atinge a circulação dificilmente penetra no músculo. Além das questões fisiológicas, a qualidade dos suplementos é um problema, com análises mostrando que a quantidade de carnitina nos produtos era, em média, apenas 52% do que era informado nos rótulos. Apesar de inúmeros estudos, não há evidências conclusivas de que a suplementação de carnitina traga benefícios estéticos ou de performance para pessoas saudáveis. A base para seu uso muitas vezes vem de estudos em animais e in vitro, que não podem ser extrapolados para humanos. Faltam pesquisas sobre seu consumo em dietas especiais, como as de pré-competição. Mesmo que doses autênticas de carnitina chegassem ao músculo (considerando que cerca de 90% é reabsorvida pelos rins), deficiências são raras, ocorrendo apenas em doenças incomuns. Por esses fatores, não há como afirmar benefícios positivos do uso de carnitina para fins estéticos. Embora o metabolismo anormal da carnitina esteja associado a condições como diabetes e Alzheimer, não há evidências de que a L-carnitina previna essas doenças. Pesquisas em andamento, como em modelos animais diabéticos que demonstraram melhora da função cardíaca com administração parenteral de L-carnitina, podem eventualmente revelar novos benefícios da suplementação.


